A Primeira Criança Da Noite
1 Capítulo 1 - O Nascer Primeira Criança
Quando eu era humana minha vida se resumia em me tornar outras pessoas, viver outras vidas através de diversos MMOs. A que mais me agradava era a de Fate, uma elfa da noite e líder de uma poderosa guilda de necromantes. Mas mesmo que eu tivesse sucesso na vida online, cada dia que passava na minha vida real eu afundava mais um pouco com as notas baixas, quaisquer planos de vida e a porra do meu corpo fraco e frágil, que adoecia a cada movimento que eu fizesse. Eu estava tão desmotivada a viver que me dediquei totalmente a ser a Fate e isso me custou o resto de vida que eu tinha, adoeci mais rápido por não me cuidar ou comer e de repente em uma noite de jogatina meu corpo desistiu de continuar e é... Fui com Judas...
Quando eu me dei conta, eu não estava mais no meu quarto, minha visão turva agora estava escura, mas o sentimento de lugar era diferente, pois eu me sentia tranquila e com uma leveza quase como se não existisse gravidade, eu sabia que aquilo não era normal e de repente enquanto eu contemplava a vastidão do vazio em que eu estava uma criatura gigante apareceu em minha frente, conseguia ver ela porque era como se existisse uma fraca fonte de luz vinda de qualquer lugar, ela tinha por volta de quinze metros e uma aparência esquelética com um manto preto e grotesco que aparentava ter uma textura de pele misturada com couro. A criatura virou o que parecia ser a cabeça dela para mim e me perguntei se aquilo era real.
—Sim, criança.
Disse a criatura, como se pudesse saber o que eu estava pensando. Logo compreendi que aquilo era maior do que eu, algo sobrenatural e aceitei meu destino a partir dali. A criatura e eu ficamos em silencia nos encarando até que surgiu a duvida em minha mente do que eu estava fazendo ali e que lugar é aquele.
—Você, criança, foi escolhida para ser a primeira de uma nova raça em um mundo que não rege a mesmas leis do de sua antiga vida. Este é o meu reino, o mundo sem luz.
Respondeu a criatura, entendi de imediato que todas as minhas duvidas seriam respondidas assim que as tivessem, então deixei minha ignorância de lado me questionei quem era aquela criatura.
—Sou o que se vê quando não há luz, sou a ausência de cor, sou o que não existe, mas é compreendido. Você me conhece como o escuro.
“Deus?”, pensei.
—Não. Sou a mente de um conceito, uma mente criada na complexidade de uma existência surgida da aleatoriedade. Me regem como dono de mim, mesmo que não saibam que existo, pois domino a mim mesmo e assim domino parte dos mundos vividos. Por osmose da criação existem outros iguais a mim que também governam a si mesmos e juntos formamos uma complexidade pensante maior e única, que governa a si mesma e dessa forma governa tudo. Isso é o que chama de Deus. Agora estou apenas em minha parte, portanto não sou Deus, mas uma parte dele. O que você vê é uma personificação de mim, criada a partir do que sua criatividade e compreensão imaginam o que seria meu corpo.
Não entendi sua resposta, mas não questionei. Veio-me a mente o que ele havia falado primordialmente e o que ele queria dizer com aquilo, como eu seria a primeira de uma nova raça e como assim um mundo que não rege a mesmas leis do que a da minha antiga vida?
—Você renascerá como uma criança da noite, um novo tipo de criatura humanoide em um mundo com coisas que no seu mundo de origem seriam possíveis apenas na imaginação. Será um mundo que você verá familiaridade com a terra imaginaria dos humanos na era medieval.
Surpreendi-me com a resposta e me imaginei vivendo nesse novo mundo novo, primeiramente fiquei com medo do que me aguardava e sem demora a dúvida me veio à mente de como seria essa nova vida e o que eu me tornaria.
—Você nascerá e surgirá de repente com um corpo de vinte anos de vida, terá conhecimento da escrita e língua comum do novo mundo e não terá quaisquer itens. Seu corpo será igual dos outros de sua raça que irão por vir, terá pele escura como a noite, cabelo prateado como a lua e olhos dourados como as estrelas.
Finalizou a criatura.
Parei por um momento e não pensei em nada, apenas contemplei o que estava acontecendo comigo. Era o que eu queria que acontecesse, era poder renascer em um novo mundo com um corpo melhor e com a capacidade de fazer o que eu quiser sem limitações, mas o que senti foi tristeza, senti saudade de minha mãe que sempre cuidou tão bem de mim, senti saudade de meu pai que vivia longe, mas que quando me visitava tornava a ocasião em um evento, me arrependi de não ter me declarado para a garota que eu gostava e não senti orgulho de não ter me cuidado pra dedicar o resto da minha vida em um jogo com um monte de pessoas que me viam como uma amizade passageira e momentânea. Chorei.
Fiquei um bom tempo chorando no vazio com a criatura grotesca, até que finalmente aceitei o que fiz.
—Estou Pronta
Disse, por mais que não tenha saído som da minha boca a criatura entendeu e me senti tonta e ela foi desaparecendo aos poucos virando pó em meio ao vazio, tudo voltou a ser apenas o escuro, a sensação de leveza foi embora e agora me sentia num chão molhado e frio. Pela primeira vez meu corpo não tremia e minha respiração não era fraca, senti que meus olhos estavam fechados e quando os abri estava deitada em uma floresta num breu da noite misturada com uma densa floresta, era possível ver resquícios da luz de uma lua cheia no meio das folhas árvores. Levantei-me e olhei ao redor, de alguma forma eu agora via tudo no escuro, mas tudo estava preto, eu não precisava de cor pra saber onde estava algo a poucos metros de mim, eu sentia as folhas se movendo com a brisa, é algo difícil de descrever e provavelmente vinha do meu novo corpo. Andei um pouco e cheguei a um lugar a céu aberto com belos vagalumes flutuando ao meu redor, aquela sensação de visão no escuro se esvaiu lentamente e logo assimilei que tinha algo haver com a luz ao meu redor. Com a fraca luz dos insetos e da lua pude ver um pouco do meu corpo e estava nua, mas não sentia o frio intenso da noite.
Andei até achar uma estrada ao lado de um lago iluminada por pequenos postes com algo que pareciam vagalumes dentro das lanternas, aproveitei para me olhar no reflexo da agua, pois estava curiosa de como me parecia. Quando olhei para água vi meu rosto de pele negra, meus olhos eram um castanho beirando o amarelo e meu cabelo era cinza, brilhante e volumoso. Vaguei um pouco e comecei a sentir fome, hesitei em comer quaisquer frutas ou cogumelos da floresta por não conhecer a letalidade da flora local.
Passado um tempo encontrei uma casa perto da trilha, eu achava que alguém estava lá dentro por causa de uma fraca luz vindo do segundo andar. A minha fome aumentou e, com medo, tentei invadir a casa para conseguir suprimentos. Eu estava desesperada. A porta estava aberta, como se tivesse sido arrombada, entrei com cuidado e fui direto para onde parecia ser a cozinha, comi algumas frutas e sementes que estavam em cima de uma mesa e andei um pouco pela casa. Ao subir no segundo andar eu pude ver de longe em um longo corredor o quarto de onde vinha a luz, me aproximei cuidadosamente e não encontrei ninguém. Algo aconteceu naquela casa e não me arrisquei a investigar muito, achei uma roupa de velhos trapos de pano e logo em seguida sai o mais rápido o possível dali.
Alimentada e vestida agora precisava focar em descobrir mais sobre mim e este novo mundo. Não muito longe da casa havia uma vila com muros altos e alguns prédios que podiam ser vistos de longe, o portal de entrada era grande e não tinha guardas, havia poucas pessoas na rua e parecia ser uma vila simpática. Perguntei a um senhor onde podia encontrar uma biblioteca ou algo parecido por ali e ele me indicou a única livraria e biblioteca de lá, também recebi a informação que um aventureiro famoso passará uma noite na cidade, pois ela fica no centro de um longo caminho entre capitais, além de ser a única cidade na região desértica da fronteira. Ao entrar na biblioteca logo fui barrada por um estranho com vestes esnobes que me olhava com um olhar cuidadoso.
—Com licença, não é permitido a entrada de não membros.
Disse o homem. Ele apresentava um olhar estranho, uma mistura de surpresa e nojo, afinal eu estava suja e vestindo maltrapilhos. Eu olhei para ele e disse minhas primeiras palavras nesse novo mundo, as palavras que inauguraram minha doce nova voz.
—Teu cu.
Logo percebi o que disse com minha voz que soava como mel e que tinha uma sonoridade tranquila e juvenil.
—Digo, como faço para ser uma membra da biblioteca?
—Basta pagar uma taxa de 5 moedas de ouro todo ciclo lunar.
—Mas eu não tenho dinheiro...
O homem apenas me olhou com desdém e não me respondeu mais. A próxima cidade ficava longe demais para eu ir caminhando a pé, então minha única opção seria arranjar algum dinheiro pela cidade ou carona. Procurei em cada canto e loja, mas ninguém parecia interessado em meus serviços. Todos me olhavam com um olhar de admiração, mas de alguma forma também preconceituosa, talvez por causa da minha aparência incomum na região, os olhos penetrantes e amarelos em conjunto com pequenas presas e uma aparência suja, passou pela minha cabeça que talvez criaturas místicas não fossem comuns naquele mundo. Eu pensei que, com minha aparência causando balbúrdia, nem mesmo o aventureiro que passaria pela cidade me ajudaria de alguma forma.
Por mais que eu precisasse comer, meu corpo não necessitava descansar e foi naquela noite que um estabelecimento abriu. Curiosa, fui ver do que se tratava, era um bordel de belas moças e por via do destino a recepcionista era uma das moças de uma padaria a qual procurava serviços.
—Olá garota estranha, procura entretenimento?
—N-Não. Eu não teria dinheiro de qualquer forma...
—Pois bem, se você quer numerário esse é um bom lugar. Essa região não costuma aceitar mulheres para outros trabalhos além destes, como você pode ter visto.
Olhei com desdém, mas era verdade, eu já tinha ouvido isso antes e dei pouca importância pensando ser arrogância dos estranhos. Resolvi então trabalhar lá, mas não concordei com quaisquer trabalhos que feririam minha dignidade e corpo, recebi roupas novas, arrumaram meu cabelo e me ajudaram com os mantimentos necessários. Achei muito interessante e digno de comentário a aparência do local, por mais que a região aparente ter um visual da região europeia do século XV, o bordel se parecia com o Japão na mesma época, a roupa usada no local era algo parecido com quimonos, plantas dissemelhavam das do resto da região, as casas de madeira eram bem ornamentadas e algumas mulheres se assemelhavam com gueixas.
Depois de limpar os quartos e preparar algumas comidas simples fui passear pelo quintal do bordel, me deitei sob uma árvore e comecei a pensar o quão questionável estava sendo aquela aventura, comecei passando fome e nua e agora estava trabalhando num bordel. Honestamente, eu estava começando a me questionar seriamente das minhas escolhas nas minhas duas vidas. Foi nesse momento de reflexão que uma beterraba caiu em minha cabeça, olhei para cima e vi uma moça sentada em um galho com uma pilha de vegetais ao seu lado, sua boca estava suja e não consegui ver bem sua aparência lá de baixo.
—Epa, desculpa ai minha mana.
Disse a estranha
—Tudo bem... O que você faz ai em cima?
—Ora, comendo um pouco e admirando a vista, não vê?
—Comendo beterrabas?
—Eu gosto. Algum problema?
—Não, mas beterrabas foram feitas para acompanhar outras comidas. Come-las sem outros alimentos é um desperdício de paladar.
—Duvido que os deuses tenham criado as beterrabas apenas para acompanhar outras comidas.
—E por que pensa assim?
—Porque eu gosto de beterraba.
A garota voltou a admirar o horizonte e o sol bateu em seu corpo, pude ver finalmente sua aparência, ela era loira, tinha um cabelo curto, o corpo era cheio de cicatrizes e seus olhos tinham cores diferentes. Por mais que estivesse um pouco desfigurada pelas cicatrizes, ainda havia beleza nela.
—Você é bonita.
Eu disse.
—Mentira.
—Não estou mentindo, eu realmente te achei bonita.
—Então você é louca.
—Posso ser louca, mas não sou mentirosa. Você é linda e tem olhos mais lindos ainda.
O rosto da moça ficou rosa e ela voltou a olhar para qualquer lugar que estivesse olhando anteriormente para tentar disfarçar a cara rosada comendo ferozmente a beterraba em sua mão.
—Qual o seu nome?
Perguntei
—Alice... E qual seu nome, mulher maluca?
Aquele nome que ela disse era o meu nome na minha vida passada. Eu não tinha decidido o meu novo nome naquele mundo e não tinha ideia de qual seria, pois não era conveniente no momento.
—E-Eu não sei... Na verdade não tenho.
—Por quê?
—Não sei, não me deram um nome.
—Você quer um?
—Sim
—Então se chamará Seraphine
—Porque Seraphine?
—Soa bem.
A garota terminou de comer, desceu da árvore e limpou a boca. Pude ver ela de perto e havia cicatrizes de todos os tipos no corpo dela, mas mesmo assim a pele dela parecia ser macia, as mãos e o rosto eram igualmente delicados. Apesar da aparência monumental e diferente ela andava descalça e não usava as mangas do quimono.
—Vou comprar algumas frutas para as meninas, quer vir?
Ela disse. Fiz que sim com a cabeça e fomos à feira e enquanto estávamos lá ela ficava falando como gostava de cada fruta que pegava, detalhava minuciosamente o gosto de cada uma delas e me perguntava o que eu achava. Quando voltamos para o bordel fomos guardar a comida e percebi que as meretrizes a tratavam com desdém, perguntei sobre e ela me contou que por causa de sua aparência as pessoas não a tratavam muito bem e que trabalhava ali por pena do dono. Também fiquei sabendo que para ganhar algo além da pouca comida e moradia era preciso trabalhar como meretriz e ficar com uma pequena parte dos pagamentos, obviamente eu não faria isso, mas Alice às vezes conseguia alguns trabalhos lá e por isso tinha um pouco de dinheiro guardado. Passado alguns dias fui melhorando minha amizade com Alice, pedi a ela algumas moedas e ela me deu de bom grado, agora podia ir à biblioteca e pesquisar sobre este novo mundo e talvez descobrir mais sobre mim mesma.
Chegando lá o homem ficou surpreendido com minha nova aparência mais limpa e me permitiu entrar com o pagamento da mensalidade que provavelmente pagaria apenas aquela vez. Fiquei impressionada como eu conseguia ler bem os livros de lá, sabia que a linguagem era rebuscada na maioria dos livros devido às traduções que fiz para português e o significado das palavras mais nobres desse mundo eram extremamente complexas e específicas, por exemplo, a palavra que no alfabeto romano ficaria “yoggtriz”, que significa algo ou alguém que caiu de uma altura considerável e não quebrou ou morreu na queda. Também existe um pronome que acompanha um substantivo que não nem feminino, nem masculino e que tem sua própria letra para usa-la. Existem vários alfabetos numa mesma escrita e devem ser usados em diferentes ocasiões, por exemplo, deuses recebem um alfabeto próprio com letras complexas e mais bonitas, nomes de pessoas comuns usam letras com sonoridade de vogais e consoantes juntas, frases comuns usam um alfabeto parecido com o romano etc.
Pesquisando um pouco e descobri que existem treze deuses, mas nenhum com uma descrição ou conceito parecido com a criatura que me trouxe para
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