A Preço de Fogo
4 The Beginning Of The End
Aqueles dias passaram rapidamente.Um sentimento estranho começou a invadir meu peito.Quando Daniel chegava, eu começava a tremer.Meu coração acelerava.Minhas bochechas ficavam vermelhas ao menor toque.Eu parecia uma adolescente idiota apaixonada.E eu realmente era.
Mas eu não queria me sentir assim.Não queria estar refém de um sentimento, não queria estar presa a uma pessoa.Não alguém como Daniel.Alguém que tinha o dono do circo nas mãos e aceitava sua condição de criado e ainda achava que Mr.Brigthside gostava dele.Ah, que patético.Mas era esse o garoto que eu amava. E que eu fiz mudar de ideia.Ele começou a odiar Rick tanto quanto eu. Ou mais até.Sim, ele era jovem , bonito, forte.Precisava de algum motivo para lutar, uma maneira de ir contra o sistema.Ele queria lutar por algo maior que ele, algo maior que qualquer um: a liberdade.Ele queria sentir ódio e prazer.
Nossos corpos sofriam uma espécie de atração magnética:eles precisavam ficar colados.Como se aquele gesto fosse uma lei da natureza.Porém eu sabia que aquilo deveria acabar.Como eu sabia disso?
Estávamos na festa de aniversário de Daniel.O senhor de escravos até que tinha bom gosto, devo admitir.Tinha tudo do bom e do melhor, aquilo nem parecia uma prisão.Todos bebiam e dançavam, como se não houvesse amanhã.
Casais se agarravam pelos cantos, enquanto os puritanos censuravam-se por não poderem ser como aquelas pessoas.Então, ficavam em uma rodinha, discutindo questões polêmicas e sem solução.
A música alta conduzia meu corpo.O ritmo agitado me levou a pista de dança principal (haviam três pistas de dança, incrível,não?!).Enquanto o ritmo das batidas aumentava, meu corpo rebolava.Homens fizeram um círculo ao redor de mim, incentivando-me para que continuasse através de palmas envolventes.
Eu, claro, aproveitei a oportunidade para expor meus dotes artísticos e ostentar meus seios fartos.Daniel, num canto, observava tudo, cabisbaixo.Mas para ele foi a gota d'água quando Mr.Brigthside apareceu e começou a dançar comigo, de maneira desengonçada.Ele estava bêbado.
Apesar de ter percebido esse fato, eu continuei a estimula-lo.O que o deixou mais ousado, pois ele aproximou-se de mim com uma força feroz e rasgou o meu vestido.
Em êxtase,eu rebolei mais ainda.Mr.Brigthside me agarrou e me beijou.Não pude escapar.Suas garras envolveram meu corpo antes que pudesse ter qualquer reação.Sua língua invadiu minha boca antes que eu pudesse protestar.Ele queria se deitar comigo ali mesmo, mas eu sei um empurrão nele e fui atrás de Daniel.
Ele havia saído depois do beijo forçado.Ele não aguentou ver aquilo.Ele queria ter matado Mr.Brigthside porém sabia que ele era muito mais fraco e que não teria a mínima chance.Então, decidiu fugir.Fui direto para seu dormitório.
–Daniel, é a Marylin.Abre para mim por favor, a gente precisa conversar.
–Eu não tenho nada para conversar com você, ok?Vai embora.
– Só deixa eu me explicar, Dan...
– Explicar o que?Que você tava quase trepando com o cara que te prendeu aqui...
–Ele me agarrou, Daniel
–Claro que sim, né, por que você estava se esfregando nele como uma puta.Aliás, você não agiu com uma puta, você é uma puta.
–Sim. Eu sou uma puta, — eu disse, como se aquilo me orgulhasse.Eu não iria dar meu braço a torcer.Eu só tinha poder naquele circo por causa do meu corpo.E eu me aproveitava dessa vantagem.Isso não me envergonhava.
Ele não respondeu.Parecia chocado com a minha resposta.Ele percebeu que eu havia aceitado minha realidade, que eu não poderia lutar contra quem eu realmente era: uma puta.Então, eu continuei:
"Abre a porta, vai..."- comecei a dar pancadas na porta.
"Ok, ok, agora para. Se não você vai derrubar essa porra..."- ele disse, percebi uma certa doçura em seu tom de voz.Me alegrei, talvez eu teria alguma chance.
Ele destrancou a porta, corri para a cama, me joguei nela enquanto Daniel fechava a porta.
– Me diz, o que você quer?
–Me explicar
– Eu vi o que você fez, não tem como explicar isso.
–Daniel. Me escuta.Eu sei que minha vida foi sombria,é sombria e sempre vai ser sombria.Mas você trouxe luz pra minha vida, e eu não quero que isso acabe. Ok?.Eu te amo tanto que acho que isso nem cabe dentro de mim.
– Se você me ama, por que age desse jeito, se jogando pra cima de todos os homens?
– Por que eu sou assim...A vida me ensinou a ser assim...
– Quem te obrigou a ser assim foi aquele filho da puta do Mr.Brigthside...Meu Deus, quando eu vi vocês dois...Não sei mais quanto tempo vou aguentar ficar aqui...
– A gente tem que aguentar, Daniel..
– É ridículo ficar preso aqui, aguentar toda essa merda.Esse homem acabou com a minha vida, você não vê?"- seu tom de voz estava mais alto que o meu.Seu tom era ameaçador.Me senti como um pobre filhote recém-nascido e órfão.
– Você quer realmente falar sobre sofrimento?Você não sabe nada sobre a vida,nunca sofreu de verdade.Nunca sofreu como eu sofri, nunca sentiu uma dor tão forte que você tem vontade de morrer...
–O que?Você acha que eu sou um adolescente mesquinho, ok então...Pelo menos eu não me faço de mártir, me fazendo de coitadinho...E você sabe por que seu irmão morreu?Foi tudo culpa sua, se você não tivesse dado pra todo mundo seu irmãozinho ainda estaria vivo...Mas você é vadia não é, não consegue se controlar...
Eu não aguentei.Dei um tapa tão forte que uma palma vermelha marcou o rosto do homem que eu amava.
Eu desabei no chão.Comecei a soluçar.Lágrimas jorravam dos meus olhos.Aquele tapa doeu mais em mim do que nele.
–Me desculpe, ok...Eu...eu..só não quero que você coloque sua vida em risco, fazendo um plano para fugir daqui.Eu sei do que o Mr.Brigthside é capaz.E eu não quero te perder.Só isso.
–Marilyn, precisamos fazer algo, ou vamos,passar o resto das nossas vidas aqui.
–Não tem como fugir, isso eu te garanto.E mesmo que ele te libere pra jogar fogo num circo você tem o maldito do microchip em você.Não há escapatória, você me,compreendeu?, terminei minha frase com um fio de voz.A esperança já tinha acabado.
– Vai dar tudo certo, ok ?- ele aproximou-se de mim e antes que eu pudesse reagir ele enlaçou minha cintura e me beijou.
Um beijo longo e bom, como se aquele gesto fosse nossa despedida.E aquele pressentimento começou a invadir meu corpo.Algo errado ia acontecer.Mas meu sexto sentido feminino não estava me dando a resposta.Eu odiava aquela ignorância e impotência.
– O que você vai fazer então?.
– Já que você não quer que eu tente fugir eu quero aproveitar para fazer umas saídas úteis.
–Saídas úteis?, perguntei, confusa.
–Eu quero enterrar seu irmão em um solo sagrado.Esse lugar não deveria ser habitado por almas dos mortos...
– É sério ?. Meus olhos iluminavam-se.A Sarah queria voltar ao meu corpo, eu queria voltar a ter esperanças.Isso por que eu amava um homem que arriscaria a vida por mim, um homem que arriscaria tudo por um cadáver de um garoto e pela garota que gosta dele.
–É sim.
– E como você vai fazer isso ?- questionei, ao duvidar da praticidade daquele plano tão humanitário.
– O cara que cuida do cemitério,o Joseph é amigo meu, ele vai entender e vai deixar essa passar.
– Você tem certeza?.
– Tenho sim.
– Muito obrigada por isso, ok?
– A seu dispor, minha princesa levemente amarga — ele riu.
Alguns dias depois, o noticiário divulgava mais um circo incendiado.De novo sem suspeitos e sem provas.Daniel realizava seu trabalho muito bem, apesar de odiar o que fazia.No dia seguinte, depois daquele incêndio de larga escala, o chefe convocou todos os subordinados.Ansiosos, os escravos reuniram-se no centro do picadeiro.
–Vocês devem estar se perguntando por que eu reuni todos vocês aqui.
Murmúrios e cochichos especulativos multiplicavam-se pelo pavilhão.
– Então, todos vocês sabem que o Fenix Circus, segue protocolos e regras.E obviamente, elas devem ser cumpridas.Porém há funcionários desse estabelecimento que insistem em desviar-se da conduta padrão e desobedecem as regras.Então, essa pessoa deve ser punida.E como punimos em nosso ambiente de trabalho?Com a morte.
Todos entreolharam-se espantados.Questionavam-se quem seria a próxima vítima.
– O criminoso desta vez, é Joseph.
– E o que ele fez?- uma voz destacou-se na multidão, com ar indignado.
– Digamos que ele omitiu certos fatos que quase permitiram a fuga de um funcionário.
A plateia daquele show de horror ficava mais confusa.Porém sabia que se questionassem demais também seriam punidos.Então, demonstravam sua tristeza e indignação ao abaixar as cabeças.
– Tragam o traidor!- exclamou Mr.Brigthside animado.
O condenado apenas arrastou-se.Os ombros largos e caídos indicam sua desistência.Desistência de viver, de lutar.Ele sabia como iria morrer, já tinha visto aqueles rituais diabólicos muitas vezes.Mas nunca imaginou que iria morrer com a carne queimada.
Depois da cerimônia macabra, resolvi seguir Daniel para consola — lo porque ele e Joseph eram amigos e comparsas.Ele foi direto para o quarto.Agora aquele era nosso templo, em que o deus adorado era uma incógnita.Era maior que nós, mais forte mas não sabíamos de onde ele vinha.
– Dan? — chamei. Não houve resposta.Porém percebi que a porta não estava trancada.Dei uma leve batida na porta entrei silenciosamente.
Ele estava deitado em posição fetal.Sentei perto dele, e comecei a fazer carinho em sua cabeça.
– Marylin, isso é tudo culpa minha.- ele sentiu- se na cama.
– Como assim?
– O Joseph morreu porque ele me ajudou a desenterrar o seu irmão e ele encobriu todo meu plano.
– Não se sinta culpado, ok?Não é culpa sua se o Mr.Brigthside é um louco.
– Claro que é culpa minha.Se eu não tivesse bolado esse plano mirabolante, Joseph ainda estaria vivo.
– Mas se ele descobriu tudo, por que ele não te puniu?
– Existem coisas piores que a morte, meu amor.
– Disso eu sei — respondi amargurada, relembrando do dia que encontrei minha mãe morta.
– Não consigo nem imaginar a minha punição.Ele vai me torturar até se cansar...Toda a maldade do mundo não é o suficiente para ele...
– Se acalma, ok?Vem cá.- Ele se aproximou e nós nos abraçamos.Beijei-lhe a testa, como uma figura materna que ele nunca teve.
– Agora me diz: uma puta faria isso?- eu disse.
–Não, não. — ele riu.
–Vai dar tudo certo,ok?- eu disse, duvidando das minhas próprias palavras de consolo.Porém eu sabia que ele precisava de consolo.A culpa estava corrompendo-o.Não sabia até quanto tempo ele ia aguentar.E não foi por muito tempo.
Daniel começou a fugir de mim.Me evitava.Quando eu puxava assunto ele se afastava.Fiquei triste, mas aceitei aquela situação.O que esperar de um amor adolescente?Não muita coisa.Achava que ele tentava fugir de tudo por causa da culpa que ele sentia.Uma culpa cruel,injusta e mordaz.Porém Daniel estava agindo desse jeito por causa de Mr.Brigthside
Daniel's POV
Aquela era a terceira pessoa que eu seqüestrava.Todos dormiam profundamente porque todas as bebidas que eram servidas a noite para os outros funcionários tinham uma sonífero.Então, meu trabalho foi fácil.
Peguei a mulher nos braços e a levei para o cemitério.Sua cova já estava pronta, eu havia escavado.Chegando lá, encontrei Mr.Brigthside.Enterrei a mulher quando ele disse:
– O seu trabalho ainda não acabou.
– O que mais você quer de mim?- exclamei cansado.
– Quero que você assista ela morrendo.
– Por quê? Você não obrigava o Joseph a fazer isso...
– Você é diferente, você é meu pupilo, tem que aprender a ser homem.E você só vai aprender a se homem quando saber lidar bem com a morte.
– Saber lidar bem com a morte não é ver uma pessoa morrendo...Isso eu já vi muitas, todas as que você matou...
Ele me ignorou.Não sei quanto tempo demorou para a mulher acordar e para ela morrer.Ela começou a se debater e a gritar.Os gritos dela ainda me perturbam a noite.A terra vibrava pelo seu esforço.Porém ele era inútil.O ar não era mais fornecido.Seu coração parou.Os gritos cessaram.Eu pedi para um ser superior que eu achava que não existia para levá-la logo.Aquilo não era justo.
Esse era um"acordo" que eu fiz com Mr.Brigthside.Eu deveria buscar as pessoas que ele escolhia e joga-las na cova.Isso ou Marylin seria morta.Além disso, ele me obrigou a ficar longe dela.
Isso porque Mr.Brigthside amava-a de um modo tão intenso que era doentio.Assim como tudo que ele fazia.Óbvio que ele sabia do meu caso com ela.E não iria deixar isso barato, claro.E esse era só o começo da vingança.
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