A Preço de Fogo
2 Marilyn
Notas iniciais
Aquela gritaria me acordou. Não que eu já não estivesse acostumada com as discussões frequentes dos meus pais. Não, o que realmente atrapalhou meu sono foi a intensidade daquela briga. Os decibéis excessivos me obrigaram a levantar e subir as escadas. Minha curiosidade adolescente e mesquinha não me permitia voltar para a cama sem saber o motivo daquela batalha entre meus pais. Sentei no meio da escada, subindo pé ante pé.
–Mulher, esse é o único jeito.
–Não é, nós podemos pegar um empréstimo no banco, economizar, eu não sei, qualquer coisa... Mas isso nunca...
–Meu deus, você não entende! A empresa faliu e nenhum funcionário recebeu indenização. Eu estou no fundo do poço, você não percebe?
–Acho que vender nosso filho não vai resolver nada. Você quer destruir minha vida, acabar com meu único motivo de viver?
–Para de ser dramática mulher, é só parir outro.
–Como ousa?
–Como ousa, digo eu. Eu sou o chefe dessa família e eu mando aqui. Eu vou vender esse pirralho e pronto.
–Você é um monstro, eu não vou permitir que você faça isso.
–E como você vai me impedir?
–Eu vou embora!
–Duvido.
–Eu vou te abandonar, e vou levar meus filhos comigo!
–Você nunca vai me abandonar, você é minha e só minha...
–E quem vai me impedir de te deixar?
A pergunta retórica foi respondida através de socos. Ouvi um baque. Mamãe estava jogada no chão. Ela gritava, pedindo por socorro.
Eu terminei de subir o lance de escadas e bati na porta. Gritava, chamando pela minha mãe. Os gritos dela acentuaram-se. O pavor era perceptível em sua voz. À medida que o tempo passou seus gritos cessaram.
–O que você tá fazendo aqui pirralha?
–Solta minha mãe seu monstro. Eu não vou deixar que você faça isso com meu irmão, nem com a minha mãe. Ela não merece isso. Abre a porta ou eu chamo a polícia!- ao ouvir aquela ameaça, meu pai abriu a porta. A ficha criminal dele era maior que sua crueldade.
–Sai da minha frente- eu disse, enquanto adentrava no quarto.
Mamãe estava jogada no chão. O sangue manchava o piso de madeira antigo. Seu corpo estava coberto de hematomas. Os lábios inchados estavam encharcados de sangue assim como a cabeça. Ela não se mexia nem respirava. Chequei sua pulsação. Ela estava morta.
–Meu deus, eu te odeio! Você vai pagar por tudo que fez, seu escroto!- eu gritava enquanto lágrimas jorravam dos meus olhos.
–Não, você vai ficar caladinha. Isso ou eu mato o seu irmãozinho tão querido. E agora você sabe do que eu sou capaz, não sabe?
–Sei.
Eu desci as escadas correndo, dirigi-me ao meu quarto, fiz uma bolsa para mim. Depois arrumei também as coisas do meu irmão. Coloquei-o em meus braços e sai.
Fugi daquele inferno. As imagens estavam cravadas na minha memoria. Eu realmente não compreendia como algo tão ruim aconteceu com uma pessoa tão boa. Acho que mamãe foi ignorada em suas preces. A sua divindade virou-lhe as costas e como castigo ingrato ela recebeu aquele homem que destruiu sua vida. Mas ela permitiu que isso acontecesse? Por que ela aceitou aquela submissão, aquela violência? Por que ela não pediu ajuda? Esses e outros pensamentos me perturbavam. Porém, o que mais dominava minha mente era a tristeza e as incertezas.
Para onde eu iria? Eu estava aliviada por ter fugido daquele monstro, porém eu me sentia totalmente perdida. Vaguei pelas ruas durante um dia. Minha fonte de alimento foi o lixo. Restos de comida tornaram-se o meu banquete. Antes de dormir, chorei e pedi para acordar daquele pesadelo. Quem sabe, aquilo tudo era apenas uma piadinha de mau gosto do meu subconsciente. Pode até parecer idiota, mas a ilusão era a única coisa que poderia me segurar, me garantir viva.
Na verdade, o que garantiu a minha sobrevivência foi um homem. Quando o conheci achei que ele era bondoso. Triste engano. Ele era um monstro assim como, meu pai. Naquele dia comecei a desconfiar que nenhum homem prestava. Hoje, eu tenho certeza disso. O motivo de tanto ódio?
Bem, primeiro porque aquele homem me enganou. Segundo, porque ele é um filho da puta.
Por que cheguei a essas conclusões recheadas de raiva? Bom, para responder a tal questionamento retorno há um dia depois da morte da minha mãe. Eu estava com meu irmão na rua. Um carro enorme com uma faixa brilhante que fazia propaganda de um circo chamou minha atenção. Olhei-o boquiaberta. O dia estava ensolarado e o dono do automóvel posou seu braço sob a porta. Ele olhou pra mim e sorriu. Eu, por educação, sorri de volta. Ele parou o carro e veio falar comigo. Estranhei o gesto, mas ignorei o aviso primordial de minha mãe: não fale com estranhos.
–Olá, o que você esta fazendo aqui na calçada com esses mendigos?
–Eu não tenho pra onde ir...
–Onde seus pais estão?
–Minha mãe está morta
–E seu pai?
–Morreu... Pelo menos pra mim- ele iria perguntar sobre meu pai, mas percebeu o quanto aquilo doía.
–Você não tem parentes próximos?
–Se tivesse, não estaria morando na rua, você não acha?
Ele riu.
–Gostei de você garota, quantos anos tem?
–15.
–Qual é o seu nome?
–Sarah. Qual é o seu?
–Pode me chamar de Mr.Brightside.
–Que sugestivo.
–Sim. Aliás, quer roupa lavada, um teto, e trabalho?
–Sim- um largo sorriso iluminou meu rosto.
–Então, lhe ofereço uma vaga para trabalhar no meu circo. Estaria interessada?
–Claro, eu posso levar meu irmãozinho?
–Sim.
–E o que eu vou fazer lá?
–Limpeza, serviços gerais.
–Ah, ok- eu sabia cuidar de uma casa, não deveria ser muito diferente em um circo.
–Então vamos?
–Claro.
Ele me levou até o carro. Entramos.
Depois de uma longa viagem, chegamos ao meio novo local de trabalho. Meus olhos humildes espantaram-se com a grandiosidade daquele circo.
–Bem-vinda ao seu novo lar- ele sorriu. Seus olhos brilhavam. O circo era seu maior orgulho. Era como se aquele local representasse toda a sua existência e seu esforço.
–Obrigada- eu exclamei enquanto sonhava com uma vida melhor. Na verdade, eu queria esquecer a minha outra vida. Quando pisei naquele chão batido que sustentava a enorme estrutura circense, eu sonhava com uma nova vida. Queria apagar as memórias ruins. A outra Sarah estava morta e enterrada, assim como a minha mãe. Eu tinha esperanças. Pena que eu era só uma adolescente bobinha e otimista.
–Onde eu deixo minhas coisas?
–Ah, sim, por aqui, por aqui — ele exclamava agitado. O alojamento era enorme. Escolhi uma cama aleatoriamente e deixei meus pertences escassos lá.
–Quando eu começo a trabalhar?- perguntei, enquanto colocava meu irmão na cama.
–Nossa, que garota mais disposta!- ele respondeu sorridente.
–Trabalhando eu me distraio...
–Por que a senhorita quer se distrair?
–É melhor do que ficar pensando em tudo o que aconteceu...
–O que aconteceu menina?
–Eu realmente não quero falar sobre isso.
–Pode confiar em mim. Somos uma família agora. Passado é passado. Este circo é o seu futuro.
–Meu pai matou a minha mãe. — enquanto falava lágrimas rolaram dos meus olhos.
–Vem cá me dar um abraço- ele disse. Eu não recusei sua oferta.
Enquanto me abraçava, ele beijou meu pescoço.
–Ei- eu exclamei zangada.
–O que foi Sarah, isso é só carinho.
–Ok então. — fingi não me importar, porém comecei a ficar com o pé atrás em relação a esse bom samaritano.
–Então, posso começar meu serviço?-eu queria me livrar daquele cara logo.
–Claro. Me acompanhe até o almoxarifado, por favor.
–Vamos.
Entramos. Lá era sala bem estreita. Armários ocupavam as paredes repletas de bolor.
–Sarah, você pode pegar pra mim a vassoura?
–Sim- enquanto pegava o objeto requisitado pelo meu patrão, este trancou a porta.
–Por que você trancou a porta?- eu perguntei, demonstrando minha surpresa.
–Para você realizar seu serviço melhor.
–Que serviço?- eu perguntei mais confusa ainda.
–Me satisfazer. -ele aproximou-se de mim e me agarrou. Me beijou a força. Eu tentava me livrar dele, mas ele era muito forte.
–Você é um cachorro- exclamei indignada.
–O quê? Você achou que toda essa bondade era gratuita? Pobre bobinha- ele riu.
–Eu quero sair agora daqui!
–Você não pode.
–E por que não?
–São as regras do circo.
–Que regras?
–Você está presa aqui. Não há fugas nem escapatórias. Sua vida é esse circo agora. Trabalhará sem ganhar nada em troca. O suor do teu trabalho é lucro para mim. As lágrimas aqui derramadas não serão lembradas. Poético não? Parece até discurso. -ele exclamou sorrindo quando se deparou com sua crueldade.
–E quem vai me impedir de fugir?
–Não há como fugir. Não há escapatória.
–Seu filho da puta.
–Já ouvi isso tantas vezes que nem me ofendo mais.
–Claro, você me escravizou, quer que eu te elogie?
–Sabia que você fica mais linda quando está assim, bravinha?
–Vai tomar no cu, me tira daqui!
–Só se você me satisfizer.
–Isso nunca. -peguei a vassoura com a intenção de feri-lo, porém o dono do circo era mais rápido que eu.
–Acha que é mais esperta do que eu? Só porque você fez isso, vai ficar aqui de castigo- ele riu. Antes que eu pudesse responder, percebi que Mr.Brigthside pegou uma pá. Ele bateu em minha cabeça com ela.
Acordei. Enquanto tentava entender o que estava acontecendo comecei a gritar como se a minha vida dependesse daquilo. E eu estava começando a desconfiar que isso realmente era verdade, que eu corria perigo naquele lugar. Temia pelo meu futuro e pela vida do meu irmão. Como ele teria a infância naquele inferno disfarçado de paraíso? Convivendo com o pior tipo de ser humano, se é que Mr. Brigthside pudesse ser considerado um ser humano. Eu temia pela sua alma pequenina.
Aqueles pensamentos mórbidos me motivaram para gritar cada vez mais alto. Fiquei até rouca. Meu corpo cansou-se do trabalho, porém minha alma adolescente queria ter esperanças e persistia no erro tosco de ter fé. Fé em que? Seria fé ou ilusão? Para minha visão jovial do mundo eu só era otimista. Claro, o otimismo move montanhas, não? Pelo menos era nisso que eu tentava acreditar enquanto estava presa e acorrentada naquela despensa imunda.
Enquanto meus pensamentos vagavam, eu caí num sono profundo. Só acordei quando a porta rangeu e o dono do circo apareceu.
Este trazia em suas mãos uma bandeja de prata que era enferrujada desde o tempo em que o nanico arrogante dominava a França.
–O que você quer? — perguntei rosnando.
–Trouxe comida para minha princesa
–Você me enoja, sabia?
–Acho que qualquer um que tenha QI positivo perceberia isso, minha lindinha irônica.
–Seu velho babão, cala a boca.
–Vai querer a porra da comida ou não?
–Não quero nada vindo de você.
–Já eu, minha querida, quero tudo de você... Quero você todinha e quero já!
–Não, não, sai...
–Seu desprezo faz com que eu tenha mais vontade, sabia?- enquanto falava, aproximou-se de mim como um leão espreitando sua vítima.
Aquele homem sabe da sua força. Considera-se superior porque no fundo a sua autoconfiança cegava-o. Ele era mais poderoso que todos, por que não demonstrar esse poder? Aquilo era totalmente válido para sua mente doentia.
Ele queria dominar. Se sentir mais forte. Desejava subjugar alguém para se auto afirmar. E quem subjugar? E de que forma?
Iria mandar nos mais fracos , nos seres inferiores que parasitavam sua vida. Eles lhe davam o sustento, porém ele nunca admitiria a derrota. Orgulho acima de tudo. Ele queria mulheres pequenas. E eu era uma das escolhidas.
Enquanto ele se aproximava meu sangue gelou. Eu sabia o que iria acontecer. Minha alma tentava manter-se pura, mas era difícil quando a visão horrenda do mundo invadia minha mente. E aquele velho que me prendeu naquele circo agora era meu mundo, minha realidade. E eu não poderia fazer nada ainda mais de mãos atadas como eu estava, literalmente. Eu fechei meus olhos. Não quis lutar. Seria bem pior, ele iria fazer o que quisesse comigo querendo eu ou não. Brigar não adiantaria nada. Então, quando senti sua mão pesada arrastando-se sobre o meu rosto eu abri os olhos. A língua antiquada invadiu minha boca. Apenas a aceitei e participei daquela batalha.
–Nossa, garota... — ele exclama entre beijos.
Eu não respondia. Eu precisava ganhar a confiança dele para sair daquele lugar. E para isso eu precisava controlá-lo com a minha única arma: o meu corpo. E foi o que eu fiz.
Enquanto nos beijávamos ferozmente, ele rasgou minha blusa.
–Ei!- eu exclamei.
Ele ignorou meu protesto e com mais vontade arrancou meu sutiã. Trilhou com beijos meus pálidos seios. Sua boca marcou-os. Desesperado, ele arrancou minha calça antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
Seus beijos vagavam em direção ao meu ventre e quase lhe implorei para que continuasse. Porém ele parou. Contemplou meu corpo virgem como quem observa uma obra de arte de Turner. Espanta-se, admira-se. O velho babão deliciava-se com seu novo brinquedo.
Tirou o resto da roupa dele. Fechei os olhos para aquela visão apocalíptica.
–Tem nojo de mim, menina?
–Não, eu... Só tô com vergonha...
–Bem compreensível- aproximou-se novamente de mim. Um arrepio percorreu meu corpo.
Enlacei minhas pernas em suas costas cansadas. Uma dor invadiu meu corpo e sangrei. O velho se divertia, mas cansou rápido.
–Você é muito boa garota, deveria viver disso.
–Eu não sou só sua?- perguntei, em tom inocente.
–É minha quando eu quiser, mas o resto do tempo... Bom... O corpo é seu você faz o que quiser com ele.
–Nossa, como você é moderno. -eu disse rindo.
–Viu? Você já está rindo... Não sou tão mal assim...
–Claro que não, você só prende um monte de pessoas inocentes num circo e escraviza-as... Tirando isso você é um ótimo samaritano- eu disse em tom de ironia.
Ele não respondeu.
–Sério que é impossível fugir daqui?
–Sim, tecnologia de última geração em sistemas de segurança.
–Alguém já tentou fugir?
–Claro que sim, minha linda.
–E... Eles conseguiram fugir?
–Claro que não.
–E o que você fez com eles?
–Eu reunia todos os funcionários e peguei o fujão. Ele era enforcado para servir de exemplo, para que ninguém mais fizesse aquilo.
–E onde estão os corpos?
–Eu fiz um cemitério. Ele é só meu.
–Nossa, parabéns — eu respondi com deboche.
–Como você é amarga, garota.
–Diante de tanta merda que está acontecendo na minha vida eu não me importo com o que eu falo. Eu não tenho mais nada a perder. Já estou na lama mesmo. -eu disse suspirando, conformada com meu destino infeliz.
–Não fica assim meu anjinho... -ele passou as mãos grandes e peludas no meu cabelos. Quase me esquivei dele.
–Então me tira daqui...
–Eu não posso, isso vai contra as regras. Eu escolho quem entra mas não quem sai.
–Quem decide isso?
–Simplesmente acontece. Não há avisos, nada. De um dia para outro a pessoa some sem deixar rastros.
–Isso não soa tão libertador para mim.
–Viu? Por isso você tem que aliar-se comigo. Comigo você está protegida, vai ter tudo do bom e o do melhor.
–E eu, o que devo fazer para retribuir tanta gentileza?
–Bom, primeiro gostaria que você parasse de ser tão falsa. O seu teatrinho não me engana. Você quer que eu confie em você para depois me ferir pelas costas. Eu conheço teu tipinho, garota.
–Ah, desculpa se eu quero fugir dessa prisão.
–Eu gostei de você, por isso quero que você convença os meus funcionários não se rebelarem.
–Tudo bem, só isso?
–De serviço extra sim. Agora está dispensada.
Ele pegou as chaves no bolso da calça e me soltou daquelas correntes imundas e eu, obedientemente, vesti-me. Esperei o velho se arrumar. Ele destrancou a porta.
Quando sai, fui cuidar do meu irmão. Ele estava dormindo, então decidi planejar como eu faria meus serviços "extraoficiais".
Como eu convenceria aqueles escravos circenses de que tudo ia terminar bem? Como renascer as esperanças com apenas discursos. Aliás, que discursos? Palavras vazias não garantiam a liberdade de ninguém.
Como persuadi-los? Eu duvidava que palavras bastassem. Então, finalmente, uma ideia surgiu-me. Eu conquistei a confiança de Mr.Brightside apenas com o meu corpo. Imagine o que eu conseguiria seduzindo os funcionários. Aquela hipótese alegrou-me.
Perguntei para Mr.Brigthside se eu poderia realizar meu plano. Eu não pretendia arriscar minha pele.
–Garota, achei que você era tola, que só era uma fachada bonita... Mas depois dessa...
–Obrigada patrãozinho.
–Ok, agora para de me encher o saco e vai trabalhar.
E foi assim que uma nova Sarah surgiu. Na verdade, surgiu uma mulher que lutava pelo que ela queria, sem medir as consequências. Alguém vaidosa e impulsiva. Alguém que se chamava Marilyn. Alguém que se orgulhava de um nome poderoso como aquele. Alguém como eu. Sarah inocente, bobinha ficou para trás. Marilyn era forte e sedutora. Marilyn era minha nova identidade. Era meu alter ego que finalmente se rebelou.
Minha nova “eu” seduziu todos. Até mulheres imploravam pelo meu corpo. Eu era a política do pão e circo de Mr.Brigthside. Ele enchia o estômago daqueles infelizes de comida enquanto eu os iludia com o prazer e meu corpo. Eu era o calmante deles, eu impedia que uma revolução acontecesse. Todos ouviam enquanto eu falava que se revoltar contra nosso patrão não adiantaria nada.
Porém um dia aquela calmaria acabou. E quem explodiu foi justamente quem fazia as pessoas se acalmarem.
O que aconteceu naquele dia macabro? Meu irmão desapareceu enquanto eu dormia. Procurei-o por todos os lugares pela manhã. Desesperada, pedi ajuda para meu patrão e amante.
–Senhor, meu irmão sumiu.
–Eu sei. Aliás, eu que dei as ordens para eles darem sumiço no garoto.
–E por que você fez isso?- eu questionei-o indignada.
–Você me traiu, Marilyn.
–Como assim?- eu perguntei, sem entender mais nada.
–Você está cobrando dinheiro para dar prazer aos meus funcionários.
–E...?
–Você não pode comprar sua liberdade.
–E por que não?
–Porque você é minha. Minha e de mais ninguém...
–Do que você tá falando?- a cada frase dele eu achava que aquela conversa terminaria mal.
–Eu não posso deixar você ir embora mesmo com o dinheiro...
–E por que não?
–Bom, primeiro porque quando nem todos os ingressos são vendidos eu pego o dinheiro dos funcionários e ou os seus objetos pessoais para eu obter o lucro máximo...
–E o que mais: Me diz, eu tenho o direito de saber!
–Eu te amo
Meu sangue gelou. Minha cabeça girou. O carcereiro amava a presa, a bandida. Mas duvido de eu fosse a errada da história. Os papéis estavam invertidos.
–E eu... Não sei o que dizer... — eu balbuciei.
–Não precisa dizer nada. Eu sei que tudo que você fala é mentira. Na primeira oportunidade me engana pra tentar fugir de mim...
–Olha, se você tem raiva de mim tudo bem... Mas desconta o ódio em mim, não naquele doce de menino.
–É tarde demais agora... Ele já está morto.
–O que você fez com ele seu monstro?
–Quero que você veja com seus próprios olhos. Siga-me.
No quarto dele havia uma porta. Perguntei-lhe milhares de vezes o que havia naquela porta, mas ele nunca me respondeu. Eu finalmente descobriria aquele mistério macabro.
Atrás da porta, havia uma escada que conduzia ao subsolo. Na terra fofinha que tinha naquele lugar foram cavadas diversas covas rasas. Muitas delas estavam preenchidas com terra.
–Senhor, poderia mostrar para essa senhorita o irmão dela?
–Ah, aquele loirinho?
–Sim. Sim. -eu disse entre lágrimas.
O homem trouxe o cadáver do meu irmão. Ele parecia um anjinho dormindo.
–Como ele morreu?- o corpinho dele não tinha nenhum sinal de agressão, estranhei.
–Ele foi enterrado vivo. Assim como os outros que também desapareceram.
Ao ouvir aquelas palavras duras, eu desabei. Ele sofreu até o último suspiro.
–Agora você aprendeu a não me trair, amorzinho?
–Isso não é amor, isso é doença!
–Eu fiz tudo isso por você, para podermos viver nossa linda história de amor... Você e eu aqui no circo aproveitando a vida...
–Meu Deus, você é maluco. Vai se tratar!
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