A Presa no Escuro
1 Capítulo Único
Notas iniciais
“Laura”, nome próprio que significa "loureiro", "vitoriosa", "triunfadora".
Na Antiguidade, o loureiro simbolizava a vitória, a imortalidade e a glória.
***
Sair daquele cômodo foi um momento.
Enquanto ela corria, não podia olhar para trás.
Mas e você? Você pode olhar para trás?
Você é só a presa.
A cela era fria e escura. E muito úmida, como se tivesse sido completamente encharcada pela chuva e depois porcamente seca pela ação de um pano de chão encardido, deixando um cheiro de mofo que marcava o ambiente.
O frio se espalhava pelo ar sombrio da noite, infestando completamente o local, e uma sensação de vazio preenchia o silêncio. Nenhuma alma viva parecia habitar aqueles corredores, e sim somente a aura de um inferno gelado e tenebroso. O único som era o de uma goteira distante, que se espalhava pelo espaço.
A única luz visível era aquela vinda de fora, entrando no lugar por uma pequena janela, no alto de uma parede. A luz da lua, prateada e bela, mas que falhava em dar qualquer vida para aquele local.
Encolhida no fundo do cubículo, Laura mordia as unhas repetidamente, em puro nervosismo. Os cabelos castanhos embaraçados, as pernas fracas e o rosto sujo. Toda sua aparência montava uma cena macabra: de um animal em cárcere, pronto para o abate.
O homem logo entrou no cômodo. Puxava uma mulher pelos cabelos loiros, manchados de sangue. Ela esperneava em desespero e gritava muito. As mãos dele, mesmo que brancas, estavam escuras, sujas de algum material preto. Em alguns segundos, a moça foi colocada na mesa metálica que ficava no centro do local, diante das celas.
Laura observou atentamente. Não era a primeira vez que via aquilo desde que tinha chegado ali, mas não era como se tivesse outro lugar para olhar. Os gritos, a agonia. O facão prateado que, ao ser levantado, reluziu com a luz da lua.
Primeiro, cortou o braço direito fora.
Não foi um corte limpo, exigindo que ele esmagasse a lâmina repetidas vezes no osso. A mulher seguia gritando, até que suas cordas vocais arrebentassem. O sangue logo começou a pingar nas bordas da mesa, sujando o chão escuro.
—Por favor, querida, seja mais obediente e faça um pouco de silêncio. — ele disse, enquanto seguia dilacerando o corpo feminino.
Fez o mesmo com o braço esquerdo. Dessa vez foi mais preciso, necessitando menos golpes para retirar o membro. Laura pode ver a tinta vermelha alcançando o solo e avançando na direção da cela. A mulher claramente sangraria até morrer. Não tinha mais o que ser feito.
—Por quê? — a mulher gritava.
Decepou a primeira perna, liberando mais do líquido avermelhado. Ela deu um grito forte e alto uma última vez. Aos poucos, sua força foi indo embora, e seus urros perdiam potência.
—Eu gosto disso.
Enquanto ele cortava a segunda perna, a moça parou de espernear. Estava morta, banhada no próprio sangue, que seguia sujando os arredores. O silêncio voltou a dominar o ambiente.
—Morreu.
Não parou seu trabalho. Continuou cortando membros fora.
Decapitou o cadáver, levantando a cabeça dourada no ar. Encarou o rosto da defunta, observando todos os seus traços. Encostou sua testa na da mulher, inalando profundamente todo aquele cheiro de morte e sangue que vinha dela.
Colocou a cabeça de volta na mesa. Assim, fez um corte no meio da barriga, a partir da altura dos seios. Foi para uma estante próxima e pegou um par de luvas e uma tigela larga. Colocou as luvas e aos poucos começou o procedimento. A partir do buraco na barriga, progressivamente retirava cada órgão e colocava na tigela, desde o coração até as tripas. Em algum momento, esfregou o rosto e colocou o cabelo escuro para trás, sujando a face de sangue. Inalou fundo novamente.
Uma vez que terminou, abriu a porta da saleta, e empurrou a mesa de rodinhas para fora, abandonando o local junto ao cadáver.
Laura estava sozinha novamente na sala escura.
Aquela mulher, a morta, era a mulher número seis. A sexta moça que Laura tinha visto morrer pelas mãos daquele homem desde que chegara ali. Seu nome era Letícia. Tinha tentado fugir e salvar sua vida, mas não era páreo para aquele homem. Em questão de alguns segundos, ele já tinha lhe capturado. Machucou suas pernas para que tivesse dificuldade de andar, e logo ele realizara o ato.
A cena nunca se tornara menos macabra ou bizarra, mas já tinha sido repetida tantas vezes que não a traumatizaria mais. Depois que ele obrigou todas as seis a assistirem a primeira ser brutalmente violentada e esquartejada, não havia nada pior que pudesse perfurar sua mente. Ver aquelas mulheres morrendo já era uma parte de sua memória, que nunca poderia apagar.
E Laura seria a sétima. A próxima a ser executada.
Ele nunca matava mais que uma por dia. Sempre cortava os membros fora e separava os órgãos. O que fazia com isso, Laura não tinha ideia. Entretanto, ele costumava atuar com a pessoa morta, enquanto Letícia foi esquartejada viva. Depois de alguns minutos, ele voltou uma vez na saleta, para lhe dar um aviso:
—Viu? — ele disse, agarrando as mãos sujas nas grades e se aproximando. — Isso é o que acontece com quem tenta fugir!
Foi embora. Provavelmente só apareceria novamente na tarde seguinte, como de costume, para começar os preparativos. E de noite seria a vez dela, de Laura. E não tinha nada que pudesse fazer. Não tinha como fugir e se salvar. Tinha que somente aceitar aquele destino sombrio, de morrer nas mãos daquele homem desconhecido e louco.
Quanto mais rápido a hora chegasse, melhor seria para ela, então pensou em dormir. Não aguentava mais aquela tortura. Estava há uma semana ali, sem comer ou beber direito. E no escuro daquela cela profunda e gelada.
Entretanto, seus planos para aquela noite foram cancelados.
O homem entrou novamente com a mesa na sala, agora sem um corpo, mas ainda manchada de sangue. Tirou as luvas e as colocou na estante, junto com outras tigelas. Depois, se aproximou da porta da cela, ficando na direção do olhar de Laura.
—Já que a nossa amiga me estressou agora pouco... — ele se agachou, com o rosto ainda mais próximo da garota. — Eu acho mais que justo ter outra essa noite. Para manter as coisas calmas, sabe?
Ele deu um leve sorriso e se levantou. Em alguns segundos, estava abrindo a porta da cela e levantando a moça encolhida. Ele a segurava pelo braço, enquanto ela seguia passivamente sua condução.
—Por favor, não tente fugir. Só vai dar mais problemas pra nós dois.
Laura foi parada na frente da mesa metálica. O homem atrás dela, então, aproveitou para admirar a conjuntura da garota. Ela estava toda suja, dado aos maus tratos, mas diante da pálida luz da lua, ela ainda exalava algum tipo de beleza encantadora. Pelo menos para aquele homem insano.
Ela usava um vestido claro e curto de seda, uma camisola. Os pés descalços tocavam o chão gélido e a brisa era constante, sentindo todo o frio atravessar o seu corpo. Suas estruturas tremiam, mas não só por causa do vento. Ela sentia calafrios pelo corpo inteiro.
As mãos grossas e calejadas do homem logo tocaram sua pele, dando-lhe arrepios. Era um toque grosso, que parecia quase arranhar sua derme. Começou tocando seus ombros. Aos poucos, ele avançava, começando a apalpar suas pernas.
—Tudo vai ficar bem. — ele suspirou em seu ouvido, somente contribuindo em aumentar os seus tremores.
Ela respirou fundo. Sabia que não tinha o que fazer, não tinha para onde ir. Se resistisse, só iria sentir mais dor ainda. O quão mais rápido aquilo acontecesse, mais rápido seu sofrimento iria acabar.
Ele cheirava sua pele, fungando cada canto do seu corpo, como se quisesse sentir o último suspiro de vida que restava ali. Como se fosse prazeroso a ver morrer. Ela estava cercada por ele, sem ter para onde ir, somente esperando pelo bote. O bote que um predador da em sua presa.
Foi então que, olhando o horizonte, viu a porta ser levemente aberta pelo vento. Foi como um sinal, dizendo que ela devia ir naquela direção. Ele não tinha trancado a porta, e o caminho estava livre. Livre para que ela corresse atrás de sua liberdade, se fosse capaz.
Observou discretamente seus arredores, enquanto ele cheirava seu pescoço. Percebeu que a única coisa que se colocava entre ela e a saída da saleta era aquela mesa metálica.
Respirou fundo mais uma vez e fechou os olhos, esperando não se arrepender no futuro de suas decisões naquele momento.
E, então, ela realizou o ato.
Primeiro, empurrou o homem para trás. Pego desprevenido, tropeçou e caiu dentro da cela. Sem pensar duas vezes, ela passou por baixo da mesa e a empurrou na direção do homem. Depois, saiu correndo em disparada para a porta.
Assim que adentrou o corredor, fora da saleta, sentiu a brisa atacar seu rosto. Era um vento ameaçador, mas que falava em nome da liberdade. Assim como o vento que atravessa as asas de um pássaro voador. Não tinha tempo para pensar, somente para correr. Sabia que o homem estaria logo atrás dela.
—Isso é sério mesmo? — ela o ouviu gritar por trás.
Seguiu em frente, avançando no corredor fundo. Virou na primeira esquina que viu, procurando sair do caminho mais óbvio. Ela nunca andara livre por aquele lugar, então não conhecia o espaço. Ele, entretanto, parecia viver ali, conhecendo cada canto daquele local. Não seria fácil.
—Eu disse que fugir seria um problema!
Precisava sair dos corredores, precisava se esconder. Saiu abrindo portas, procurando uma sala que fosse grande. Quando conseguiu encontrar uma, entrou e fechou a porta. Avançou dentro do cômodo escuro, procurando algo que pudesse ser útil.
—Mas já que você não consegue ser obediente... Vamos jogar um jogo!
A sala era cheia de mesas, como aquela da saleta. Várias estantes espalhadas, com toda a natureza de objetos. A garota viu desde livros até frascos de líquidos químicos. Provavelmente teria algo por ali que ela pudesse usar como arma. Nem que tivesse que quebrar um dos frascos e usar o caco de vidro.
—Você corre e eu vou aí te pegar!
Após procurar desesperadamente, logo encontrou uma tesoura. Observou o objeto prateado em suas mãos, brilhando na luz fraca. Aquilo era mais do que suficiente. Podia ser mortal, se usado da maneira correta.
Lembrou então da cena de Letícia sendo arrastada pelos cabelos loiros ensanguentados dentro da saleta. Não teve tempo de hesitar. Em alguns segundos, cortava as longas madeixas castanhas o mais curto que podia. Não se importou com simetria ou beleza. Ela ficaria feia, mas pelo menos ficaria viva. Ele teria mais dificuldade de lhe puxar pelo couro cabeludo.
—Parece divertido, não é?
Percebeu que a voz se tornava cada vez mais próxima. Não podia mais perder tempo ali, então escondeu os cabelos cortados embaixo de um livro e continuou a correr.
Aquele cômodo tinha outra seção, separada por uma cortina de plástico. Seguiu naquela direção. Estava bem escuro e por isso não enxergava o ambiente com clareza. Logo sentiu algo bater em seu rosto. Tentou apalpar o material para entender do que se tratava. Era algo macio e longo, pendurado no teto. Avançou, percebendo que a sala estava cheia daquilo, de vários tamanhos e texturas diferentes. Observou com mais firmeza para tentar compreender o que era.
Encontrou-se, então, num cenário bizarro.
Eram carnes expostas, como num açougue. Todo o tipo de carne, desde porcos e bois até... Humanos. Eventualmente, Laura encontrou alguns pedaços dos corpos das garotas que tinham sido mortas antes dela. Era para lá que ela iria se falhasse em fugir.
Assim, viu em uma das mesas a cabeça de Letícia, ainda suja de sangue. Seus cabelos dourados e encaracolados completamente bagunçados. Só a cabeça, sem o resto do corpo.
Pressionou a mão contra a boca, tentando segurar um grito de desespero. O medo era gigante, e ameaçava a engolir por inteiro. Mas ela não tinha mais a chance de recuar. Tinha jogado essa oportunidade fora no momento que decidiu fugir.
—Onde você está, pequeno passarinho?
Seguiu avançando no local escuro, com a tesoura em mãos. O essencial naquele momento era encontrar um meio de sair para o exterior e não deixá-lo perceber que ela tinha conseguido sair. Logo deu em outra porta, que a conduziu novamente ao complexo de corredores, mas em um setor diferente do que estava antes.
Andou para frente, esperando estar indo na direção correta. Em alguns segundos, entretanto, viu a sombra do homem na distância.
Recuou, se escondendo em uma esquina. Teria que encontrar outra sala.
—Sinto que estou chegando perto!
Entrou em outro cômodo rapidamente. Sentiu os passos se aproximando pela lateral. Respirou fundo, esperando que ele não procurasse naquele local. Foi para o fundo do quarto, afundando nas sombras, procurando não ser vista caso ele entrasse no local. Mas, em momento algum, tirou seus olhos da porta, no medo de que ela fosse aberta.
Entretanto, pega de surpresa, Laura caiu para trás, batendo o corpo no chão. Tinha tropeçado em algum tipo de cerca, que era baixa o bastante para que ela não a notasse. Caiu em um chão cheio de terra e lama, ficando ainda mais suja.
A tesoura caiu em meio a terra, ficando difícil de ser encontrada. Laura se levantou em um pulo, procurando rapidamente o objeto. Sem aquilo, suas chances diminuíam ainda mais. Logo tocou algo estranho novamente, e se lembrou da textura das carnes.
Ouviu um grunhido e sentiu um bafo quente em seu rosto. Logo, vários grunhidos puderam ser ouvidos. Um alvoroço de sons. Percebeu que estava em meio a vários porcos, que começaram a se remexer, em histeria. A garota, desesperada, sinalizava para que eles fizessem silêncio, sem obter êxito.
—Eu sei onde você está!
Ele estava perto. A qualquer instante poderia entrar naquela sala e encontrá-la. Continuou caçando a tesoura, em desespero. Precisava da tesoura, mas tinha que sair logo dali. No momento que a encontrou, saiu do cercado rapidamente e se escondeu embaixo de uma das mesas na lateral do ambiente fechado.
Em alguns segundos, a porta se abriu e ele entrou o cômodo, indo na direção dos porcos. Simultaneamente, a moça silenciosamente avançava, embaixo das mesas.
Chegando à saída, saiu do esconderijo e correu para o lado de fora, abrindo a porta. Percebendo o ato, o homem tirou sua atenção dos porcos e seguiu atrás dela. Não havendo uma distância muito grande entre os dois, ele facilmente a puxou pelas pernas, derrubando-a no chão. Ela esperneou, chutando-o para trás.
Quando tentou se levantar, ele a virou e se colocou por cima dela, procurando segurar seus braços e pernas. Ela, então, enfiou a tesoura no ombro do homem e o empurrou para longe. Levantou desesperada e saiu do cômodo, mais uma vez para os corredores.
—Você está empolgada demais para o meu gosto! — gritou, em fúria, enquanto retirava a tesoura enfiada na pele.
Suas pernas nunca paravam na busca da liberdade. Girava todas as esquinas, procurando incessantemente a saída. Agora estava sem a tesoura, e só poderia depender de suas próprias pernas para se salvar. Suas chances diminuíam à medida que o tempo passava, e seu corpo ficava cada vez mais cansado.
Eventualmente, viu uma escada no fundo do local, e seguiu naquela direção.
Ao subir os degraus, encontrou-se dentro de uma casa. Era como se aquele complexo de corredores fosse uma espécie de porão, embaixo do local. O homem estava perto, podia sentir. Podia escutar seus passos rápidos se aproximando no subsolo.
—Venha logo, já está tarde e eu estou cansado!
Seguiu adiante, procurando o fim da casa. Além de ser um local desconhecido, parecia ser uma residência grande, para o total nervosismo de Laura. Mas não desistiu, continuou avançando. Não tinha tempo a perder.
Os pés descalços sentiam o toque do assoalho de madeira, fazendo leves barulhos. Percebendo isso, a garota andou mais lentamente, procurando não denunciar sua posição.
Logo, sentiu algo escalando seu pé. Um pequeno grupo de baratas alegres, que avançavam em sua direção. Pega no susto, deu um leve gemido, mas se segurou para não dar um grito alto e se denunciar. Rapidamente, tentou afastar os insetos do corpo, não se importando em tocá-los.
—Eu posso te ouvir!
Logo, ignorou os insetos por alguns segundos e ouviu um rangido ao longo da parede ao seu lado.
—Venha logo e eu vou ser mais legal com você.
Alguma lâmina estava sendo arrastada na parede. Por um momento, sentiu como se aquela lâmina fosse arrastada em seu próprio corpo. Ele estava próximo, muito próximo. Mas ela não podia titubear, tinha que seguir em frente. Seu corpo, entretanto, tremia por completo. Pulou e afastou as baratas, seguindo caminho.
Logo, o barulho da faca parou, estando bem perto dela. Em seguida, ouviu o som de um tiro, atravessando a parede. Quase foi acertada, e se colocou a correr novamente.
—A presa não pode fugir do caçador!
Ele estava perto, muito perto.
Logo ela viu a porta diante de si. A porta da saída, para o mundo exterior, para a liberdade. Finalmente tinha encontrado. Finalmente se aproximava do fim, do glorioso fim. Era aquele caminho que ela tinha que seguir, sem haver outra opção.
—Eu só queria que as coisas ficassem mais calmas.
Ela correu em frente, sem se importar com mais nada. Suas pernas não poderiam parar. Não naquele momento. Mesmo depois de tanto correr, ela precisava usar todas as suas forças restantes. Estava tão próxima.
O homem, contudo, também estava próximo. Estava atrás dela, um revólver em punho, não mais no corredor do lado.
—Acabou.
E então, ela abriu a porta.
A porta para o paraíso, para a liberdade.
Fale com o autor