Notas iniciais
Esse é o começo de uma bela história de amor e superação. Ela pode parecer triste, sem-graça e confusa, mas a vida é assim quase todos os dias, e a ETE principalmente.

Estávamos em Junho. O mês que eu mais detestava. Logo aconteceria a festa junina, começariam os correios-elegantes e, como sempre, seria a única a não receber nenhum.

Mayara e Letícia pareciam muito contentes. Quando o grêmio anunciou que logo poderíamos (não sei porque me incluo se não enviarei nenhum) mandar cartinhas, as duas imediatamente olharam uma para a outra maliciosamente. Na sala, começaram a escrever, rindo muito e ditando bem ironicamente (Letícia, pelo menos, tinha um tom extremamente cômico) as palavras que escreviam.

Letícia era a que mais falava. Ela nunca para de falar, várias coisas sem sentido, sarcásticas e, às vezes, política (que é quando eu não entendo nada e simplesmente começo a brizar). Já Mayara não conseguia se concentrar no presente; só falava sobre como ele iria reagir quando lesse, que seria muito engraçado, que ele as odiaria ainda mais...

Nem quis ver a carta. Fizeram com todo o capricho, letra coloridinha, uma folha bonitinha de caderno, só para zoar. Acredite, elas fizeram até rascunho a lápis. Não que eu ligasse. Se elas se metessem em problemas, pelo menos eu estava fora disso. E não fui eu quem perdi tempo da minha vida, grafite, tinta e folha para isso.

O professor, que tinha terminado de explicar a matéria (algo sobre as escalas cartográficas, provavelmente), parou em frente às duas e Letícia escondeu a carta dentro do caderno. Ela queria ter certeza que a encontraria depois, por isso não colocou no meio, em qualquer lugar, mas na contra capa, depois da última folha.

As duas sorriram para o professor, ainda rindo da travessura. O professor de geografia, que gostava de brincar, especialmente com o nosso grupinho, perguntou o que estavam fazendo.

"Uma cartinha para o nosso ídolo, professor", Mayara respondeu.

...

Ao final da aula, perguntei o que haviam escrito. Letícia voltou a rir e descreveu, ironicamente:

— "Querido Kenji, viemos através desta carta expressar nosso amor incondicional pela pessoa que você é e pelo seu grande trabalho. Admiramos muito a sua competência e habilidade no JUDÔÔ. Mas ainda temos uma dúvida: seu judô não funciona com o Richard? Obrigada por ignorar nossas investidas e nos olhar feio. Suas fãs". Do lado, escrevemos "I work at the Kenji's", e embaixo "Kenji, Kenji, Kenji". Em cima, no espaço da data, eu escrevi em letras pequenas, mas visíveis: Lixo humano. E coloridinho ainda.

No fundo, eu sinto dó do apelido do pobre garoto, mas não posso dizer que não é merecido.

É claro que nada disso parece fazer sentido, mas a história que liga essas duas a Kenji também não é muito normal. Logo, você também vai passar a conhecê-lo como o devido lixo humano que é.

— Vamos colocar lá na caixinha — Mayara sugeriu.

— Peraí, vocês realmente vão mandar essa carta? — eu não conseguia acreditar.

— A gente fez com tanto capricho, agora vamos enviar, ué! — Letícia devolveu, em um tom como se fosse óbvio.

— Você tem noção que ele vai saber que é a gente, né? — Mayara lembrou.

— Claro. Essa é a parte divertida! — Letícia concluiu.

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