A Planta Mágica
1 Capítulo único
A planta mágica
Doía no garoto ver aqueles lindos olhos castanhos derramarem lágrimas. A garota estava se despedindo de seus familiares e de seus outros amigos e o garoto apenas aguardava sua vez. Ele podia sentir a tristeza no olhar de cada um que a abraçava. “Justo agora?” Pensava ele enquanto lamentava a partida de sua amiga. Ela iria para muito longe, o que significava que sua agradável rotina na companhia dela havia acabado. Quando chegou sua vez, a garota parou alguns instantes em sua frente e sorriu um sorriso calado. Um sorriso de pesar. Quando a abraçou, ele sentiu as gotas quentes dos olhos dela molharem seus ombros. Ele não estava com vontade de chorar e tentava imaginar se tanto drama era realmente necessário. Quando a garota finalmente o largou, ele disse:
— Tem que ser agora? – Seu semblante estava firme, porém era evidente sua tristeza.
— Tudo tem o seu tempo. – A garota disse isso enquanto enxugava suas lágrimas. Do bolso de trás de sua calça apanhou uma embalagem plástica. – Tome. – Disse ela conforme entregava a embalagem para o garoto. – São sementes de uma planta mágica. Regue-a todos os dias e você entenderá.
O garoto segurou a embalagem plástica nas mãos. “Que estranho presente de despedida.” Pensou. A garota entrou no carro e da janela acenou. O garoto não acenou de volta, mas continuou assistindo até o carro sumir. Continuou por alguns longos minutos depois, esperando se o carro voltaria. Quando se convenceu de que ela de fato se fora, chorou a primeira lágrima de saudade.
Semanas se passaram e sua mudinha já estava bem grande. Havia colocado as sementes em um potinho na janela. Regou-a todos os dias e mandava mensagem animado para a garota, dizendo que a planta crescia a cada dia. Quando o segundo mês desde que ela foi embora chegou, a planta estava bela e majestosa. Tinha um pequeno caule do qual saíam delicados galhos folhosos do mais forte tom de verde. Era encantador olhar para a plantinha e o garoto gostava de passar parte do seu tempo contemplando-a.
Por volta do sétimo mês, após um dia terrivelmente estressante na escola, o garoto bateu a porta do seu quarto com muita violência ao entrar. Com a vibração da batida o vasinho de planta tremeu e despencou no chão. O garoto observou aflito conforme o vasinho se quebrava e a terra se espalhava pelo chão. Imediatamente correu para acudi-la, mas qual foi a surpresa ao ver que a planta que ele tanto conhecia e amava já não era mais a mesma. “Ai!” Gemeu o garoto ao ser espetado por um dos muitos espinhos que haviam aparecido de repente. A planta havia se transformado em um pontudo cacto. O garoto ficou sentado no chão e lembrou-se do que sua amiga disse quando lhe entregou as sementes aquele dia. “De fato é mágica!” Disse, impressionado. Correu pegar o celular para lhe enviar uma mensagem com a novidade. Passou rapidamente com o dedo pelos contatos, procurando a amiga. “Cadê, cadê?” Dizia baixinho conforme demorava a encontrar o contato dela. Quando achou, em um dos últimos de sua lista de conversas, clicou rapidamente no contato e começou a escrever. “Ela funciona!” Disse ele e apertou para enviar. Quando a mensagem foi enviada, ele viu como e quando tinha sido a última conversa que tinham tido. “Tanto tempo assim?” Assustou-se ao perceber o fato. Rolou as mensagens para cima, relendo com atenção a conversa. Suas sobrancelhas franziam conforme percebia como tudo estava estranho. Não se lembrava dessas mensagens. Não se lembrava de escrever assim. O barulhinho de notificação do celular chamou sua atenção e rolou o dedo para baixo. Sua amiga havia respondido com um emoticon de carinha feliz, seguido de “Não deve demorar muito tempo agora.” O garoto imediatamente perguntou “O que quer dizer?” No qual ela respondeu “Você vai entender.” O garoto, confuso, jogou o celular na cama e olhou para o cacto caído no chão. Com cuidado o tirou de lá e o colocou em uma vasilha que estava em cima de sua mesa do computador. “Tenho que arranjar um vaso novo para você.”
Quase dois anos se passaram e o garoto estava ansioso. “Ela deve chegar a qualquer momento.” Ele andava em círculos na casa, enquanto seus pais apenas riam baixinho. Quando a campainha tocou seu coração parou por alguns segundos. Hesitou para atender a porta, mas teve coragem e a abriu. Lá estava ela. Era a primeira vez que sua namorada iria passar o dia em casa. Iriam jantar e depois ver um filme. Seus pais haviam autorizado e os pais da garota, após muita insistência, também concordaram. “Tenho que contar para ela depois.” Pensou o garoto, lembrando-se da amiga distante. “Ela vai ficar muito feliz por mim.” Após uma agradável janta e um filme romântico, os pais da garota vieram buscá-la. Ela se despediu e foi embora. Seus pais o encaravam com olhares orgulhosos. Encabulado, o garoto correu para seu quarto. Queria contar a maravilhosa notícia para sua amiga. Pegou o celular e quando ia começar a digitar, sua visão chamou sua atenção para algo diferente e seu coração parou por mais alguns segundos novamente. “De novo?!” Pensou, assustado. No lugar daquele enorme cacto havia uma formosa rosa. Tinha o botão tão vermelho que parecia sangue. O garoto deixou o celular cair no chão e se aproximou da planta. “Sem dúvida eram sementes de planta mágica.” Disse, extasiado. O celular continuou caído no chão, com o contato da garota no visor. A mensagem nunca foi enviada. O garoto passou o resto da noite contemplando a beleza e o aroma de sua nova planta.
Pouco menos de um ano se passou e o garoto já era quase um homem. Estava trabalhando meio período em uma lanchonete e já havia conseguido juntar um bom dinheiro. Não sabia ainda o que iria fazer com suas economias, mas pensava em juntar para comprar um carro. Um carro bem veloz. Quando o expediente acabou, sua namorada apareceu para busca-lo, como de costume. O rosto dela era tão bonito quanto no dia que a conhecera, mas ele podia jurar que ela parecia uma pessoa diferente. “Vamos ou não?” Disse ela, apressada. O garoto assentiu e com a cabeça baixa caminhou ao lado dela. A deixou na porta da casa dela, se despedindo com um beijo. Quando chegou em sua casa fechou a porta da entrada e suspirou. Após tomar um bom gole de água gelada, caminhou até seu quarto. Ao chegar em frente a porta, notou uma luz azul saindo debaixo dela. Curioso abriu a porta rapidamente. Seus olhos foram tomados por um brilho forte que a lua refletia. Sua planta estava emanando uma cor azul brilhosa e junto com o luar inundava seu quarto. Chegou perto dela e tocou suas pétalas. Eram azuis e somente azuis. Aquela cor penetrou fundo em sua alma e de repente ele sabia exatamente o que fazer. Abriu o armário e pegou um casaco de frio, iria precisar. Pegou seu dinheiro escondido na gaveta do computador e pôs no bolso. Desceu as escadas correndo. Antes que abrisse a porta e disparasse noite afora, seu celular vibrou em seu bolso. Sua namorada estava ligando. Ele apenas sorriu e com respeito, mas nenhuma hesitação colocou o celular em cima da mesa, livre para tocar à vontade. Na rodoviária depositou todo o dinheiro no guichê do caixa e nem ouviu quando o funcionário gritou “Seu troco!”. Correu para dentro do ônibus que já estava quase de partida e sentou-se na última poltrona. Pensou que não iria dormir, mas adormeceu por algumas horas e quando a luz do sol tocou em seu rosto, sabia que havia chego. “Destino final.” Disse o motorista conforme manobrava o ônibus na rodoviária. “Você tem toda a razão!” Disse o garoto descendo correndo do ônibus assim que a porta abriu, deixando o motorista confuso. Conforme corria pela cidade, ele tinha apenas um endereço na mente. “Era perto daqui, ela me disse.” Pensou, conforme seus olhos corriam os números das casas. Em frente a uma casa amarela do outro lado da rua, a viu. Devia estar indo fazer sua caminhada matinal que tanto gostava. Ela estava de costas, mas ele a reconheceu.
— Eu entendi! – Disse ele quase sem fôlego. – Eu... Finalmente entendi!
A garota olhou para trás, com um olhar assustado. Ao reconhecê-lo esboçou um largo e lindo sorriso branco.
— Nunca foi a planta... – Disse ele, sorrindo e sem fôlego. – Nunca foi a planta!
— Nunca. – Disse a garota, rindo como se ele tivesse acabado de dizer a coisa mais óbvia do mundo. Com muita força, a garota o abraçou e desta fez foi ele que chorou em seus braços. Ao se afastar de seu abraço, a curta distância entre a garota o fez notar algo estranho.
— Desde quando seus olhos são azuis? – Disse ele, confuso.
A garota balançou a cabeça, sorrindo e nada respondeu. Apenas disse:
— Vamos? – E estendeu-lhe a mão.
O garoto aceitou o gesto.
— Vamos.
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