A Phoenix - 250 Km/h Na Contramão
1 Livro Primeiro - Capítulo 4 Especial - Ultraviolência
Notas iniciais
"Quase todos na vizinhança achavam a Sra. Norah o amor em pessoa, incluindo o pequenino esquilo castanho que pestanejou para ela ao vê-la dobrar a esquina Bhayller com a Avenida Button. Sra. Norah se mostrava como a superfície brilhante de um lago, e cintilando como pontos de sol se mostravam seu carinho e compaixão, não apenas pelas pessoas mas também pelos animais, especialmente os de minúsculo porte. Ao se deparar com a criaturinha em seu caminho, Sra. Norah, num estremecimento débil, cortou o vento com sua bengala nada vacilante e fez o pobre esquilo desaparecer brutalmente — formando um leque de sangue na calçada -, bem provavelmente quebrando sua costela, senão deixando-o em coma. A criaturinha deu seu último suspiro silenciosamente.
O sol ganhava intensidade naquele dia fabuloso, a brisa matinal acariciava seu vaidoso coque grisalho. Os vizinhos abriam os olhos dentro de suas casas, e os pássaros faziam festa no chafariz dos Lestrange. Sra. Norah subia a rua observando o céu enfeitado por graciosas nuvens à la algodão doce, um verdadeiro quadro pintado por Deus. Quando sorriu radiosa, seria um dia per-fei-to!
Seu aspecto era delicado, frágil. O rosto vincado de rugas era tão ingênuo quanto uma canção celestial. A Rua Bhayller estremeceu antes de anunciar seu segundo sinal de vida: Sr. Snowcket abriu a porta preguiçosamente, se esticando vacilante para encarar o dia. Inclinou-se para apanhar o jornal que foi jogado com um arremesso perfeito a ponto de bater na porta e cair no capacho de Boas-Vindas.
–Sra. Norah, ração para o bichano? — instigou-a, observando seu leve pacote.
–Sabe como é, como feito um cão — e sorriu ao passar.
'Grande figura, a Sra. Norah, sempre sorrindo para a vida.'
'Ao inferno, seu escritorzinho fajuto. Seus livros não valem o papel em que são impressos.'
Um cão latiu quando Sra. Norah se aproximou de sua porta. Deu uma olhadela para a caixa de correio com sua bandeirola de metal, a portinhola baixada com três ou quatro cartas, quando o furgão do leiteiro passou vagaroso. Havia cancelado os serviços daquele patife há tempos, ele que socasse seus laticínios — todos eles de preferência — no meio do seu...
Olhou pensativa para o pé da porta, um pacote estava com seu nome e endereço escritos na etiqueta. Não precisara assinar? Curioso... Abaixou-se — droga de ossos — e pegou o pacote que tinha cerca de um metro de comprimento. Algo produziu um som ousado lá dentro. Antes tarde do que nunca.
Enfiou a chave na fechadura e girou-a. Abriu a porta totalmente silenciosa, enigmática e ensolarada.
Passou pela sala de estar com cheiro de idade, foi direto para a cozinha e parou para admirar a travessura do bichano: se fartava na massa para bolo que preparara pouco antes, as duas patinhas dianteiras enfiadas na tigela. Largou os pacotes e a maldita bengala, estendeu as mãos e sacudiu-o duas vezes, rápida... tônc-tônc. Menino malvado, como vai ficar o bolo da mamãe, hun? Travesso!
Largou-o. Bichano saiu miando e rebolando, muito orgulhoso de sua última peripécia. Sra. Norah pareceu momentaneamente intrigada, depois sorriu. Lembrou-se das boas décadas com o falecido. Aqueles eram tempos de verdade, sua casa podia ser confundida com um chiqueiro sem dificuldade, uma bagunça semelhante àquela deixada pela festa de 111 anos de Bilbo Baggins. Assistia até as porcarias de jogos com ele. Até o grande C tomá-lo. Levou-o aos poucos, o pior de tudo. O Câncer a fizera parar de chamá-lo de porcalhão. Depois daquilo, sentara na cama e chorara durante longos dias... que imperceptivelmente tornaram-se meses. A princípio foi o choro incrédulo. Depois a ficha caiu e veio o choro violento, daqueles com soluços e arquejos, no auge do porre das fortes emoções.
Suas feições tornaram-se miúdas. Seus olhos fendas.
(psiu, Norah, psiu)
Parou de acariciar a superfície de fotografias invisíveis, particulares e antigas. E sorriu.
Caminhou até o pacote, sua encomenda que tanto demorara. Pensou que bateria as botas, iria pro Beleléu, comeria sanduíche de terra e não a veria chegar.
Seus pés moveram-se pelo piso, os ossos gemeram... Reclamões!
Rasgou o papel. O conteúdo da caixa surgiu em sua vista embaçada. Os óculos, os malditos óculos... Ah, no pescoço!
1 Visor telescópio: não, não será necessário, creio eu. Mas o seguro morreu de velho; 2 caixas: um tanto pesadas — diga-se de passagem — da mais bela munição Winchester; Dentro de um estojo de couro à prova d'água, a CZ 550 Safari Magnum com uma bela coronha: sempre tivera uma atração inominável por rifles de caça, desde a mais tenra época. Pensou em limpá-lo e espiou pelo cano: imaculado como um santuário.
Com um sorriso quase que infantil montou-a, como uma criança que desejou tanto um brinquedo até ganhá-lo do Papai -Noel em carne e osso. Seus pés moveram-se centímetros. De repente, ergueu o cano com uma força inacreditável. Olhou pelo visor: Felino, na sala, ronronando majestoso, lambendo a calda de escova de sapatos. Hora do banho, menino! Jogou uma leve pressão no dedo indicador, começou a puxar o gatilho... seu rosto corado tornou-se hesitante. Sempre travesso, bichano, usufruindo seu momento de lazer em cima do sofá. Não, não queria ver seus miolos e partes espalhados, não naquele sofá. Ficaria todo empapado de sangue, sabia. O sofá onde os convidados sentaram enquanto observaram o caixão do falecido sobre sobre um cavalete adornado com rosas brancas. Não naquele sofá.
Seus pés moveram-se casa afora, então fechou a porta às suas costas. Um menininho em seus triciclo ergueu a mão até a boca ao ver a nova bengala da Sra. Norah e arregalou os olhos como um cervo diante dos faróis de um carro. Bengala é uma ova, pirralho! Ergueu o rifle com um sorriso encantador: Seu remédio, putinho mimado. Guri fresco como um alface!
Putinho mimado, sempre com o nariz escorrendo, apenas teve tempo para sentir uma onda de pânico na boca do estômago e fazer xixi na calça, de modo que um filete de urina veio escorrendo por suas pernas até o chão quando ela
Apertou o gatilho.
Um trovão rasgou a rua. Os miolos do garoto saíram pela nuca e salpicaram a porta do vizinho nº 205. Srta. Pokeby sacudiu a maçaneta e abriu a porta quase que no mesmo instante. Sra. Norah inclinou levemente a cabeça e ergueu as sobrancelhas grisalhas ao vê-la, através dos óculos, perfeitamente dentro do visor. A nobre vizinha embasbacada pensou em dar meia volta até que a "pequenina" bala a atingiu no pescoço, fazendo-a voar metros casa adentro: Pode entrar, minha querida. Abutre que se regala com a tragédia alheia!
–Se não quisermos ficar encurralados aqui, o que pode durar para sempre, é melhor seguirmos em frente — disse ela à arma em arquejos sonoros que não eram exatamente fadiga, mas sim emoção. Podia-se ouvir a gritaria geral, uivos desesperados. Caminhando rua abaixo, Sra. Norah ergueu implacável a boca do rifle e puxou o gatilho de novo e de novo."
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