A Peça
2 A Peça
Notas iniciais
Eu estava sentada esperando por Alice nos degraus da varanda de casa naquela segunda, olhando para o verde de Forks. A minha caminhonete, uma Chevy que parecia se encaixar melhor nos anos 50 do que nos dias atuais, tinha quebrado. De novo. Eu amava aquela caminhonete, mas nem eu seria capaz de ignorar todos os problemas que ela vinha dando. No final, o que restou para mim foi aceitar a oferta de carona de Alice até a escola por um tempo indefinido.
Ela era minha amiga desde os nossos 12 anos, quando eu, nas palavras dela, a salvei de uma terrível abominação rastejante. Essa foi a descrição dela de uma minhoca grandinha, mas não seria eu quem a contestaria. E ali estávamos nós, 6 anos depois e no último ano do high school, graças a união proporcionada pela bendita minhoca. A verdade é que nosso grupo não englobava mais só nós duas, mas também Edward, Emmett, Rosalie e Jasper.
Dos quatro, apenas Emmett morava em Forks desde sempre como eu e Alice, e foi o primeiro a se juntar a nossa dupla ainda no final do ginásio. Simpático e gentil, Emm sempre se deu bem com todo mundo, mas não era próximo de nós; um dia, caímos eu, ele e a Lice em um trabalho e acabamos nos dando muito bem. Inicialmente, a proximidade de Emmett era mais para com Alice devido a minha timidez, mas aquele sorriso com covinhas e os olhos azuis risonhos acabaram por ultrapassar essa barreira.
Rosalie e Jasper, os gêmeos, chegaram no primeiro ano do ensino médio assim como Edward. Alice estava indo para a sua aula quando foi abordada pela Srta. Cole, a secretária do diretor, que perguntou se poderia recepcionar os novos alunos e direcioná-los; eram três, um garoto e uma garota, gêmeos loiros de olhos cor de mel e um garoto de cabelos com um tom estranho de bronze, de olhos verdes. Lice os apresentou para Emm e eu no almoço e acabou que nos tornamos um grupo; meses depois Rosalie e Emmett, e Jasper e Alice começaram a namorar.
Desviei os olhos das copas das árvores no outro lado da rua para ver a tempo o Porsche amarelo berrante de Alice se aproximando da minha casa. Foi apenas quando alcancei a maçaneta da porta do passageiro que vi que Edward estava no banco de trás.
– Ahn, bom dia… – cumprimentei entrando no carro e colocando o cinto enquanto eles me devolviam o bom dia. – Tá tudo bem?
– Ele precisou de uma carona também. – Alice disse, já saindo com o carro para a escola. Edward colocou a cabeça no vão entre os bancos.
– O Volvo quebrou do nada. Precisei ligar para a Alice de última hora hoje de manhã. – ele explicou enquanto se inclinava para mexer no rádio.
– Ah, foi mesmo de última hora. Eu já estava quase na sua casa, Bella, quando um Edward me liga falando que precisa de carona porque o carro quebrou, num tom de voz de quem comenta o tempo. – ela disse risonha. Edward apenas suspirou de forma teatral e disse:
– Enfim, conversei com a Alice e vou ser outro passageiro dela por um tempo.
Under Pressure começou a tocar. Edward voltou para o lugar e foi acompanhando a música, desafinando levemente.
– Bom, então vamos compensar as suas caronas com a voz do Ed, ok? – perguntei para a Alice, recebendo um revirar de olhos e um sorriso.
– Isso é exploração da minha mão de obra, Bells. – ele cantarolou do banco de trás.
Com Alice ultrapassando alguns limites de velocidade, não demorou muito até que estivéssemos entrando no estacionamento da Forks High School. Jasper, Rosalie e Emmett já estavam lá nos esperando. Nós saímos do carro e Alice foi saltitando na direção de Jasper, e Edward e eu ficamos para trás.
– A Alice está fazendo bico de Uber? – Emmett perguntou de brincadeira, abraçado a Rosalie. Já a Lice parecia muito ocupada em sua bolha com Jasper para sequer ouvir a pergunta.
– Todos temos que ganhar a vida de alguma forma. – Edward respondeu dando de ombros, ainda ao meu lado.
– Temos que ir, o sinal vai tocar. – Rosalie disse, já puxando Emmett. – Vocês dois aí, vamos. – chamou Alice e Jasper.
As aulas da manhã passaram lentamente e foi um alívio ouvir o sinal para o almoço. Ao chegar na mesa, tudo que peguei foi uma Alice completamente animada gesticulando intensamente para Jasper e Emmett.
– O que aconteceu? Cadê o Edward e a Rose? – perguntei, meus olhos indo de um para o outro na mesa enquanto me sentava ao lado do Emm.
– Fofocas dizem que o professor Volturi vai fazer a avaliação final das aulas de teatro de uma forma… diferente. Algo mais "grandioso". – Alice disse com animação e ao mesmo tempo tentando soar misteriosa. Tinha os olhos cinzentos levemente arregalados.
– A Rose e o Edward ainda não saíram da aula de cálculo – Jasper, sentado ao lado dela, me respondeu. Emmett se aproximou de mim e acrescentou baixinho:
– Tiveram sorte, esse brilho nos olhos da Fadinha é assustador. Eu estou assustado. – eu até acreditaria se não houvesse uma pitada de gozação na voz dele.
Era um costume adotado pelo Emmett e a Alice, os apelidos mais elaborados. Ela com seus 1,60m, o cabelo preto curto e o jeito espevitado era a Fadinha enquanto Emmett, com todos os seus músculos e altura, era o Grandão. O resto de nós apenas preferiu se isentar e deixar isso entre aqueles dois.
E mesmo brincando Emmett estava certo, a baixinha parecia levemente assustadora com toda aquela animação, embora não fosse nada inédito no modo Alice de ser. No entanto, tudo isso foi para segundo plano quando eu digeri o Alice tinha dito.
– Como assim, algo grandioso? O que aconteceu com a avaliação teórica? – perguntei, minha voz saindo calma em contraste ao aperto no meu peito.
– Não dá para saber ainda, mas na aula de hoje ele com certeza vai explicar. – Ali respondeu, seus olhos intensos sobre os meus.
Meus amigos sabiam, Alice mais do que qualquer um, que eu tinha essa vergonha e qualquer forma de exposição que fosse além dos meus círculos de relacionamento era motivo para que eu surtasse.
A minha entrada no grupo de teatro teve três motivos: o primeiro era a obrigação que todos os alunos tinham de se inscrever em algum curso extracurricular; o segundo foi Alice querer fazer teatro e nós combinarmos de todos os seis irem fazer a inscrição; o terceiro era o fato de eu amar ler e ver peças de teatro. A avaliação final era teórica e explorava conceitos básicos da esfera teatral, o que para mim foi o empurrão final para me inscrever. Afinal, poderia comparecer às aulas, interagir em uma dinâmica qualquer sobre alguma peça com meus amigos e no fim do ano faria a prova, que não exigiria nada de exposição.
E foi exatamente assim que as aulas de teatro correram, pelo menos até aquela mudança "grandiosa". Sabia que estava me preocupando demais, poderia ser só uma mudança pequena na forma de avaliar. Eu estava tentando me convencer disso quando a Rose e o Edward chegaram com suas bandejas na nossa mesa com semblantes nada bons.
– O que aconteceu com vocês? – Jasper perguntou enquanto Edward sentava no lugar disponível do lado oposto ao que Emmett estava, enquanto Rosalie sentava do outro lado do namorado.
– O Sr. Hanckes aconteceu. Ele simplesmente decidiu que uma forma interessante de ensinar era passando os exercícios da matéria da aula que vem para nós resolvermos hoje no fim da aula. – Edward contou, indignado. Todos estávamos também porque mesmo conhecendo Hanckes, ele às vezes nos surpreendia. Era um senhor de idade já aposentado que, todos concordavam, deveria estar aproveitando essa condição ao invés de estar dando as suas aulas; ninguém acreditava como ele conseguia ser surreal com o que ele inventava.
– O Hanckes é um senhorzinho bizarro, né? – o Emmett comentou.
Nisso a conversa seguiu para todas as ideias que o nosso professor de cálculo já colocou em prática nas aulas, o que acabou se dispersando a outros assuntos.
Quando vimos já era hora de ir para a sala. Minhas aulas depois do almoço era de biologia e eu as tinha com o Edward, éramos uma dupla.
– E então, como foi o seu fim de semana? – ele perguntou. Estávamos quase na entrada da sala.
– Chato e entediante. Fiquei lendo o tempo todo. O seu? – devolvi.
– Igualmente chato. – disse, olhando para mim e dando um meio sorriso.
Era algo que eu achava lindo nele, aquele meio sorriso e a forma com que os olhos verdes pareciam se destacar mais quando ele sorria. Havia momentos em que eu uma vontade repetida de dizer isso para ele, mas os momentos acabavam passando e eu desistia.
Nos sentamos na nossa bancada instantes antes de Mike Newton passar por nós.
– Olá, Isabella. – primeiro o cumprimento e em seguida o sorrisinho que ele considerava charmoso. Fazia duas semanas que o foco dele tinha se virado para mim sabe-se lá porquê já que era óbvio que eu nunca iria querer nada com ele.
Ignorando-o, me virei para Edward a tempo de ver o olhar que ele mandava para Mike. Como se estivesse observando uma forma de vida estranha e peculiar que não fazia o menor sentido para ele.
– Ele acredita que pode fazer e ter qualquer coisa. Ainda não acredito em como ele foi um imbecil com a Jéssica. – disse para mim, voltando seus olhos na minha direção.
– É, ele é esse tipo de pessoa desde que eu o conheço, a vida toda. Provavelmente ele só quer atenção, mas não sou eu quem vai dar isso a ele. – respondi.
O professor chegou logo em seguida e nos focamos na aula. Tanto a aula de biologia quanto o restante das aulas da tarde passaram mais rápido do que o normal para uma sexta-feira. Provavelmente a passagem rápida do tempo estava relacionada a ansiedade que crescia em mim para a aula de teatro que se aproximava cada vez mais.
Até que a última aula acabou e a próxima aula era a de teatro. Eu saí praticamente correndo para o auditório, passando afobada pelos corredores e recebendo alguns olhares estranhos. Eu só precisava ouvir do Aro que a parte grandiosa não era tão grandiosa e tudo ficaria bem.
– Eu acho que você precisa respirar fundo agora. – Alice comentou, dando uma olhada na minha situação, ofegante e meio desalinhada. Só nós tínhamos chegado por enquanto, e o professor que estava arrumando alguns papéis no palco.
– Não vamos sentar lá na frente hoje? – Me sentei ao seu lado. Nós sempre sentávamos na primeira fileira por insistência da própria Alice. Ela gostava de estar o mais próxima do professor para ouvir qualquer novidade que ele pudesse trazer, só que nunca havia novidades. Exatamente hoje em que poderia ter, a Lice parecia preferir uma fileira mais distante e ao canto.
– Tenho o pressentimento de que vai ser bom sentar aqui. – disse apenas. Ela olhava o professor como que o analisando.
Eu iria responder quando a porta do auditório foi aberta e todos os alunos foram entrando, com nossos amigos entre eles.
– E aí, ele falou algo? – Edward perguntou sentando ao meu lado. Jasper, Rosalie e Emmett tomaram seus lugares ao nosso redor.
– Não, mas acho que já vai começar. – Alice disse apontando para Aro que entregou um maço de folhas a Irina para ser passado adiante, e em instantes começou a falar.
– Bom tarde, meus queridos. Antes de mais nada queria dizer que foi feita uma modificação na forma de avaliar o curso de teatro. Eu me reuni com o diretor Colton e ficou estipulado que a prova teórica será substituída. Esse ano faremos a apresentação de uma peça teatral aberta ao público de Forks e a participação de vocês será a nota.
O burburinho começou assim que ele terminou de falar, mas eu nem cheguei a ouvir o que estavam dizendo porque recebi em mãos uma cópia do maço que Aro tinha entregado.
Baseada na obra: A Megera Domada
Direção:
Aro Volturi
Administração:
Alice Brandon
Irina Denali
Benjamin Cheney
Elenco:
Angela Weber — Hospedeira
Erick Yorkie — Grúmio
Edward Cullen — Petrucchio
Emmett McCarty — Batista
Isabella Swan — Catarina
James Hayden — Vivêncio
Jasper Hale — Trânio
Riley Biers — Grêmio
Laurent Gathegi — Lucêncio
Rosalie Hale — Bianca
Tanya Denali — Viúva
Tyler Crowley — Hortênsio
Meu nome não podia estar ali, aquilo não estava certo. Eu mal conseguia me imaginar na frente de um auditório inteiro sem hiperventilar e passar mal, como poderia realmente fazer aquilo?
Fiquei olhando aquele papel, rezando para estar lendo errado e as palavras "Isabella Swan" saírem dali. Sentia minha respiração e o coração acelerados, tudo a minha volta sumindo e só restando o meu pânico.
– Hey, Bella, olha para mim. Bella, por favor. – a voz de Edward me chamou baixinho. Quando consegui olhar para ele, vi os orbes verdes e o cenho franzido com preocupação. – Respira fundo, calma, ok? Você está toda pálida.
– Eu estava certa sobre escolher essa fileira. – do meu outro lado, Alice disse baixinho. Percebi que vinha lufadas de ar da sua direção para a minha, ela estava me abanando. Os outros estavam inclinados na minha direção, olhando preocupados.
– Aqui, bebe um pouco de água. – Rose me passou uma garrafa, a peguei de forma automática. Eu estava meio fora de ar, digerindo tudo.
Sim, Alice estava certa sobre a fileira. Ninguém além de nós seis percebia o que acontecia comigo. Só que Lice também estava certa sobre outra coisa: Aro tinha de fato preparado algo grandioso.
Uma peça, na qual de uma forma ou de outra eu teria que participar se quisesse me formar. Era oficial, eu estava passando mal.
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