A Perseguição

1 A Perseguição


A lua ilumina os prédios altos da sobrelotada urbanização, projetando as mais obscenas sombras sobre os relvados esmeralda. Lua cheia, provocando o penetrante uivar das bestiais criaturas da noite. O parque em que caminho permanece, o mais possível, silencioso.

Eu já vi aquela cara antes. Aquele rosto firme, os compridos cabelos atados. Tanto tempo passou que até esqueci o seu nome. A mulher que pensava estar morta, a mulher que provavelmente ainda está morta. Mas eu estou a vê-la, ali ao fundo, por entre as altas macieiras.

Provavelmente alucino. Sempre a vejo a acenar-me enquanto passeio, sempre me esquivo e afasto o mais depressa e furtivamente possível. Quando o faço e acho que lhe perdi finalmente o rasto, ouço sempre um pesado rastejar na minha retaguarda, o gelatinoso som de uma massa em movimento. Ouvindo-o, nunca ouso olhar para trás. Claro que não, pois temo que não seja uma alucinação. Assusta-me pensar na possibilidade remota de que o meu passado voltou mesmo para me assombrar. Assusta-me imenso.

Não tenho tido êxito na aplicação dos medicamentos que os médicos me receitaram. Nenhum consegue acabar com as malditas coisas que me corroem o cérebro. Só queria poder esquecer-me, mas julgo que tal nunca será possível. O passado alastra-se pelo meu pensamento e a memória corrompe-me segundo a segundo, milésimo a milésimo...

Lá está ela. A olhar para mim. A acenar-me.

Esquivo-me. Finjo que não a vi. Desloco-me o mais depressa possível no sentido contrário.

E depois... o barulho.

Um corpo algo larval aproximando-se. Os tentáculos esticando...

Corro o mais rápido que consigo. Escapo dos novos uivares que interromperam o silêncio das árvores e do vento. O som de natureza inexpressável que aquela criatura liberta infiltra-se nos tímpanos, tomando controlo da sua vibração. Produzindo um vibrar seu, peculiar, consegue perturbar igualmente as córneas oculares, transmitindo-se as ondas sonoras através dos nervos. A perturbação final resulta no domínio sobre a paisagem que tomo por real.

Já não vejo o céu azul que se via de manhã quando saí de casa. Agora vejo uma tonalidade azulada que derrete na minha direção e uma enorme estrela vermelha aumentando de tamanho. É esse o novo céu.

As pessoas que anteriormente caminhavam pelo parque parecem agora versões animalescas do seu antigo eu. As suas costas curvas incomodam-me enquanto corro, as suas bocas cada vez mais próximas do terreno fúngico que ocupou o lugar do chão. Fora-se a erva verdejante. Fora-se o mundo. É essa a nova vida.

Deixei de conseguir fugir quando cheguei à ponte de pedra cinza que, sobre um profundo rio, ligava uma extremidade do parque à outra. Do outro lado só me aguardavam mais daquelas aterradoras existências, mortos deformados caminhando sobre a terra. Não havia outra opção. Só assim poderia escapar ao meu demoníaco perseguidor.

Saltei. Deixei a fresca água do rio inundar-me a face pálida. Esta afogou-me as narinas, mas não me importei. Isto porque, enquanto afundava, quando descia cada vez mais em profundidade, vi com clareza a legião de bestas subaquáticas que me esperava, de exoesqueleto enrijecido por escamas escarlate, devorando os cadáveres de inúmeros humanos como eu. Olhando para cima testemunhava, para meu grande desespero, muitas das pessoas que antes percorriam os tranquilos caminhos do parque a meu lado agora saltando para a morte que eram aquelas águas turbulentas. Não haviam sido todos trocados pelos seres deformados? Porque estão todos a seguir-me para as profundezas? Eu não queria isto, eu não...

Aqueles que, como eu, se tentavam suicidar e terminar com todo o sofrimento de uma só vez acabavam inevitavelmente nas alienígenas garras dos nadadores reptilianos. Era o fim para mim, era o fim para eles, era o fim para todos.

Lá no fundo, colunas de pedra erguiam-se imponentes. Uma enorme cidadela de múltiplos templos composta, santuários ancestrais há muito erigidos pelos antepassados destes monstros. Viviam lá, com suas mulheres e seus filhos, reproduzindo-se, espalhando-se pelos mares do globo. Talvez um dia se decidissem a emergir. Talvez um dia nos matassem a todos.

No centro das religiosas construções daquele aberrante povo, havia um poço. E desse poço, Ela saiu. Ela. A Mãe de todos. A Grande Mãe. O Seu corpo tentacular e mutável, as miríades de olhos abrindo e fechado em cada centímetro daquela existência. Lentamente, flutuando até mim, falando comigo. Falando na Sua língua característica, claro. Por zumbidos. É a voz Dela que tenho ouvido durante todo este tempo. Não me tem saído da cabeça, duvido que jamais saia. Só quero que isto termine. Só quero acabar, só quero...

Senti a massa semifluida que A compunha abraçando-me carinhosamente o pescoço. A Mãe de todos. A minha Mãe. Em breve estaria tudo acabado. Em breve. Muito em breve.

Os Seus cânticos entoavam pelos mares e as criaturas, os répteis, respondiam num coro de desgastadas cordas vocais. Um gutural hino à reencarnação. Reencarnariam. Renasceria novo. E, junto à Grande Mãe, governaríamos os céus.

Preso a estas ideias infames, acabei por adormecer nos braços da rainha demoníaca.

...

Tenho quase a certeza que acordei numa cama de hospital. Tenho quase a certeza disso.

Porém, parte de mim acredita que ainda estou naquele parque, que acabei de acordar numa das margens do rio, onde me encontrava inconsciente. Essa pequena parte, olha para o horizonte próximo e vê a ponte de pedra, observa atentamente um outro eu, uma cópia exata de mim, correndo de uma aberração inexistente e lançando-se ao mar.

Lembrei-me logo de que, depois de saltar, vi outras pessoas saltando comigo, outros transeuntes inocentes. Contudo, desta nova perspetiva, não era capaz de os detetar. Como assim? O que se passa?

Foi então que me vi correr novamente até à ponte. E depois, vi-me novamente a saltar.

Não... não é possível...

No rio, vi um cadáver flutuando até à margem próxima. Era nada mais, nada menos que o meu próprio cadáver. Não sei como não prestei atenção mais cedo, mas agora parecia tudo tão claro. Bastou-me olhar em redor pois, no chão, à minha volta, residiam inertes os inúmeros eus mortos antes de mim. Um ciclo inescapável de vida e morte, creio.

Não é possível...

Mas era isso que parte de mim ainda via, em tempo real, enquanto a outra parte se julgava comodamente na cama de hospital. Ainda hoje procuro descobrir qual delas é o verdadeiro eu. Ainda hoje procuro descobrir qual é o mundo real.

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