A Perseguidora
1 One-Shot
Notas iniciais
"Você é o analista
O fungo no meu leite
Quando você não quer ninguém
E você tem alguém
Através do vento você rasteja
E ri das dunas queimando
quando ninguem vai nunca mais ver
Agora que você sabe porque você se sente assim
Eles estão virando suas cabeças enquanto esperam por ninguém
E finalmente eu sei porque você se sente como se estivesse abandonando isso
Eu estou assistindo você a me assistir
E eu tenho a melhor visão daqui
Eu estou assistindo você a me assistir
E eu tenho a melhor visão daqui"
Silverchair — The Greatest View
Benjamin era uma garota, apesar do nome. “Benny” era seu apelido, e todos achavam que ela era um menino. Alta demais, praticamente sem seios, cabelos curtos e usava roupas masculinas. Cabelos pretos e olhos de uma cor mel, quase “alaranjados”. Vivia com fones de ouvido, escutando música.
E havia também Lyriel. Esta era a típica garota nerd, sempre de óculos e sempre lendo livros na biblioteca do colégio, na hora do intervalo. Cabelos compridos, ondulados e negros como os de Benny. E olhos azuis.
Benny estava indo a escola com a mão nos bolsos da calça, e então, avistou lá ao longe algo que atrairia sua atenção até o final do ano letivo... Sim, a garota CDF, desatenta ao mundo exterior e compenetrada em seus objetivos estudantis.
A menina masculina ficou a observar-lhe de longe, reparando em como a outra era bela.
A pele clara contrastando com os cabelos, olhos claros e brilhantes por trás das lentes, feminilidade explícita, mesmo que sem uma vaidade exagerada. A garota que Benjamin não sabia o nome carregava seus livros “abraçados” contra o peito, como se seu apreço por eles fosse quase sentimental.
Aliás, depois de admirá-la, Bennyh sentiu até ciúmes dos livros.
O dia passou vago, porém objetivo, como sempre. As aulas foram tediosas, e os únicos alunos que aproveitavam-nas eram os nerds. E no meio deste grupo, estava Lyriel, bem atenta.
Benny lhe olhava. Ela sentava-se na ponta de trás da sala quadricular, enquanto a garota de óculos se mantinha na outra ponta, só que na frente. Sim, ela deu a sorte (ou o azar) das duas serem da mesma classe.
- Benjamin, por favor, venha até o quadro, e resolva esta questão! – Disse a professora, tirando a masculina de suas divagações.
E ela teve que tirar os fones também.
Benny correu os olhos laranjas pela sala, e verificou que a outra lhe olhava com uma expressão de interesse.
- Isso aí é um menino ou uma menina? – A garota nerd ouviu umas fofoqueiras comentando logo atrás de si.
- O nome é Benjamin... É óbvio que é um menino! – Disse a outra, sabichona.
- Está certo. Pode se sentar. – Respondeu a professora meio irritada. Tinha chamado a atenção dela, propositalmente, porque havia visto que a mesma estava ouvindo música na hora de sua aula.
No intervalo, Benny tinha perdido Lyriel de vista, e ficou vagando por aí sem ter o que fazer. Até que, passando pela porta da Biblioteca do colégio, avistou-a, sentada, lendo como sempre. Sem sentir o mundo ao seu redor.
A masculina entra no recinto e na cara-de-pau, senta-se em uma mesa, praticamente ao lado da que Lyriel estava sentada. E como sempre, ouvindo música, passa a observá-la com afinco.
No começo, a garota nerd nem percebe sua “stalker”, porém, depois de um tempo, ela sente-se incomodada com alguma coisa. E então, para de visualizar o livro em suas mãos e nota a presença da outra no mesmo recinto.
Realmente... Perturbador.
Lyiel a encara, nada feliz com a invasão de privacidade. E os olhares se encontram por alguns segundos.
O de Benny era de profunda admiração e muita cara-de-pau mesmo. O da menina de óculos era de incômodo e uma leve raiva.
Depois de um longe suspiro, Lyriel retomava sua leitura, como se a presença e o fixo olhar da menina andrógina não mais lhe incomodasse.
Mas incomodava.
Depois de minutos tentando ler, Lyriel olha novamente pra outra, ainda mais irritada que antes, e finalmente diz:
- Dá pra parar? – Seu tom de voz não era nada amigável.
Benny lhe responde com cinismo:
- Parar com o quê? – Diz, com uma expressão de quem não compreende do que se trata.
- De ficar me olhando o tempo todo! Eu quero ler em paz! – Diz a menina de olhos azuis cada vez mais irritada.
- Os olhos são meus, e eu olho pra onde eu quiser! – Diz a outra, ainda sem se preocupar se estava incomodando-a.
Agora mesmo que a CDF ficou irritada de verdade!
Fechou o livro, marcando sua página com um papel dobrado e levantou-se com fúria, saindo do lugar.
- Nem ler em paz eu posso! – Disse, esbravejando.
Benjamin poderia ter se sentido mal com a situação, por ter irritado assim a garota de olhos azuis, porém, valia mais a pena continuar sua perseguição!
As aulas correram normalmente, exceto por uma coisa... Lyriel,vez ou outra, olhava de rabo-de-olho sobre seu ombro esquerdo, e ali estava ela...
Mais uma vez lhe observando compulsivamente.
- Grrrr! – Lyirle volta-se pra frente, resmungando irritada.
- Que foi, Ly? – Pergunta uma garota sentada ao seu lado, percebendo a antipatia da nerd.
Elas não eram amigas e nem mesmo muito conhecidas, apenas colegas de “conveniência”, de colégio, comuns.
- Nada! Não é nada! – A de óculos preferiu não revelar o que estava se passando.A ninguém interessava sua vida.
Hora da saída. Rapidamente, Lyriel arrumou seu material, pôs a mochila em suas costas e se mandou da sala como o diabo foge da cruz.
Queria se ver livre da voyeur o mais rápido o possível!
Só que isso não aconteceu como gostaria...
Moravam praticamente na mesma rua. Suspirando de frustração, a garota notou que teria de conviver com aquela maluca perseguidora pro resto da vida.
...
E o dia-a-dia não mudava e só piorava. Todos os dias, Lyriel seguia pela rua e espiava sorrateiramente aquela figura de 1,85 de altura seguir seu encalço até a escola.
No intervalo, ela não mais lia na biblioteca, pegava os livros que queria e os levava para devorar-lhes em casa, sem que um par de olhos laranja lhe atrapalhasse.
Sim, não agüentava mais. Estava em seu limite! Tinha que fazer algo ou nunca mais respiraria tranqüila!
Obsessão era o nome disso. Só podia. E Lyriel via-se ficando a cada dia mais paranóica.
- Já... Chega! – Disse ela, parando num corredor vazio da escola.
Esse fora seu plano. Andar até lá, longe das vistas de todos, atraindo sua “stalker”, pra finalmente tentar resolver isso.
- Eu não agüento mais! Não consigo me concentrar nas aulas! Não posso mais ler no colégio! Nem mesmo ir e voltar pra casa posso fazer em paz! Quando você vai me deixar respirar? Quando vou poder ficar sozinha finalmente!? – Disse, seus olhos quase lacrimejaram.
Mas ela era forte demais pra demonstrar fraquezas praquela... aquela...
- Desculpe... Eu... Eu nunca mais farei isto. – Foi tudo o que a alta andrógina disse. E então, virou-se pra partir, mas ouviu a voz de Lyriel lhe chamando.
- Espera! – E então, a dos fones olhou pra trás novamente, a nerd parecia um pouco invocada. – Fica tantos dias me perseguindo e me olhando daquele jeito, pra no final pedir desculpas e ir embora!?
Benjamin se virou por completo agora:
- O que quer que eu diga? – Pergunta a alta, apesar de ser óbvio.
- Quero que me diga o porquê! Por que ficou fazendo isso o tempo todo!? Por que tão obsessivamente assim!? – Disse, invocada, mas finalmente expondo o que pensava.
Bom, devia ser óbvio. Parecia bem óbvio. Lyriel tinha pensado até agora que pudesse ser sim, paixão, mas e a resposta rude que a outra lhe deu? Era possível falar totalmente diferente da maneira que agia? E se sim, por que isso? Eram tantas perguntas.
- Porque... Eu admiro você. – A garota de olhos azuis se viu pega meio sem jeito. Não imaginava que pudesse ficar assim, mas ficara.
- Então... Então por que não fez o que pessoas normais fazem, e se declarou? Ou ao menos, não tentou ser minha amiga? Seu tipo de aproximação foi rude, invasivo e incômodo! – Disse com uma leve angústia na voz.
- Porque nunca achei que me aceitaria perto de você... – E esta resposta fez o mundo de Lyriel paralisar por alguns minutos.
...
Os dias se passaram, e Benny cumpriu o que disse. Lyriel achou que ela não fosse fazê-lo, mas ela o fez. E simplesmente, agora, a garota tinha toda a liberdade e privacidade do mundo.
Indo e vindo do colégio, Lyriel agora o fazia sozinha. Benjamin sempre parecia que aguardava mais um tempo, ou que se apressava pra sair mais cedo, só pra evitar o encontro das duas na rua.
Durante as aulas, Lyriel olhava pra trás, e a garota de fones de ouvido escutava suas músicas como sempre, mas desta vez, sem grudar os olhos em si, como se ela não existisse.
Até mesmo nos intervalos, a nerd pôde voltar a ler. Benjamin não mais a seguia, e muito menos aparecia na sala dos livros, onde, finalmente, ela podia ler em paz!
Mas aquela paz estava lhe cansando...
Lyriel deprimiu-se quando se pegou sentindo falta... Isso mesmo! Ela sentia falta daquela garota chata e compulsiva que tinha nome de homem!
E então, de repente, foi como se a história tivesse se invertido!
Sim, agora era Lyriel que seguia e observava a masculina de longe!
Seu porte físico era notável, e até mesmo se impressionara, anteriormente (quando ainda era a perseguida), quando descobrira que era na verdade uma garota! Ouvira:
- Meu Deus! Sabe o que descobri!? – Eram as fofoqueiras de novo. – Lembra daquele tal de Benny?
E a outra concordava com a cabeça.
- Então, eu descobri que ele, na verdade, é elA! – E as duas soltavam resmungos preconceituosos e histéricos.
- Não é possível! Mas tem nome de homem e parece homem! – Gritou a segunda, parecendo enojada.
- Mas não é! – E voltavam os resmungos.
É... Era mulher. Uma linda e andrógina mulher, Lyriel notara.
Benny era tão alta e forte pra uma garota. E se vestia bem também, pra um menino. Era estilosa. E sua pele branca se contrastava com os cabelos escuros e curtos, levemente ondulados, mas ainda sim meio-lisos.
Pronto... Lyriel se viu admirando sua admiradora. Isto era mesmo um problema.
...
E naquele dia, na hora da saída, no mesmo corredor vazio que elas antes estiveram... Lá estavam de novo, Benny, a andar na frente e Lyriel com os braços recheados de livros, logo atrás.
Até que a grande parou e se virou, fazendo a outra brecar também e se envergonhar um pouco.
Aquele era o corredor da conversa.
- Certo. Parece que invertemos, não? Você me pediu pra parar de te seguir e te olhar, e eu cumpri... Mas agora, nesse exato instante, te percebo fazendo o mesmo que eu fazia... – Ela dá uma inspirada e prossegue, bem séria, enquanto a nerd continua em silêncio, como uma filha que leva bronca do pai. – Por quê?
Diz, apenas, depois de todo discurso explicativo.
E mais uma vez, o silêncio reina.
- Porque... – Então a nerd sorriu. – Eu tenho olhos, então, posso olhar pra onde eu quiser!
Benjamin solta um leve riso, e então, coçando a cabeça de nervoso se aproxima da outra garota. O coração de Lyriel palpita tanto que parece que vai sair pela boca.
A mais forte lhe abraça, de surpresa, puxando seu corpo pra cima. A nerd fica na ponta dos pés...
E é nesse momento que seus lábios se tocam, num beijo.
FIM.
“Nunca subestime o sentimento dos outros” (A.C.)
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