A Pergunta
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Titio Vini espera vocês nos comentários ♥
Happy Pride Month!
—Bakubro...
— Ugh... O que foi, cabelo de merda?
Mais uma vez, EijirouKirishima havia ido ao quarto de Bakugou no dormitório da UA, como fazia quase todos os dias, às vezes para estudar, às vezes para implorar que o loiro lhe ajudasse com as montanhas de tarefa de casa passadas pelo Professor Aizawa, ou apenas para jogar conversa fora com o seu melhor amigo, jogando videogame de preferência, e sem qualquer preocupação com as aulas do dia seguinte, como era o caso daquela vez.
Mas, ao invés de se concentrar no jogo, Kirishima vinha pensando recentemente numa conversa que havia tido com Mina e Kaminari na última festinha clandestina que eles inventaram de dar no quarto de Sero, da qual Bakugou não havia participado porque, segundo ele “o futuro herói número 1 não tem tempo para perder com essas merdas”. Mas na verdade todos sabiam que "o futuro herói número 1” apenas não iria porque seu horário limite de sono era muito mais cedo do que o de qualquer outro jovem de 17 anos na história do mundo.
Enfim, acontece que, durante essa festa, Kaminari estava descrevendo sua confusa vida amorosa, na qual ele se encontrava apaixonado por duas pessoas, sendo elas um garoto e uma garota, sem saber de qual dos dois gostava mais.
A bissexualidade de Kaminari, aparentemente não era surpresa nenhuma para Mina ou Sero, mas Kirishima não sabia daquele detalhe até então, e, além de ficar surpreso, muitos questionamentos surgiram na sua cabeça. Então... era possível gostar dos dois? Como Kaminari descobrira aquilo? Como isso funcionava? E, o mais importante de tudo... Será que... Kirishima também...?
— Hm... Nada, deixa pra lá. — ele sacudiu a cabeleira ruiva.
Ouviu um grunhido familiar vindo da cama atrás dele, onde Bakugou estava.
— Ah, agora fala, porra!
Bakugou havia pausado o jogo. Eijirou sentia o console, que antes tremia devido aos inúmeros golpes que o amigo estava desferindo contra ele no videogame, agora pender inerte entre suas mãos. Bakugou estava ganhando o jogo, mas pausou mesmo assim para ouvir o que ele tinha a dizer. Um sorriso brotou levemente em seus lábios.
Mas quando se virou para o amigo, Kirishima estava sério.
— Você acha que nós fomos condicionados a gostar de garotas?
A expressão que se formou no rosto do loiro foi quase como se um ponto de interrogação gigante tivesse se materializado no lugar de seus olhos rubros. Aquilo era brincadeira?
E logo a confusão se transformou em fúria, como acontecia com quase todas as emoções complicadas que atingiam Bakugou em cheio.
— Cabelo de merda, você me fez parar o jogo por causa de...!
— Calma, calma! É uma pergunta séria, eu juro! — riu Kirishima, o que não ajudava muito o seu caso.
— Mas que diabos...!
— Apenas, responda, Bakubro! Você acha que nós, como homens, fomos condicionados a gostar de garotas?
Bakugou, ainda indignado, mas resolvendo levar aquilo a sério, sem saber exatamente o porquê, fechou os olhos, respirou fundo e apertou a ponte do nariz.
— O que, exatamente, você quer dizer com isso, Kirishima?!
— Então, tipo... Você acha que... Como homem, certo?... Você acha que gosta mesmo de garotas, ou só foi, tipo... condicionado a gostar delas, porque é isso o que a sociedade espera que você faça?
— Quê...? De onde você tirou isso?
— Não importa, só responda à pergunta — e vendo que Bakugou estava prestes a ficar irritado novamente, acrescentou —... Por favor?
O loiro bufou diante daquele sorriso serrilhado do ruivo e resumiu o jogo. Se não podia bater nele na vida real, que fosse ali no videogame. Kirishima não protestou, sabia que Bakugou o havia levado a sério e estava, provavelmente, refletindo.
— Não... Não acho que homens, em geral, gostem de mulheres só porque é o que a sociedade espera deles. Acho que é natural.
— Gostar de mulheres é natural?
— Sim.
— Então... gostar de outro homem não é natural?
— Eu não disse isso, cabelo de merda! Quis dizer que é natural no sentido de não ser condicionado, apenas.
— Oh, certo...
Soco, chute, soco. Baixo-direita, baixo-direita, soco, soco, soco... e o jogo gritou “Finish Him!”.
Eles continuaram a jogar mais uma partida em silêncio por alguns minutos, mas o ruivo ainda não estava pronto para desistir da conversa.
— Então, quer dizer que...
— Ah, puta que pariu, Kirishima! Joga direito essa merda, você está praticamente me deixando ganhar, seu puto!
Eijirou se levantou do chão e desligou o videogame manualmente.
— Vamos conversar, por favor. Esse negócio tá me consumindo há dias!
Quando Bakugou ia começar a protestar, ele arrancou o controle de suas mãos e sentou-se de frente para ele na cama. Bakugou estava, por falta de expressão melhor, prestes a explodir.
— Ah, agora faz sentido por que você anda distraído nos treinos ultimamente! Fica pensando em besteiras durante a aula!
— Não mude de assunto. Agora me explique: como é que eu sei se gosto mesmo de garotas ou se só estou cumprindo um “papel” que querem que eu cumpra, hein?
— É simples — disse Bakugou, com um leve desdém —, se você olhar para uns peitões e ficar duro sem precisar ativar sua individualidade, pronto, você sabe.
— Argh, bro, não dê uma de Mineta, seu pervertido! — gargalhou o ruivo.
— Oe, quem você está chamando de pervertido, huh?!
Bakugou fez sua pose característica de quando começava a explodir as coisas e avançou sobre Kirishima, porém com um sorriso escondido no canto da boca ao invés da pura raiva costumeira. O ruivo fingiu que estava levando a pior e levantou as mãos em sinal de rendição.
— Piedade, piedade, ó, grande sábio KatsukiBakugou!
Bakugou deixou escapar um riso contido, que saiu pelas narinas, e se aquietou, aceitando a rendição. Ele deixou o silêncio se estabelecer pouco a pouco entre os dois.
Sabia que aquela conversa com Kirishima estava longe de acabar, apesar das suas tentativas de interrompê-la. O ruivo era muito resiliente e teimoso, nunca deixaria Bakugou escapar daquilo.
E, ele odiava admitir, mas estava com medo do rumo que aquela conversa estava tomando, mas, ao mesmo tempo, uma espécie de empolgação começava a tomar conta dele. Então, decidiu ele mesmo continuar a conversa inevitável:
— Sinceramente, acho que gostar de alguém vai muito além do gênero...
Bakugou não pôde deixar de perceber o quanto os olhos do ruivo brilharam ao ver que ele havia retomado o diálogo por livre e espontânea vontade.
Era importante para ele, e se era importante para ele, era importante para Bakugou também.
— Talvez você esteja certo, e muita gente ache que gosta do sexo oposto por pura convenção social, um preconceito que não os permite questionar o contrário... — Retomou o loiro — Mas também acho que todo mundo está dentro de um espectro indefinido. É só você pensar, por exemplo, na Grécia Antiga. Os gregos não associavam relações afetivas com rótulos binários e... Sei lá. É o que faz sentido pra mim.
Kirishima ficou observando o amigo falar palavras complicadas, compreendendo apenas a ideia geral da coisa, e sem deixar de admirar o quanto ele era inteligente.
— Tudo o que eu lembro das aulas de História é que os guerreiros espartanos costumavam ter relações uns com os outros antes das batalhas para fortalecer a união. — riu.
— Quem é o pervertido agora, huh?
— E eu me lembro também de ter achado isso tão másculo, não sei bem explicar por quê...! — Kirishima parecia estar revelando mais do que era capaz de filtrar, então sua voz foi diminuindo à medida que ele realizava seus próprios pensamentos. Ele havia falado mais para si mesmo do que para Bakugou... E então, um estalo! — Bakubro, você acha que eu sou gay?!
Se Katsuki estivesse tomando qualquer líquido naquele exato momento, teria cuspido tudo. Como não estava, tudo o que conseguiu foi arregalar os olhos e deixar o queixo cair. Ótimo, ele adorava fazer cara de paspalho.
— C-como você espera que eu saiba, cabelo de merda?!
— Ah, você me conhece melhor do que qualquer pessoa.
— M-mas não desse jeito, né!
— Bem, então... só tem um jeito de saber. Posso te beijar, Bakubro?
Assim que conseguiu processar aquela pergunta, o loiro explosivo sentiu um arrepio percorrer a sua coluna e seu estômago encolher.
Não conseguiu ficar com raiva, por que a pergunta foi tão espontânea e desprovida de malícia que Bakugou só podia admirar sua nobreza. Um beijo roubado teria acordado sua ira, mas aquela pergunta provocou o exato oposto.
Além disso, Kirishima não parecia estar brincando. Seus olhos continham um brilho de ansiedade verdadeiro.
— Quê...? — foi tudo o que Bakugou conseguiu murmurar.
Alguns segundos torturantes de silêncio se estenderam até que o ruivo começasse a falar, mas, dessa vez, algo estava diferente em sua voz. Havia uma emoção diferente. O ar a sua volta pareceu pesar mais e a sua voz soou mais baixa e mais contida.
— Eu... Venho pensando nisso desde que descobri que era possível um garoto gostar de outro... — de repente, Kirishima não conseguia mais sustentar o olhar e desviou os olhos para qualquer lugar que não fosse o rapaz à sua frente. — A verdade é que eu sempre te admirei e valorizei muito a sua amizade... E eu achava que o que eu sentia era apenas isso, uma admiração e uma amizade muito fortes por você, mas...
O ruivo engoliu em seco. Talvez sua mão tivesse começado a tremer, ele não tinha certeza. Não conseguia se obrigar a olhar para nada que fosse importante agora. Estava começando a se arrepender de ter começado a se declarar daquele jeito.
Ele poderia ter continuado a conversa em tom de brincadeira, mas não! Quando Bakugou não rejeitou seu pedido logo de cara, isso lhe deu uma coragem impulsiva e absolutamente imbecil de começar a falar seus sentimentos mais escondidos. E agora era tarde para voltar atrás. O que seria da amizade entre os dois se Bakugou não o correspondesse?
— Bakugou, eu... acho que sou gay por você.
Risos.
A primeira coisa que Kirishima ouviu foram risos. Desse modo, ele nem teve tempo de considerar o medo que estava de olhar para Bakugou naquele momento, ele simplesmente olhou e encontrou o loiro rindo.
Mas não era uma risada zombeteira ou maliciosa, nem mesmo uma daquelas risadas contidas, que saem pelo nariz, as quais Bakugou estava acostumado a dar quando achava algo engraçado.
Eram risadas verdadeiras, as quais Kirishima nunca tinha visto o amigo dar antes e não sabia interpretar o que elas significavam vindas dele. Pareciam risadas de... felicidade?
Kirishima ficou mais assustado do que estava a meros segundos atrás, porém menos tenso, o que significa que o susto era causado apenas pela confusão e não pelo medo.
— Você acha? — disse Bakugou. A questão confundiu ainda mais o ruivo e Bakugou levantou uma sobrancelha.
Ele se aproximou de Kirishima, até suas testas estarem quase coladas, e encarou fundo nos seus olhos vermelhos. Podiam sentir a respiração um do outro, muito perto e num ritmo inconstante, acompanhando o ritmo das batidas aceleradas de seus corações. O ruivo se perguntou se Bakugou podia ouvir as suas batidas...
— Quando você tiver certeza, aí você pode me beijar, Kirishima...
O ruivo levou apenas um segundo para processar aquele consentimento, e depois não perdeu mais nenhum segundo sequer.
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