A Peregrina

1 Turbilhão


Notas iniciais
Olá, amigo leitor, vou pedir para que você sente e relaxe. Esqueça o mundo lá fora e abra sua mente.Vou contar uma história para você...

*Narrativa em Primeira Pessoa*

Um turbilhão. Um turbilhão, e eu estava dentro dele. Não é o melhor lugar do mundo para se estar, disso eu tenho certeza. A sensação de ter o corpo jogado de um lado para o outro, de cima para baixo, de baixo para cima, sentir que seu estômago esta sendo comprimido e revirado, sentir que é puxada por um vácuo, que você não tem controle de nada. Sua mente fica confusa e nublada, tudo é rápido demais para seu cérebro assimilar. Perder a noção de espaço e tempo, um minuto torna-se uma hora, uma hora volta a ser um minuto, um segundo pode significar dias, anos ou apenas um segundo.

Eu odeio essa sensação. Odeio passar pelo Portal dos Saltadores. E odeio ainda mais o que acontece depois que o turbilhão passa, mas faz parte do meu trabalho, da minha missão, do que eu sou.

Enquanto sou jogada de um lado para o outro pelo turbilhão, vejo uma luz que vai crescendo gradativamente e sem nenhum aviso prévio sou arremessada de cara na terra fria e meu corpo sai rolando descontroladamente por uns bons cinco metros até parar no meio de alguma floresta.

_Odeio aterrissar. — sinto o inconfundível gosto de terra e grama na minha boca. — Eca! Sério isso? Sério mesmo? Isso não começou bem. — fico murmurando para mim mesma enquanto cuspo a terra e tento limpar a minha boca do melhor jeito possível, de um jeito nada gracioso. Bom, nunca fui exatamente uma dama mesmo. Permaneço deitada de barriga para cima esperando passar o terrível enjoo causado pelo Portal e que a minha mente volte a ficar clara. Observo como essa floresta é linda... As arvores são grandes e grossas, suas copas parecem tentar tocar o céu, os raios de sol passam através da vegetação e banham tudo a sua volta causando um efeito de tirar o fôlego, posso ouvir e ver vários pássaros cantando e voando por ali, totalmente alheios a minha presença. Parece um conto de fadas... Até que lembro que contos de fadas não existem e que meu enjoo passou, estou pronta para continuar a missão. Levanto e limpo a terra do meu traje.

Olho para os lados e tento me localizar no meio daquela floresta. Obviamente sem sucesso. Não existe nenhuma vila, casa, pessoa e muito menos placa escrito "Ei! Você! Você mesma! Você que acabou de cair de cara do céu, siga em frente por dez minutos e achará Valfenda!" Minha vida seria tão mais fácil se existisse tal placa.

Suspiro resignada com aquela típica situação. Sei que já devia estar acostumada com essa desorientação após o Salto do Portal, mas não. Nunca consigo me acostumar, não importa quantos mundos eu visite.

Com outro suspiro olho para meu pulso e vejo meu Bracelete Guia, ele é fino e prateado, com delicados botões que quase não são visíveis, aperto alguns desses botões e tenho minha localização exata, além disso, posso ver pra onde tenho que ir e quão longe estou do meu destino.

_Dezesseis quilômetros?! Ah, fala sério! Vocês erraram feio no cálculo e me mandaram pra longe! Seus malditos! — Grito para o céu acima de mim. Sim, eu sei que eles não podem me ouvir e que minha atitude é infantil. Mas quem liga? Sou eu que vou ter que caminhar tudo isso.

Ok. Vamos lá. Quanto mais rápido eu acabar minha missão, mais rápido posso voltar para meu mundo. Ajusto meu Bracelete e deixo ele me mostrar o caminho certo. Depois de quatro longas horas de caminhada onde o silêncio foi meu único companheiro, começo a ficar um pouco irritada. Preciso chegar logo ou o conselho vai terminar. Não sei do que serve tanta tecnologia se os Alquimistas não conseguem fazer um cálculo certo! Eu devia aterrissar nos portões de Valfenda e não a dezesseis quilômetros de lá!

Estou tão perdida nos meus pensamentos e na raiva que sinto a cada passo nessa maldita caminhada desnecessária que demoro a perceber que estou sendo seguida. Quando finalmente noto a outra presença próxima a mim, automaticamente assumo uma posição de alerta e luta. E pego Sora, a minha espada que sempre está comigo.

_Saia de onde está escondido imediatamente! Posso senti-lo e se não se revelar sentirá o fio da minha espada! — Meu tom de voz é alto e forte. Só um tolo não perceberia que estou mais do que pronta para cumprir minha ameaça. Meus olhos esquadrilham o local a procura do meu perseguidor quando surge algo do meio da floresta que realmente me surpreende.

_Quem é você, menina? E o que faz aqui? — Há pouco mais de quinze metros de mim surge uma criança, uma menina, não parece ter mais que treze anos e me olha assustada.

_M-meu nome é Ella... Moro aqui perto com minha família... Só estava procurando algo para comer na floresta e acabei vendo você... Me perdoe, não tive intenção de incomodar... — Ella abaixou a cabeça e encolheu o seu já minúsculo corpo, como se esperasse que eu desse uma surra nela, ela tremia visivelmente de medo. Olhar para aquela menina magra e amedrontada fez minha raiva passar. Estou reclamando de caminhar enquanto outras pessoas tem um dia muito pior que o meu. Sinto minhas orelhas ficarem vermelhas de vergonha dos meus atos.

_Ella, venha cá. Se aproxime. — Tento usar um tom de voz mais suave, mas ainda vejo o medo estampado nos grandes olhos castanhos dela. Não a culpo por sentir medo de mim. Lentamente a criança se aproxima e eu me abaixo pra ficar na sua altura e poder olhar em seus olhos.

_Não é certo espionar as outras pessoas, é um tempo perigoso para fazer isso. E ainda mais perigoso é uma criança andar sozinha por uma floresta. — Digo isso enquanto olho nos olhos dela esperando que ela entenda a importância das minhas palavras.

_Eu s-sei... Meu pai disse a mesma coisa, mas só faço isso por necessidade! Procuro por comida e não por perigosos! Estou faminta e minha família também... — Ella abaixa a cabeça triste e com o olhar choroso. Sinto como se uma mão gélida apertasse meu coração ao ouvir isso.

_Vou te dar minha comida se prometer não entrar tão fundo na floresta novamente. Feito? — Não sei porque senti isso e muito menos porque disse isso. Já tenho problemas demais para me preocupar e essa menina não faz parte da minha missão, na verdade só estou perdendo um precioso tempo aqui. Mas... Alguma coisa no jeito dela me faz lembrar de mim mesma, quando era mais jovem... Já estive faminta diversas vezes e sei bem como é a dor de não ter comida. Uma criança não devia sentir essa dor.

Mal acabo de falar e Ella balança energicamente a cabeça em sinal que concorda com o que disse.

_Certo... Apenas observe. — A menina me olha com uma curiosidade óbvia enquanto eu estico a mão e sussurro. — Reequipar comida. — De repente surge na minha frente duas bolsas cheias com a minha comida e rapidamente entrego tudo para Ella.

_Como? Como fez isso? — Ela me olha ainda mais assustada e se possível seus olhos estão ainda maiores com o espanto do que acabou de ver. Mais uma vez não a culpo. Para ela é como se a comida tivesse surgido em um passe de mágica. Sei que ela não poderia entender o que acabou de acontecer. Até os mais sábios da Terra-Média terão dificuldade pra compreender o que faço. Mas deixo pra me preocupar com isso quando chegar a hora.

_Apenas fiz. Isso faz parte de mim. Faz parte do que eu sou. Já tem sua comida, volte pra sua casa e não diga uma palavra sobre mim. — Lanço meu olhar intimidador e sei que ela não contará nada. — Adeus, Ella da Floresta. Desejo sorte para você. — Me viro e começo a andar em frente quando a voz quase hesitante de Ella me chama.

_Ei... Minha senhora... — Movo meu rosto para o lado, a fim de olhar o que ela quer agora. — O-obrigada! Muito obrigada! — Com o canto do olho posso ver que ela esta sorrindo largamente pra mim. Isso é estranho. Ninguém sorri para mim. — Posso perguntar por qual motivo tem vestes tão diferentes e esconde o rosto?

Suspiro. Sabia que não estava sendo nada discreta com o traje que uso. Minha ExoArmadura é como uma segunda pele, me protege do frio e do fogo e de alguns ataques, é tão negra como a noite e totalmente justa, se moldando com perfeição ao meu corpo, ela me veste da ponta dos meus pés, e subindo, passando pelas minhas pernas e tronco, cobrindo até meus braços e mãos, deixando só de fora meu Bracelete Guia, e continua subindo até o pescoço, pra completar uso uma máscara de tecido que cobre praticamente todo o meu rosto, só deixando de fora meus olhos e por cima da ExoArmadura ainda uso meu manto negro. Sim, eu sei. Não é muito discreta e com certeza é um pouco assustadora para quem vê pela primeira vez, mas eu gosto. Sinto-me confortável e sem dúvida é muito melhor do que revelar meu corpo e rosto.

_É simplesmente minha roupa. Nem tudo que é negro significa mal e nem toda luz é boa. Tenha isso em mente, Ella. — Viro o rosto novamente para ir embora. Já perdi tempo demais. Mas Ella parece não perceber minha pressa de dar o fora dali ou se percebeu, não liga.

_E qual seu nome e pra onde vai, minha senhora? — Estou começando a me arrepender por ter parado para ajudar. Essa criança faz perguntas demais! Pela última vez me viro e olho bem nos olhos dela e vejo toda sua curiosidade e inocência. Não há sinal do medo que antes existia ali. Ella não me teme e nem deseja meu mal. Menina estranha.

_Meu nome... — Faz tanto tempo que não uso meu nome verdadeiro. Parece que foi há uma vida atrás que o usei. Talvez tenha sido mesmo há uma vida. Resolvo usar o nome pelo qual sou conhecida agora. — Meu nome, pequena Ella... É Peregrina e estou a caminho de Valfenda. Tenho um concelho para participar e uma jornada para começar.

Viro-me definitivamente. Sem esperar que Ella entenda minhas palavras confusas. Só tem um objetivo. Um destino. Uma missão. E ela começa em Valfenda.

Retorno a minha caminhada.

Notas finais
Se você chegou até aqui, amigo leitor, deixe um comentário para a Peregrina. Até breve.