A Peregrina
23 Segunda Origem
Notas iniciais
*Narrativa em Primeira Pessoa*
Acordei e me espreguicei... Até que aquele musgo era uma boa cama! Estiquei mais meus braços e bati em algo. Virei rapidamente e dei de cara com Legolas... Tinha batido com a mão no seu rosto, ops.
_Como sempre você não acorda tranquilamente como as outras pessoas. — O elfo estava sentado ao meu lado, como se esperasse eu acordar. Sua voz era tranquila, mas as memorias da noite passada invadiram minha mente e eu fechei a cara.
_Perdão se meus modos o desagradam, Príncipe. — Cuspi as palavras na sua direção e levantei, mas o idiota do elfo segurou meu pulso e me puxou para baixo.
_Não fale assim, Bleumer... Dói no meu coração você me tratar com tamanha frieza.
_Sou apenas uma ferramenta. Não tenho porque trata-lo diferente. — Permaneci imóvel e sem nenhuma expressão no rosto.
Mas Legolas me puxou para mais perto até envolver todo meu corpo com seus braços. Agora minha cabeça estava deitada no seu ombro, mas minhas mãos ainda estavam ao lado do meu corpo, não iria abraça-lo de volta.
_Não diga isso. Você não é uma ferramenta... Não tenho palavras para expressar o quanto estou arrependido do meu comportamento de ontem. O que eu disse não é verdade no meu coração. Eu estava cego pelo ciúme. Perdoe-me. — Legolas me abraçava cada vez mais, até o ponto de eu poder sentir as batidas do seu coração ressoando no meu próprio peito.
_Você me pede desculpas demais. Sempre vem com palavras doces depois de me deixar confusa com seus gestos ou triste com suas palavras. O que você quer? Você diz que não sou uma ferramenta, mas me trata como uma. Já não basta me usar como quer? — Minha voz estava carregada de ressentimento. Eu tinha vontade de socar aquele elfo idiota até ele desmaiar!
_O que? Eu a uso? De onde tirou essa ideia, Bleumer? — Ele afastou minimamente nossos corpos para poder olhar no meu rosto e eu não desviei o olhar. O encarei com toda a dor e raiva que sentia.
_Você me usa! Não se faça de tolo. Quando estávamos perto do rio ou lá em cima no quarto. Você sempre me toca e provoca, depois pede desculpas e me deixa. O que pensa que eu sou?! Sei que sou diferente das mulheres daqui, mas não sou sua prostituta. Não quero ser tratada assim... ! — Lagrimas começavam a surgir nos meus olhos, mas me mantive firme. Já Legolas me olhava horrorizado. Esse príncipe maldito.
_Não! Não pense assim nem por mais um segundo! — Legolas tomou meu rosto em suas mãos e encostou sua testa na minha. Ele parecia verdadeiramente transtornado. — Eu jamais a tomei por uma mulher fácil! Eu não sei o que acontece comigo, meu corpo parece ganhar vida própria sempre que estou sozinho com você. Quando tomo consciência dos meus atos, quase já é tarde demais. Eu a respeito mais que qualquer coisa no mundo, por isso sempre acabo pedindo perdão pelos meus atos! Porque acho que algumas coisas não devem acontecer da forma como fazemos... Tudo tem seu tempo.
_Você só está brincando comigo! — As lágrimas que eu tanto tentava segurar agora corriam soltas pela minha face, meu queixo tremia de raiva por Legolas.
_Isso era um dos meus maiores medos... Você achar que eu estou apenas brincando com você. Bleumer, eu sei que não estou me comportando de forma digna, mas nunca brinquei com você! Sempre somos levados por nossos instintos e não pensamos no que estávamos fazendo. Não quero que você se arrependa de nada. Por favor, acredite nas minhas palavras... — Legolas usou os polegares para limpar minhas lágrimas. A verdade no seu olhar era tão cristalina quanto o próprio azul do seu olho. Eu entendia o que ele queria falar, e ele tinha razão... Nós dois sempre éramos levados pela luxúria...
E no fundo eu sabia que Legolas não era do tipo que usaria uma mulher assim e nem brincaria com ela dessa forma.
_Eu acredito no que diz. — Murmurei em resposta.
_Você me perdoa? — Legolas continuava segurando meu rosto e olhando dentro dos meus olhos.
_Sim.
Ele me puxou e me abraçou mais forte de novo, dessa vez eu o abracei de volta. Sentindo o calor e perfume do seu corpo. Mas uma ideia me veio a mente... Aproveitei que meu rosto estava deitado no seu ombro e abri a boca, depois mordi o ombro de Legolas com força.
_Ai! Bleumer! — O elfo estremeceu, acho que pelo susto e um pouquinho pela dor. Continuei mordendo por mais cinco segundos até que o soltei.
_Pronto, agora está perdoado de verdade. — Não pude evitar rir alto por causa da expressão de confuso e idiota que Legolas fazia.
_Porque fez isso? — Ele me perguntou enquanto massageava o ombro.
_Você achou que ia se livrar assim tão fácil? Que era só pedir desculpas e pronto? Nada disso! Você merecia ganhar uma punição por isso o mordi. Idiota! — Ergui o queixo e arquei minha sobrancelha. Eu tentava fazer um cara de superior, sem sucesso, claro.
_Você é incrível mesmo. — Legolas ria enquanto levantava-se, logo depois ofereceu a mão e eu aceitei. — Vamos, Sam está preparando o café da manhã.
Então nós dois voltamos para junto da Sociedade e encontramos todos lá, comendo já. Erick me avistou e disse.
_Bleumer, é melhor você comer bastante porque hoje vamos treinar mais!
Sorri e fui me juntar aos outros. E pelos próximos quatro dias eu tive um treinamento muito duro com Erick. Ele sempre me acordava cedo para treinarmos, e eu sempre ia dormir tarde por causa disso. Não tinha muito tempo para conversas ou algo do tipo, então quase não falei com a Sociedade, mas Legolas sempre estava por perto, acompanhando meus treinos, às vezes Aragorn ou Gimli apareciam também. No terceiro dia Haldir observou o treino por um breve período e depois sumiu. Mas Boromir era o único que nunca chegava perto, na verdade ele estava cada vez mais isolado de todos.
Erick não me dava nenhum descanso, ele me mandava meditar, correr, testava minha força e velocidade. Eu estava passando quase todo meu tempo com ele e isso era muito bom, quase parecia que estávamos em Pandora treinando para a próxima missão. Era nostálgico.
Mas até que no quarto dia que estávamos no Reino de Galadriel, Erick mudou a rotina e não veio me acordar, ao invés disso eu acordei sozinha e logo depois vi o Anjo conversando com Legolas em um canto afastado. Eles estavam muito longe para eu ouvir a conversa, então decidi ir até lá.
_Do que estão falando?
_Você é muito curiosa, Bleumer. Nunca ouviu falar que a curiosidade matou o gato? — Erick respondeu enquanto bagunçava meus cabelos. Imbecil.
_Matou? Que gato? — Legolas perguntou olhando de Erick para mim. Revirei os olhos por causa disso. Idiota.
_Esqueça isso, Elfo. — Não pude evitar o sorriso. – Então, vamos treinar, Erick?
_Vamos... Mas hoje vai ser um pouco diferente. Já estamos nesse treino intenso há quatro dias e nada de você libertar momentânea sua Segunda Origem. Então vou lutar de novo contra você, mas dessa vez não vou pegar leve. Eu vou destrui-la se não lutar de verdade, Bleumer. — Erick me olhou de uma forma tão séria que não duvidei de suas palavras.
Apenas balancei a cabeça e fui seguindo Erick para o lugar que sempre treinamos. E é lógico que Legolas veio junto.
_Vamos começar. — Me dirigi ao centro do espaço e fiquei de frente para o Anjo.
_Vou usar minha Segunda Origem para lutar. Não vou me segurar e não estou preocupado em machuca-la agora. Você deve arrumar uma forma de me deter. Essa é sua última chance, se não conseguir invocar sozinha por alguns instantes esse poder dormente vou acreditar que você nunca foi capaz disso e vou treina-la do mesmo jeito que o Jardineiro fez comigo, ou seja, levará décadas.
Engoli em seco diante daquele ultimato de Erick. Aquela era realmente minha última chance. Eu precisava conseguir.
Respirei fundo, limpei minha mente e me preparei...
_Agora! — Erick gritou e avançou na minha direção. Eu não podia vê-lo! Ele estava rápido demais! Era só um borrão e antes que eu me desse conta recebi um poderoso chute no estômago.
O chute de Erick me acertou em cheio e eu fui lançada para trás, mas usei o Ar e consegui deter minha queda. Pousei, mas não consegui sustentar meu corpo, acabei cedendo e ficando com um joelho no chão. Parecia que o ar dos meus pulmões tinha sido roubado. Aquele chute foi forte demais e naquela hora percebi que Erick realmente não estava brincando. Ele levaria essa luta até o limite.
_Levante! Eu nem comecei! — O anjo gritou de novo e eu juntei minhas forças e levantei.
Corri em sua direção o mais rápido que pude e ergui o punho, estava pronta para dar um soco nele, quando Erick simplesmente correu para cima de mim, diminuindo a distância, e segurou minha mão, no mesmo movimento ele torceu meu braço para trás com força. Trinquei os dentes com a dor e bolei um novo plano. Usei meu poder e chamei a Terra, uma rocha de no mínimo 30 kg saiu do chão e foi certeira na direção da cabeça de Erick. Mas o Anjo girou seu corpo, ainda me segurando pelo braço e em um gesto inesperado me lançou contra a rocha que vinha em sua direção. Mal tive tempo de pensar, apenas pedi que a pedra abrisse no meio e eu fui lançada entre as duas bandas, mas as pontas afiadas da pedra tinham cortado meus braços e pernas.
_Seu maldito! — Gritei para Erick enquanto me recuperava do ataque.
_Precisa fazer mais do que isso! Vamos! Invoque o poder! Lembre do que sentia quando estava na montanha!
Eu tentei, realmente tentei lembrar do que senti enquanto estava na montanha, mas não conseguia! Era tudo muito confuso, minha memória sobre aquilo parecia que tinha tirado férias.
Senti uma presença atrás de mim e virei, no mesmo segundo Erick já estava pronto para dar outro golpe, mas agora ele tinha reequipado uma espada que descia na minha direção. Quase não tive tempo de reequipar Sora, girei o corpo e parei sua espada com a minha.
_Sabe, não gosto de lutar com espadas, prefiro minha pistola, mas vou ser gentil e usar as armas que você usa. — Ele falava tudo isso com calma enquanto forçava cada vez mais sua espada contra a minha. Nem parecia estar fazendo esforço para isso enquanto eu mal podia aguentar combater sua arma. A força de Erick era assustadora.
Dei um pulo para trás para separar nossas espadas.
_Não preciso da sua gentileza! — Cuspi as palavras e avancei de novo contra ele, mas agora com Sora em punho. Antes que eu pudesse atingi-lo, Erick levantou sua mão livre e apontou para mim. Um milésimo de segundo depois senti uma dor aguda explodir pelos meus dedos da mão direita. Quando olhei vi que três dedos estavam em posições totalmente antinaturais. Estavam virados para os lados e inchados. Um grito de dor escapou da minha garganta e eu larguei Sora no chão. Dei pulos para trás até ter distância de Erick. Esse maldito usou sua telecinese para quebrar os meus dedos e eu não poder usar Sora!
Só agora percebi que Erick ainda não tinha usado seu poder especial até o momento.
_Cansei dessa brincadeira, Bleumer. Vamos levar isso para um novo nível. Esse será o final da luta. — Erick continuava tranquilo, nem estava suado pelo esforço.
Olhei para o estrago na minha mão, eu não tinha como empunhar uma arma com a mão direita e minha mão esquerda não era muito boa para isso. Só me restava usar os Elementos como armas.
_Pode vir! — Gritei em desafio em meio a dor.

Erick voou usando sua telecinese e na mesma hora já estava em cima de mim. Tentei usar o Ar para criar uma espécie de escudo, mas o Anjo facilmente venceu minha defesa e deu outro soco no meu estômago. Arfei e tentei me afastar, mas ele não permitiu. Erick me deu uma rasteira e eu cai no chão, na mesma hora ele já estava montando em cima de mim.
Entrei em pânico.
Os olhos de Erick estavam tão frios quanto uma tempestade de neve. Ele estava totalmente decido a ganhar aquilo. Ele não iria parar.
_Liberte seu poder! Lembre-se do que fez! Peregrina! — Ele gritava a poucos centímetros do meu rosto e eu entrava cada vez mais em pânico. Em um gesto desesperado juntei o máximo da minha energia e conjurei o Ar, mandei o elemento jogar Erick para longe de mim. A sensação foi de tentar mover uma montanha, berrei em desafio e para minha alegria Erick acabou sendo jogado para trás, mas ele apenas foi lançado alguns poucos metros. Ele era poderoso demais! Mas pelo menos isso me deu a chance de levantar.
_Hmm... Bom. Isso mesmo. Me pegou de surpresa. Continue assim e talvez consiga me vencer.
O único problema foi que usei boa parte da minha energia vital nesse único golpe e o máximo que fiz foi lança-lo um pouco longe. Eu não tinha energia suficiente para manter esse ritmo durante a luta, morreria antes de conseguir vence-lo.
_Reaja! — Mais uma vez Erick vinha na minha direção, mas dessa vez foi diferente... Seus olhos antes frios, agora pareciam pegar fogo, como se raios passassem neles e destruíssem tudo a sua volta.
Era o olhar de um guerreiro pleno.
Tive medo.
Chamei o Fogo e ergui uma parede flamejante na minha frente, mas Erick passou por ela como se não fosse nada. Então senti o primeiro ataque, parecia um soco muito forte, então senti outro ataque e mais outro e outro. Erick estava usando sua telecinese para me socar, a sensação era como se tivesse dezenas de mãos me golpeando ao mesmo tempo.
Tentava me defender, mas era inútil. Eram golpes demais em uma velocidade fora do normal. Então o próprio Erick me golpeou no rosto e eu cai no chão, desorientada. Mas ele não parou.
_Lute! Lembre de como fez! Salve sua vida! — A cada palavra era um golpe diferente, que eu nem sabia mais de onde vinha. Só sentia dor e mais dor se espalhando pelo meu corpo. Erick segurou meu vestido pela frente e me ergueu do chão. — LUTE! — Com isso ele armou mais um soco. Se ele me acertasse com isso iria afundar meu crânio! Erick ia me matar!
Levantei as mãos, mas era um gesto inútil. Meu corpo não respondia mais, tudo estava doendo. Minha energia vital estava perto do fim. Eu ia morrer com o próximo ataque.
_Acho que estava enganado. Você não consegue invocar a Segunda Origem. — Mas então Erick me largou no chão e me olhou de cima. — Só que ainda quero lutar... Acho que vou lutar contra aquela fadinha da floresta ali. — Erick apontou e quando olhei vi que ele falava de Legolas. Durante toda a luta Legolas não se manifestou e eu acabei esquecendo da sua presença. Seu silêncio foi estranho, já que sempre que Erick pegava um pouco mais pesado no treinando Legolas reclamava com ele. Mas agora o elfo ficou calado assistindo tudo.
Estranho.
Senti como se uma mão gélida apertasse meu coração. Erick não podia lutar contra Legolas! Ele iria matar o elfo! Eu estava totalmente impotente no chão, meus músculos não me obedeciam. E com um pânico crescente vi Erick voar na direção de Legolas, em menos de dois segundo Erick acertou o elfo no rosto e Legolas voou para trás.
_Não! Pare, Erick! — Eu berrava inutilmente, já que ninguém me ouvia.
Legolas levantou, ele tentou acertar Erick com suas flechas, mas o Anjo desviou todas com seu poder.
_Pare! — Tentei fazer meu corpo idiota se erguer e me levar até onde os dois estavam, mas eu não saia do lugar.
_Nunca gostei de você, Fadinha... Acho que eu devia mata-lo agora. — Erick usou mais um de seus ataques e arremessou o corpo de Legolas longe, então o elfo bateu com força em uma parede e caiu no chão. Legolas não se movia, seus cabelos estavam caídos na frente do rosto e eu não podia ver como ele estava. — Adeus, Fadinha. — Erick reequipou sua pistola e apontou para a cabeça do Elfo.
_NÃO!– Berrei com toda a minha força.
Não. Legolas não podia morrer! Ele era meu! Meu elfo! Meu idiota!
Então de súbito todas as lembranças do que aconteceu na montanha voltaram. Eu lembrei e logo depois senti a mesma energia poderosa e bondosa me invadindo. Era a Luz
.
Meu corpo parecia estar repleto de força e Luz. Eu sentia que podia fazer qualquer coisa.
E como da última vez o tempo parecia se mover mais devagar para mim. Vi Erick apontar a pistola e vi Legolas inconsciente no chão. Então o único desejo se fez presente em mim. Proteger Legolas.
Chamei todos os meus elementos, Ar, Terra, Fogo e Água. Juntei todos em uma bola maciça de poder embebido pela Luz e lancei na direção de Erick.
Meu ataque parecia um raio violeta que rasgava o espaço e ia certeiro com um só objetivo. Eu sabia que não ia errar. Pois aquele era meu desejo absoluto, minha vontade sobrepujava tudo.
Erick ainda se virou a tempo de ver meu ataque chegando, mas não teve como se defender. Foi atingido em cheio e voou até se chocar contra outra parede.
Legolas estava a salvo agora.
O alívio me invadiu e aquela energia toda me abandonou.
Me senti vazia.
Meu corpo não se sustentou mais e foi caindo de encontro ao chão.
Meus olhos estavam muito pesados.
Mas no último instante vi Legolas se levantando e correndo na minha direção... Ele não estava inconsciente... ? Estranho...
A escuridão me tomou e eu apaguei...
Aos poucos fui recobrando os sentidos. Abri os olhos, mas a claridade os feriu e tornei a fecha-los.
_Ela está acordada! — Alguém disse... A voz parecia ser a de Legolas.
_Finalmente. Até quando queria dormir, hein, Bleumer? — Essa segunda voz era de Erick... ?
Tentei abrir os olhos de novo e dessa vez deu certo. Vi que ainda estava no espaço de treinamento, deitada no chão e com Erick e Legolas envolta de mim.
_O que houve... ?
_Você conseguiu despertar momentaneamente sua Segunda Origem. Agora posso liberta-la completamente! — Erick me respondeu e quando eu o olhei... Nossa! O que aconteceu com ele?! Erick estava em trapos. Parecia que tinha acabado de sair de uma guerra. Sua camisa e casaco estavam parcialmente destruídos. Seu nariz devia estar quebrado e tinha um corte fundo no supercílio, que tinha sujado o rosto dele de sangue. Ainda havia um corte no seu lábio que estava em carne vivam e por último seu ombro parecia bem machucado, como se estivesse queimado.
_O que aconteceu com você, Erick?! — Tentei levantar, mas Legolas me empurrou gentilmente para baixo.
_Calma, não se esforce. — Agora o elfo que falava comigo e quando o olhei... Ele não tinha nenhum machucado! Por Erick bater em Legolas daquele jeito, era de se esperar que o elfo estivesse ferido, mas não! Ele estava completamente bem!
Que. Está. Acontecendo. Aqui?!
_Alguém vai me explicar o que aconteceu aqui ou não? — Minha voz soou irritada. Eu já estava perdendo a paciência.
_Me desculpe, Bleumer. Bom, eu sempre acabo pedindo desculpas, não é mesmo? Mas agora devo pedir perdão, pois trai sua confiança, mesmo que tenha sido com boas intenções, foi uma traição e... — Legolas parecia verdadeiramente triste enquanto falava, mas eu não estava entendendo nada. Até que Erick o interrompeu.
_Corta o papo furado. O que a fadinha aqui quer dizer é que mentimos e enganamos você. — Erick me disse na maior tranquilidade.
_O que?!– Acho que minha voz saiu um pouco mais alto do que eu queria.
_Eu explico. Antes do treinamento eu combinei com a fadinha que ele não devia intervir na luta de jeito nenhum. E que eu tentaria faze-la libertar momentaneamente seu poder, se você não conseguisse isso mesmo eu ameaçando sua vida, eu iria para o plano B, ameaçaria a vida de outra pessoa para ver se você conseguia invocar a Segunda Origem e salvar essa pessoa. — Erick contava tudo com seu sorriso torto no rosto. Como se não estivesse falando de nada demais.
_Certo... Mas ainda tenho duas dúvidas. Primeiro porque você está tão machucado assim, Erick? E como você não está machucado, Legolas? — Minha cabeça parecia girar cada vez mais. Aquilo não fazia sentido. Erick não devia estar nesse estado e eu tinha visto Legolas cair inconsciente no chão.
_Está brincando, né?! Estou assim porque você me deixou nesse estado! Tudo isso foi resultado do seu ataque. Eu mal tive tempo de me defender! Estava tentando me matar, mulher?! — Erick me respondeu enquanto ria. Acho que ele era o único imbecil que ficava feliz de se ferir dessa forma. Vai entender... Mas uma coisa chamou minha atenção... Realmente não esperava que meu ataque fosse assim tão poderoso. Durante a luta eu mal tinha conseguido encostar em Erick e agora eu o machuquei bastante, não só isso, eu o derrotei.
Um sorriso começou a se espalhar pelos meus lábios... Eu consegui vencer!
Até que Legolas tomou a palavra e minha atenção.
_Erick não estava lutando de verdade contra mim. Só foi uma encenação. Ele usou a sua telecinese para me jogar contra algo e depois usava de novo seu poder para deter a minha colisão, com isso criando um solavanco. Combinamos tudo isso antes. — O elfo disse com tanta tranquilidade que eu não tinha como duvidar, até porque seu corpo não exibia nenhum ferimento.
_Então quando eu acordei e os vi conversando sobre algo... Era isso?
_Sim. — Os dois responderam em uníssono. Ok... Aquilo era estranho! Desde quando Legolas e Erick conversam de maneira civilizada e trabalhavam em equipe?!
Tentei levantar, mas o elfo não permitiu.
_Não se esforce, Bleumer... — Então Legolas segurou minha mão com tanto carinho e suavidade que mais parecia que uma folha tinha pousado na minha mão. Olhei para meu próprio corpo e vi que já estava cheio de bandagens e faixas. Nenhum ferimento estava exposto.
Depois olhei para meus dedos inchados e enfaixados. Erick seu maldito! Por alguns instantes fiquei com raiva dele. Mas logo depois entendi que aquilo só foi um treinamento. Não foi uma agressão gratuita. Erick apenas lutou de verdade contra mim. Esses ferimentos pelo meu corpo fazem parte do que eu sou. Uma guerreira.
_Agora que tudo foi explicado e que você se mostrou capaz de libertar momentaneamente sua Segunda Origem, vou finalmente liberta-la por completo, Bleumer. — Erick falou e na mesma hora meu coração disparou. Mal podia acreditar que ia conseguir mais poder e força para proteger aqueles que são importantes para mim.
_Calma. Ela esta machucada. Não é melhor esperar que se cure? — Legolas perguntou enquanto olhava para o Anjo.
_Não, não é necessário. Quando a Segunda Origem for liberada vai curar todos esses machucados. A Luz vai cura-la.
_O que eu preciso fazer? — Perguntei para Erick. Não tinha ideia do que viria a seguir.
_Nada, apenas continue deitada. Eu faço o resto. — O anjo piscou para mim e deu seu melhor sorriso zombeteiro. Esse imbecil...
Senti que Legolas ainda segurava minha mão e isso me passou confiança, afinal eu estava um pouco tensa com o que iria acontecer.
Limpei a mente e respirei fundo...
Erick se postou melhor ao meu lado e inclinou-se na minha direção. O Anjo apoiou uma mão bem em cima do meu coração, me senti um pouco constrangida pela região que ele tocava, mas ao olhar melhor para a expressão de Erick vi que ele estava totalmente concentrado no que fazia, portanto seu toque não tinha malicia nenhuma, e sua outra mão ficou esplanada sobre minha testa.
_Bleumer, preste atenção. Você vai sentir uma energia poderosa a invadindo. Você não deve resistir ou lutar contra. Apenas aceite. — A voz de Erick soava tão profunda e séria. Ele próprio parecia muito sério, na verdade ele parecia... Pleno.
Apenas balancei a cabeça e esperei... As mãos do Anjo em cima de mim pareciam ficar mais quente a cada segundo. Não só isso, Erick parecia emanar uma aura de luz então comecei a sentir essa mesma luz me invadindo.
Era como ter um Sol tentando passar sua energia para mim. Era tudo intenso demais, poderoso demais, assustador demais. Quase que automaticamente quis me retrair e não permitir aquilo.
_Aceite, Bleumer! — A voz de Erick reverberou pelo meu corpo todo. E me controlei para aceitar aquela situação. Aquela invasão.
Eu sentia que era poder demais para meu corpo aguentar, chegava a ser doloroso. Parecia que tudo dentro de mim estava mudando, expandindo-se, aprimorando... Cerrei os dentes tamanha a agonia e estranheza da situação. Apertei com mais força a mão de Legolas em busca de apoio.
Era como se meu sangue tivesse virado fogo e meus ossos gelatina. Tudo parecia queimar dentro de mim. Como se essa Luz estivesse devorando todo meu ser e em troca daria algo novo. Desde a ponta dos meus pés até o último fio de cabelo, tudo parecia mudar, ser inundando de poder. Era terrivelmente doloroso, mas de alguma forma que eu não entendo... Era uma dor boa. Como se fosse o certo passar por aquilo, como se meu corpo e mente sempre estivessem esperando esse momento. A certeza que eu fazia algo correto nunca foi tão forte.
As mãos de Erick ainda pressionavam meu peito e testa. Seu rosto era uma mistura de concentração profunda e esforço. Já Legolas não tinha desviado o olhar do meu rosto nem por um segundo.
Então veio... Uma explosão aconteceu dentro de mim. Como se uma mini fusão nuclear tivesse eclodido dentro da minha alma. Eu não via nada. Eu não ouvia nada. Eu não sentia o cheiro de nada. Eu não sentia o gosto de nada. Tudo foi anulado e substituído pela mais brilhante e incrível Luz.
Eu flutuava entre fachos de Luz, na verdade, eu própria era feita de Luz. Tudo era feito com Luz, Amor e Bondade. Eu sentia como se estivesse dentro do Viajante. As eras de todo o Universo passaram dentro da minha mente, tão rápido que a memória sobre isso era esquecida no mesmo instante.
Então eu gritei e meu grito era Luz.
Acordei de súbito e olhei em volta.
_Bleumer! Você esta bem?! — Legolas estava ao meu lado, segurando minha mão com força. Ele me olhava de um jeito tão preocupado...
_Sim... Estou... — Eu mal conseguia encontrar minha voz.
_Está feito. Sua Segunda Origem foi libertada. Agora você é tão plena quanto eu. Ainda somos imperfeitos diante do Jardineiro, mas somos os Anjos do Destino mais próximos do poder do Viajante. — Olhei na direção de Erick e me assustei... Ele parecia totalmente exausto. Como se sua energia vital estivesse quase no fim.
_Erick? O que houve?! — Me ergui e toquei seu rosto, procurando inutilmente uma forma de entender o que tinha acontecido com ele.
_Apenas vamos dizer que liberar a Segunda Origem de alguém não é a coisa mais fácil do mundo. Mas não se preocupe, além de incrivelmente lindo, eu sou forte. Esta tudo bem. — Erick sorriu na minha direção, mas o seu sorriso não chegou até seus olhos. Ele estava cansado demais.
_Bonito é a última coisa que você está agora, Erick. — Não pude evitar um risinho por causa daquilo.
_Isso quase me magoou. — O Anjo disse e fingiu um tom magoado.
_Bleumer, vamos voltar para nosso lugar de descanso. — Legolas interrompeu minha conversa com Erick e levantou-se, em seguida me ergueu. Quando fiquei de pé percebi que não sentia dor nenhuma. Olhei para meu corpo e vi que os ferimentos estavam curados. Optei por tirar as bandagens, elas eram desnecessárias agora.
Erick precisou de ajuda para caminhar, o elfo mesmo não gostando dele ofereceu seu ombro para o Anjo se apoiar, mas é claro que Erick recusou prontamente. Por fim eu sustentei o seu corpo com ajuda do Ar e todos voltamos para perto da Sociedade.
No caminho percebi como eu me sentia mais forte, mais do que isso... Eu me sentia capaz de fazer qualquer coisa. Parecia que uma força extra tinha sido adicionada ao meu corpo.
Eu estava muito mais forte.
Eu sou uma guerreira.
Eu sou uma guerreira plena agora.
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