A Perdição do Olimpo
2 Capítulo II
Notas iniciais
Agarro a última camiseta no fundo da gaveta e jogo-a dentro da mochila. Me agacho e recolho meu par de botas debaixo da cama. Assim que as calço uma criança aparece na porta do quarto.
– A Diretora tá chamando você. Seus novos pais tão aqui. — ela lança um sorriso em minha direção e então saí saltitando do quarto. Penso em quantos do orfanato souberam da notícia. Eu mal cheguei na instituição e já estou indo embora. Pior, eu estou em uma idade em que muitos deles desistem de serem adotados. Devem estar sentindo inveja de mim.
Bom, eu não sinto. Trocaria de lugar com qualquer um deles sem pensar duas vezes.
Jogo uma alça da mochila sobre o ombro e começo a atravessar o quarto quando percebo uma sombra se movendo à minha direita. Me viro e então me deparo com uma garota de cabelos negros na altura do ombro, olhos negros e pele bronzeada.
Eu estou vendo meu reflexo.
Havia me esquecido de como era minha aparência e até então, não tinha reparado nesse espelho em uma das paredes.
Ele está bem à esquerda da cama de uma das garotas que dividem o quarto comigo. Dividiam. Eu estou indo embora. Mas não sinto como se fosse deixar esse lugar por muito tempo. Eu poderia apostar que em duas semanas vou entrar por aquela mesma porta e jogar minhas coisas nesse mesmo chão.
Me aproximo do espelho e analiso minha aparência.
Algum tempo atrás meus cabelos eram iguais os da minha mãe. Castanhos avermelhado. Mas eu optei por apagar qualquer traço que tinha dela em mim mesma. Desde o acidente, tenho pintado meu cabelo de preto e mantendo-o curto e desfiado. Uma franja desce sobre minha testa e começa a alcançar meus olhos.
Meus olhos começam a lacrimejar. Dou meia volta e vou até o banheiro. Lá eu retiro da mochila o estojo onde guardo minhas lentes de contato e o coloco sobre a pia. Olho no espelho e cuidadosamente retiro as lentes. Pego o soro fisiológico e lavo-as. Lanço um olhar em direção ao espelho e vejo uma imagem embaçada, porém olhos azuis elétricos brilham em minha direção. Abaixo a cabeça rapidamente e me concentro em terminar de lavar minhas lentes e recoloca-las.
Uma vez, quando eu tinha 5 anos, minha mãe me disse que eu havia herdado os olhos de meu pai. O homem que a abandonou. Que me abandonou.
Naquela tarde ela me encontrou encolhida no canto do quarto, chorando. Quando ela me perguntou o que estava errado, eu respondi "Meus olhos" e ela entendeu imediatamente o que eu queria dizer.
No dia seguinte, fomos ao oculista e trocamos meus óculos por lentes de contato.
Fora o grau que eu preciso para enxergar, elas são pretas. Ocultam completamente o azul de meus olhos e me distanciam do parentesco que eu não posso cortar, mas posso ignorar.
Assim que consigo enxergar novamente me direciono para a porta do quarto. Assim que ultrapasso o portal, sou jogada violentamente contra o chão.
– Mas que merda! — grito enquanto me levanto. Algum novato, com certeza. De certo ainda não levou castigos o suficiente para aprender as regras.
Quanto minha visão entra em foco novamente e eu consigo me orientar, vejo um garoto loiro com aparentemente a mesma idade que a minha. Seus olhos castanhos me encaram de volta e aos poucos seu rosto forma um sorriso. Não pra mim. Mas por minha causa. Ele começa a rir.
– Percebeu como você saiu voando quanto eu te atingi? — mais risadas — Precisa aprender a firmar seus pés no chão ou vai acabar flutuando por aí. — as risadas se transformam em gargalhadas e sinto meu rosto quente. Agradeço por ter pego muito sol ultimamente, ou neste instante, ele teria mais um motivo pra rir me vendo vermelha de vergonha.
– Cale a boca — digo, num meio sussurro e avanço em sua direção. Dou-lhe uma trombada com meu ombro livre e sigo em frente.
– Ei, eu estava brincando. — ele está segurando meu braço. Volto-me a ele e o encaro. O ar travesso não saiu completamente de seu rosto mas as risadas cessaram.
– Me solte, novato. — puxo meu braço mas ele não o solta. Seus olhos se estreitam.
– Como sabe que eu sou novato?
– Se estivesse aqui a mais tempo, eu já teria quebrado a sua cara. — Eu poderia ter dito que era porque ele estava correndo pelos corredores e se estivesse aqui a mais tempo, já teria aprendido que isso acarreta em uns dois dias trancado no porão. Mas optei pela má resposta.
Uma sombra passa pela janela e eu escuto o som de um trovão ao longe.
– Você acha que ganharia de mim em uma luta? — seu rosto começa a formar outro sorriso; quando começo a ver seus dentes sinto que estou me enfurecendo. — Você é magricela e mais baixa que eu, não ganharia de mim nem se eu deixasse, muito menos com... — Ele não termina de falar. Não poderia. Neste momento eu faço o que qualquer pessoa racional sob pressão faria.
Eu soco ele.
E ele faz o que outra pessoa racional faria nesta situação. Ele me soca de volta.
O nariz dele começa a sangrar no segundo soco que eu consigo atingir. Me desvio dos golpes dele. Ele avança sobre mim e agarra minhas pernas, como um jogador de futebol americano. Meu quadril vai de encontro ao chão enquanto ele mantem seus braços firmes contra minhas panturrilhas. Puxo uma das pernas com força e atinjo meu joelho em seu queixo. Ele solta minhas pernas e rola para o lado, eu me levanto e coloco meu pé sob seu peito, pressionando para que ele não consiga levantar. Eu aparento ser magricela, mas entrar em brigas com a frequência a que me sujeito pode ter suas vantagens. Eu sou suficientemente forte pra dar uma surra em alguém. Principalmente nele.
Começa a chover e eu posso sentir os pingos de água entrando pela janela do corredor. A chuva gelada açoita minha pele e uma brisa fria balança meu cabelo.
Quando volto meu olhar para ele, consigo distinguir um sorriso se formando no seu rosto tingido de vermelho.
– Um cavalheiro sempre deixa a dama ganhar a luta. — ele solta uma risada.
Estreito meus olhos e pressiono minha bota com mais força contra seu peito.
Me agacho o bastante para que meu rosto fique à 10 centímetros do dele.
– Se eu deslocasse meu pé para seu pescoço e o pressionasse com bastante força por uns 20 segundos, você estaria morto e a última coisa que veria seria meu sorriso de escárnio... otário.
Porém, eu faço exatamente o contrário quando endireito meu corpo e retiro minha bota de seu peito. Ele me lança um olhar surpreso quando eu lhe estendo minha mão. Ele a segura sem questionar e se levanta.
Puxo minha mochila para a frente do meu corpo, retiro uma bandagem de dentro e lhe entrego. Seu nariz continua sangrando então ele aceita. Assim que ele a coloca sobre o rosto, o pano se tinge de vermelho vivo.
O que eu devo falar? Pedir desculpas, xinga-lo ou perguntar seu nome? Possíveis perguntas giram na minha mente, mas neste instante duas pessoas se aproximam de nós e eu não preciso dizer nada.
– O que aconteceu com seu rosto, Fur? — O nome dele é Fur? — Eu não te disse para tomar... — Ela não termina a frase porque é aí que nota minha presença. Seus olhos cinzas se lançam em minha direção. Ela não tem mais que 19 anos, com certeza. Porém, quer apresentar mais idade.
A garota veste uma saia longa e quadriculada, uma camisa com bordados na frente abotoada até o último botão e sapatos de saltos baixos. Ela é mais baixa que eu uns 10 centímetros mas tem um corpo mais feminino que o meu. Seu cabelo é dourado e está amarrado em um coque firme. Suas bochechas são rosadas e seu nariz empinado. Ela é bonita, mas de um jeito prepotente.
– Você causou essa desgraça no rosto dele? — Ela está com a cara fechada, mas vejo um brilho de divertimento em seus olhos. Decido que gosto dela.
– Ele provavelmente provocou, Simone. — quem fala é o garoto que a acompanha Simone. Ele poderia ter mais de vinte anos se não fosse seu rosto com traços infantis. Ele é negro e alto, mais alto que todos nós e provavelmente mais forte. Eu poderia apostar que seus dois braços dariam a largura do meu corpo. Veste uma roupa social neutra, mas pela bainha da camisa eu consigo ver uma pulseira prata estranha. Ela é composta por uma base lisa de metal com várias correntes douradas envolvidas. — Vamos embora agora, filho. — Meus olhos se arregalam. Ele disse filho? Não consigo acreditar na minha sorte. Além de ter uma visão péssima minha audição também está se deteriorando? Não é possível.
– A chuva passou. Tão rápida quanto começou. — Simone comenta. Ela não direcionou o comentário a ninguém em especial porém sinto seu olhar pesar sobre mim. Me viro e olho em sua direção. Seus olhos sustentam um brilho diferente. Curiosidade, compreensão, medo, admiração. Tudo passa como um lampejo em menos de um segundo enquanto ela olha pra mim.
– Vamos embora, filho. Não encontramos nada, até agora. — Os olhos de Simone se estreitam ainda mais quando diz isso, lançando um rápido olhar para mim enquanto conversa com o garoto, o Fur.
Dessa vez eu não entendi errado. Ela disse filho, assim como o outro garoto que a acompanha.
– Por que você o chama de filho? Vocês tem praticamente a mesma idade! — Assim que pronuncio essas palavras os três se viram pra mim. O garoto Fur carrega o mesmo olhar de diversão de quando o conheci, mas dessa vez é uma diversão mais infantil, como se o Natal tivesse chegado mais cedo. Simone, porém me lança um olhar prepotente, como se eu tivesse dado uma resposta certa para algum tipo de pergunta. O único que não parece contente é o rapaz, que me olha com medo nos olhos.
Loucos.
Simone se vira para o rapaz e eu ouço algumas palavras enquanto ela sussurra rapidamente. Posso distinguir as palavras "achamos" "névoa" e "insanidade". Nas duas primeiras palavras ele balança negativamente a cabeça, mas na terceira ele concorda. Me sinto inclinada a imita-lo, também concordo que isso tudo seja insano.
Quero dar o fora daqui.
Arrumo a alça da minha mochila e passo por eles rumo ao saguão, mas uma mão aperta meu braço. Uma mão levemente molhada e grudenta. Sangue.
Claro, o tal do Fur.
– Para onde você vai? — ele me olha e eu percebo que ele está um pouco decepcionado. Mas que merda, ele está triste porque eu estou indo embora? Eu acabei de surra-lo! Decido que, definitivamente, essas pessoas não são pra mim. — Olha, eu sei que é loucura, mas eu acho que você precisa vir com a gente. — ele me lança um meio sorriso enquanto larga meu braço. Atrás dele, os outros balançam as cabeças concordando.
– Ir com vocês? Enlouqueceram? Vocês tem noção do que estão me pedindo? Eu nem... — não termino o que digo, porque um estrondo de passo no corredor me assustam.
Ela.
A Diretora da Instituição.
Nós nunca a chamamos pelo nome ou sobrenome, se é que ela tem algum. A sala dela contém apenas as palavras "A Diretora" em uma placa sobre sua mesa e em uma tabuleta sobre a porta. Ninguém nunca perguntou seu nome. Alguns dizem que é porque ninguém é corajoso para tanto. Eu digo que é porque ninguém é tão estúpido.
Seus olhos são pequenos e fundos, de um cinza cor de aço. Sua pele é enrugada e pálida. Seus rosto, coberto de pequenas sardas marrons, e seus lábios, uma linha fina e apertada, dando a impressão de que ela está constantemente reprovando algo.
Ela possuí um cabelo grande e cinza, sempre mantido preso em uma trança que atravessa suas costas em direção ao quadril.
Suas roupas são geralmente cinza perolado ou cinza chumbo. Um sapato com um salto de 15 centímetros a deixa com quase 2 metros de altura e faz ser ouvida por onde passa.
Todos os órfão a temem e nutrem um medo profundo por ela. Eu apenas acho que ela é uma velha querendo impor respeito.
Assim que eu registro seu rosto de profunda ira voltado à mim, eu consigo perceber o casal atrás dela.
Ótimo. Meus novos pais. Bom conhecer vocês.
Eu esperava um casal no nível da Diretora, velhos, ranzinzas e amargurados. Mas não foi o que eu encontrei.
Eu tenho a minha frente um casal de adultos, de cabelos negros e olhos verdes, felizes e calmos. A mulher é da minha altura e o homem, pouco mais alto que nós duas. Seus traços são bondosos e seus sorrisos, igualmente brancos.
Mas algo me inquieta nos dois.
Não tenho tempo para pensar mais sobre o assunto, já que a Diretora vira para mim com fúria e eu preciso me preparar para ouvi-la destilar seu ódio.
– Eu esperava um pouco mais de pontualidade de você, Senhorita Havoc. — Ela estreita os olhos. Gostaria de meter-lhe um tapa. — Seus futuros pais vieram te buscar e, infelizmente, esperaram muito pela Senhorita. — seus lábios se apertam ainda mais e se eu pudesse ler sua mente, iria escutar "órfã vagabunda, sorte sua que está indo embora, ou ficaria trancada uma semana sem comida alguma". Adorável.
Ela lança um olhar para atrás de mim e então seus olhos se arregalam. Droga. O garoto do sangue. Agora eu estou definitivamente ferrada.
A Diretora inspira com toda a força e posso ver sua mente maquinando enquanto tenta entender o quê seus olhos vêm.
– O quê — ela expira — aconteceu — ela inspira — aqui?– expira com força. Posso imagina-la como um grande dragão enquanto expira labaredas de fogo para fora de suas narinas. Um grande e odioso dragão. Gostaria de trespassar uma espada em sua cabeça.
– Ah, desculpe-me Senhora, mas meu filho tropeçou enquanto corria por seus corredores e machucou o nariz. Porém a Srta. Havoc fez a gentileza de o ajudar. — Simone sorri para ela. A Diretora não parece notar que uma garota de 19 anos acabou de chamar um garoto de 16, de filho e apenas fecha a cara e os ignora.
– Você está pronta? — ela não espera uma resposta — Vamos ao meu escritório para que possamos terminar de ajeitar a papelada. — Claro, eu ainda preciso assinar alguma coisa.
Ela segue em frente, sem esperar para verificar se eu a estou seguindo. Meus futuros pais adotivos olham para trás, para aqueles malucos que estão atrás de mim e por um momento vejo um brilho em seus olhos, um brilho predatório. Porém, ele desaparece tão rápido quanto chegou e eu fico em dúvida se realmente aconteceu. Eles sorriem pra mim e a mulher me estende a mão.
Eu olho para Simone, o tal garoto Fur e o rapaz alto. Eles devolvem o meu olhar. Sinto que eles querem me dizer alguma coisa, mas eles não falam nada.
Quando me viro para frente e dou meu primeiro passo sinto uma mão segurando a minha e olho para os olhos do garoto ensanguentado.
– Tome cuidado. — Por quê ele me diz isso? — A propósito, qual seu nome? — eu solto minha mão da dele. Viro para frente e começo a andar. Quando estou à uns 3 metros de distância eu grito.
– Helena, e o seu?
Eu já me afastei 7 metros quando ouço seu grito distante.
– Henrique.
Assim que eu entro no saguão posso ver a luz do sol entrando pelas portas de vidro.
A tempestade passou.
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