A Pequena Mary
2 O começo de uma amizade
Notas iniciais
Antes de tudo, devo lhes dizer que esta historia não é minha, e sim de uma pessoa no qual há tanto tempo venho observando. Ao longo de minha vida, não pude deixar de notar a existência, mesmo que mínima, daquela adorável menina. Sempre que possível, eu ficava trancada em meu quarto, me perguntando os motivos que aquelas pessoas tinham para trata-la daquele jeito. Era um tanto incomum, ate por que, sempre que a via conversando com alguém, qualquer que fosse, ela se mostrava gentil e amigável. Foi ai que percebi o quanto éramos parecidas, não fisicamente, mas sim em pensamentos, pensamentos suicidas, aqueles em que ele lhe diz que a vida é uma droga e que você deveria abandona-la. Ainda lembro-me bem da primeira vez que nossos olhos se encontraram, quando eu estava parada em frente à janela de minha casa. Por dentro, eu podia observa-la, e por um acaso, acabei por notar os pequenos cortes quase invisíveis, talvez, por que fizesse tempo que ela não tocara em algo com pontas afiadas, algo que pudesse lhe causar dor e que a fizesse esquecer-se da dor. Foi naquele momento que passei a querer ajuda-la, a querer ser sua amiga. Pois mesmo sem ela saber, eu entendia perfeitamente o que ela sentia, e de como aquilo doía.
Aquela menina precisava seriamente de ajuda, mas não era qualquer ajuda. Lembro-me, que varias vezes ela saia acompanhada de sua mãe, uma mulher baixa com o corpo arredondado. Cheguei a me perguntar, tantas vezes, para onde ela ia, e com o tempo descobri que visitava a um psicólogo. Aquilo só fez com que minha curiosidade aumentasse a tal ponto, que um dia cheguei a colar meu ouvido na parede apenas para ouvir as vozes da casa ao lado. Infelizmente, a única coisa que consegui com aquilo, foi escutar os gritos direcionados a ela.
Um dia, sem ter nada para se fazer em minha casa, acabei por sentar-me no sofá da sala e fiquei a ouvir música. Com o passar de alguns minutos, escutei o barulho de batidas e me ergui, mesmo contra a minha vontade, ate a saída de minha residência. Fiquei surpresa ao ver de quem se tratava. Desde minha chegada aquela casa, nunca tinha recebido a visita de nenhum de meus vizinhos, e aquela, era a que eu menos imaginava um dia vir me visitar. Ficamos em silêncio, uma olhando para a outra. Não fui educada, ate por que, eu não queria ser. Percebi que ela carregava um cd em mãos, e sem conseguir evitar, fingi estar olhando para a capa do cd, sendo que na verdade, eu estava tentando descobrir se existiam novas cicatrizes em seu pulso. Talvez, eu tenha sido descuidada, e ela acabara por perceber minhas intenções, pois escondera o braço direito atrás de seu próprio corpo. Depois desse ato, foi então que eu ergui meus olhos para novamente encarar sua face arredondada. Ela não era gorda, na verdade, tinha o corpo com curvas perfeitas, que chegou a me dar um pouco de inveja, mas seu rosto chegava a ter bochechas realmente fofas e grandes. Isso não era um defeito, só a tornava mais linda.
– Oi... – sua voz era um tanto quanto infantil, me fazendo se questionar se era o seu corpo que estava muito avançado para sua idade, ou se era sua voz que estava atrasada. – vim saber se você curte legião urbana. – ela praticamente gritava, e isso me deixou ainda mais confusa.
– sim... – a respondi meio a contra gosto. Ela sorriu para mim, erguendo sua mão para me entregar o cd.
– fique para você. Tem todos os álbuns dele. – fiquei sem reação, e automaticamente peguei o objeto de suas mãos.
– obrigada – sussurrei em sua direção, me perguntando se ela tinha me ouvido ou não.
Depois daquele dia, passamos semanas sem nos falar. Era como se nunca tivéssemos nos encontrado na vida. Ela passava por mim e algumas vezes sorria, a maioria delas era ignorada por mim, pois diferente dela eu não conseguia sorrir tão falsamente.
Sem esperar, em uma noite fria, eu me sentei na calçada em frente a minha casa. Fiquei a procura de um pouco de sossego, já que meus pais viviam a brigar um com outro, tornando a convivência naquela casa, insuportável. Algumas pessoas estavam lá fora também, todas com seu grupinho de amigos. Suspirei forte, e após um tempo, resolvi que seria melhor entrar. Ate ser interrompida por ela novamente. Esse dia, ela estava usando uma camiseta curta da cor preta e um short jeans azul, que também era curto. Reparei que a maioria de suas roupas era assim, e isso me fez se pergunta se ela tinha realmente algum problema no qual a fizesse se automutilar. Mas não me referia apenas às roupas. Sua maneira de falar sempre com um sorriso nos lábios e os momentos em que gritava em vez de falar com calma, fazia com que ela parecesse realmente feliz.
– sem sono? – perguntou-me, como sempre sorrindo.
– na verdade um pouco – respondi, sem olhar em seus olhos. O silencio foi inevitável, pois tanto eu quanto ela, estávamos sem assunto.
– então... Gostando do cd? –
– sim – menti, pois ainda não tinha ouvido o bastante para dizer que ele era realmente bom.
O vento passou forte, soprando meus cabelos castanhos para longe. Olhei, de esguelha, em direção à face da garota ao meu lado. Não tínhamos nos apresentado. Ela com certeza não sabia meu nome, mas eu, eu sabia perfeitamente como ela se chamava.
– hum... Você gosta de rock, né? – perguntou-me, encarando meus olhos.
– sim. –
– eu também. Gosta de SOAD? -
Por um momento, aquela conversa começou a me interessar. Talvez por que não era muito comum ver pessoas que gostavam de ouvir rock por ali. Balancei a cabeça, afirmando que sim, e ela sorriu novamente para mim começando a cantarolar a musica chop suey. Não pude evitar sorrir ao perceber que ela tinha um inglês horrível. Ela também notou isso, e com vergonha parou de cantar a musica, para então rir junto comigo.
– seu inglês é perfeito – disse, enquanto descia as mangas do meu blusão.
– não menti pra mim, coisa ruim – gritou alegre, batendo em meu ombro com sua mão esquerda, como se fossemos amigas há muito tempo. – caralho. Essa blusa é do Slipknot. Meu deus, dá pra mim? — seu corpo praticamente ficou em cima do meu. Ela agarrava minha blusa, que tinha a foto dos integrantes da banda com o nome Slipknot logo acima.
– claro que não – respondi sem jeito, lembrando-me que ela também possuía uma camisa, só que do Nirvana.
– vamos fazer assim. – ela se afastou de mim, voltando a sentar-se um pouco mais longe – quando eu precisar, você me dar, beleza. Quando você precisar, eu te dou. Entendeu? – sorriu.
– entendi – respondi, encarando seus olhos fechados, e suas bochechas redondas que ficavam ainda maiores por culpa do sorriso enorme em sua face.
Depois daquele dia, ficamos a conversar todos os dias à noite. Pois ela estudava a tarde e eu pela manhã, então não tínhamos como nos ver. Acabamos por descobrir muitas coisas uma da outra e com o tempo, fiquei mais confortável com a sua presença. Ela acabou por me dizer seu nome, mesmo que não necessário. Chamava-se Mary, e achei que ele combinava perfeitamente com ela. Por educação ditei o meu de forma baixa, um simples Judy, para que apenas ela me ouvisse. Belo nome, elogiou logo em seguida, me deixando constrangida.
Em uma noite de sábado, acabei por conhecer um de seus primos. Era um garoto baixinho que tinha 15 anos de idade, que se chamava Samuel. Sua beleza não era nada comum, com seus olhos verdes e sua pele clara. O único defeito que ele tinha, era de se achar defeituoso, com sua mania de dizer que era gordo. Em nenhum momento eu o achava isso. Sempre lhe dizendo o quanto aquilo era bobagem. Ele, por outro lado, apenas me encarava com a face irritada e dizia o quanto eu estava mentindo.
Passamos a nos ver todos os dias, cada um com seus problemas não resolvidos, cada um com seus sofrimentos não ditos. Ainda era cedo para se abrir tão abertamente um para outro, ainda éramos estranhos quando se tratava de falar verdadeiramente cada um de seus sentimentos. Mas eu estava feliz. Pela primeira vez eu tinha encontrado alguém como eu. Alguém que sentia o mesmo que eu. Feliz por aquilo ser realmente o começo de uma amizade verdadeira.
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