A Pedra Filosofal - Por Rony W.e Hermione G.
2 Capítulo 2 - O Expresso de Hogwarts
O carro dos Granger mal foi estacionado no meio fio e Hermione já estava saltando do banco de trás com seu malão de Hogwarts. Nele haviam suas iniciais “H.G.”, além do símbolo da Escola na tampa e estava lotado — também muito bem organizado, aliás — por todos os materiais e livros que haviam comprado no Beco Diagonal dias antes. A garota estava empolgadíssima com a ida à Hogwarts desde a manhã em que Alvo Dumbledore visitara-os em sua casa, e embora seus pais ainda tenham levado até a noite daquele dia para processar de fato o que viria a acontecer, não levara muito mais que isso para que entrassem no embalo da filha e ficassem realmente felizes por ela.
É claro que, como uma boa devoradora de livros e de uma inteligência extremamente curiosa, Hermione mal levara os livros da lista da escola para a casa e já estava lendo-os com avidez, fazendo anotações e marcando páginas sobre as coisas que, até então, desconhecia de Hogwarts e todo aquele imenso mundo bruxo. Além dos livros escolares, ela também encontrara na livraria “Floreios e Borrões” um livro chamado “Hogwarts: uma história”, escrito por Batilda Bagshot — uma historiadora aparentemente famosa do mundo bruxo, cujo nome também estava em outros livros de sua lista escolar -, e pediu aos pais se podia levá-lo também — já que dizia praticamente tudo sobre a escola onde estudaria — e agora que já havia terminado de ler o livro era praticamente seu favorito.
Hermione havia relido seus trechos sempre que tinha a oportunidade, para matar a ansiedade do passar dos dias e imaginar melhor o lugar onde praticamente moraria dentro de semanas, e agora, no dia do embarque, tinha certeza de que sabia praticamente tudo o que havia para saber antes de estar lá. Não que isso realmente a deixasse menos ansiosa, porque o modo como arrastava seus pais pela mão por toda a estação de trem King’s Cross era, com certeza, tão empolgado quanto teria sido há dias atrás, mas agora estava segura sobre o lugar para o qual iria e não no escuro em expectativas — como realmente não gostava de sentir-se.
—Tudo bem, estamos no caminho certo. Exatamente como o funcionário do Ministério descreveu. — a menina constatou, olhando ao redor, onde os números das plataformas começavam.
Ela se lembrava com detalhes das instruções que o funcionário que os havia acompanhado no outro dia até o Beco Diagonal, do Departamento de Transportes Mágicos do Ministério da Magia, havia dado-lhes sobre o dia do embarque e a plataforma em que deviam ingressar, e havia anotado tudo para garantir que não se esqueceria de nada.
—Agora, qual é o número da plataforma? — perguntou a mãe da garota, inclinando-se por cima do ombro dela para ver os papéis em suas mãos. O Sr. Granger estava pouco mais atrás da esposa, olhando os números ao redor.
—Nove e meia. — Hermione respondeu categórica, e continuou caminhando com os pais ao seu encalço, até chegar à plataforma nove — Certo, ele disse claramente que a entrada para ela seria na barreira entre as plataformas nove e dez… — ela olhou do bilhete para cima, parando com o carrinho onde estava seu malão — Então, só pode ser aqui.
O Sr. e a Sra. Granger acompanharam a filha na observação meticulosa dos números nove, dez, e depois da barreira entre eles, que parecia perfeita — e até perigosamente, para quem teria que dar de cara com ela — normal. Eles a olharam depois e Hermione suspirou com um sorriso no rosto, como se anunciasse que era aquilo, e finalmente estava pronta.
—E agora você… Entra nessa parede? — o Sr. Granger arriscou para a filha, franzindo o cenho levemente enquanto colocava uma mão em seu ombro, trazendo-a para perto protetoramente, assim como a esposa fizera.
—Exatamente. — a menina afirmou, virando-se para eles — Olhem, não precisam se preocupar, sei que é aqui, está exatamente como nas instruções. Nós só precisamos correr empurrando o carrinho como se fôssemos passar direto por ela, e é o que irá acontecer. Confiem em mim. — ela pediu por último, apertando as mãos dos pais nas suas antes de se virar de volta para seu carrinho e a parede de tijolos.
Os pais da garota assentiram e colocaram uma mão cada nas pontas do cabo do carrinho que levava sua bagagem, ao lado das mãos dela, e acenaram para ela em confirmação. Hermione contou até três mentalmente, desejando profundamente que, como acreditava e havia estudado, fosse aquela a parede e aquilo mesmo que deveria fazer — não queria lidar com a enorme dor de cabeça que seria caso contrário: não só por não fazer ideia de outra alternativa de entrada nos últimos dez minutos que havia até a partida do trem, mas literalmente, pela pancada que levaria naqueles tijolos.
E então, sem deixar-se prolongar mais, a menina começara a correr, com os pais no mesmo ritmo e velocidade até que fechara os olhos, segundos antes de — teoricamente — encontrar-se com a barreira. Ela sentiu certo vento receber seu rosto e, quando deu por si, estava diminuindo o ritmo da corrida num lado totalmente novo da estação de trem. Era enorme e arejado como do outro lado, mas ao invés dos trens acinzentados que paravam à beira das plataformas nos trilhos, uma locomotiva vermelha a vapor estava parada à plataforma apinhada de gente. Um
letreiro no alto informava Expresso de Hogwarts, 11 horas, e quando olhou para trás para localizar os pais — que estavam bem ali, mas com os olhos dispersos aos novos arredores -, um arco de ferro forjado estava no lugar onde estivera o coletor de bilhetes, com os dizeres “Plataforma nove e meia”. Então estava certa: finalmente, era bem ali.
Antes de voltar a arrastar os pais e seu carrinho, dessa vez por entre as pessoas que conversavam e a fumaça da locomotiva entre elas, gatos de todas as cores que trançavam por entre suas pernas e corujas que piavam umas para as outras sobre o falatório e os barulhos das malas pesadas contra o chão, os pais da menina Granger viram uma família de muitas pessoas ruivas passar por eles, indo com rapidez até o então Expresso de Hogwarts.
—Muito bem, estão todos aqui? — Molly começou a conferir, olhando ao redor para encontrar os filhos, e reassegurando a mão de Gina na sua.
—Fred, Jorge e Percy já estão lá na frente. — ela apontou-os perto do Expresso, e começou a insistir outra vez, num tom de voz choroso — Mamãe, não posso ir mesmo…?
—Gina, já disse, ano que vem será sua vez! Agora seus irmãos precisam embarcar, vamos, venha logo. Rony, Perebas está com você? — ela adiantou-se para o filho, que andava mais à frente.
—Sim, bem aqui. E dormindo, pra variar. — o menino confirmou, apalpando o bolso da camisa que vestia, onde seu rato de estimação dormia quieta e preguiçosamente.
Perebas era um rato velho, cinzento e gordo que fora de Percy e passara para Rony a partir daquele ano letivo, já que o irmão mais velho ganhara uma coruja por seu “feito” de Monitor. O menino o achava realmente inútil, já que só dormia e comia o que visse pela frente, mas por outro lado, era um bichinho que não dava trabalho algum e quase não exigia cuidados — o que era ótimo, já que ele mesmo, Rony, não gostava de ter responsabilidades demais de que se ocupar e lembrar. Já era pressão o suficiente pensar na cerimônia de seleção das casas e no que poderia vir com isso.
Entrementes, Molly estava desatando a andar atrás dos filhos com a caçula contrariada pela mão, e Rony caminhava pouco mais a frente até o trem Havia um garoto, agora há pouco, que estava com eles entrando na plataforma: os cabelos escuros bastante desgrenhados, magricela, olhos verdes e óculos fundo de garrafa. Parecia a primeira vez que ele embarcava também, e parecia nervoso quando sua mãe orientou-o a como atravessar a barreira, mas agora já havia sumido outra vez. Uma pena, Rony pensou, porque não seria nada mau fazer amigos antes de chegar à escola — ainda mais se a Seleção das Casas fosse a série de desafios terríveis que seus irmãos diziam — e o menino parecia legal.
De toda forma, ele já estava bastante ansioso e faltavam dez minutos para as onze horas — quando o trem partiria para Hogwarts -, então devia se apressar em embarcar e se acomodar, para ter tempo de se despedir da família e um lugar para passar a viagem em paz — é claro, se isso fosse possível, com os gêmeos por ali também.
—Quer uma ajuda? – ele ouviu a voz de Jorge à entrada do trem conforme se aproximava, falando a um garoto com uma coruja branca e seu malão.
—Por favor. — o menino ofegou em resposta e Rony viu que era o mesmo com quem haviam atravessado a barreira ainda há pouco. Ele parou onde estava, ainda na plataforma, e observou a cena se desenrolar. Sinceramente, esperava que os irmãos não inventassem uma gracinha para aprontar com o garoto novo, coitado.
—Ei, Fred! Vem dar uma ajuda aqui! — Jorge chamou, gesticulando no corredor do trem.
Com a ajuda dos gêmeos, a mala do garoto finalmente foi colocada a um canto do compartimento, e quando viu-os mais acomodados lá dentro, Rony levantou sua bagagem degraus acima no trem, onde encontrou o compartimento para acomodá-las e ouviu seus irmãos outra vez, enquanto voltava à plataforma.
—Que é isso? – perguntou de repente um dos gêmeos apontando para a testa do garoto magricela.
—Caramba – disse o outro gêmeo. – Você é...?
—Ele é – disse o outro gêmeo. – Não é? – acrescentou para o menino.
—O quê? – indagou ele.
Antes de ouvir o final da conversa, Rony terminou de acomodar o malão e desceu as escadas de volta para a plataforma, onde se juntou à mãe e a irmã — bem a tempo, porque ela começou a chamar os gêmeos na mesma hora.
—Ah, aí está você. — ela aliviou-se, olhando de Rony de volta para o trem -Fred? Jorge? Vocês estão aí?
—Estamos indo, mamãe. — os garotos responderam lá de dentro, e saltaram para fora do trem segundos depois. Antes de registrar que aquele era o momento da despedida, com o estômago revirando em ansiedade — ou talvez fosse fome, porque mal havia comido naquele café da manhã, atipicamente — e a mãe estava puxando um lenço.
—Rony, você está com uma coisa no nariz.
Ele tentou fugir, se lembrando do acidente que causara aquela mancha estúpida em seu nariz, mas ela o agarrou e começou a limpar a ponta na mesma hora. Enquanto conferia o malão aquela manhã, como sua mãe havia mandado fazer antes do café, os irmãos o haviam assustado, entrando em seu quarto de chofre, com uma de suas invenções mágicas tolas, e o nanquim do pote em suas mãos havia respingado em seu nariz. Como havia ficado nervoso na hora, ele nem se dera ao trabalho de tentar limpar, e quando o tentara fazer já era tarde demais, então só esperou que sua mãe não percebesse — o que claramente não havia adiantado.
—Mamãe, sai para lá. – ele desvencilhou-se com esforço, franzindo o cenho para ela.
—Aaaah, o Roniquinho está com uma coisa no nariz? – caçoou um dos gêmeos, fazendo caretas para ele.
—Cale a boca – disse Rony de volta, cruzando os braços.
—Onde está o Percy? – perguntou a mãe, atentando-se para o trem.
—Está vindo aí. — Fred respondeu, olhando pelo corredor.
Percy veio caminhando com sua pompa usual, as vestes largas e pretas de Hogwarts já vestidas e, no peito estufado, um distintivo de prata reluzente com a letra M — de Monitor. Lá vinha ele, começar com seu discurso de “importante”, Rony pensou enquanto acompanhava a figura dele se aproximar, e esperou como os outros.
—Não posso demorar, mãe – ele falou logo, erguendo o queixo – Estou lá na frente, os monitores têm dois vagões separados…
—Ah, você é monitor, Percy? – perguntou um dos gêmeos, com ar de grande surpresa, e Rony curvou um sorriso — Devia ter avisado, não fazíamos ideia.
—Espere aí, acho que me lembro de ter ouvido ele dizer alguma coisa – disse o outro gêmeo, olhando para o alto como se pensasse, as sobrancelhas arqueadas – Uma vez…
—Ou duas…
—Um minuto...
—O verão todo.
—Ah, calem a boca – bradou Percy, desviando o olhar.
—Afinal por que foi que o Percy ganhou vestes novas? – disse um dos gêmeos, encarando a mãe. Rony encarou-a também, embora já soubesse a resposta. Queria mesmo que houvesse uma resposta justa para aquilo.
—Porque é monitor – disse a mãe com carinho, sorrindo para o mais velho – Está bem, querido, tenha um bom ano letivo... — ela o abraçou, alisando seu rosto — Mande-me uma coruja quando chegar.
Ela beijou Percy no rosto por último, ele assentiu e foi embora. Então Molly virou-se para os gêmeos.
— Agora, vocês dois: este ano, se comportem. Se receber mais uma coruja dizendo que vocês... Vocês explodiram um banheiro ou… — ela gesticulou no ar, o semblante de repreensão.
— Explodiram um banheiro? Nunca explodimos um banheiro. — Jorge falou, olhando para o irmão gêmeo.
— Mas é uma grande ideia, obrigado, mamãe. — o outro respondeu, sorrindo ironicamente.
— Não tem graça. — ela desfez da brincadeira, olhando-os com seriedade, quando virou-se para o mais novo — E cuidem do Rony.
Rony rolou os olhos, torcendo o nariz para o aperto que ela lhe deu ao falar. Não precisava — e nem queria — mais dos irmãos em cima dele, dessa vez em Hogwarts. É claro que seria bom saber que estavam por perto — pela sensação de familiaridade e se, em último caso, alguma coisa desse muito errado -, mas já estava cheio de estar cercado o tempo todo. Quem sabe em Hogwarts teria seus próprios amigos, com sorte, na Grifinória, com quem passaria mais tempo e faria suas próprias coisas.
— Não se preocupe, Roniquinho está seguro com a gente. — Fred assegurou, dando uma piscadela para o irmão mais novo.
— Cale a boca – mandou Rony outra vez. Já era quase tão alto quanto os gêmeos e seu nariz continuava vermelho onde a mãe o esfregara.
— Ei, mãe, adivinha? Adivinha quem acabamos de encontrar no trem? — Jorge lembrou, cutucando o gêmeo com o ombro. Rony lembrou-se da parte da conversa deles que haviam ouvido, e ficou imaginando se teria a ver com o garoto da estação.
— Sabe aquele menino de cabelos pretos que estava perto da gente na estação? Sabe quem ele é?
— Quem? — Molly perguntou, confusa.
— Harry Potter!
Harry Potter! Não podia ser — foi o que Rony pensou, arregalando os olhos sem perceber. O garoto que sobreviveu ao ataque e maldição da morte do maior bruxo das trevas de todos os tempos: Lord Voldemort — ou, para os Weasley e boa parte dos bruxos, “Aquele-que-não-deve-ser-nomeado”.
Rony ouvira dizer muitas vezes sobre essa história, afinal, seus tios maternos haviam lutado e falecido na Primeira Grande Guerra Bruxa e seus pais haviam vivido para vê-la acontecer, justamente na tentativa de derrubar Lord Voldemort e seu exército — os Comensais da Morte — em sua busca pelo o controle absoluto do mundo bruxo. Aconteceu que no caminho, por algum motivo, Voldemort resolvera que o filho de Tiago e Lilian Potter, o pequeno Harry de só um ano na época, era seu obstáculo ao poder e, com isso, matara seus pais para atacá-lo no Dia das Bruxas daquele ano, antes de lançar uma maldição da morte para fazer o mesmo com o garoto. “O menino que sobreviveu” ficou apelidado na História do mundo bruxo dessa forma porque, como ninguém antes, sobrevivera ao golpe e, desde então, Aquele-que-não-deve-ser-nomeado desapareceu — o que foi considerado uma vitória aos que estavam contra ele.
Bem, é claro que era surreal pensar que aquele garoto, embarcando no mesmo trem que o seu, recebendo ajuda de sua mãe para atravessar até a plataforma e depois de seus irmãos para guardar o malão, era Harry Potter. Talvez fosse alguma brincadeira de Fred e George — afinal, isso era mesmo o que eles mais gostavam de fazer. Por que seria diferente logo em sua vez de embarcar para Hogwarts?
— Ah, mamãe, posso subir no trem para ver ele, mamãe, ah, por favor… — Gina começou a choramingar outra vez, puxando a mão da mãe.
— Você já o viu, Gina, e o coitado não é um bicho de zoológico para você ficar olhando. — a mãe a repreendeu, mas voltou-se para os gêmeos em seguida — É ele mesmo, Fred? Como é que você sabe?
— Perguntei a ele. Vi a cicatriz. Está lá mesmo, parece um raio. — o filho respondeu com veemência, indicando a testa, e George acenou com a cabeça, reafirmando.
—Coitadinho. Não admira que estivesse sozinho. Foi tão educado quando me perguntou como entrar na plataforma. — ela levou a mão ao peito, a expressão compadecida.
—Deixa para lá, você acha que ele se lembra como era o Você-Sabe-Quem? — Fred voltou a dizer, curioso, arregalando os olhos.
De repente a mãe ficou muito séria.
—Proíbo-lhe de perguntar a ele, Fred. — ela apontou o dedo indicador para ele, franzindo o cenho — Não, não se atreva. Como se ele precisasse de alguém para lhe lembrar uma coisa dessas no primeiro dia de escola.
— Está bem, não precisa ficar nervosa. — o garoto acalmou-a se virando para o trem, quando ouviu-se um apito.
Rony sentiu seu estômago revirar de novo, e pela primeira vez agradeceu por não ter comido demais. Suas mãos estavam frias de ansiedade e ele entreolhou a mãe, a irmã mais nova e os irmãos.
— Depressa! – disse a mãe, empurrando-os, e os três garotos subiram no trem sem demora. Rony debruçou-se na janela ao lado dos gêmeos para a mãe lhes dar um beijo de despedida e acenaram para Gina, que começou a chorar.
— Não chore, Gina, vamos lhe mandar um monte de corujas. — um dos gêmeos disse, gesticulando para ela com um sorriso.
— Vamos lhe mandar uma tampa de vaso de Hogwarts. — o outro emendou, assentindo.
— Jorge! — a mãe o repreendeu, segurando a filha perto de si, e o garoto voltou a falar, rindo.
— Estou só brincando, mamãe.
O trem começou a andar. Rony viu a mãe acenando e a irmã, meio risonha, meio chorosa, correndo para acompanhar o trem até ele ganhar velocidade e ela ficar para trás, acenando. Elas desapareceram quando o trem fez a curva e as casas passaram num relâmpago pela janela.
—Lá vamos nós, Roniquinho! — Fred bagunçou os cabelos do irmão, empolgado, e virando-se para o corredor das cabines.
—Aposto que ele não vê a hora de se divertir com seus irmãos favoritos, não é? — George emendou, espremendo-o entre os dois.
—Sai pra lá! — Rony reclamou, se esquivando, e avisou enquanto saía — Vou procurar uma cabine.
—Muito bem. Se precisar de nós, estaremos… Em que cabine estaremos, George?
—Bem… Em uma dessas. — o outro deu de ombros, e concordaram com a cabeça — Que não seja a do Percy, é claro.
Rony riu discretamente e virou-se para caminhar para o final do trem, procurando uma cabine vazia. Àquela altura, a maioria das cabines parecia estar cheia, então provavelmente teria que sentar-se com alguém — o que não seria ruim, desde que não fosse alguém chato, como Percy, por exemplo.
Enfim, quase no final do trem, Rony viu uma das cabines quase vazia — só havia um garoto dentro, sentado muito quieto em um dos bancos. Ou melhor, o garoto magricela da barreira, que agora tinha nome: Harry Potter. Ele hesitou um instante, pensando que talvez o garoto quisesse mesmo ficar sozinho. Mas depois se perguntou que mal podia haver em ao menos perguntar — até porque, o restante do trem estava cheio e ele não poderia passar a viagem perambulando pelo corredor.
—Tem alguém sentado aqui? – perguntou, apontando para o assento em frente ao de Harry – O resto do trem está cheio.
Harry respondeu que não, com um aceno de cabeça, e Rony, discretamente aliviado, se sentou. Olhou para Harry e depois depressa para fora, fingindo que não tinha olhado. Mas, como podia evitar, não é? Ele queria ver a cicatriz, se estava ali mesmo, ou se era outra brincadeira desaforada de seus irmãos.
Ele pensou ter visto Harry o encarando por um instante, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a porta da cabine se abriu.
— Oi, Rony.
Os gêmeos estavam de volta.
— Escuta aqui, vamos para o meio do trem. Lino Jordan trouxe uma tarântula gigante.
— Certo – resmungou Rony, incomodado. Os irmãos sabiam que ele tinha pavor de aranhas, mas insistiam em comentar aquele tipo de coisa mesmo assim. Provavelmente só estavam ali para se aparecer para Harry, de qualquer forma.
— Harry – disse Fred, virando-se para o garoto à sua frente –, nós já nos apresentamos? Fred e Jorge Weasley. E este é o Rony, nosso irmão. Vejo vocês mais tarde, então.
— Tchau – disseram Harry e Rony. Os gêmeos fecharam a porta da cabine ao passar. Rony pensou num segundo fugaz e, no outro, já estava perguntando.
— Você é Harry Potter mesmo? – ele deixou escapar com curiosidade, atento ao menino.
Harry confirmou com a cabeça, ainda quieto.
— Ah, bom, pensei que fosse uma brincadeira do Fred e do Jorge. E você tem mesmo… Sabe… — ele apontou para a testa de Harry, aproveitando que o garoto parecia não se incomodar.
Harry afastou a franja para mostrar e Rony olhou na mesma hora.
— Então foi aí que Você-Sabe-Quem...? — ele começou, sem saber exatamente como perguntar.
— Foi, mas não me lembro. — o menino respondeu logo, baixando a mão da testa.
— De nada? – perguntou Rony, ansioso.
— Bom... lembro de muita luz verde, mas nada mais.
— Uau. – e ficou parado uns minutos olhando para Harry, pensando no quão surreal deveria ser estar no lugar do garoto. Quer dizer, ter sido atacado por Você-sabe-quem com um ano de idade, vê-lo bem à sua frente e ser amaldiçoado por ele com um Avada Kedavra, mas sobreviver, e não se lembrar direito de parte alguma, devia ser mesmo estranho.
Quando se deu conta de que estava encarando-o a tempo demais, Rony desviou o olhar para a janela.
—Todos na sua família são bruxos? – perguntou Harry, parecendo interessado.
—Hum... são, acho que sim. — o garoto pensou por um momento — Acho que mamãe tem um primo em segundo grau que é contador, mas ninguém nunca fala nele. — e deu de ombros.
— Então você já deve saber muitas mágicas.
Rony encolheu os ombros discretamente, e desviou o olhar de novo rapidamente. Se fosse falar a verdade, não sabia mágica alguma, exceto uma que Jorge havia ensinado aquele verão — e que ele tinha quase certeza de que era furada. Tudo porque sua mãe, que os havia ensinado em casa até que fossem para Hogwarts, insistia que deveriam ser ensinados a usar magia apropriadamente apenas lá, na Escola, já que mesmo quando voltassem de lá no verão não poderiam fazer magia alguma — era uma regra do Ministério.
— Ouvi dizer que você foi viver com os trouxas. — Rony convenientemente mudou de assunto, voltando a encarar o garoto — Como é que eles são?
— Horríveis… — ele respondeu de cara, mas corrigiu-se logo — Bom, nem todos. Mas minha tia e meu tio e meu primo são. Eu gostaria de ter tido três irmãos bruxos. — e pareceu lamentar.
— Cinco. – Rony corrigiu com um suspiro pesaroso – Sou o sexto de minha família a ir para Hogwarts. Pode-se dizer que tenho de fazer justiça ao nosso nome. Gui e Carlinhos já terminaram a escola. Gui foi chefe dos monitores e Carlinhos foi capitão do time de quadribol. — ele explicou, fez uma pausa, e desatou a falar depois, aproveitando que, de novo, Harry parecia muito interessado.
—Agora Percy é monitor. Fred e Jorge fazem muita bagunça, mas tiram notas muito boas e todo mundo acha que eles são realmente engraçados. Todos esperam que eu me saia tão bem quanto os outros, mas, se eu me sair bem, não será nada de mais, porque eles fizeram isso primeiro. E também não se ganha nada novo quando se tem cinco irmãos. Uso as vestes velhas de Gui, a varinha velha de Carlinhos e o rato velho de Percy.
Rony meteu a mão no bolso interno do paletó e tirou Perebas de lá, ainda adormecido.
— O nome dele é Perebas e ele é inútil, quase nunca acorda. Percy ganhou uma coruja de meu pai por ter sido escolhido monitor, mas eles não podiam ter... — ele ia dizer o que estava pensando há dias, mas se conteve — Quero dizer, em vez disso ganhei Perebas.
Suas orelhas ficaram vermelhas. Ele havia falado demais, e voltou logo a olhar para fora pela janela, em silêncio. Harry pareceu tê-lo observado um pouco e voltou a falar, contando que nunca tivera dinheiro algum na vida até um mês atrás, e também como se sentira quando usava as roupas velhas de seu primo trouxa, Duda, e que jamais ganhara um presente de aniversário decente. Rony se sentiu extremamente surpreso — afinal, era de Harry Potter, o garoto que era pra ser a lenda do mundo bruxo, de que estavam falando -, mas de alguma forma consolado. Afinal, eles não eram tão diferentes quanto ele poderia ter imaginado. Harry não fazia ideia de sua fama — parecia inclusive não saber dela até chegar no trem -, sabia como era não ter muita atenção em casa e também não ter dinheiro, ou ganhar presentes no aniversário. O garoto era bem legal, para falar a verdade — quem sabe eles fossem mesmo ser amigos.
— ... e até Rúbeo me contar, eu não sabia o que era ser bruxo, nem quem eram meus pais, nem o Voldemort. — Harry disse, dando de ombros. Rony arregalou os olhos quando ele disse o nome. Dizer “Voldemort” era como chamá-lo, invocá-lo, ou qualquer coisa assim, para a maioria dos bruxos, o que era praticamente de um senso comum de proibição e ele imaginara então que, para quem havia tido os pais mortos por ele e quase morrido também, Harry iria, de todas as pessoas, partilhar desse senso com veemência.
— Que foi?
— Você disse o nome do Você-Sabe-Quem! – exclamou Rony, chocado e impressionado – Eu achava que de todas as pessoas você…
— Não estou tentando ser corajoso nem nada dizendo o nome dele. — o menino explicou na mesma hora — É que nunca soube que não se podia dizer. Está vendo o que quero dizer? Tenho muito o que aprender... Aposto – acrescentou, com um tom preocupado e cabisbaixo – Aposto que vou ser o pior da classe.
Rony negou com a cabeça, franzindo o cenho como se fosse óbvio.
— Não vai ser, não. Tem uma porção de gente que vem de famílias de trouxas e aprende bem depressa.
Enquanto conversavam, o trem saiu de Londres. Agora corriam por campos cheios de vacas e carneiros. Os dois ficaram calados por um tempo, contemplando os campos e as estradinhas passarem num lampejo. Por volta do meio-dia e meia ouviram um grande barulho no corredor e uma mulher toda sorrisos e covinhas abriu a porta e perguntou:
— Querem alguma coisa do carrinho, queridos?
Harry ergueu-se de um salto, enquanto Rony ficou em seu lugar. Como ouvia dizer, no carrinho haviam feijõezinhos de todos os sabores, balas de goma, chicles de bola, sapos de chocolate, tortinhas de abóbora, bolos de caldeirão, varinhas de alcaçuz e várias outras coisas que pareciam boas demais. No entanto, ele não tinha dinheiro algum para comprar qualquer coisa do carrinho — e por isso sua mãe lhe havia feito sanduíches para levar. Então, enquanto suas orelhas ficavam vermelhas demais ele murmurou exatamente isso — que trouxera sanduíches — e viu Harry ir até o corredor.
Demorou pouco até que Harry voltasse para a cabine com os bolsos cheios, e despejou tudo no assento vazio ao seu lado. Rony arregalou os olhos, sem acreditar. O garoto havia comprado praticamente de tudo!
— Que fome, hein?
— Morrendo de fome – respondeu Harry, dando uma grande dentada na tortinha de abóbora.
Rony tirara um embrulho encaroçado do paletó e abriu-o. Havia quatro sanduíches dentro. Abriu um e, com certa infelicidade, disse:
— Ela sempre se esquece de que não gosto de carne enlatada.
—Troco com você por um desses – propôs Harry, oferecendo um pastelão de carne. Rony olhou dele para o pastelão com os olhos cintilando, mas se conteve e hesitou – Tome…
— Você não vai querer isso, é muito seco. Ela não tem muito tempo – acrescentou depressa, encolhendo os ombros – Você sabe, somos cinco.
—Tome, coma um pastelão – disse Harry, parecendo feliz em oferecer, e empurrando a comida para o nariz de Rony, que sorriu sem graça, mas aceitou logo em seguida.
—Que é isso? – perguntou Harry a ele, que já mordia seu pastelão, mostrando um pacote de sapos de chocolate – Eles não são sapos de verdade, são?
— Não. — Rony respondeu simplesmente, e apontou, de boca cheia — Mas vê qual é a figurinha, está me faltando a Agripa.
— O quê? — o menino franziu o cenho, parecendo não entender uma palavra. Que estupidez a sua, esquecera que Harry vivia com trouxas, então não fazia ideia do que estava falando.
— Claro que você não sabe, os sapos de chocolate têm figurinhas dentro, sabe, para
colecionar, bruxas e bruxos famosos. Tenho umas quinhentas, mas não tenho a Agripa nem o Ptolomeu. — lamentou, e voltou a comer, observando Harry, que abriu o sapo de chocolate e puxou a figurinha.
— Então este é Dumbledore! – exclamou Harry, arregalando os olhos.
— Não me diga que nunca ouviu falar de Dumbledore! — Rony exclamou de volta, surpreso, e quando livrava as roupas das migalhas do pastelão, perguntou — Quer me dar um sapo? Quem sabe eu tiro a Agripa.
Harry assentiu para ele na mesma hora, mas ainda interessado em sua figurinha, e Rony sorriu alegre, se inclinando para pegar.
—Obrigado.
Enquanto abria seu próprio sapo de chocolate, Harry exclamou, olhando para a figurinha em mãos.
— Ele desapareceu!
Rony riu discretamente, e disse logo, como se fosse óbvio.
— Ora, você não pode esperar que ele fique aí o dia todo. Depois ele volta. — e voltou-se para sua figurinha — Não, tirei a Morgana outra vez e já tenho umas seis... Você quer? — ofereceu para Harry, estendendo-a — Pode começar a colecionar.
Enquanto falava, Rony não pôde evitar de pensar no quanto aqueles sapos de chocolate eram realmente deliciosos, e que haviam tantos outros ainda. Se ao menos pudesse pegar outro, mas não queria parecer folgado ou interesseiro para Harry logo no primeiro dia — e, sem perceber, seus olhos já estavam de novo na pilha fechada deles.
— Sirva-se – disse Harry, parecendo perceber, e ele corou sem graça antes de deixar-se pegar outro – Mas, sabe, no mundo dos trouxas, as pessoas ficam paradas nas fotos.
— Ficam? O quê, eles não se mexem? – Rony desacreditou, incrédulo. Que graça havia em registrar um momento imóvel? Os trouxas tinham cada ideia, e seu pai, apaixonado por itens e curiosidades do mundo trouxa, certamente acharia fascinante. – Que coisa esquisita!
Harry continuou com sua figurinha de Dumbledore em mãos, enquanto Rony estava mais interessado em comer os sapos do que em olhar os bruxos e bruxas famosos. Logo haviam várias figurinhas no banco ao seu lado, e ele despregou os olhos da última para abrir o saquinho de feijõezinhos de todos os sabores.
—Você vai ter que tomar cuidado com essas aí – alertou Rony, se lembrando – Quando dizem todos os sabores eles querem dizer todos os sabores. Sabe, todos os sabores comuns como chocolate, hortelã e laranja, mas também espinafre, fígado e bucho. Jorge achou que sentiu gosto de bicho-papão uma vez.
Rony apanhou uma balinha verde, examinou-a atentamente e mordeu uma ponta.
—Eca! Está vendo? Couve-de-bruxelas.
Eles se divertiram comendo as balas. Harry tirou torrada, coco, feijão cozido, morango, caril, capim, café, sardinha e chegou a morder a ponta de uma bala cinzenta meio gozada que Rony não queria pegar, e que era pimenta. Os campos que passavam agora pela janela estavam ficando mais silvestres. As plantações tinham desaparecido. Agora havia matas, rios serpeantes e morros verde-escuros.
Ouviram uma batida à porta da cabine e um menino de rosto redondo, parecendo choroso, entrou.
— Desculpem, mas vocês viram um sapo?
Rony sacudiu a cabeça ao mesmo tempo que Harry, indicando que não, e o menino desatou a chorar.
— Perdi ele! Está sempre fugindo de mim!
— Ele vai aparecer – consolou Harry, bondosamente. Rony observou com estranheza, mas não disse nada.
— Vai – disse o menino, infeliz. – Se você vir ele…
E saiu.
— Não sei por que ele está tão chateado – disse Rony, sinceramente – Se eu tivesse trazido um sapo ia querer perder ele o mais depressa que pudesse. Mas trouxe Perebas, por isso nem posso falar nada. — lembrou, franzindo a cara — O rato continuava a tirar sua soneca em seu colo.
— Ele podia estar morto e ninguém ia saber a diferença – disse, desgostoso – Tentei mudar a cor dele para amarelo para deixar ele mais interessante, mas o feitiço não deu certo. Vou-lhe mostrar. Olhe…
Rony remexeu na mala, de onde tirou a varinha muito gasta de Carlinhos. Estava lascada em alguns pontos e havia um indício do pelo de unicórnio na ponta, brilhando.
— O pelo do unicórnio está quase saindo. Em todo o caso… — deu de ombros, continuando.
Tinha acabado de erguer a varinha quando a porta da cabine abriu outra vez. O menino sem o sapo estava de volta, mas desta vez vinha uma garota em sua companhia. Ela já estava usando as vestes novas de Hogwarts.
— Alguém viu um sapo? Neville perdeu o dele. – ela tinha um tom de voz mandão, os cabelos castanhos muito cheios e os dentes da frente meio grandes.
— Já dissemos a ele que não vimos o sapo – respondeu Rony, mas Hermione não estava escutando: olhava para a varinha na mão dele.
— Você está fazendo mágicas? Quero ver.
Ela se sentou, esperando. O garoto ruivo pareceu subitamente desconcertado.
— Hum... está bem. — e pigarreou.
— Sol, margaridas, amarelo maduro, muda para amarelo esse rato velho e burro.
Ele agitou a varinha, mas nada aconteceu. O rato em sua mão continuou cinzento e completamente adormecido.
— Você tem certeza de que esse feitiço está certo? – Hermione duvidou, torcendo o nariz, e deu de ombros – Bem, não é muito bom, né? Experimentei uns feitiços simples só para praticar e deram certo. Ninguém na minha família é bruxo, foi uma surpresa enorme quando recebi a carta, mas fiquei tão contente, é claro, quero dizer, é a melhor escola de bruxaria que existe, me disseram. Já sei de cor todos os livros que nos mandaram comprar, é claro, só espero que seja suficiente.
—Aliás, — ela lembrou que nem havia se apresentado. Ela mal percebera que falava tudo muito depressa, como fazia quando estava ansiosa — Sou Hermione Granger, e vocês quem são?
Os garotos se entreolharam e o ruivo, do feitiço que não havia dado certo, respondeu primeiro.
— Sou Rony Weasley.
— Harry Potter. — disse o outro. Hermione ficou um tanto surpresa: ela já havia ouvido falar dele em diversos livros dos que havia lido. Era o garoto que sobrevivera ao ataque do maior bruxo das trevas já existente, Lord Voldemort.
— Verdade? — ela quis confirmar, e se corrigiu logo — Já ouvi falar de você, é claro. Tenho outros livros recomendados, e você está na História da magia moderna e em Ascensão e queda das artes das trevas e em Grandes acontecimentos mágicos do século XX.
— Estou? – admirou-se Harry.
— Nossa, você não sabia? Eu teria procurado saber tudo que pudesse se fosse comigo – disse Hermione, sinceramente. Logo se lembrou de outro assunto com que estava se ocupando nos últimos dias: a seleção das casas de Hogwarts.
Entre Grifinória, Sonserina, Corvinal e Lufa-Lufa, e tudo o que ela havia lido sobre cada uma das casas, seus fundadores e membros notáveis, além de ter perguntado àquele funcionário do Ministério que havia acompanhado a ela e seus pais no Beco Diagonal, tinha chegado à conclusão de que preferia ficar na Grifinória. Não que a Corvinal, por exemplo, fosse ruim — afinal, era a casa dos inteligentes -, e Lufa-Lufa, além de ser a casa que menos havia sido lar para bruxos das trevas em toda a história de Hogwarts — ao contrário da Sonserina -, havia sido a casa de Newt Scamander, o autor de Animais Fantásticos e Onde Habitam — um livro incrível de sua lista escolar que já havia lido duas vezes até agora -, mas a Grifinória, com toda a sua fama de coragem, cavalheirismo e o histórico de bruxos ilustres que guardava, parecia a mais apreciável.
– Já sabem em que casa vão ficar? Andei perguntando e espero ficar na Grifinória, me parece a melhor, ouvi dizer que o próprio Dumbledore foi de lá, mas imagino que a Corvinal não seja muito ruim... — ela deu de ombros, e se levantou — Em todo o caso, acho melhor irmos procurar o sapo de Neville. E é melhor vocês se trocarem, sabe, vamos chegar daqui a pouco.
E saiu pela porta, levando Neville sem sapo.
—Seja qual for a minha casa, espero que ela não esteja lá. – comentou Rony, mal-humorado, e jogou a varinha de volta na mala. A tal da garota parecia uma réplica feminina de Percy, por Merlin, o que ele havia feito pra merecer? Agora entendia porque precisava agradecer por Gina ser mais parecia com os gêmeos do que com seu irmão mais velho.
— Feitiço besta. Foi o Jorge que me ensinou, aposto que sabia que não prestava. — reclamou ainda, negando com a cabeça, quando Harry voltou a distraí-lo.
— Em que casa estão os seus irmãos?
— Grifinória. – ele respondeu, cabisbaixo de novo. A maneira como aquele assunto o agonizava, ainda mais agora que estavam cada vez mais perto de chegar, era incalculável e nada boa.
—Mamãe e papai estiveram lá também. Não sei o que vão dizer se eu não estiver. — ele engoliu a seco, os doces revirando em sua barriga — Acho que a Corvinal não seria muito ruim, mas imagine se me puserem na Sonserina.
—É a casa em que Vol... Quero dizer, Você-Sabe-Quem esteve?
— É. – respondeu simplesmente, e afundou novamente no assento, com infelicidade.
—Sabe, acho que as pontas dos bigodes de Perebas ficaram um pouquinho mais claras – disse Harry, tentando distrair o pensamento de Rony das casas. O garoto levantou pouco os olhos e esboçou um sorriso, olhando de relance para o rato.
—Então, o que é que os seus irmãos mais velhos fazem agora que já terminaram? — ele continuou a perguntar, interessado, e Rony se ajeitou no banco para contar.
No corredor, do lado de fora, Hermione estava a caminho da cabine do maquinista, porque havia decidido há pouco que queria perguntar se estavam chegando. Sua ansiedade estava crescendo cada vez mais, e embora tivesse livros pra ler, ficar sentada na cabine não parecia realmente ajudar o tempo a passar, nem sua agonia a diminuir.
Ela não conhecera muitas pessoas ainda — só Neville Longbottom, o garoto do sapo, Harry Potter e Rony Weasley, o ruivo que havia feito o feitiço errado. Devia admitir, é claro, que a perspectiva ao conhecer cada um deles havia sido, de alguma forma, empolgante: uma parte sua esperava fazer amigos logo, porque a ideia de Hogwarts e toda a sua atmosfera, mesmo que antes de chegar, fazia-a pensar que as coisas seriam diferentes e mais legais por lá; já a outra parte a dizia para ir com calma — o que era difícil — e não contar demais com aquilo, afinal, não era a coisa primordial para que estava indo pra lá fazer — as amizades, se houvesse alguma, eram consequências. Mesmo assim, ela os havia achado um pouco legais, embora o Weasley claramente não soubesse o que estava fazendo e parecesse um pouco mal-humorado, e Harry um pouco quieto até então.
No caminho pelo corredor estreito, ela vira três garotos — um loiro e os outros dois de cabelos escuros, mais altos que ele e ladeando-os como guardas — passando com sorrisos travessos e comentários baixos sobre alguma coisa a que não deu muita importância, e parando numa das cabines mais ao fim do trem. Ela os olhara por cima do ombro por um mínimo segundo e continuara andando, até chegar na cabine do maquinista, onde estava indo em primeiro lugar.
Depois de tê-lo perguntado quanto tempo faltava para chegar e ter recebido a resposta pela qual tanto esperava — de que faltava bem pouco -, ela agradeceu e se apressou a voltar para a própria cabine. No caminho, entretanto, deparou-se novamente com aquele trio estranho de garotos, agora voltando da cabine em que haviam parado, e quando passou por essa mesma, entendeu que se tratava de onde estavam Harry e Rony — os garotos de antes. Ela hesitou pouco, e logo pensou que, apesar dos impulsos não serem sua escolha favorita, ela estava sozinha, havia espaço na cabine deles, e apesar do rápido — e em algum ponto, insólito — momento anterior com eles, alguma coisa dizia a ela que ali poderia haver uma afinidade maior — quem sabe se conversassem outra vez, antes do trem desembarcar.
E foi no que apostou quando abriu as portas da cabine, se colocando para dentro.
— Que foi que aconteceu? – perguntou, vendo os doces espalhados no chão e Rony apanhando o rato pela cauda.
— Acho que apagaram ele – disse Rony a Harry, aparentemente ignorando-a. E examinou o rato mais atentamente. – Não... não acredito... ele voltou a dormir.
Ela olhou de relance para o rato, que parecia dormir realmente, e voltou a atenção ao garoto, que perguntou a Harry.
— Você já conhecia Draco Malfoy? — ele arqueou uma sobrancelha, curioso. Hermione imaginou que estavam falando de um dos três garotos que haviam acabado de sair da cabine, e Harry contou que o havia encontrado no Beco Diagonal.
—Já ouvi falar na família dele – disse Rony, sombriamente, e começou a explicar – Foram os primeiros a voltar para o nosso lado depois que Você-Sabe-Quem desapareceu. Disseram que tinham sido enfeitiçados. Papai não acredita nisso. Diz que o pai de Draco não precisou de desculpa para se bandear para o lado das Trevas. – e virou-se para ela, as sobrancelhas arqueadas inquisitivamente – Podemos fazer alguma coisa por você?
Hermione piscou algumas vezes e inventou alguma coisa para lembrá-los, como uma razão para ainda estar ali.
—É melhor vocês se apressarem e trocarem de roupa. Acabei de ir lá na frente perguntar ao maquinista e ele me disse que estamos quase chegando. — ela fez uma pausa, olhou rápido o estado da cabine outra vez, e concluiu com tom de bronca — Vocês andaram brigando? Vão se meter em encrenca antes mesmo de chegarmos lá!
— Perebas andou brigando, nós não – disse Rony, fazendo cara zangada – Você se importa de sair para podermos nos trocar?
—Está bem. Só vim para cá porque as pessoas nas outras cabines estão se comportando feito crianças, correndo pelos corredores – mentiu ela, em tom choroso, mas discreto, e voltou a dizer com uma petulância proposital. Rony Weasley estava sendo mesmo chato, e ela nem havia feito nada demais, então iria falar, e já havia percebido há muito tempo.
– E você está com o nariz sujo, sabia?
E saiu, sem tempo de ver a reação dele, ou de Harry Potter. Rony amarrou a cara quando ela se retirou, enquanto Harry espiava pela janela. Estava escurecendo e o trem parecia estar diminuindo a velocidade.
Rony e ele tiraram os paletós e puseram as vestes longas e pretas. A de Rony, é claro, estava um pouco curta — dava para ver as calças por baixo -, mas ele preferiu fazer de conta que não havia visto, porque de novo, já estava ansioso o bastante só com a chegada.
Uma voz ecoou pelo trem, então, chamando a atenção deles.
— Vamos chegar a Hogwarts dentro de cinco minutos. Por favor deixem a bagagem no trem, ela será levada para a escola.
Rony engoliu a seco e se segurou sentado no banco, sentindo o estômago embrulhar. Seu rosto começara a ficar frio, como suas mãos, e ele tinha certeza de que estava parecendo um fantasma. Um instante depois, contudo, ele e Harry encheram os bolsos com o resto dos doces e se reuniram à garotada que apinhava os corredores.
O trem foi diminuindo a velocidade e finalmente parou. As pessoas se empurraram para chegar à porta e descer na pequena plataforma escura, onde o ar frio da noite fez as mãos de Rony parecerem ainda mais geladas.
Ele caminhava ao lado de Harry, atentando-se para todos os lados na multidão, quando surgiu uma lâmpada balançando sobre as cabeças dos estudantes e uma voz vigorosa anunciou:
— Alunos do primeiro ano! Primeiro ano aqui! — e acenou para o garoto ao seu lado -Tudo bem, Harry?
O rosto grande e peludo de quem deveria ser Rúbeo Hagrid — segundo as descrições de que ouvira de seus irmãos, sobretudo de Carlinhos — sorria por cima de um mar de cabeças.
— Vamos, venham comigo. Mais alguém do primeiro ano?
Aos escorregões e tropeços, eles seguiram Hagrid por um caminho de aparência íngreme e estreita. Ninguém falou muito. Neville, o menino que vivia perdendo o sapo, fungou umas duas vezes.
— Vocês vão ter a primeira visão de Hogwarts em um segundo – Hagrid gritou por cima do ombro –, logo depois dessa curva.
Ouviu-se um Aooooooh muito alto, e Rony ergueu os olhos com curiosidade — eles cintilaram quando colidiram com a figura que estavam esperando.
O caminho estreito se abrira de repente até a margem de um grande lago escuro.
Encarapitado no alto de um penhasco na margem oposta, as janelas cintilando no céu estrelado, havia um imenso castelo com muitas torres e torrinhas. Ali estava Hogwarts, infinitamente mais imensa e incrível do que havia imaginado — isso porque estavam longe.
— Só quatro em cada barco! – gritou Hagrid, apontando para uma flotilha de barquinhos parados na água junto à margem. Harry e Rony foram seguidos até o barco por Neville e Hermione, que suspirou com impaciência ao perceber que iria dividir o barco com o garoto ruivo grosseiro, de novo, mas manteve os olhos fixos na imagem do castelo, pelo que estava esperando tanto e seriam só alguns minutos.
— Todos acomodados? – gritou o homem enorme e barbudo, que tinha um barco só para si, guiando a todos eles – Então... VAMOS!
E a flotilha de barquinhos largou toda ao mesmo tempo, deslizando pelo lago que era liso como um vidro. Todos estavam silenciosos, os olhos fixos no grande castelo no alto. A construção se agigantava à medida que se aproximavam do penhasco em que estava situado.
— Abaixem as cabeças! – berrou ele, quando os primeiros barcos chegaram ao penhasco; todos abaixaram as cabeças e os barquinhos atravessaram uma cortina de hera que ocultava uma larga abertura na face do penhasco. Foram impelidos por um túnel escuro, que parecia levá-los para debaixo do castelo, até uma espécie de cais subterrâneo, onde desembarcaram subindo e pisando em pedras e seixos.
— Ei, você aí! É o seu sapo? – perguntou, verificando os barcos à medida que as pessoas desembarcavam. Hermione virou-se para olhar e sorriu quando notou o rosto alegre de Neville, finalmente tendo achado seu sapo por quem procuravam no Expresso.
— Trevo! – gritou Neville, feliz, estendendo as mãos.
Então eles subiram por uma passagem aberta na rocha, acompanhando a lanterna do homem enorme, e desembocaram finalmente em um gramado fofo e úmido à sombra do castelo. Galgaram uma escada de pedra e se aglomeraram em torno da enorme porta de carvalho.
— Estão todos aqui? Você aí, ainda está com o seu sapo? — perguntou para Neville, que assentiu animadamente.
E então, ele ergueu um punho gigantesco e bateu três vezes na porta do castelo. Era ali! Finalmente, estava em Hogwarts.
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