A Pedra Filosofal - Por Rony W.e Hermione G.
5 Capítulo 5 - Alohomora
Os alunos do primeiro ano da Grifinória só tinham uma aula com os da Sonserina: a de Poções. Isso até um aviso ser pregado no sala comunal de Grifinória — que fez todos gemerem. As aulas de voo começariam na quinta-feira – e os alunos das duas casas aprenderiam juntos.
— Típico – disse Harry, desanimado. – É o que eu sempre quis. Fazer papel de palhaço montado numa vassoura na frente do Draco.
— Você não sabe se vai fazer papel de palhaço – disse Rony, sensata e sinceramente.
O garoto Weasley, apesar de também não gostar nem um pouco das aulas com a Sonserina, viu nessa a oportunidade de finalmente fazer uma aula em que saberia alguma coisa, e para melhorar, sem ter que abrir livro algum ou queimar seus neurônios numa falação enrolada como a de História da Magia. Por isso, fez questão de contar para quem quisesse ouvir sobre a vez em que ele quase batera numa asa delta montado na velha vassoura de Carlinhos.
Rony adorava quadribol: já tivera uma grande discussão sobre futebol com Dino Thomas, que também usava o dormitório deles e não via nada excitante em um jogo onde ninguém podia voar e só tinha uma bola — chegou até a cutucar o pôster em que Dino aparecia com o time de futebol de West Ham, tentando fazer os jogadores se mexerem, e quando nada aconteceu, isso só serviu para fazê-lo argumentar ainda mais convencidamente contra o tal esporte e a favor do quadribol.
Hermione, por outro lado, estava nervosa com a ideia de voar. Ela até havia tentado decorar algumas dicas do livro “Quadribol através dos séculos”, que pegou na biblioteca, mas isto realmente não era coisa que se aprendesse em um livro. Além disso, ela não era muito fã de altura.
No café da manhã do dia da aula ela desatou a falar, como sempre fazia quando estava nervosa, sobre instruções, macetes de vôo e tudo o que podia se lembrar do livro que lera. Os garotos, no entanto, não pareceram querer participar da conversa dela, exceto por Neville, que estava tão preocupado quanto ela. Ele praticamente se pendurava em cada palavra que ela dizia, desesperado para aprender qualquer coisa que o ajudasse a se segurar na vassoura mais tarde.
O garoto parou com as anotações quando o correio coruja chegou e uma coruja de curral trouxe para ele um pacotinho da avó. Ele o abriu excitado e mostrou a todos uma bolinha de vidro do tamanho de uma bola de gude grande, que parecia cheia de fumaça branca.
— É um Lembrol! – explicou ele. – Vovó sabe que sou esquecido. Isto serve para avisar que a gente esqueceu de fazer alguma coisa. Olhe, aperte assim e ele fica vermelho, ah... – e ficou sem graça, porque o Lembrol de repente emitiu uma luz escarlate – ... você esqueceu alguma coisa…
Neville estava tentando se lembrar do que esquecera quando Draco, que ia passando pela mesa da Grifinória, arrancou o Lembrol de sua mão. Harry e Rony puseram-se imediatamente de pé. Hermione já tinha percebido que os dois não se davam bem com o sonserino e também, para ser honesta, não podia culpá-los por isso: ele era realmente irritante, e até mesmo cruel. Por sorte a Profa. Minerva, que era capaz de identificar uma confusão mais depressa do que qualquer outro professor da escola, num segundo estava lá.
— Que é que está acontecendo?
— Draco tirou o meu Lembrol, professora.
Mal-humorado, Draco mais do que depressa largou o Lembrol na mesa.
— Só estava olhando – falou, e saiu de fininho com Crabbe e Goyle na esteira.
No horário da aula, naquela tarde, os alunos da Grifinória desceram correndo as escadas que levavam para fora do castelo para a primeira aula de voo. Era um dia claro, com uma brisa fresca e a grama ondeava pelas encostas sob seus pés ao caminharem em direção a um gramado plano que havia do lado oposto à Floresta Proibida, cujas árvores balançavam sinistramente a distância.
Os garotos da Sonserina já estavam lá, bem como as vinte vassouras arrumadas em fileiras no chão. Rony sempre ouvira seus irmãos se queixarem das vassouras da escola, dizendo que umas vibravam quando voavam muito alto, ou sempre repuxavam ligeiramente para a esquerda.
A professora, Madame Hooch, chegou. Tinhas cabelos curtos e grisalhos e olhos amarelos como os de um falcão.
— Vamos, o que é que estão esperando? – perguntou com rispidez. – Cada um ao lado de uma vassoura. Vamos, andem logo.
Rony viu Harry olhar com incerteza para sua vassoura. Era velha e tinha algumas palhas espetadas para fora em ângulos estranhos, como todas as outras.
— Estiquem a mão direita sobre a vassoura – mandou Madame Hooch diante deles – e digam “Em pé!”.
— EM PÉ! – gritaram todos.
A vassoura de Hermione apenas se virou no chão e, ao olhar ao redor, viu que a vassoura de Harry tinha subido imediatamente para sua mão, a de Rony hesitado um pouco, mas também subido até sua mão, e a de Neville nem se mexeu. Hermione tinha lido que as vassouras percebiam quando a pessoa estava com medo, e ela definitivamente estava.
Madame Hooch, em seguida, mostrou-lhes como montar as vassouras sem escorregar pela outra extremidade, e passou pelas fileiras de alunos corrigindo a maneira de segurá-las. Harry e Rony ficaram contentes quando ela disse a Draco que ele segurava a vassoura errado havia anos.
— Agora, quando eu apitar, deem um impulso forte com os pés – disse a professora. – Mantenham as vassouras firmes, saiam alguns centímetros do chão e voltem a descer curvando o corpo um pouco para a frente. Quando eu apitar... três... dois…
Mas Neville, nervoso, assustado, e com medo que a vassoura o largasse no chão, deu um impulso forte antes mesmo de o apito tocar os lábios de Madame Hooch.
— Volte, menino! – gritou ela, mas Neville subiu como uma rolha que sai sob pressão da garrafa, quatro metros, seis metros, depois escorregou de lado para fora da vassoura e caiu com um baque surdo.
Pode-se ouvir um ruído de fratura e Neville ficou de borco na grama, estatelado. Sua vassoura continuou a subir cada vez mais alto e começou a flutuar sem pressa em direção à Floresta Proibida e desapareceu de vista.
Madame Hooch se debruçou sobre Neville, o rosto tão branco quanto o dele.
— Pulso quebrado – Ela murmurou. – Vamos, menino, levante-se.
Virou-se para o restante da classe.
— Nenhum de vocês vai se mexer enquanto levo este menino ao hospital! Deixem as vassouras onde estão ou vão ser expulsos de Hogwarts antes de poderem dizer “quadribol”. Vamos, querido.
Neville, o rosto manchado de lágrimas, segurando o pulso, saiu mancando em companhia de Madame Hooch, que o abraçava pelos ombros.
Assim que se distanciaram e ficaram fora do campo de audição da classe, Draco caiu na gargalhada.
— Vocês viram a cara dele, o panaca?
Os outros alunos da Sonserina fizeram coro.
— Cala a boca, Draco – retrucou Parvati Patil.
— Uuuu, defendendo o Neville? – disse Pansy Parkinson, uma aluna da Sonserina de feições duras. – Nunca pensei que você gostasse de manteiguinhas derretidas, Parvati.
— Olhe! – disse Draco, atirando-se para a frente e recolhendo alguma coisa na grama. – É aquela porcaria que a avó do Neville mandou.
O Lembrol cintilou ao sol quando o garoto o ergueu.
— Me dá isso aqui, Draco – falou Harry em voz baixa. Todos pararam de conversar para espiar. Draco soltou uma risadinha malvada.
— Acho que vou deixá-la em algum lugar para Neville apanhar, que tal em cima de uma árvore?
— Me dá isso aqui – berrou Harry, mas Draco montara na vassoura e saíra voando. Ele não mentira, sabia voar bem, e planando ao nível dos ramos mais altos de um carvalho desafiou:
— Venha buscar, Potter!
Harry agarrou a vassoura.
— Não! – gritou Hermione – Madame Hooch disse para a gente não se mexer. Vocês vão nos meter numa enrascada.
Mas Harry não lhe deu atenção. Saiu atrás de Draco. Ele puxou a vassoura para o alto para subir ainda mais e os alunos gritaram, algumas garotas exclamaram e Rony deu um viva de admiração.
Harry perseguia Draco até que este último jogou a bolinha e voltou pro chão, e Harry voou atrás dela como um raio e segurou centímetros do chão, se recuperando mergulho.
— HARRY POTTER!
Todos se calaram. A Profa. Minerva vinha correndo em direção à turma.
— Nunca... em todo o tempo que estou em Hogwarts…
A Profa. Minerva quase perdeu a fala de espanto e seus óculos cintilavam sem parar, “... como é que você se atreve... podia ter partido o pescoço...” .
— Não foi culpa dele, professora...
— Calada, Srta. Patil...
— Mas Draco...
— Chega, Sr. Weasley. Potter, me acompanhe, agora.
A professora levou Harry caminhando decidida, sem nem olhar para trás. Rony achou muito injusto só seu amigo ser levado, enquanto Draco ficava rindo presunçosamente e por isso mais tarde, depois do jantar, resolveu esperar pelo amigo ainda no Salão Principal para saber o que tinha acontecido.
Pouco tempo depois Harry entrou no salão contando que a professora o havia levado para o capitão do time de quadribol da Grifinória para que ele fosse o apanhador — e para isso iria pedir também uma permissão especial ao diretor.
Rony tinha um pedaço de bife e pastelão de rins a meio caminho da boca, mas esqueceu o que estava fazendo.
— Apanhador?! – exclamou. – Mas os alunos do primeiro ano nunca... você vai ser o jogador da casa mais novo do último...
— Século – completou Harry, enfiando o pastelão na boca. Parecia particularmente faminto, e Rony imaginou que fosse efeito de toda a agitação da tarde. – Olívio me disse.
Rony estava tão admirado, tão impressionado, que ficou ali sentado de boca aberta para Harry. Pensou em como o garoto tinha sorte — se fosse com ele, certeza que teria sido expulso. Ele estava feliz pelo amigo, é claro, mas não podia deixar de ter uma pontinha de inveja.
— Vou começar a treinar na próxima semana – anunciou Harry. – Só não conte a ninguém, Olívio quer fazer segredo.
Rony assentiu e Fred e Jorge entraram nesse momento no salão. Viram Harry e foram depressa falar com ele.
— Grande lance – falou Jorge em voz baixa. – Olívio nos contou. Estamos no time também... batedores.
— Sabe de uma coisa, tenho certeza de que vamos ganhar a taça de quadribol deste ano – disse Fred. – Não ganhamos desde que Carlinhos terminou a escola, mas o time deste ano vai ser brilhante. Você deve ser bom, Harry, Olívio estava quase dando pulinhos quando nos contou.
— Em todo o caso, temos de ir, Lino Jordan acha que encontrou uma nova passagem secreta para sair da escola.
Fred e Jorge mal tinham desaparecido quando alguém menos bem-vindo apareceu: Draco, ladeado por Crabbe e Goyle. Rony continuou comendo, mas de ouvido atento.
— Comendo a última refeição, Harry? Quando vai pegar o trem de volta para a terra dos trouxas?
— Você está bem mais corajoso agora que voltou ao chão e está acompanhado por seus amiguinhos – disse Harry, tranquilo.
— Enfrento você a qualquer hora sozinho – disse Draco. – Hoje à noite, se você quiser. Duelo de bruxos. Só varinhas, sem contato. Que foi? Nunca ouviu falar de duelo de bruxos, suponho?
— Claro que já – respondeu Rony no lugar do amigo, virando-se. – Vou ser o padrinho dele, quem vai ser o seu? Draco mirou Crabbe e Goyle, medindo-os.
— Crabbe, meia-noite está bem? Nos encontramos na sala de troféus, está sempre destrancada.
Quando Draco foi embora, Rony e Harry se entreolharam.
— O que é um duelo de bruxos? – perguntou Harry. – E o que você quis dizer quando se ofereceu para ser meu padrinho?
— Bom, o padrinho fica lá para tomar o seu lugar se você morrer – disse Rony com displicência, voltando a comer o pastelão frio. Surpreendendo a expressão no rosto de Harry, acrescentou bem depressa: – Mas as pessoas só morrem em duelos de verdade, sabe, com bruxos de verdade. O máximo que você e Draco conseguirão fazer será atirar fagulhas um no outro. Nenhum dos dois conhece magia suficiente para fazer estragos. Mas aposto que ele esperava que você recusasse.
— E se eu agitar minha varinha e nada acontecer?
— Jogue a varinha fora e meta-lhe um soco na cara – sugeriu Rony.
— Com licença.
Hermione não pode deixar de ouvir o que diziam. Os dois ergueram os olhos.
— Será que a pessoa não pode comer sossegada neste lugar?! – exclamou Rony, mau-humorado. Aquela garota o tirava do sério.
Hermione não ligou para ele: sabia que era um grosseiro, desde o primeiro dia, e então se dirigiu a Harry.
— Não pude deixar de ouvir o que você e Draco estavam dizendo...
— Aposto que podia – resmungou Rony.
— ... e você não deve andar pela escola à noite, pense nos pontos que vai perder para a Grifinória se for pego, e você vai ser. É muito egoísmo da sua parte.
— E, para falar a verdade, não é da sua conta – respondeu Harry.
— Tchau – disse Rony.
Hermione engoliu a seco e saiu. Ela só queria garantir que eles não dessem mais problemas à Grifinória, não dissera nada demais e nem estava errada em pensar dessa forma. Sem contar que estava na cara que aquilo era uma armadilha.
Rony passou a noite toda dando a Harry conselhos do tipo “Se ele tentar lançar um feitiço, é melhor você tirar o corpo fora, porque não consigo me lembrar como se fecha o corpo”. E quando chegou próximo do horário, ele se levantou e cochichou pra Harry, para não acordar Simas e Dino, porque Neville ainda não havia voltado da ala hospitalar:
— Onze e trinta. É melhor irmos.
Eles vestiram os robes, apanharam as varinhas e atravessaram sorrateiros o quarto da torre, desceram a escada em espiral e entraram na sala comunal da Grifinória. Algumas brasas ainda rutilavam na lareira, transformando todas as poltronas em sombras corcundas. Tinham quase chegado à abertura no retrato quando uma voz falou da poltrona mais próxima.
— Não posso acreditar que você vai fazer isso, Harry.
Uma lâmpada se acendeu. Hermione tinha ficado na sala comunal por precaução, caso eles resolvessem mesmo fazer aquilo. Ela estava de robe cor-de-rosa e cara fechada.
— Você! – exclamou Rony, furioso. – Volte para a cama!
— Quase contei ao seu irmão – retorquiu Hermione. – Percy, ele é monitor, ia acabar com essa história.
Rony ignorou a garota, ainda mais furioso agora que ela havia ameaçado-o com Percy, e chamou Harry:
— Vamos!
Em seguida, afastou o retrato da Mulher Gorda com um empurrão e passou pela abertura.
Hermione, contudo, não ia desistir com tanta facilidade. Ela seguiu Rony pela abertura do retrato, sibilando para os dois como um ganso raivoso.
— Vocês não se importam com a Grifinória, vocês só se importam com vocês mesmos, eu não quero que a Sonserina ganhe a taça da casa e vocês vão perder todos os pontos que ganhei com a Profa. Minerva por saber a Troca de Feitiços.
— Vai embora. — Rony não conseguia nem mais ouvir a voz dela, e estava fazendo força para ignorá-la.
— Tudo bem, mas eu preveni vocês, lembrem-se do que eu disse quando estiverem amanhã no trem voltando para casa, vocês são tão…
Mas o que eram, eles não chegaram a saber. Hermione se virara para o retrato da Mulher Gorda para tornar a entrar e se viu diante de um quadro vazio. A Mulher Gorda tinha saído para fazer uma visita noturna e Hermione ficou trancada do lado de fora da torre da Grifinória.
— Agora o que é que eu vou fazer? – perguntou com a voz esganiçada.
— O problema é seu – disse Rony. Quem havia mandado ela ficar bisbilhotando o que iam fazer ou não, seguindo-os até ali? – Nós temos de ir, se não vamos nos atrasar.
Os dois saíram pelo corredor e ela se viu sozinha em frente ao retrato. Pensando rápido, a garota achou melhor ir com eles, pois se ficasse parada ali era capaz de Filch, o zelador, passar e ela ser punida por estar fora da cama. É claro que as chances de que eles três não fossem pegos pelo corredor também era quase nula, impossível, mas ao menos se isso acontecesse ela poderia falar a verdade, já que não participaria do que estavam tramando: que os estava tentando impedir de sair — o que os dois não poderiam negar.
Rony e Harry nem tinham chegado ao fim do corredor quando Hermione os alcançou.
— Vou com vocês.
— Não vai, não.
— Vocês acham que vou ficar parada aqui, esperando o Filch me pegar? Se ele encontrar os três, conto a verdade, que eu estava tentando impedir vocês de saírem e vocês podem confirmar.
— Mas que cara de pau – disse Rony bem alto.
— Calem a boca, vocês dois – disse Harry bruscamente. – Ouvi uma coisa.
Era como se alguém estivesse farejando.
— Madame Nor-r-ra? – murmurou Rony, apertando os olhos para enxergar no escuro.
Não era Madame Nor-r-ra. Era Neville. Estava enroscado no chão, dormindo a sono solto, mas acordou repentinamente assustado quando eles se aproximaram.
— Graças a Deus que vocês me encontraram! Estou aqui há horas, não consegui me lembrar da nova senha para entrar no quarto.
— Fale baixo, Neville. A senha é “focinho de porco”, mas não vai lhe adiantar nada agora, a Mulher Gorda saiu.
— Como está o braço? – perguntou Harry.
— Ótimo – disse Neville mostrando-o. – Madame Pomfrey consertou-o na hora.
— Que bom, olhe, Neville, temos de ir a um lugar, vemos você depois.
— Não me deixem aqui! – pediu Neville pondo-se de pé. – Não quero ficar sozinho, o barão Sangrento já passou por aqui duas vezes.
Rony consultou o relógio e em seguida fez uma cara furiosa para Hermione e Neville.
— Se formos pegos por causa de vocês, não vou sossegar até aprender aquela Feitiça do Morto-Vivo que Snape falou e vou usá-la contra vocês.
Hermione ia retrucar com Rony, mas Harry mandou-a ficar quieta e fez sinal para prosseguirem.
Passaram quase voando pelos corredores listrados pelo luar que entrava pelas grades das janelas altas. Subiram correndo uma escada até o terceiro andar e, nas pontas dos pés, dirigiram-se à sala dos troféus.
Draco e Crabbe ainda não tinham chegado. As vitrines de cristal onde estavam guardados os troféus refulgiam quando tocadas pelo luar. Taças, escudos, pratos e estátuas piscavam no escuro com lampejos prateados e dourados. Eles caminharam rente às paredes, mantendo os olhos nas portas de cada lado da sala. Rony viu Harry tirar a varinha da caixa. Os minutos passaram vagarosos.
— Ele está atrasado, quem sabe se acovardou – Rony sussurrou.
Então um ruído na sala ao lado os sobressaltou. Harry acabara de erguer a varinha quando ouviram alguém falar, e não era Draco.
— Vá farejando, minha querida, eles podem estar escondidos em algum canto.
Era Filch falando com Madame Nor-r-ra. Harry fez sinais frenéticos para os outros três o seguirem o mais depressa possível; e fugiram silenciosos em direção à porta mais distante da voz de Filch. As vestes de Neville mal tinham acabado de passar a curva quando ouviram Filch entrar na sala dos troféus.
— Eles estão por aqui – ouviram-no resmungar –, provavelmente escondidos.
— Por aqui! – disse Harry, apenas mexendo a boca para os outros e, petrificados, eles começaram a descer uma longa galeria cheia de armaduras. Podiam ouvir Filch se aproximando. Neville, de repente, soltou um guincho assustado e saiu correndo. Tropeçou, agarrou Rony pela cintura e os dois desabaram em cima de uma armadura.
A queda e o estrépito foram suficientes para acordar o castelo inteiro.
— CORRAM! – gritou Harry e os quatro desembestaram pela galeria, sem virar a cabeça para ver se Filch os seguia. Fizeram a curva firmando-se no alisar da porta e saíram galopando por um corredor atrás do outro, Harry na liderança, sem a menor ideia de onde estavam nem que direção tomavam. Atravessaram uma tapeçaria, rasgando-a, e encontraram uma passagem secreta, precipitaram-se por ela e foram sair perto da sala de aula de Feitiços, que sabiam estar a quilômetros da sala dos troféus.
— Acho que o despistamos – ofegou Harry, apoiando-se na parede fria e enxugando a testa. Neville estava dobrado em dois, chiava e falava desconexamente.
— Eu... disse... a vocês – Hermione falou sem fôlego, agarrando o bordado no peito. – Eu... disse... a vocês.
— Temos de voltar à torre de Grifinória – lembrou Rony –, o mais rápido possível.
— Draco enganou você – disse Hermione a Harry. – Já percebeu isso, não? Não ia enfrentar você. Filch sabia que alguém ia estar na sala dos troféus. Draco deve ter contado a ele.
Rony torceu a cara, olhando Harry de relance. Achou que ela provavelmente tinha razão, e que o amigo sabia daquilo tanto quanto ele, mas nenhum dos dois ia dar o braço a torcer.
— Vamos.
Não ia ser tão simples. Não tinham caminhado nem dez passos quando ouviram o barulho de uma maçaneta e alguma coisa disparou da sala de aula à frente deles.
Era Pirraça. Avistou os garotos e soltou um guincho de prazer.
— Cale a boca, Pirraça, por favor, você vai fazer a gente ser expulso. — falou Harry.
Pirraça soltou uma gargalhada.
— Passeando por aí à meia-noite, aluninhos? Tsc, tsc. Que feinhos, vão ser apanhadinhos.
— Não, se você não nos denunciar, Pirraça, por favor. — pediu ele novamente.
— Devia contar ao Filch, devia – disse Pirraça bem comportado, mas seus olhos cintilaram de maldade.
— É para o seu próprio bem, sabem?
— Saia da frente – disse Rony com rispidez, baixando o braço em Pirraça. Foi um grande erro.
— ALUNOS FORA DA CAMA! – berrou Pirraça. – ALUNOS FORA DA CAMA NO CORREDOR DO FEITIÇO! Passando por baixo de Pirraça eles saíram desembalados até o final do corredor onde depararam com uma porta... fechada.
— Acabou-se! – gemeu Rony, empurrando inutilmente a porta. Tinha certeza de que alguém os pegaria. Não queria nem pensar no escândalo que sua mãe faria – Estamos ferrados! É o fim!
Ouviram-se passos, Filch correndo a toda em direção aos gritos de Pirraça.
— Ah, sai da frente – Hermione resmungou, aborrecida. Agarrando a varinha de Harry, bateu na fechadura e murmurou: – Alohomora!
A fechadura deu um estalo e a porta se abriu – eles se atropelaram por ela, fecharam-na e apuraram os ouvidos, à escuta.
— Para que lado eles foram, Pirraça? – era Filch perguntando. – Depressa, me diga.
— Peça “por favor”.
— Não me enrole, Pirraça, vamos, para que lado eles foram?
— Não digo nada se você não pedir “por favor” – disse Pirraça na cantilena irritante com que falava.
— Está bem, por favor.
— NADA! Ha haaa! Eu disse a você que não dizia nada se você não pedisse por favor! Ha ha! Haaaaaa!
E ouviram Pirraça voar rápido para longe e Filch xingar com raiva.
— Ele acha que a porta está trancada! – Harry falou. – Acho que escapamos. Sai para lá, Neville! – Neville puxava a manga do robe de Harry fazia um minuto. – Que foi?
Harry se virou – e viu, muito claramente, o que foi. Rony estava com os olhos estatelados nos de um cachorro monstruoso que ocupava todo o corredor — que há um minuto atrás achavam ser uma sala — proibido do terceiro andar. Agora sabiam por que era proibido.
Rony tinha certeza de que todo o seu corpo estava congelado, de dentro para fora: era o medo que parecia ter dissolvido todos os seus órgãos e paralisado-o de repente, enquanto todo tipo de coisa infeliz e desesperadora passava por sua cabeça. O cachorro ocupava todo o espaço entre o teto e o piso. Tinha três cabeças. Três pares de olhos que giravam enlouquecidos; três narizes, que franziam e estremeciam farejando-os; três bocas babosas, a saliva escorrendo em cordões viscosos das presas amarelas.
Harry tateou à procura da maçaneta – entre Filch e a morte, ficava com o Filch. Retrocederam. Harry bateu a porta e eles correram, quase voaram pelo corredor. Filch devia ter tido pressa para procurá-los em outro lugar porque não o viram em parte alguma, mas nem se importaram – a única coisa que queriam era abrir a maior distância possível entre eles e o monstro. Não pararam de correr até chegarem ao retrato da Mulher Gorda no sétimo andar.
— Onde foi que vocês andaram? – perguntou ela, olhando para os robes que caíam soltos dos ombros e os rostos vermelhos e suados.
— Não interessa. Focinho de porco, focinho de porco – ofegou Harry, e o quadro girou para a frente. Eles entraram de qualquer jeito na sala comunal e desmontaram, trêmulos, nas poltronas.
Levou algum tempo até um deles falar alguma coisa. Neville, então, parecia que nunca mais voltaria a falar. Rony, agora que o pânico momentâneo havia passado, estava imaginando como aquele cachorro havia ido parar ali e por quê. Era certo que Dumbledore os havia avisado sobre a proibição naquele corredor, mas por aquele tipo de perigo, era um tanto peculiar
— Que é que vocês acham que eles estão querendo, com uma coisa daquelas trancada numa escola? – perguntou Rony finalmente. – Se existe um cachorro que precisa de exercícios é aquele.
Hermione tinha recuperado tanto o fôlego quanto o mau humor.
— Vocês não usam os olhos, vocês todos, usam? – perguntou com rispidez. – Vocês não viram em cima do que ele estava?
— No chão? – arriscou Harry. – Eu não fiquei olhando para as patas, estava ocupado demais com as cabeças.
— Não, não estou falando do chão. Ele estava em cima de um alçapão. É claro que está guardando alguma coisa.
Ela se levantou olhando feio para eles.
— Espero que estejam satisfeitos com o que fizeram. Podíamos ter sido mortos, ou pior, expulsos. Agora, se vocês não se importam, eu vou me deitar.
Rony ficou olhando para ela, de boca aberta.
— Não, não nos importamos. Qualquer um pensaria que nós a arrastamos conosco, não é mesmo? — ele respondeu bravo.
Definitivamente, aquela garota o irritava mais do que qualquer pessoa. Até com Percy ele poderia lidar melhor agora, porque pelo menos ele não o estava perseguindo pra lá e pra cá, mas ela! Ela andava no encalço dele e Harry sempre que podia, e depois os repreendia pelo que quer que fizessem em que ela tivesse se metido também, como se eles a tivessem obrigado àquilo. Quem a havia chamado, em primeiro lugar?
Hermione nem respondeu a ele e subiu para o dormitório, irritada. Aquele garoto era insuportável e, além do mais, atrevido. Ela os havia salvado, ele deveria agradecer por ela os ter seguido e aceitar que, afinal, estava certa. De toda forma, por que ela ainda se importava? Devia tê-los deixado fazer o que quisessem, assim quem sabe àquela altura estariam na enrascada que mereciam, provavelmente voltando para casa no dia seguinte.
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