A Pedra Filosofal - Por Rony W.e Hermione G.
12 Capítulo 12 - A Prova
Na manhã seguinte Harry contou a Rony e Hermione que a capa estava sob seus lençóis com um bilhete que dizia “Por via das dúvidas”. Os amigos ficaram criando teorias de quem poderia ter sido, mas não conseguiram pensar muito nisso: os exames se aproximavam, e o fato de sentirem que um perigo iminente rondava o castelo não ajudava em nada.
Os dias foram se passando lentamente e não havia dúvidas de que Fofo continuava vivo e bem seguro atrás da porta trancada. Fazia um calor insustentável, principalmente na sala das provas escritas. Os alunos tinham recebido penas novas e especiais para fazê-las, previamente encantadas com um feitiço anticola.
Houve exames práticos também. O Prof. Flitwick os chamou à sala de aula, um a um, para verificar se conseguiam fazer um abacaxi sapatear na mesa. A Profa. Minerva observou-os transformarem um camundongo em uma caixa de rapé e conferiu pontos pela beleza da caixa, e os descontou quando a caixa tinha bigodes. Snape deixou-os nervosos, bafejando em seu pescoço enquanto tentavam se lembrar como fazer a poção do esquecimento.
Rony percebera que os pesadelos de Harry tinham piorado, e muitas vezes ele nem dormia. Ele, no entanto, não dissera nada ao amigo, apenas à Hermione, que o aconselhou a realmente não fazer comentário algum, pois achava que Harry já estava sob muita pressão, e se ainda ficassem voltando no assunto da pedra filosofal e de Você-Sabe-Quem poderiam prejudicar o amigo ainda mais.
O último exame foi de História da Magia. Uma hora respondendo a perguntas sobre velhos bruxos gagás que inventaram caldeirões automexíveis e estariam livres, livres por uma semana maravilhosa até saírem os resultados dos exames. Quando o fantasma do Prof. Binns mandou-os descansar as penas e enrolar os pergaminhos, todos deram vivas.
— Foi muito mais fácil do que pensei – comentou Hermione, quando eles se reuniram aos numerosos alunos que saíam para os jardins ensolarados. Ela mal acreditava que havia estudado tantas coisas que, no fim, foram inúteis para os exames – Eu nem precisava ter aprendido o Código de Conduta do Lobisomem de 1637, nem a revolta de Elfric, o Ambicioso.
Hermione sempre gostava de repassar as provas depois de fazê-las, mas Rony havia dito que isso o fazia se sentir mal. Assim, caminharam até o lago sem dizer muita coisa e se sentaram à sombra de uma árvore. Os gêmeos Weasley e Lino Jordan faziam cócegas nos tentáculos de uma lula gigantesca, que tomava sol na água mais rasa.
— Acabaram-se as revisões – suspirou Rony, contente, esticando-se na grama. – Você podia fazer uma cara mais alegre, Harry, temos uma semana inteira até descobrir se nos demos mal, não precisa se preocupar agora.
Harry esfregava a testa.
— Eu gostaria de saber o que significa isso! – explodiu aborrecido. – Minha cicatriz não para de doer, já senti isso antes, mas nunca com tanta frequência.
— Procure Madame Pomfrey – sugeriu Hermione.
— Eu não estou doente – respondeu Harry. – Acho que é um aviso... Significa que o perigo está se aproximando…
Rony não conseguiu se preocupar naquele momento: estava quente demais.
— Harry, relaxe. Hermione tem razão, a Pedra está segura enquanto Dumbledore estiver por aqui. Em todo o caso, nunca encontramos nenhuma prova de que Snape tenha descoberto como passar por Fofo. Ele quase teve a perna arrancada uma vez, não vai tentar outra tão cedo. E Neville vai jogar quadribol na equipe da Inglaterra antes que Hagrid traia Dumbledore.
Harry concordou, mas logo disse estar sentindo como se estivesse se esquecendo de fazer alguma coisa, algo importante.
— Isso são os exames. -falou Hermione, com certeza e achando que compreendia o sentimento — Acordei a noite passada e já tinha lido metade dos meus apontamentos sobre Transfiguração quando me lembrei que já tínhamos feito a prova.
Mas Harry não disse nada, e de repente pôs-se de pé de um salto.
— Onde é que você está indo? – perguntou Rony, sonolento.
— Acabei de me lembrar de uma coisa. – estava muito branco. – Temos que ver Rúbeo agora.
— Por quê? – ofegou Hermione, correndo para alcançá-lo.
— Vocês não acham um pouco estranho – disse Harry, subindo, às carreiras, a encosta gramada – que o que Rúbeo mais quer na vida é um dragão, e aparece um estranho que por acaso tem ovos de dragão no bolso, quando isso é contra as leis dos bruxos? Que sorte encontrar Rúbeo, não acham? Por que não percebi isto antes?
— Do que é que você está falando? – perguntou Rony, tentando entender, mas Harry, correndo pelos jardins em direção à floresta, de novo não respondeu.
Hagrid estava sentado em um cadeirão na frente da casa: tinha as pernas das calças e as mangas enroladas e descascava ervilhas em uma grande tigela.
— Olá – disse, sorrindo. – Terminaram os exames? Têm tempo para um refresco?
— Temos, obrigado – disse Rony, mas Harry o interrompeu.
— Não, estamos com pressa, Rúbeo, preciso lhe perguntar uma coisa. Sabe aquela noite que você ganhou o Norberto? Que cara tinha o estranho com quem você jogou cartas?
— Não lembro – respondeu Hagrid com displicência –, ele não quis tirar a capa…
Viu os três fazerem cara de espanto e ergueu as sobrancelhas.
— Não é nada de mais, tem muita gente esquisita no Cabeça de Javali, o pub do povoado. Podia ser um vendedor de dragões, não podia? Nunca vi a cara dele, ele não tirou o capuz.
Harry se abaixou ao lado da tigela de ervilhas.
— O que foi que você conversou com ele, Rúbeo? Chegou a mencionar Hogwarts?
— Talvez – disse Hagrid, franzindo a testa, tentando se lembrar. – É... ele me perguntou o que eu fazia e eu respondi que era guarda-caça aqui... Depois perguntou de que tipo de bichos eu cuidava... Então eu disse... E disse também que o que sempre quis ter foi um dragão... Então... Não me lembro muito bem... Porque ele não parava de pagar bebidas para mim... Deixa eu ver... Ah, sim, então ele disse que tinha um ovo de dragão, e que podíamos disputá-lo num jogo de cartas se eu quisesse... Mas precisava ter certeza de que eu podia cuidar do bicho, não queria que ele fosse parar num asilo de velhos... Então respondi que depois do Fofo, um dragão seria moleza…
— E ele pareceu interessado no Fofo? – perguntou Harry, tentando manter a voz calma. Hermione já estava entendendo exatamente qual era a preocupação do amigo, e Rony estava quase lá, agora mais atento à conversa.
— Bom... pareceu... quantos cachorros de três cabeças a pessoa encontra por aí, mesmo em Hogwarts? Então contei a ele que Fofo é uma doçura se a pessoa sabe como acalmá-lo, é só tocar um pouco de música e ele cai no sono…
Hagrid, de repente, fez cara de horrorizado.
— Eu não devia ter-lhe dito isto! – exclamou. – Esqueçam que eu disse isto! Ei, aonde é que vocês vão? Harry, Rony e Hermione não se falaram até parar no saguão de entrada, que parecia muito frio e sombrio depois da caminhada pelos jardins.
— Temos de procurar Dumbledore – falou Harry. – Rúbeo contou àquele estranho como passar por Fofo e quem estava debaixo daquela capa era ou o Snape ou o Voldemort, deve ter sido fácil, depois que embebedou Rúbeo. Só espero que Dumbledore acredite na gente. Firenze talvez confirme, se Agouro não o impedir. Onde é a sala de Dumbledore?
Eles olharam a toda volta, na esperança de ver uma placa apontando a direção certa. Nunca alguém lhes havia dito onde trabalhava Dumbledore, tampouco conheciam alguém que tivesse sido mandado à sala dele.
— Acho que teremos de... – começou Harry, mas inesperadamente ouviram uma voz do outro lado do saguão.
— Que é que vocês estão fazendo aqui dentro?
Era a Profa. Minerva McGonagall, carregando uma pilha de livros.
— Queremos ver o Prof. Dumbledore – disse Hermione, enchendo-se de coragem, pensaram Harry e Rony.
— Ver o Prof. Dumbledore? – a Profa. Minerva repetiu, como se isso fosse uma coisa muito suspeita para alguém querer fazer. – Por quê?
Harry engoliu em seco, e os outros dois se entreolharam.
– É uma espécie de segredo.
— O Prof. Dumbledore saiu faz dez minutos – informou ela secamente. – Recebeu uma coruja urgente do ministro da Magia e partiu em seguida para Londres.
— Ele saiu?! – exclamou Harry, frenético. – Agora?
— O Prof. Dumbledore é um grande mago, Potter, o tempo dele é muito solicitado.
— Mas é importante.
— Alguma coisa que você tenha a dizer é mais importante do que o ministro da Magia, Potter?
— Olhe – disse Harry, mandando a cautela às favas –, professora... é sobre a Pedra Filosofal...
Seja o que for que a Profa. Minerva esperava, certamente não era isso. Os livros que levava despencaram dos seus braços, mas ela não os apanhou.
— Como é que vocês sabem? – deixou escapar.
— Professora, acho... sei... que Sn... que alguém vai tentar roubar a pedra. Preciso falar com o Prof. Dumbledore.
Ela o olhou com uma mescla de choque e desconfiança.
— O Prof. Dumbledore volta amanhã – disse finalmente. – Não sei como descobriu sobre a Pedra, mas fique tranquilo, não é possível ninguém roubá-la, está muitíssimo bem protegida.
— Mas, professora...
— Potter, sei do que estou falando. – Curvou-se e recolheu os livros caídos. – Sugiro que vocês voltem para fora e aproveitem o sol.
Mas eles não voltaram.
— É hoje à noite – disse Harry, quando teve certeza de que a Profa. Minerva não podia mais ouvi-los. –Snape vai entrar no alçapão hoje à noite. Ele já descobriu tudo o que precisa e agora tirou Dumbledore do caminho. Foi ele quem mandou aquela carta, aposto que o ministro da Magia vai levar um choque quando Dumbledore aparecer.
— Mas o que é que podemos…
Hermione perdeu a fala. Harry e Rony se viraram. Snape estava parado ali.
— Boa-tarde – disse com suavidade.
Eles o encararam.
— Vocês não deviam estar dentro do castelo num dia como este – falou com um sorriso estranho e torto.
— Estávamos... – começou Harry, sem fazer ideia do que ia dizer.
— Vocês precisam ter mais cuidado. Andando por aqui assim, as pessoas vão pensar que estão armando alguma coisa. E Grifinória realmente não pode se dar ao luxo de perder mais nenhum ponto, não é mesmo?
Harry corou. Viraram-se para sair, mas Snape os chamou de volta.
— E fique avisado, Potter, se ficar perambulando outra vez à noite, vou providenciar pessoalmente para que seja expulso. Bom dia para vocês. — E saiu em direção à sala de professores.
Lá fora, nos degraus de pedra, Harry virou-se para os outros.
— Certo, isto é o que vamos fazer – cochichou com urgência. – Um de nós tem que ficar de olho no Snape, esperar do lado de fora da sala de professores e segui-lo se ele sair. Hermione, é melhor você fazer isso.
Hermione trancou o ar nos pulmões por alguns segundos, surpresa, mas em seguida soltou o fôlego e perguntou, os olhos expandidos de urgência.
— Por que eu?
— É óbvio – disse Rony, imaginando o que aconteceria – Você pode fingir que está esperando pelo Prof. Flitwick, sabe, como é. – E fazendo voz de falsete, completou: – “Ah, Prof. Flitwick. Estou tão preocupada, acho que errei a questão catorze b...”
— Ah, cala a boca – disse Hermione, estreitando os olhos em reprovação para ele pela imitação cômica, mas concordou em vigiar Snape.
— E é melhor ficarmos no corredor do terceiro andar – disse Harry a Rony, que assentiu, embora também estivesse um pouco receoso com o imediatismo do plano. Ele mesmo quisera saber o desenrolar da história com a Pedra antes, e de toda forma, aquilo era importante demais para hesitar agora.
— Vamos. — Harry chamou e os dois se levantaram juntos.
Mas, aquela parte do plano não funcionou. Assim que chegaram à porta que separava Fofo do resto da escola, a Profa. Minerva apareceu de novo, e desta vez perdeu as estribeiras.
— Suponho que você ache que é mais difícil alguém passar por você do que por um pacote de feitiços! – esbravejou. – Chega de bobagens! E se eu souber que você voltou aqui outra vez, vou descontar mais cinquenta pontos de Grifinória! — nessa hora, Rony baixou os olhos e murmurou quase inaudivelmente um lamento como “de sua própria casa…?”, que Minerva, no entanto, ouviu e respondeu, impaciente.
—É, Weasley, da minha própria casa!
Harry e Rony voltaram à sala comunal. Harry acabara de dizer “pelo menos Hermione está na cola de Snape”, quando o retrato da Mulher Gorda se abriu e Hermione entrou.
— Sinto muito, Harry! – lamentou-se, exaltada. – Snape saiu e me perguntou o que eu estava fazendo, então disse que estava esperando Flitwick, e Snape foi buscá-lo, e me mandei, não sei aonde ele foi.
— Bom, então acabou-se, não é? – disse Harry.
Os outros dois olharam para ele. Estava pálido e seus olhos brilhavam.
— Vou sair daqui hoje à noite e vou tentar apanhar a Pedra primeiro.
— Você ficou maluco! – exclamou Rony, sem acreditar no que ouvira.
— Você não pode! – disse Hermione, acalorada. Harry só podia estar brincando. – Depois do que a Profa. Minerva e Snape disseram? Vai ser expulso!
— E DAÍ? – gritou Harry, e os dois recuaram, perplexos com o escarcéu súbito – Vocês não percebem? Se Snape apanhar a pedra, Voldemort vai voltar! Vocês não ouviram contar como era quando ele estava tentando conquistar o poder? Não vai haver Hogwarts para nos expulsar! Ele vai arrasar Hogwarts, ou transformá-la numa escola de magia negra! Perder pontos não importa mais, vocês não entendem? Acham que ele vai deixar vocês e suas famílias em paz se Grifinória ganhar o campeonato das casas? Se eu for pego antes de conseguir a pedra, bem, vou ter que voltar para os Dursley e esperar Voldemort me encontrar lá. É só uma questão de morrer um pouquinho depois do que teria morrido, porque eu nunca vou me aliar aos partidários da magia das trevas! Vou entrar naquele alçapão hoje à noite e nada que vocês dois disserem vai me impedir! Voldemort matou meus pais, estão lembrados?
E olhou zangado para eles. Apesar da reação inesperada, os dois se entreolharam achando que Potter estava certo.
— Você tem razão, Harry – disse Hermione com uma vozinha fraca. Ela nunca o tinha visto daquele jeito, e se assustara um pouco.
— Vou usar a capa da invisibilidade. Foi uma sorte tê-la recuperado. — ele falou mais brando.
— Mas ela dá para esconder nós três? – perguntou Rony, cauteloso.
— Nós... Nós três? — Harry franziu o cenho, parecendo confuso. Rony rolou os olhos e Hermione cruzou os braços, ambos impacientes.
— Ah, corta essa, você não acha que vamos deixar você ir sozinho, não é? — Rony esbravejou, como se aquilo estivesse óbvio.
— Claro que não – disse Hermione com energia. – Como acha que vai chegar à Pedra sem nós? É melhor eu dar uma olhada nos meus livros, talvez encontre alguma coisa útil...
— Mas se formos pegos, vocês dois vão ser expulsos também. — lembrou Harry.
— Não se eu puder evitar – disse Hermione, séria. – Flitwick me disse em segredo que tirei cento e vinte por cento no exame. Não vão me expulsar depois disso.
Depois do jantar os três se sentaram, nervosos, a um canto da sala comunal. Hermione folheava seus apontamentos, esperando encontrar um dos feitiços que queriam anular. Harry e Rony não falavam muito — mais pensavam no que estavam prestes a fazer.
A sala foi-se esvaziando, à medida que as pessoas iam se deitar.
— É melhor apanhar a capa – murmurou Rony, quando Lino Jordan finalmente saiu, se espreguiçando e bocejando. Harry correu até o dormitório e minutos depois estava de volta ao salão comunal.
— É melhor vestirmos a capa aqui para ter certeza de que cobre nós três. Se Filch vir os pés da gente andando sozinhos… — Harry começou a dizer, fazendo uma careta.
— O que é que vocês estão fazendo? – perguntou uma voz a um canto da sala. Neville saiu de trás de uma poltrona, agarrando Trevo, o sapo, que parecia ter feito uma nova tentativa para ganhar a liberdade.
— Nada, Neville, nada – respondeu Harry, escondendo depressa a capa às costas.
Neville olhou bem para aquelas caras cheias de culpa.
— Vocês vão sair outra vez. — acusou ele.
— Não, não, não – disse Hermione. – Não vamos, não. Por que você não vai se deitar, Neville?
— Vocês não podem sair – disse Neville, persistente –, vocês vão ser pegos outra vez. Grifinória vai ficar ainda mais enrolada.
— Você não compreende – disse Harry. – Isto é importante.
Mas Neville estava claramente tomando coragem para fazer alguma coisa desesperada.
— Não vou deixar vocês irem – disse, correndo a se postar diante do buraco do retrato. – Eu... eu vou brigar com vocês.
— Neville – explodiu Rony, que já estava nervoso o bastante com as próprias ideias que tivera das consequências do que estavam prestes a fazer, e bradou com irritação –, se afaste desse buraco e não banque o idiota.
— Não me chame de idiota! Acho que você não devia estar desrespeitando mais regulamentos! E foi você quem me disse para enfrentar as pessoas!
— Foi, mas não nós – respondeu de novo, exasperado. – Neville, você não sabe o que está fazendo.
Ele deu um passo à frente e Neville largou Trevo, o sapo, que desapareceu de vista.
— Vem, então, tenta me bater! – disse Neville, erguendo os punhos. – Estou esperando!
Harry voltou-se para Hermione.
— Faz alguma coisa – pediu, desesperado. Hermione se adiantou, já idealizando o feitiço ideal para aquela circunstância. Ela não queria mesmo fazer aquilo com o garoto, que exceto por aquele momento de coragem súbita e inconsequente, sempre fora legal com ela, mas era necessário — e afinal, não seria nada grandioso, ele ficaria bem.
— Neville – disse ela, franzindo o cenho –, eu realmente lamento muito.
Ela ergueu a varinha.
— Petrificus Totalus! – falou, apontando para Neville.
Os braços de Neville grudaram dos lados do corpo. As pernas se juntaram. Com o corpo inteiro rígido, ele balançou no mesmo lugar e, em seguida, caiu de cara no chão, duro como uma pedra. Hermione correu para desvirá-lo. Os maxilares de Neville estavam trancados de modo que ele não podia falar. Somente os olhos se moviam, mirando-os aterrorizados.
— O que foi que você fez com ele? – sussurrou Harry.
— O Feitiço do Corpo Preso – respondeu Hermione, infeliz. – Ah, Neville, me desculpe.
— Tivemos de fazer isso, Neville, não temos tempo para explicar – disse Harry.
— Você vai entender mais tarde – disse Rony, mirando-o com uma expressão de “sinto muito” enquanto passavam por cima dele e se envolviam na capa da invisibilidade.
Mas deixar Neville deitado imóvel no chão não parecia um bom presságio. No estado de nervosismo em que estavam, cada sombra de estátua lembrava Filch, cada sopro distante do vento parecia o Pirraça assombrando-os.
Ao pé do primeiro lance de escada, encontraram Madame Nor-r-ra, esquivando-se sorrateira quase no alto.
— Ah, vamos dar um pontapé nela, só desta vez – cochichou Rony no ouvido de Harry, louco para se livrar da tensão adicional que a gata trazia, mas o amigo balançou a cabeça. Enquanto subiam cautelosamente contornando a gata, Madame Nor-r-ra virou os olhos de lanterna para eles, mas não fez nada.
Não encontraram mais ninguém até chegarem à escada para o terceiro andar. O Pirraça se balançava a meio caminho, soltando a passadeira para as pessoas tropeçarem.
— Quem está aí? – perguntou de repente quando se aproximaram. E apertou os olhos negros e malvados. – Sei que está aí, mesmo que não consiga vê-lo. Você é um vampiro, um fantasma ou um estudante nojento?
E ergueu-se no ar e flutuou, tentando ver alguém.
— Eu devia chamar o Filch, eu devia, se alguma coisa está andando por aí invisível.
Harry então começou a falar, para surpresa de Rony e Hermione, que congelaram os olhos nele.
— Pirraça – disse ele, num sussurro rouco –, o barão Sangrento tem suas razões para andar invisível.
Pirraça quase caiu, em choque. Recuperou-se a tempo e saiu planando a trinta centímetros dos degraus.
— Desculpe, Sua Sanguinidade, Sr. Barão, cavalheiro – disse untuoso. – Falha minha, falha minha, não o vi, claro que não, o senhor está invisível. Perdoe ao velho Pirraça essa piadinha, cavalheiro.
— Tenho negócios a tratar aqui, Pirraça – crocitou Harry. – Fique longe deste lugar hoje à noite.
— Vou ficar, cavalheiro, pode ter certeza de que vou ficar – prometeu o Pirraça, erguendo-se no ar outra vez. – Espero que os seus negócios corram bem, Barão, não vou perturbá-lo.
E partiu ligeirinho.
— Genial, Harry! – cochichou Rony, contente, ao mesmo tempo de um aceno veemente de Hermione. Harry sorriu brevemente para eles e, instantaneamente voltaram a se concentrar no caminho.
Alguns segundos depois, estavam lá, no corredor do terceiro andar – e a porta já fora aberta.
— Bom, aqui estamos – disse Harry baixinho. – Snape já passou por Fofo.
A visão da porta aberta por alguma razão parecia causar neles a impressão do que os aguardava. Debaixo da capa, Harry se virou para os outros dois.
— Se vocês quiserem voltar, não vou culpá-los. Podem levar a capa, não vou precisar dela agora.
— Não seja burro – respondeu Rony, irritado com aquele discurso insistente de herói solitário. Já haviam dito uma vez que não sairiam do lado do amigo por um só minuto naquela “missão” e provaram a mesma promessa tantas outras vezes ao longo daquele ano letivo, mas ele ainda tinha essa ideia estúpida de livrá-los de alguma coisa que pudesse fazer sozinho.
— Vamos com você – disse Hermione, igualmente firme.
Harry empurrou a porta.
Quando a porta rangeu baixinho, chegaram aos seus ouvidos rosnados surdos. Os três focinhos do cachorro farejaram furiosamente em sua direção, ainda que o bicho não pudesse vê-los.
— O que é isso nos pés dele? – sussurrou Hermione.
— Parece uma harpa – respondeu Rony. – Snape deve tê-la deixado aí.
— Ele acorda no momento que se deixa de tocar – disse Harry. – Bom, aqui vai…
Levou a flauta de Hagrid aos lábios, que tinha pego com a capa, e soprou. Não era realmente uma música, mas às primeiras notas os olhos da fera começaram a se fechar.
Harry nem chegou a tomar fôlego, enquanto os dois amigos respiravam baixo, cuidadosamente. Lentamente, os rosnados do cachorro cessaram – ele balançou nas patas e caiu de joelhos, depois estirou-se no chão, completamente adormecido.
— Continue tocando – Rony preveniu a Harry enquanto saíam de baixo da capa e deslizavam para o alçapão. Sentiram o bafo quente e fedorento do cachorro ao se aproximarem de suas cabeçorras.
— Acho que vamos conseguir abrir a porta – disse Rony, espiando por cima do dorso do cachorro. E em seguida sugeriu, amedrontado, o que lhe pareceu mais sensato: afinal, ela era a mais esperta dos três – Quer entrar primeiro, Hermione?
— Não, eu não! — ela negou rápido, na defensiva.
— Tudo bem. – Rony cerrou os dentes e passou com cautela pelas pernas do cachorro. E abaixando-se puxou o anel do alçapão, que se abriu.
— O que é que você está vendo? – perguntou Hermione, ansiosa.
— Nada... só escuridão... não tem como descer, teremos que nos jogar.
Harry, que continuava a tocar a flauta, fez sinal para atrair a atenção de Rony e apontou para si mesmo.
— Você quer ir primeiro? Tem certeza? – Rony perguntou, apreensivo pelo amigo – Não sei qual é a profundidade dessa coisa. Dá a flauta para Hermione manter Fofo adormecido.
Harry passou a flauta a ela. Naqueles minutinhos de silêncio, o cachorro rosnou e se mexeu, mas no instante que Hermione começou a tocar, ele tornou a cair em sono profundo.
Harry passou por cima de Fofo e espiou pelo alçapão. Depois baixou o corpo pelo buraco até ficar pendurado pelas pontas dos dedos. Então olhou para Rony no alto e disse:
— Se alguma coisa acontecer comigo, não me siga. Vá direto ao corujal e mande Edwiges ao Dumbledore, certo?
— Certo.
— Vejo você daqui a pouco, espero…
E Harry soltou os dedos. Segundos depois os dois ouviram:
— Tudo bem! – A queda é macia, pode pular!
Rony seguiu-o imediatamente. Caiu esparramado ao lado de Harry.
— O que é isso? – Foram suas primeiras palavras.
— Sei lá, uma espécie de planta. Suponho que esteja aqui para amortecer a queda. Venha, Hermione!
A música distante parou. Ouviu-se um latido alto do cachorro, mas Hermione já pulara. Ela caiu do outro lado de Harry.
— Devemos estar a quilômetros abaixo da escola – comentou, um pouco aturdida.
— É realmente uma sorte que esta planta esteja aqui – disse Rony, começando a achar um breve alívio, para começar.
— Sorte! – gritou Hermione, exasperada – Olhem só para vocês dois.
Ela se levantou de um salto e lutou para chegar à parede úmida. Teve de lutar porque, no momento em que chegou ao fundo, a planta começou a se enroscar como as gavinhas de uma trepadeira em volta dos seus tornozelos. Quanto a Harry e Rony, suas pernas já tinham sido bem atadas por longos galhos sem que eles notassem.
Hermione conseguira se desvencilhar antes que a planta a agarrasse para valer. Agora observava horrorizada os dois meninos lutarem para se livrar da planta, mas quanto mais se esforçavam, mais depressa e mais firme a planta se enrolava neles.
— Parem de se mexer! – mandou Hermione. – Sei o que é isso. É visgo do diabo!
— Ah, fico tão contente que você saiba como se chama, é uma grande ajuda – resmungou Rony, tentando impedir que a planta se enroscasse em seu pescoço.
— Cala a boca, estou tentando me lembrar como matá-la! – disse Hermione, tentando resgatar com toda a força os trechos de seus livros e anotações de Herbologia.
— Bom, anda logo, não consigo respirar! – ofegava Harry, lutando com a planta que se enroscava em torno de seu peito.
— Visgo do diabo, visgo do diabo... o que foi que o professor Sprout disse? Gosta da umidade e da escuridão…
— Então acenda um fogo! – engasgou-se Harry.
— É... é claro... mas não tem madeira... – lamentou-se Hermione, torcendo as mãos. Subitamente a ideia de que poderia fazer aquilo da maneira não convencional — trouxa — havia desaparecido de sua cabeça com o nervoso do contexto.
— VOCÊ ENLOUQUECEU? – berrou Rony, estridente, desacreditado e desesperado ao mesmo tempo – VOCÊ É UMA BRUXA OU NÃO É?
— Ah, certo! – exclamou Hermione, envergonhada pelo esquecimento bobo e, puxando a varinha, sacudiu-a, murmurou alguma coisa e despachou um jato daquelas chamas azuis que usara em Snape contra as plantas. Em questão de segundos, os dois meninos sentiram a planta afrouxar e se encolher para longe da luz e do calor. Torcendo-se, ela se desenrolou dos corpos dos meninos, que puderam se levantar.
— Que sorte que você presta atenção às aulas de Herbologia, Hermione – disse Harry, quando se juntou a ela ao pé da parede, enxugando o suor do rosto.
— É – comentou Rony, mas completou, irritadiço –, e que sorte que Harry não perde a cabeça numa crise, “não tem madeira”, francamente.
Hermione descartou seu comentário, rolando os olhos. Se as coisas não ficassem ainda piores, logo ele estaria a agradecendo mentalmente por ter se lembrado, afinal, do que fazer contra a planta.
— Por ali – disse Harry, apontando um corredor de pedra que era o único caminho que havia.
Só o que podiam ouvir além de seus passos eram os pingos abafados da água que escorria pela parede. O corredor começou a descer.
— Você está ouvindo alguma coisa? – Rony cochichou, intrigado. Achou ter ouvido um ruído metálico mais adiante, e algo parecido com um farfalhar.
Harry e Hermione ficaram muito quietos, tentando ouvir, enquanto Rony pensou nos fantasmas de Hogwarts lá em cima: o Barão Sangrento, por exemplo, que arrastava correntes retinindo pra lá e pra cá. Podia ser um fantasma: é claro que, pensou Rony, não para pegar a Pedra ou impedi-los disso, já que não tinham efeito sobre a matéria, podiam ser atravessados e tudo mais, mas quem sabe estivesse vagando por ali, como eles agora, ou ajudando Snape de alguma forma estranha.
—Você acha que é um fantasma? — arriscou, olhando de relance para Harry.
— Não sei... para mim parecem asas. — respondeu o garoto, incerto – Há luz à frente, estou vendo alguma coisa se mexendo.
Chegaram ao fim do corredor e depararam com uma câmara muito iluminada, o teto abobadado no alto.
Era cheia de passarinhos, brilhantes como joias, que esvoaçavam e colidiam pelo aposento. Do lado oposto da câmara havia uma pesada porta de madeira. Não podia ser tão fácil — pensou Hermione. Aqueles pássaros com certeza tinham algum propósito para impedi-los de continuar. Talvez a enorme porta do outro lado estivesse trancada e houvesse algum truque com eles para liberá-la… — ela estava tentando pensar rápido, quando Rony perguntou a Harry.
—Você acha que nos atacarão se atravessarmos a câmara?
— Provavelmente – respondeu Harry, observando as aves – Eles não parecem muito bravos, mas suponho que se todos mergulhassem ao mesmo tempo… — e de repente, deu de ombros — Bom, não tem remédio... vou correr.
Tomou fôlego, cobriu o rosto com os braços e atravessou a câmara correndo. Hermione e Rony ficaram olhando-o com a surpresa de quem não havia se preparado para aquela ação súbita, e com expressões parecidas de receio — as sobrancelhas juntas no cenho, os olhos estreitos como se não tivessem certeza de que queriam ver.
Harry, no engano, alcançou a porta incólume. Baixou a maçaneta, mas estava trancada.
Hermione e Rony o seguiram. Fizeram força para abrir a porta, mas ela nem sequer se moveu, nem mesmo quando Hermione experimentou o seu feitiço de Alohomora. Ela suspirou, se pondo a pensar de novo, mais ansiosa do que antes, e Rony olhava para todos os lados, desejando que alguma ideia brilhante milagrosamente aparecesse em sua cabeça enquanto olhava ao redor.
— E agora? – perguntou Rony.
— Esses pássaros... não podem estar aqui só para enfeitar – disse Hermione, fazendo força para pensar em soluções e, ao mesmo tempo, ver alguma coisa naqueles pássaros que fosse uma pista para ajudar.
Os três levantaram os olhos e observaram os pássaros voando no alto, brilhando – brilhando?
— Eles não são pássaros! – Harry exclamou de repente. – São chaves! Chaves aladas, olhe com atenção. Então isso deve querer dizer... – e olhou à volta da câmara enquanto os outros dois apertavam os olhos para enxergar o bando de chaves no alto. – É, olhe! Vassouras! Temos que apanhar a chave da porta.
Rony e Hermione de repente arregalaram os olhos, entendendo que o amigo tinha razão, e a solução para passar pela porta estava bem ali. Quase na mesma hora, porém, os três pensaram a mesma coisa: mas, eram centenas de chaves!
Depois de poucos segundos de uma reflexão muito quieta, Rony foi o primeiro a pensar em algo e aproximou-se para olhar bem na fechadura da porta, examinando-a. As fechaduras sempre diziam algo sobre suas chaves, afinal, para que se pudessem diferenciar em um molho, por exemplo. Assim, uma fechadura de bronze devia ter uma chave de bronze, de um formato ou de outro de acordo com o estilo e tamanho da fechadura, então aquela era a maneira mais fácil e óbvia de começar a procurar pela correta.
— Estamos procurando uma chave bem grande e antiga, provavelmente de prata, como a maçaneta. — disse, pouco depois de checar a fechadura por alguns segundos.
Logo cada um apanhou uma vassoura e deu impulso no ar, mirando o meio da nuvem de chaves. Hermione estava voando um pouco mais baixo do que os garotos — não gostava de voar em vassouras e tinha um pouco de medo de altura, então apenas às vezes arriscava subir um pouco. Os três tentaram agarrá-la das alturas que estavam, mas as chaves encantadas fugiam e mergulhavam tão rápido que era quase impossível apanhar uma.
Mas, é claro, não era à toa que Harry era o mais jovem apanhador do século. Tinha um jeito para localizar coisas e alcançá-las bem rápido que os outros não tinham.
— Aquela ali! – gritou para os outros depois de observar as chaves por um minuto. – Aquela grandona... ali... não... lá... com as asas azul-forte. As penas estão todas amassadas de um lado.
Rony precipitou-se na direção que Harry apontava, apressado, mas bateu no teto e quase caiu da vassoura. Ele estava acostumado a voar em vassouras, e realmente gostava disso, por sinal, mas a chave era rápida demais para uma pessoa só tentar apanhá-la.
— Temos que cercá-la! – gritou Harry, sem tirar os olhos da chave com a asa danificada. – Rony, você cerca por cima. Hermione, fica embaixo e não deixa ela descer, e eu vou tentar pegá-la. — os dois assentiram para o amigo, e se ajeitaram nas vassouras, de olho na chave — Certo, AGORA!
Rony mergulhou, Hermione disparou para o alto, a chave desviou-se dos dois e Harry partiu atrás dela; a chave voou para a parede, Harry se curvou para a frente e, com uma pancada feia, prendeu-a contra a pedra com a mão. Os vivas de Rony e Hermione ecoaram pela câmara.
Eles pousaram em seguida e Harry correu para a porta, a chave se debatendo em sua mão. Enfiou-a na fechadura e virou-a – deu certo. No instante em que ouviram o barulho da lingueta se abrindo, a chave tornou a alçar voo, parecendo agora muito maltratada depois de ter sido apanhada duas vezes.
— Estão prontos? – Harry perguntou aos dois, a mão na maçaneta da porta. Eles fizeram um sinal afirmativo com a cabeça. Ele escancarou a porta.
A câmara seguinte era tão escura que não dava para ver absolutamente nada. Mas, ao entrarem nela, a luz inesperadamente inundou o aposento, revelando uma cena surpreendente.
Estavam parados na borda de um enorme tabuleiro de xadrez atrás das peças pretas, que eram todas mais altas do que eles e talhadas em um material que parecia pedra. De frente para eles, do outro lado da câmara, estavam dispostas as peças brancas. Harry, Rony e Hermione sentiram um leve arrepio – as peças brancas e altas não tinham feições.
Apesar dessa estranheza, Rony olhou as peças quase uma a uma, fascinado. Era um jogo de xadrez gigante, mais do que em tamanho real!
Tinha que admitir, é claro: pelas circunstâncias, as peças brancas sem feição e seus tamanhos absurdos, era mesmo de se intimidar um pouco. Mas, aquele era um de seus passatempos favoritos, o jogo de que ele tanto gostava e era realmente bom, e além do mais, tinha certeza de que aquela era a primeira e última vez que veria uma coisa daquelas — ou, ainda melhor: que jogaria uma coisa daquelas.
— Agora o que vamos fazer? – sussurrou Harry.
— É óbvio, não é? – falou Rony olhando para o cenário, ainda perplexo. – Temos que jogar para chegar ao outro lado da câmara.
Por trás das peças brancas eles podiam ver outra porta.
— Como? – perguntou Hermione, nervosa. Ela não era boa nem mesmo no xadrez bruxo em tamanho normal, quanto mais naquele: enorme, intimidante e certamente muito mais difícil, já que fora evidentemente transfigurado por McGonagall.
— Acho que vamos ter que virar peças. — respondeu o ruivo, e testou sua teoria se dirigindo a um cavalo preto, esticando a mão para tocar seu cavaleiro. No mesmo instante, a pedra ganhou vida. O cavalo pateou o tabuleiro e seu cavaleiro virou a cabeça protegida por um elmo para olhar Rony.
— Temos que nos unir a vocês para chegar ao outro lado? — arriscou perguntar, pensando no fato de que as peças obedeciam a comandos de voz durante o jogo.
O cavaleiro preto confirmou com a cabeça. Rony virou-se para os outros dois.
— Isto exige reflexão – disse, ficando mais sério – Suponho que a gente tenha que tomar o lugar de três peças pretas...
Harry e Hermione ficaram quietos, observando Rony refletir. Ele se pôs a pensar: precisava escolher bem as peças para conseguir ganhar sem colocar seus amigos em risco. Eles teriam que ocupar o lugar de peças que pudessem ser preservadas até o final. Repassou mentalmente todas as jogadas que sabia e depois de um instante finalmente disse:
— Agora não vão se ofender, mas nenhum dos dois é tão bom assim em xadrez.
— Não estamos ofendidos – interrompeu Harry depressa. – Diga o que vamos fazer.
— Bom, Harry, você toma o lugar daquele bispo e, Hermione, você fica ao lado dele substituindo a torre.
— E você? — perguntou Hermione, preocupada. Aquilo não parecia nada seguro e algo dizia a ela que, sendo o melhor dos três naquilo, Rony poderia acabar se achando na posição de se arriscar mais do que eles.
— Vou ser o cavaleiro. — ele respondeu simplesmente. Sabia que o cavalo era uma peça crucial, que normalmente era sacrificada para um avanço na jogada, mas teria que arriscar: esse era justamente o momento que mais pedia por usar tudo o que sabia para que ganhassem o jogo.
As peças, por sua vez, pareciam estar escutando, porque ao ouvir isso um cavaleiro, um bispo e uma torre deram as costas às peças brancas e saíram do tabuleiro, deixando três casas vazias, que Harry, Rony e Hermione ocuparam.
— No xadrez as brancas sempre jogam primeiro – explicou Rony, observando o tabuleiro. – É... olhem…
Um peão branco avançara duas casas.
Rony começou a comandar as peças pretas. Aquele era o jogo de sua vida, literalmente. Não queria nem pensar no que aconteceria se perdesse — não havia essa possibilidade. As peças se mexiam em silêncio, indo aonde eram mandadas.
— Harry, ande quatro casas para a direita em diagonal. — pediu Rony, com os olhos fixos no tabuleiro e os pensamentos fluindo com muita rapidez em sua cabeça. Como havia previsto, precisava sacrificar um cavalo para conseguir dar continuidade na jogada.
Quando a rainha branca avançou para o outro cavalo e o esmagou no chão, arrastando-o para fora do tabuleiro — onde ele ficou deitado imóvel, de borco no chão -, Harry e Hermione prenderam a respiração e a garota logo soltou um grito assustado.
— Eu tinha que deixar isso acontecer – explicou Rony, um pouco abalado, por saber o que poderia acontecer se errasse a jogada, mas logo se recompôs, apontando – Assim você fica livre para eliminar aquele bispo, Hermione, ande.
Todas as vezes que eles perdiam uma peça, as peças brancas não mostravam piedade. Dali a pouco havia uma coleção de peças pretas inermes encostadas à parede. Duas vezes, Rony reparou, em cima do lance que Harry e Hermione estavam em perigo. Ele próprio disparou pelo tabuleiro eliminando quase tantas peças brancas quanto as pretas que haviam perdido. Era como se estivesse jogando para proteger três reis além de ter que atacar o rei branco.
— Estamos quase chegando – murmurou de repente, visualizando a jogada do xeque-mate em sua cabeça. – Me deixem pensar... Me deixem pensar… — ele falava sozinho, refletindo e murmurando.
A rainha branca virou o rosto vazio para ele. Ele viu, então, que a única saída seria deixar sua peça ser eliminada e com isso Harry daria o xeque-mate.
— É... – continuou ele num murmúrio, mas para si mesmo que para os outros – É o jeito... Preciso me sacrificar. — anunciou decidido e sério.
— NÃO! – Harry e Hermione gritaram, desesperados.
— Isto é xadrez! – retorquiu Rony, firme em sua lógica – A pessoa tem que fazer alguns sacrifícios! Dou um passo à frente e ela me come, isso deixa você livre para dar o xeque-mate no rei, Harry!
— Mas… — Harry quis argumentar, piscando muitas vezes, como se procurasse outra saída.
— Você quer deter Snape ou não? — Rony interrompeu-o, subitamente corajoso, sabendo que, mais do que uma vitória como no xadrez rotineiro, havia coisas realmente importantes em jogo agora.
— Rony… — ele falou baixo, sem reação.
Hermione levou as mãos à boca. Não podia acreditar que ele iria se sacrificar! E além do mais, já haviam visto como as peças eram brutas e impiedosas, com todo aquele tamanho, como ele poderia aguentar o golpe? — talvez ainda pior do que o da rainha branca, arremessando-o para fora do tabuleiro minutos antes.
— Olhe, se você não se apressar, ele já terá apanhado a Pedra! — continuou Rony, olhando para Harry.
— Pronto? – perguntou o ruivo, o rosto pálido, mas decidido, quando Harry assentiu – Então vamos, agora, não se demore depois de ganhar a partida.
Ele avançou e, segundos depois, a rainha branca o atacou. Golpeou Rony com força na cabeça com o braço de pedra e ele caiu com estrondo no chão.
Hermione gritou, sem saber se continuava a olhar para o garoto, esperando com desespero por uma reação, ou se não queria mais arriscar olhá-lo para não saber caso ficasse no chão. Dentro das possibilidades impossíveis naquele instante, ela sabia que na verdade queria ir até ele e ver como estava de uma vez — talvez fazer um feitiço para acordá-lo se estivesse desmaiado: e então a rainha branca arrastou Rony para um lado, o que mostrou a ela e Harry que o amigo parecia ter sido nocauteado.
Hermione engoliu a seco, inquieta com os pensamentos de antes, mas continuou parada em sua casa. Sabia que, caso se movesse, aquilo contaria como uma jogada e ela arruinaria tudo o que Rony planejara, pelo que havia se sacrificado e não haveria mais chances de alcançar Snape com a Pedra Filosofal — o que era todo o objetivo de estarem ali.
Ela voltou a prestar atenção no jogo quando, trêmulo, Harry se deslocou três casas para a esquerda.
O rei branco tirou a coroa e jogou-a aos pés dele. Os meninos tinham ganhado o jogo. As peças se afastaram para os lados e se curvaram, deixando o caminho livre para a porta em frente. Com um último olhar desesperado para Rony — no qual Hermione mentalizou a ele uma fala de que logo estariam de volta para pegá-lo e tudo ficaria bem — ela e Harry se precipitaram para a porta e para o corredor seguinte.
Ela estava mais aflita do que nunca: vê-lo ali caído desacordado era, para dizer o mínimo, assustador. Apesar de ser o maior dos três, ela tinha certeza de que altura não fazia a menor diferença quanto à uma pancada na cabeça e, além do mais, já ouvira falar de pessoas que não resistiam no mundo trouxa por bem menos força do que aquilo. E Rony estava lá, inconsciente, sem que pudessem ajudá-lo agora — era um pensamento quase sufocante, e ela tinha a impressão de que Harry pensava o mesmo, com todo aquele silêncio.
—E se ele...? — começou dizer, sem conseguir completar a frase.
— Ele vai ficar bem – disse Harry, com tom de quem tentava convencer a si mesmo, e mudou de assunto rapidamente – Que é que você acha que vai acontecer agora?
Hermione pensou por um átimo, tentando livrar os pensamentos da ideia de Rony no outro cômodo, inconsciente, e se pôs a enumerar.
— Tivemos o feitiço de Sprout, o visgo do diabo. Flitwick deve ter encantado as chaves. McGonagall transfigurou as peças de xadrez para lhes dar vida. Faltam o feitiço de Quirrell e o de Snape.
Tinham chegado à outra porta.
— Tudo bem? – cochichou Harry.
Hermione respirou fundo, olhou para trás uma última vez, para a porta de onde tinham vindo, e respondeu:
— Vamos.
Harry empurrou a porta para abri-la.
Um fedor horrível entrou por suas narinas, fazendo os dois puxarem as vestes para cobrir o nariz. Os olhos lacrimejando, eles viram, deitado no chão diante deles, um trasgo ainda maior do que o que tinham enfrentado, desacordado e com um calombo ensanguentado na cabeça.
— Que bom que não precisamos lutar contra este aí – sussurrou Harry, enquanto, cautelosamente, saltavam por cima da perna maciça do trasgo. – Vamos, não estou conseguindo respirar.
Harry abriu a porta seguinte. Os dois mal se atreviam a olhar o que vinha a seguir – mas não havia nada muito assustador ali, apenas uma mesa e sobre ela sete garrafas de formatos diferentes em fila.
— É o de Snape – disse Harry. – O que temos de fazer?
Ao cruzarem a soleira da porta, imediatamente irromperam chamas atrás deles. E não eram chamas comuns, tampouco; eram roxas. Ao mesmo tempo, surgiam chamas pretas na porta adiante. Estavam encurralados.
— Olhe! – Hermione apanhou um rolo de papel que havia ao lado das garrafas e começou a ler:
O perigo o aguarda à frente, a segurança ficou atrás,
Duas de nós o ajudaremos no que quer encontrar,
Uma das sete o deixará prosseguir,
A outra levará de volta quem a beber,
Duas de nós conterão vinho de urtigas,
Três de nós aguardam em fila para o matar,
Escolha, ou ficará aqui para sempre,
E para ajudá-lo, lhe damos quatro pistas:
Primeira, por mais dissimulado que esteja o veneno,
Você sempre encontrará um à esquerda do vinho de urtigas;
Segunda, são diferentes as garrafas de cada lado,
Mas se você quiser avançar nenhuma é sua amiga;
Terceira, é visível que temos tamanhos diferentes,
Nem anã nem giganta leva a morte no bojo;
Quarta, a segunda à esquerda e a segunda à direita
São gêmeas ao paladar, embora diferentes à vista.
Hermione deixou escapar um grande suspiro e sorriu: ela sabia exatamente o que era aquilo, e achou brilhante.
— Genial – disse. – Isto não é mágica, é lógica, uma charada. A maioria dos grandes bruxos não tem um pingo de lógica, ficariam presos aqui para sempre.
— E nós também, não? — Harry arriscou, mas a amiga o contradisse sem demora.
— Claro que não. Tudo o que precisamos está aqui neste papel. Sete garrafas: três contêm veneno; duas, vinho; uma nos ajudará a passar a salvo pelas chamas negras; e uma nos levará de volta através das chamas roxas.
— Mas como vamos saber qual delas beber? — Harry perguntou, aflito.
— Me dê um minuto. — ela pediu e se pôs a reler o papel.
Hermione leu o papel diversas vezes. Depois passou em revista a fila de garrafas, para cima e para baixo, resmungando de si para si e apontando para as garrafas. Finalmente, bateu palmas.
— Já sei. A garrafa menor nos fará atravessar as chamas negras, rumo à pedra.
— Ali só tem o suficiente para um de nós. Não chega a ter um gole. — ele constatou, observando o conteúdo da garrafa que ela havia indicado
Eles se entreolharam.
— Qual é a que a fará voltar pelas chamas roxas? — ele voltou a perguntar.
Hermione apontou para uma garrafa arredondada na ponta direita da fila.
— Você bebe essa – disse Harry. – Agora, escute, volte e recolha o Rony, apanhe vassouras na câmara das chaves aladas, elas levarão vocês para fora do alçapão e por cima de Fofo. Vão direto ao corujal e mandem Edwiges a Dumbledore, precisamos dele. Talvez eu possa segurar Snape por algum tempo, mas não sou páreo para ele.
— Mas, Harry, e se Você-Sabe-Quem estiver com ele? — ela começou a se desesperar outra vez, lembrando do que haviam testemunhado na Floresta Proibida, a dor na cicatriz do amigo nos últimos dias, e misturado a Rony já nocauteado no xadrez: estava com um pressentimento horrível.
— Bom... tive sorte uma vez, não tive? – falou Harry indicando a cicatriz. – Talvez tenha sorte outra vez.
A boca de Hermione estremeceu, ela correu de repente para Harry e o abraçou. Ela não queria nem pensar no que o aguardava: e se perdesse seu amigo?
Apesar do pensamento terrível, e de achar que ele poderia dispensar a curiosidade e a teimosia só algumas vezes, Hermione achou que parecia mesmo admirável a forma como Harry era naturalmente destemido, mais do que otimista: como agora, ele sempre parecia pensar que podia dar um jeito em situações perigosas, e que não havia o que perder frente a coisas muito importantes — embora isso os colocasse em apuros muitas vezes.
— Hermione!
— Harry, você é um grande bruxo, sabe? — disse, encorajando-o, e tentando não transpassar o medo que sentia por ele.
— Não sou tão bom quanto você – disse Harry, muito sem graça, quando ela o largou.
— Eu! — ela ironizou — Livros! E inteligência! Há coisas mais importantes, amizade e bravura e, ah, Harry, tenha cuidado! — falou e pediu com sinceridade.
— Você bebe primeiro – disse Harry. – Você tem certeza de qual é qual, não tem?
— Positivo.
Ela tomou um demorado gole da garrafa arredondada na ponta e estremeceu.
— Não é veneno? – perguntou Harry, ansioso.
— Não... mas parece gelo.
— Vai logo antes que o efeito passe.
— Boa sorte... cuide-se...
— VAI!
Hermione virou-se e passou direto pelas chamas roxas.
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