A Passagem
1 Capitulo Unico
Capitulo Único
A Passagem
Era mais um dia ensolarado na simples cidade, era possível ouvir os pássaros cantando calmamente, e junto deles uma leve brisa passava, balançando os galhos das grandes arvores e levando consigo as folhas verdes, que anunciavam o verão.
Como sempre, naquele horário, era possível ouvir um sino tocando, anunciando que já era meio dia, hora das crianças voltarem para casa, junto dos pais ou dos amigos, e não era diferente para o pequeno menino que andava por entre as ruas, porém, diferente de seus amigos, este estava sozinho.
O garoto possuía em torno de nove anos, era mais alto que seus amigos, e possuía uma pele extremamente clara. O jovem menino andava pelo caminho já conhecido, olhando com atenção todas as casas cujas quais passava, porém, sempre teve aquela que lhe chamava a atenção.
Parou na frente do sobrado de aspecto extremamente antigo, as janelas estavam sujas de poeira e com teias de aranha, o portão estava enferrujado, porem continuava alto e belo, como um dia deveria ter sido, o jardim havia se espalhado por todo o terreno, assim como a roseira que acabou subindo pela parede. O jardim, apesar de mal cuidado era extremamente belo, as rosas eram vermelhas e destacavam-se, grudadas na parede, como trepadeiras, porém, mesmo com um jardim tão belo, a casa não deixava de ser, de certo modo, assustadora.
Mais uma brisa se fez presente, balançando seus cabelos castanhos. O vento passou pelas janelas, fazendo a casa soltar alguns barulhos, porem isso não incomodou o menino, que já estava acostumado com aquilo, pois sempre que podia, ia ali e sentava-se no asfalto, observado a casa, as vezes, por horas a fio.
Porém, o pequeno menino sabia que não poderia ficar, e com um pouco de pena, voltou a seguir seu caminho, calmo, como sempre fazia. Ao chegar em casa, encontrou sua mãe sentada a mesa, o esperando como sempre fazia, bagunçou lhe os cabelos castanho quando se aproximou, para então depositar um beijo em sua testa alva, o jovem a olhou com cuidado, notando nela os incríveis olhos verdes que possuía, puxara os cabelos lisos e castanhos do pai, e os olhos verdes e gentis da mãe, com quem passou o resto do dia, até a hora de dormir.
No dia seguinte, acabou acordando primeiro que seus pais, levantou-se como de costume e colocou o seu uniforme, que era apenas uma camiseta branca e um shorts preto, e seguiu para a porta, descendo as escadas, somente para ver sua mãe com o seu típico roupão branco, mexendo em algo na frente do fogão.
O pequeno terminou de descer as escadas, somente para ver seu pai sair correndo enquanto colocava o paletó e pegava as chaves do carro. O homem despediu-se rapidamente e saiu, sem se quer dar uma explicação.
O menino sabia que teria que ir sozinho a aula, porém não se incomodava com isso e após comer, pegou a pequena mochila e saiu após despedir-se de sua mãe.
Resolvera pegar o caminho mais longo, somente para passar em frente à casa novamente, e como estava adiantado, poderia observa-la por mais tempo. Dobrou a esquina, ouvindo os pássaros que haviam acabado de acordar cantando, passava de casa em casa, sentindo o cheiro de ovos e bacon, até que finalmente alcançou o seu destino.
Parou então em frente ao grande sobrado, olhou no relógio azul claro que trazia no pulso, as horas, percebendo que ainda era cedo. Sentou-se como índio no chão, e ficou a observar a casa, até que, para a sua surpresa, algo passou correndo por entre o mato e seguiu para dentro da casa.
O pequeno, surpreso, seguiu até o portão, abrindo passagem, foi obrigado a se abaixar para passar pelos ganhos de uma amoreira e seguiu terreno a dentro, tentando fazer o mesmo caminho que havia visto o “ser” fazer.
Andou até uma passagem que levava aos fundos da casa, não tinha medo, e por isso não vacilou quando viu um grande arbusto tampando a passagem, andando até o matagal, enfiando-se nele, somente para, após passar, ter a visão de um pequeno lago, com diversas mariposas e libélulas voando.
-Uau.... – sussurrou ele. E novamente, viu o mato mexendo-se, dessa vez a sua esquerda – Ei!
Sem perder tempo, o pequeno se pôs a correr, e quando estava quase alcançando o que queria, o mato subitamente parou de se movimentar, o pequeno então olhou em volta, percebendo que ainda se encontrava nos fundos da casa, então o menino olhou para frente, deparando-se com uma pequena porta, que no momento estava entreaberta.
Com cuidado, abriu a pequena porta, adentrando pela mesma, viu então que era a entrada para um túnel, o pequeno então colocou-se de joelhos e começou a engatinhar para dentro do túnel, porém, ouviu um miado vindo atrás de si, que o fez dar um pequeno pulo e acertar a cabeça no teto de madeira.
O jovem olhou para trás com um pouco de dificuldade, quanto estava com uma das mãos na cabeça, numa tentativa frustrada de apartar a dor. Ao virar para traz, deparou-se com um gato, que o encarava, com os seus grande olhos azuis extremamente claros, que contratavam com o seu pelo negro.
O garoto decidiu ignorar o gato e virou-se mais uma vez para frente, porem o gato miou, irritado, o que fez o pequeno menino pensar que talvez o gato estivesse lhe dando uma bronca por estar invadindo aquele local, porem isso não o fez parar e ele voltou a engatinhar.
O menino engatinhou por alguns minutos, até que o túnel começou a ficar mais alto, logo ele estava podendo andar em pé, apenas um pouco curvado. O pequeno andou apenas dois minutos em pé, até ver a silhueta de uma porta a sua frente.
Andou um pouco mais rápido, até alcançar a porta, abrindo-a com um pouco de pressa enquanto sentia o suor escore-lhe pelo pescoço e rosto. Ao abrir a porta, teve uma das visões mais belas de sua vida, viu um lago com mariposas e libélulas voando, assim como alguns passarinhos que davam mergulhos na agua e saiam, somente para parar na margem e sacudir-se como um cachorro molhado.
Porém, o que lhe chamou a atenção era a garota ajoelhada na beira do lago, seus cabelos eram negros como a noite, e sua pele era extremamente branca, tão branca que poderia ser facilmente comparada com a neve.
A jovem menina parecia ter no máximo dez anos, a pequena usava um vestido braço longo e rodado com um chapéu grande que a protegia do sol. Ela jazia ajoelhada na grama com um cachorro preto com manchas brancas acomodado em suas pernas.
O pequeno menino aproximou-se com cautela, nunca fora muito bom com cachorros, principalmente os grandes como aquele, porém, não prestou a atenção no chão e acabou pisando em um galho que fez um barulho mais alto do que deveria.
A garota olhou para ele e sorriu, e por um momento, o menino perdeu-se nos belos olhos cinzas que a jovem possuía.
-Bom dia – falou ela sorrindo.
-Bo-Bom dia – falou o pequeno um tanto envergonhado.
A menina levantou-se e andou até ele, o cachorro que antes estava em seu colo rosnou irritado, porem levantou-se e saiu de perto, começando a correr atrás dos pássaros que estavam na beirada do lago. A jovem menina parou a sua frente, com um sorriso lindo e acolhedor.
- Qual o seu nome? – perguntou ela sorrindo.
-Verloren – falou ele – E o seu?
-Eu me chamo Ayla, é um prazer conhece-lo Verloren – falou a menina, segurando a barra do vestido e fazendo uma pequena reverencia, para em seguida pegar sua mão e leva-lo em direção ao lago.
Verloren não pode deixar de reparar que haviam estranhas manchas vermelhas no vestido de Ayla, pareciam respingos aleatórios, alguns maiores e outros menores, porém, estavam por todo o vestido.
Ayla e Verloren começaram a conversar sobre coisas aleatórias, e logo pareciam velhos amigos. Verloren percebeu que havia um sobrado atrás de si, era belo e bem cuidado, assim como todo o jardim, porém, o menino não deixava de ter a sensação de que tudo ali lhe era familiar, até mesmo as libélulas lhe pareciam velhas conhecidas.
Logo os dois encontravam-se sentados em uma mesa branca de metal com a superfície de vidro. Sob a mesa haviam biscoitos de chocolate e leite com chá, assim como o açúcar e algumas torradas e xicaras.
Ambos comeram e Verloren só percebeu que estava com fome quando colocou um biscoito de chocolate nos lábios, já Ayla tomou apenas o chá que fumegava de tão quente, enquanto comiam, Verloren perguntou se poderia entrar na casa, porém Ayla lhe disse que não e acabou batendo a xícara sob a mesa, após isso, o pequeno achou melhor não falar mais sobre isso. Após comerem, ambos deitaram sob a sombra de uma arvore e acabaram adormecendo.
Verloren acordou quando um vento incrivelmente frio bateu em seu corpo, o pequeno abriu os olhos e deparou-se com Ayla dormindo ao seu lado, a jovem parecia dormir profundo e serenamente, que Verloren ficou com pena de acorda-la.
Mexendo-se com cautela, o jovem levantou-se no mais absoluto silencio e andou em direção ao sobrado, abriu a porta e vidro e adentrou a casa.
A visão que teve foi de um Hall, o chão era de mármore cor de caramelo, e as paredes de um tom claro de amarelo, o que deixava o ambiente com um ar solene e tranquilo. O jovem viu a sua frente uma porta dupla de madeira escura. Com cuidado andou até ela e a abriu com cuidado. Naquele instante, Verloren desejou nunca ter feito isso, pois sabia que nunca mais esqueceria do que havia ali.
Com os olhos arregalados, Verloren absorveu tudo que havia naquele lugar, cada mínimo detalhe, até que sentiu seu estomago revirar enquanto suas mãos, assim como o seu corpo, começaram a tremer.
O que Verloren via era algo que nenhuma criança deveria ver. Por toda a sala, haviam diversos corpos, completamente dilacerados ou desmembrados, alguns tinham somente marcas pelo corpo, feitas com algum tipo de objeto retangular e pontudo, porém, o fato que mais assustava o jovem era que todos os cadáver não possuíam olhos, apenas cavas vazias.
Verloren podia ouvir o barulho do sangue pingando dos corpos que jaziam no teto, pendurados pelas cabeças ou pernas.
-Você não deveria ter entrado aqui – falou uma voz a suas costas.
O jovem virou-se, vendo Ayla parada atrás de si com a cabeça abaixada e com as mãos para traz.
-Ninguém nunca me ouve, eu sempre disse a eles, sempre... – falou a pequena erguendo a cabeça com lagrimas nos olhos – Eles não me obedeciam, por isso eu tive que fazer isso, tive que puni-los....
-Ayla... – chamou Verloren.
-Você também não me obedeceu... você é igual a eles, todos tolos...tolos! – falou ela movendo os braços e mostrando o que trazia nas mãos – Mais não se preocupe, eu vou ter rápida.
Verloren observou a faca que havia na mão de Ayla, e nela havia sangue seco. Verloen gritou e se pôs a correr, percebendo que por onde passava havia manchas de sangue nas paredes ou no chão, assim como membros ou órgãos.
Virou uma esquina e sentiu uma dor forte no braço, Ayla lhe havia atirado uma faca que por sorte passara de raspão.
Verloen ouvia uma canção, um cantarolar, que parecia cada vez mais alto. Verlorem correu e correu, abriu todas as portas das casas, somente para fecha-las, pois tudo o que havia lá eram cadáveres.
O cheiro de sangue estava insuportável, tão forte que o jovem menino acabou por vomitar em um dos corredores. Verloren já não sabia mais para onde ir, estava cansando e sentia o suor escorrer pelo seu rosto e pescoço assim como o sangue que lhe escorria pelo braço direito, porem quando estava preste a desistir, o jovem ouviu um miado familiar ao seu lado.
Ao olhar para o lado, percebeu o gato negro que havia ali, o mesmo que havia encontrado antes de entrar naquele lugar, o gato miou mais alto e começou a correr, guiando-o pelos corredores.
A canção soava mais alto, porem o jovem começou a ignora-la, algo lhe dizia para seguir o pequeno felino, e que tudo acabaria bem.
O felino virou em um corredor a esquerda, subindo a escada que havia ali, Verloren acompanhava como conseguia, subindo a escada ao tropeços. Ao chegar no topo, viu o gato negro parado ao lado de uma pequena porta, com a chave na boca.
Ao se aproximar, o gato estendeu-lhe a chave, e ficou observando enquanto o jovem abria a porta e a adentrava, passando pelo mesmo caminho pelo qual havia vindo. Após alguns minutos engatinhando e depois correndo o jovem saiu uma vez mais naquele jardim mau cuidado, com roseiras espalhadas pela parede. O pequeno olhou cada parte de seu corpo, notando que estava completamente sujo de poeira e sangue, em seguida, olhou no relógio que trazia no pulso, percebendo que apenas cinco minutos haviam passado desde o momento em que entrara lá.
O jovem olhou em volta, procurando pelo gato, porém não o encontrou, e as únicas provas que sobraram de sua aventura fora a chave prateada em sua mão e o corte em seu braço, que naquele momento, latejava incansavelmente.
Notas finais
Atenciosamente Blood Roses.
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