A Passageira
6 Capítulo VI
04 de setembro de 1994 — Anson/Maine
Os dias que seguiram foram rápidos, cheios de trabalho e correria. Eu mal tinha tempo de respirar. A pesquisa de campo para Estudos Sociais era para a semana seguinte e eu mal havia começado a procurar os entrevistados. Pensei no Sr. Fletcher, em Tate e Klaus, pois além de preencherem os requisitos, pareciam pessoas dispostas a responder perguntas de uma estudante do colegial. O mês de setembro era um dos mais chuvosos do ano, perdendo apenas para outubro, que logo chegaria. O outono na Pensilvânia era pouco menos úmido, e o frio era ameno. Mas naquela região da fronteira com o Quebec, eu podia sentir meus ossos tremerem nas manhãs chuvosas. Por esse motivo, eu vivia agasalhada e lutando contra uma asma incessante. Lyra gostava de tricotar, e fazia lindos e confortáveis cachecóis para todos nós. O último que ela havia feito era para mim, num tom nude, com pequenos trechos em rosa. Eu nunca gostei muito de rosa, ou de flores e corações, mas ele era muito bonito e ajudava meu pescoço fino a se manter aquecido nas 'geadas matutinas'.
Haviam três trabalhos para serem entregues, e ainda não estava com as falas prontas para o teste da sexta. Provavelmente desistiria. Por um breve momento questionei-me porque estava correndo com tanta matéria e me dedicando como nunca me dedicara na vida. A resposta perambulou por entre meus olhos. Era consciência. Podia sentir firmemente o semblante feliz, porém preocupado de Lyra. Sempre esperando uma reação boa de minha parte, uma reação que nunca vinha. Senti que atrapalhava a vida dela de alguma forma. Ela cresceu num lar adotivo, sempre sendo uma garota boa, inteligente e honesta. Se formou na Universidade de Yale, em medicina, um dos cursos mais disputados do país. Lyra nunca deixou de lado a família, apesar de estar dedicando todo seu tempo para si própria. Grata por tudo que lhe fizeram, decidiu que no momento certo adotaria uma menina necessitada, no mesmo patamar que ela. Assim ela me encontrou. Sua primeira visita foi num outubro frio. Ela, Joey e Jimmy foram ver as meninas do abrigo em Paul Valley, um sítio doado pelo governo para auxilio de crianças e jovens abandonados ou negligenciados. Eu fui encontrada aos dez, no antigo rancho onde vivia com meus pais. Depois que eles morreram eu voltei para casa sozinha, e fiquei lá até que a comida acabasse, e então uma mulher me levou para a Assistência Social da cidade. Fui enviada para o abrigo, onde permaneci até Lyra me encontrar. Nos primeiros meses tudo correu bem. Eu era bem tratada, brincava com as garotas da minha idade e até ganhei uma boneca de pano no natal. Com o passar do tempo comecei a frequentar a escola normalmente, mas com um alto grau de dificuldade, logo comecei a matar aula e ficar horas na detenção. Os meninos mais velhos me ensinaram a pular o muro e a fumar cigarros com doze anos. Fiz amizades ruins, andei com garotas ruins e comecei a me intitular líder e dona de mim mesma. No abrigo eu brigava o tempo todo, não obedecia regras e apresentava o pior comportamento de todos. Depois de tomar uma surra de uma menina mais velha, fiquei no alojamento de primeiros socorros com mais umas crianças doentes e machucadas. No total, beiravam a margem de duzentos internos, todos rejeitados, maltratados e solitários. Depois de duas semanas, fui recolocada na área comum de garotas, onde levei toneladas de advertências sobre como eu seria enviada para um instituto corretor de menores, e sofreria graves penas contra minha servis dura. Numa sexta de manhã, uma família tipicamente americana entrou no corredor e passou por todas as salas até o pátio. A mulher tinha os cabelos mais bonitos que eu já havia visto, e eles se igualavam ao do garoto que andava com eles. Me limitei a ficar no gramado, sentada sozinha, quando a Srtª Kirsten me disse para ficar no quarto. Obedeci. Lyra me contou mais tarde, que não havia me visto em nenhuma das quatro visitas ao abrigo, mas que meu olhos chamaram muito a sua atenção, quando passou pelo quadro de internos na sala da direção. Depois de todo o processo de conhecer e se aprofundar, ela viu que eu não passava de uma menina problemática e rancorosa, mas que ela desejou ajudar. Confesso que jamais imaginei que seria adotada. Provavelmente atingiria minha maioridade e seria expulsa de lá, como fui expulsa das escolas. Arrumaria um emprego qualquer e um namorado fora da lei. Mas os ventos conspiraram para minha sorte e me deram a melhor família que eu poderia conseguir. Estava mais do que na hora de começar a honrá-los.
A quarta-feira foi bem tranquila e consegui elaborar meu texto para o teste do musical. Era sobre uma jovem perdida no tempo, buscando como voltar a ser o que fora antes. Calculei que o fim de semana seria perfeito para fazer a pesquisa de campo. No almoço, sentei como de costume na mesa perto da escada de acesso. Mesmo após um bom tempo, eu não possuía nenhum amigo, sequer conhecido, e a garota do prédio não frequentava mais a escola. Um vento frio correu pelas minhas pernas e me fez encolher um pouco os pés dentro do sapato. Uma ligação elétrica circulou pela minha nuca, tendo fim nos meus dedos. Soltei a caneta e o garfo e me afastei da mesa. Podia sentir uma fração fria do vento parado embaixo da mesa. Recolhi os pés e me preparei para levantar quando alguém me chamou e tocou meus ombros. O susto foi sem precedentes. Levantei os olhos de modo tão brusco que senti o pesar sobre eles.
– Sim? — perguntei um pouco atônita. Era um menino loiro, de cabelos meio bagunçados e óculos escuros. Usava a jaqueta do time dos Matletas.
– Então, posso me sentar aqui com você?
Assenti com a cabeça ainda meio perturbada.
– Eu não conheço você, como sabe meu nome? — questionei recolhendo meus livros e papéis espalhado pela mesa.
– Bem, eu estudo com seu irmão, na verdade eu não sabia que era seu irmão — ele tossiu um pouco — Vi vocês chegando juntos todos os dias, pensei que fossem bem, namorados entende? — suprimi o riso e voltei meu olhar para ele — Mas já que não são, eu queria saber se vai fazer algo no sábado à noite.
Gelei por alguns segundos e notei que estava recebendo um convite para sair. Ele era bonito, falava bem, e com certeza era um crânio. Por algum tempo pensei na possibilidade de dizer que não estava afim de sair com ele, mas pensei racionalmente e me surpreendi com a resposta.
– Não, estarei livre. Qual seu nome?
– Jared Gray. Certo Molly, eu poderia então, chamá-la para sair? Podemos voltar cedo, eu converso com sua família se for preciso — ele esboçou um sorriso tímido — Você, queria ou gostaria?
– Claro — falei sinceramente atrapalhada comigo mesma. Não sei se realmente queria ir.
– Tudo bem, eu passo às sete, tudo bem pra você?
Assenti. Ele se levantou, acenou e foi embora. Uau, pensei comigo mesma. Eu iria sair com um garoto. Rapidamente o rosto de Tate invadiu minha mente, e lamentei em pensar que gostaria de estar com ele. A tarde, cumpri as horas semanais de inglês e fiquei um tempo na biblioteca. Procurei revistas para ler enquanto o rádio Sunsart ecoava em meus ouvidos. Em cima das mesas, ficavam pequenos rádios de frequência modulada com grandes fones de ouvido, para escutar algo enquanto lia. Eu particularmente não conseguia me concentrar em duas coisas ao mesmo tempo, mas como não lia nada muito importante, consegui aproveitar ambos os lados. O sinal pareceu tremer e em seguida a estação foi trocada aleatoriamente. A voz fina, ríspida e fria do outro lado das ondas era de Shelley Bran. Eu conhecia muito bem os programas estúpidos sobre contatos espirituais e sensitivos que ela apresentava. Pensei em mudar de estação, quando o som de uma ouvinte que chorava prendeu minha total atenção. Senti que deveria ouvir.
– Shelley, eu preciso de ajuda. Estou ouvindo coisas, vendo pessoas e não consigo me desprender disto. Eles me clamam por ajuda e eu estou aterrorizada, estou ficando louca.
A jovem parecia tão assustada. A ligação finalizou e Shelley pigarreou.
– Minha pequena garotinha, você não está louca. Pelo contrário, está em sua plena execução da mente. Seus dons estão aflorando e você está começando a ver o que tem que ser visto. Você é uma médium, uma receptora jovem. Precisa ajudar esses pobres que não conseguem se desprender. Aceite seu dom.
Enquanto ela continuava falando, imaginei as muitas vezes que mamãe ouvia o programa durante a tarde. Ela gostava de falar sobre isso e sempre me dizia para crer em tudo, até no que meus olhos não pudessem ver. Shelley tossiu um pouco e pediu atenção naquele momento. Aumentei um pouco o volume e o sinal começou a falhar.
– Você que pode me ouvir agora, tem ouvido sons? Vozes? Visto coisas que de repente, somem? Está perturbado e sente que os mortos estão procurando por você? Não se sinta mal com isso. Os médiuns são diferentes dos sensitivos, não se esqueçam. Sensitivos podem ter sensações presenciais, mas não podem manter contato. Médiuns são altos no escalão de ver e ouvir os outros. Você já passou pela morte, já sentiu fundo a perda e agora está começando uma nova vida. Mas não pode começar sem terminar coisas antigas. Seu aniversário está próximo? Ele te trará uma nova escolha. Você é uma criatura especial, você tem um dom. Você é uma passageira.
O sinal tremulou e a frequência parou. Tirei os fones e me recostei na cadeira. Era tudo baboseira para mim, mas ela dizia coisas diferentes. Sua voz ainda ecoava em meus pesamentos, e ela parecia falar diretamente comigo. De impulso me levantei e fui até a mesa da Sra. Dimpsen sem qualquer motivo aparente. Sempre eu levava café para ela, e conversávamos um pouco sobre as mudanças da escola. Ela estava com uma idade bem avançada, mas não abandonava seus livros por hipótese alguma. Me sentei na cadeira e ela apenas levantou o olhar por cima dos óculos dos anos cinquenta. Sorriu de canto e continuou a escrever em sua caderneta.
– Aconteceu algo Molly?
– Não, quer dizer, sim — vacilei.
– Sabe que pode me falar qualquer coisa não é Molly?
– Sim, eu sei — averiguei meus sapatos, meias, tudo tentando evitar contato visual, mas ela sabia que eu estava sofrendo por algo. Decidi então tomar a dianteira — Sra. Dimpsen, já ouviu falar sobre Terrish Winter?
– Terrish? Ora, claro, tenho quase noventa anos, ouço esse nome hà éons.
– Pode me falar sobre ela?
– Porque quer saber sobre isso?
– Um trabalho, sobre .. crimes.
Ela tirou os óculos e esfregou os olhos.
– Tudo bem. Terrish estudou aqui desde o início do nono ano. Eu era professora de Literatura Moderna, e lhe dei aulas por oito meses, quando me aposentei e passei a trabalhar aqui na biblioteca. Ela era uma garota maravilhosa. Inteligente, com um olhar crítico sobre todas as coisas. Compreendia a história americana de um jeito, de uma maneira tão delicada e bruta ao mesmo tempo. Ela vivia com o pai, a mãe e uma irmã pequena num conjunto habitacional, o Carhall, se não me engano. Ela tinha toda a aparência indígena paterna. No ano de sessenta e oito, sua mãe foi embora de casa com a filha pequena, deixando os dois sozinhos. O rendimento escolar dela despencou, desde então. Ela começou a namorar um homem bem mais velho que ela, e frequentemente ela aparecia com marcas roxas nos braços e arranhões. Era sempre o mesmo discurso: Eu causei tudo isso.
– Ela apanhava do pai ou do namorado?
– Sinceramente? Creio que dos dois. No ano de oitenta ela não veio à escola. O pai era vigia noturno de um restaurante no centro, e quando chegou em casa pela manhã, não a viu, supondo que ela estivesse na escola. Terrish nunca voltou. O namorado foi chamado para depor, mas nunca apareceu. O pai foi intimado mas o álibi era consistente. Muitos diziam que ela provavelmente havia fugido daquela vida temerosa. Ela sempre usava vestidos, e um deles foi encontrado com sangue na estrada de terra umas semanas depois. O sangue era dela. Nunca foi constatado nada. No dia de natal, daquele mesmo ano, encontraram o corpo de Terrish numa estrada abandonada. Era impossível encontrar vestígios no corpo, ou no que sobrou dele. Não havia tecnologia naquela época para nada. No entanto nunca soubemos o que houve. Ela simplesmente foi morta, como um animal qualquer, e jogada fora. Todos achavam que o namorado havia feito aquilo. Ele era possessivo, e ela amava ele. Com dezesseis anos, ele destruiu a vida dela e tudo que ela poderia ter tido.
– Sabe quem ele era? — perguntei enquanto as pernas bambeavam com tudo aquilo.
– Não sei seu nome, mas ela sempre o chamava de Jells.
– Jells?
– Sim, venha aqui comigo um pouco.
Ela se levantou com dificuldade e me levou a sessão jornalística da biblioteca. Apanhou um livro de capa perdurada com trechos de livros antigos. Assoprou a poeira e começou a foleá-lo.
– Aqui está — ela apanhou uma foto de me entregou — Está é Terrish, ela usou esses brincos por todo o tempo que eu a conheci.
Segurei a foto e prestei atenção nos traços. Com certeza era a menina do meu sonho. Um arrepio percorreu minha espinha e se ligou ao fim da raiz dos meus cabelos. Era como se de algum modo tudo fizesse sentido, sem nem ao menos existir. O que estava acontecendo?
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