A Passageira

7 Capítulo VII


06 de setembro de 1994 – Anson/Maine

O sinal tocou e me acordou ao fim primeiro período. Eu havia dormido três aulas inteiras. Enquanto todos se preparavam para sair e agrupavam seus materiais, me espreguicei ao máximo na cadeira e olhei meu reflexo na janela embaçada por causa da chuva. Estava com uma cara péssima. Não havia dormido na noite anterior, apenas breves cochilos, nada que fosse suficiente. As olheiras eram fundas e escuras, enquanto meus cabelos bagunçados se emaranhavam nas marcas vermelhas na bochecha devido ao apoio nos arames do caderno. Uma leve batida na mesa me chamou a realidade e a sensação de estar com problemas. Era o Sr. Jhon.

– Molly, está acontecendo algo que você não quer contar? – questionou ele diretamente enquanto se sentava na beirada da mesa. Seus grandes óculos de armação torta escondiam uma beleza rusticamente americana, mas muito surrada pelos anos.

– Não senhor – neguei evitando contato visual – Aparento estar com problemas?

– Se aparenta? Você dormiu por três aulas, não entregou a pesquisa da semana passada e parece sempre distante – ele deu um suspiro, colocou os óculos na mesa e sorriu para mim – Compreendo sua situação Molly, nova escola, nova cidade, nova família. Mas vai passar, se precisar de algo pode falar comigo, tenha certeza que entendo tudo pelo que está passando, já vi esse filme antes.

Não respondi, não deixei transparecer qualquer emoção. Ele deu um leve tapinha na minha mão e foi apagar a lousa. Recolhi todos meus cadernos e livros e saí da sala. O corredor estava em polvorosa e logo entendi por que. Era hora das audições. Como poderia esquecer? Eu havia criado o texto, havia escrito com tanta emoção e agora mal lembrava onde deixara o papel. Fui para o banheiro e lavei o rosto com água fria. Prendi os cabelos no alto e troquei a camiseta amassada por uma fina manga comprida de malha branca. Fazia frio. Guardei as coisas no armário e corri para o salão. Na terceira volta no corredor central, Jared me puxou pelo braço. Foi um toque leve, calmo, mas para mim funcionou como uma rajada de vento me colocando de volta no caminho correto.

– Se vai para os testes, devo adiantar que eles são feitos todos os anos no anfiteatro – disse ele me dando um beijo no rosto – Que no caso, é para lá – completou me apontando o lado oposto para o qual corria.

– Obrigada, estou te devendo uma.

– Não me deve nada.

Sorri timidamente e dei a volta, caminhando à passos largos. A cada meio metro me dispunha a olhar para trás, porém ele já não estava mais lá. No fim do corredor, uma escada de acesso dava abertura para o anfiteatro. Haviam várias pessoas nas cadeiras e a Sra. Meryl ocupava a frente, ao lado de uma menina do último ano, que afinava um piano antigo. Dei a volta e entre por trás das cortinas, onde umas vinte garotas de maquiavam, treinavam textos e gritavam umas com as outras. Quentin estava sentado num banco próximo do palco. Sim, Quentin como o famoso diretor Tarantino. Ele era filho da Sra.Meryl, e ela tinha uma outra filha, Lola, que era bem pequena. Pensei com meus botões: o papel masculino principal era dele, com toda certeza. Quentin preenchia os requisitos do cara perfeito com seus cabelos escuros e compridos, seus olhos claros e sua namoradinha estúpida e fútil. Nada que todos já não tenhamos visto. Dias atrás, ela havia se metido num escândalo sem precedentes, quando a flagraram se agarrando com outra garota. Tudo acabou ficando debaixo dos panos, e acabaram dando sequência ao namoro belo e colorido. Algumas pessoas diziam que ele batera nela, machucando muito seu rosto, e por isso ela vivia usando óculos escuros e echarpes altas. Bibliotecas não são tão silenciosas assim. A primeira chamada foi feita e a Sra.Meryl convocou todos ao palco. Eu não sabia se estava nervosa, ou compenetrada, mas me sentia estranha, com uma motivação aleatória, sem motivos.

– Muito boa tarde – gritou ela – Como todos sabem, o musical desse ano é especial para mim e para todos aqueles que são apaixonados pela sétima arte: cinema. A peça trará o a junção dos clássicos das telas, e será tão grandioso quanto a Broadway. Portanto, aqueles que creem que não vivem sob pressão, que não conseguem executar grandes tarefas em curto tempo, ordeno que se retire agora mesmo. O estrelato não tem espaço para amebas.

Por um segundo pensei em descer do palco. Ninguém se atreveu, então entendi que não era para pensar. Ela esboçou um breve sorriso e acenou que todos voltassem aos seus lugares. Sentei-me no banquinho de uma das penteadeiras e uma menina se sentou ao meu lado.

– Está nervosa? Eu estou tremendo.

– Eu estou bem.

– Como se chama? Eu me chamo Tennesse, a mesma pronúncia do estado.

– Ah, sou Molly.

A garota continuou falando, mas não me detive em dar-lhe atenção, preferia ouvir as outras apresentações. Quentin foi chamado e cantou Dear Lovely, de Hans Dohër, um poeta alemão. Ele cantou muito mal, e desafinou muitos dós. Todas as pessoas cantaram, até que chamaram Tennesse e ela esqueceu seu texto e pude ouvir Sra.Meryl sendo grossa com ela. Após isso fui chamada, e desta vez, tremia como bambu.

– O que vai cantar querida? – ela me questionou quando me posicionei no palco.

– Não vou cantar senhora.

– Então recitará qual peça?

– Não recitarei nenhuma peça.

Ela arqueou as sobrancelhas.

– Então fará o que? Dará cambalhotas? — todos riram e se ajeitaram nas cadeiras como se dissessem: “Ora, eu quero ver a humilhação dela”.

– Vou recitar um texto escrito por mim.

– Então recite, vamos ver se sobrará espaço para árvores – ironizou ela. Há um tempo, com certeza eu adoraria ter chutado aquela cadeira dela e dito que seu filho cantava como uma garotinha, mas decidi apenas falar. Concentrei-me e olhei diretamente para os olhos dela.

– Não sei o que estou fazendo. Faz um tempo que aqueles olhos escuros me perseguem em sonhos e acordada. Perseguem-me. Ela corre longe, se confunde com as árvores esguias, com os troncos firmados na terra. Confundem-se. E seu grito de socorro ecoa em minha mente, mas eu não entendo. Ela procura, vasculha, se esconde. Escondem-se. E de repente as nuvens se abrem e o sol se mostra brilhante, refletor de luz nos cabelos escuros e compridos. Eles correm por suas costas nuas e o sangue ainda pinga de seu coração. Ele foi arrancado, como um filhote que é arrancado da mãe enquanto ainda mama. Eu preciso falar com ela, saber o que houve, mas ela não para, não espera, não diz. Cala-se. Ela fugiu, entende? Partiu. Por Deus, ela se foi. Foi-se. Mas às vezes ela volta e parece me chamar, pedir que eu vá. Não entendo totalmente o que ela diz, mas ao menos tento. Se não quer ir então fique, eu lhe ajudarei. Conte tudo o que quer que eu saiba. Conte-me.

O texto continha pequenos trechos do meu original, mas todo o conteúdo era o que precisa dizer. O anfiteatro estava silencioso, um vento frio corria por entre minhas pernas. A Sra.Meryl sorriu.

– Como última a se apresentar, declaro as audições encerradas. O resultado será exposto no painel na segunda pela manhã. Estão dispensados.

Tive certeza do meu fiasco.

Por volta de duas e quinze, a turma do atletismo se reuniu na quadra para treinar saltos. Estava frio e a chuva parecia dar uma trégua. Meu short de ginástica estava para lavar, e então a calça de moletom não era agradável. Joguei uma mentirinha discreta e me safei por hora dos exercícios. Subi para os armários e encontrei a Quentin com a mãe. Eles passaram por mim e ela esboçou um daqueles sorrisos falsos, com seu cigarro apagado no canto da boca. Ao mesmo tempo em que era uma megera, era amigável. Desliguei-me daquilo e apanhei a bolsa. As folhas com diretrizes para o trabalho de Estudos Sociais estavam em uma pasta azul, que a Srtª Greta gentilmente doava aos alunos. Desci para o vestiário e tomei um banho. Coloquei a calça e a jaqueta do colégio, soltei os cabelos molhados e passei uma camada grossa de rímel nos cílios, acompanhado de um brilho leve nos lábios. Desci e fui para o ponto de ônibus. Frequentemente ia a pé, mas como iria sozinha decidi que seria melhor assim. Tomei o sete, com linha até Donkasthor. Parei no quarto ponto e desci a rua do prédio. Às quatro eu estava dentro do prédio. Não me dei nem ao menos o trabalho de passar em casa, indo direto ao elevador, em direção á casa da família Fletcher. O corredor estava vazio. Bati duas vezes na porta e uma das meninas saiu.

– Olá, sou a Molly, acho que se lembra de mim, sou da família nova.

– Ah claro, no que posso te ajudar?

– Eu estou fazendo um trabalho escolar – pigarreei- E preciso fazer perguntas ao seu pai ou sua mãe.

– Mamãe não está, mas pode falar com meu pai, pode entrar.

Ela era tão prestativa, simpática como alguém que conhecia muito bem. O apartamento tinha o mesmo modelo do nosso, apenas era muito mais colorido e cheio de flores. Ela disse que poderia me sentar e ela o chamaria. Ofereceu-me água ou algo para comer. Agradeci dizendo que não sentia fome. Em alguns segundos ela voltou.

– Ele já vem – disse se sentando ao meu lado – Você estuda no McKirk? Eu estudei lá por dois anos, mas agora estou no Stanley com meu irmão.

– Onde fica?

– Na cidade vizinha, mamãe é professora lá.

– E seu pai?

– Ele é professor também, no colégio de garotos em Donkasthor.

A conversa foi interrompida com a chegada de Steve. Ele parecia diferente da vez o que havia visto.

– Desculpe a demora, estava redigindo algumas provas – cumprimentou-me com um aperto de mão – Ceciliana, traga uma xicara de chá para a garota sim.

– Cissa papai, Cissa.

Ele riu.

– No que posso ser útil mocinha?

– Bem, eu preciso de entrevistas para um trabalho de Estudos Sociais, pensei que o senhor seria um bom candidato.

– Fico lisonjeado com isso, bem, espero que possa ajudá-la.

– Tudo bem, são seis perguntas, começando agora – tossi um pouco – Como o senhor se chama e qual sua idade?

– Sou Steve Karl Fletcher, tenho quarenta anos.

– O senhor é casado, solteiro, divorciado?

– Casado há vinte anos.

– No que trabalha e onde trabalha?

– Sou professor de História no Colégio de Meninos.

– Como definiria a sociedade em que vive?

– Bruta, desigual e injusta.

– O que acha do lugar onde vive, no caso, bairro e moradia?

– Desagradável.

Pensei um pouco antes de fazer a última pergunta, e esperei a que a menina saísse para isso.

– O que acha da sua vida e de família?

– Sinto que estou onde deveria estar e que meus filhos estão tendo uma boa educação e tento ser o melhor possível.

Sorri para ele.

– Ótimo – tomei um pouco do chá – Se não se importa, preciso de uma justificativa do porque decidiu me ceder informações, para a professora saber que não inventei todas as respostas.

– Claro, posso eu mesmo anotar?

– Por favor – exclamei e tomei o resto do chá. Steve escreveu umas cinco linhas e assinou. Agradeci a ele e fui embora.

Caminhei até o elevador e fui em direção ao apartamento de Klaus e David. Bati na porta três vezes e o som do aspirador era insistente. Até que cessou e os passos vieram se aproximaram. David abriu a porta.

– Olá garotinha, não me lembro do seu nome – ele fez uma cara de decepção.

– Molly, e você é o David certo?

– Em carne e osso. O que posso fazer por você? — perguntou afastando o cabelo dos olhos.

– Eu estou fazendo um trabalho para Estudos Sociais e preciso entrevistar pessoas, são só algumas perguntas, se isso não for atrapalhar.

– De jeito nenhum, pode entrar.

O apartamento era incrivelmente exótico, cheio de cores fortes como preto e vermelho, e um piso muito branco. Nas portas haviam frases e trechos de músicas, o que dava um ar jovem ao lugar.

– Só não se importe com a bagunça, estou limpando hoje, único dia de folga e sou obrigado a virar uma empregada – ele riu – Pode se sentar, quer algo?

– Não, estou bem, podemos começar?

– Claro – ele se sentou na poltrona da frente.

– Como o senhor se chama e qual sua idade?

– Me chame de você – ele riu — David Suckerman, tenho trinta anos.

– Certo, você é casado, solteiro, divorciado?

– Eu sou casado há dois anos.

– No que trabalha e onde trabalha?

– Sou bailarino, trabalho no Studio Pré-Bolshoi, para preparação.

– Que legal – sorri — Como definiria a sociedade em que vive?

– Hipócrita e mal amada.

– O que acha do lugar onde vive, no caso, bairro e moradia?

– Bom, gosto daqui.

– O que acha da sua vida e de seu parceiro?

– Amo minha vida, amo o modo como tenho levado ela e meu parceiro, Klaus é tudo para mim, não me imagino sem ele.

Confesso que achei aquilo tão belo e tão sincero, como nunca havia achado antes.

– Isso é lindo. Muito obrigada David, e será que poderia escrever uma justificativa do porque me cedeu informações? É para minha professora não pensar que inventei tudo.

– Claro que sim – ele se dispôs a escrever – Como decidiu que me entrevistaria?

– Minha pesquisa é dividida em três partes, uma para uma pai com família, uma para um casal sem filhos e uma para um homem que more sozinho. Pensei que você seria perfeito.

Me despedi e voltei para o elevador. A essa altura meu coração estava atônito.Eu conhecia muito bem minha próxima parada. Quando pisei em seu andar, ainda sentia o sangue correndo, ou melhor, voando pelas minhas veias. As pernas bambas pareciam sem controle e por alguns segundos esqueci como era andar. Me posicionei em frente a porta e dei um toque. Esperei e logo me atrevi a um segundo toque quando o barulho da tranca me moveu alguns passos para trás. E então ele estava lá. Belo, sorridente e apenas de toalha. Tentei evitar mas meu riso foi incontrolável. Ele sorriu para mim de volta.

– Bingo, estamos empatados. Espere aqui.

Ele entrou e em menos de um minuto voltou. Calça de moletom cinza e uma grande blusa de conjunto.

– Aconteceu algo?

– Não – falei – Está ocupado?

– Não, estava tomando banho, cheguei agora do estúdio. Por quê?

– Porque estou fazendo um trabalho para Estudos Sociais e preciso entrevistar pessoas. Pode me ajudar com isso senhor fotógrafo?

– É claro jovem estudante, podemos no sentar na escada? Minha casa está uma bagunça, não quero que pense que sou desocupado.

– Tudo bem – sorri. Como gostaria de ter entrado naquele dia. Nos sentamos na escadaria e selecionei a folha para ele – São algumas perguntas certo?

– Sim.

– Como se chama e qual sua idade?

– Tate, tenho vinte e oito anos.

–Preciso de ao menos um sobrenome – retruquei.

– Tate Wend.

– E você é casado, solteiro, divorciado?

– Solteiro.

– No que trabalha e onde trabalha?

– Sou fotógrafo, trabalho por conta.

– Como definiria a sociedade em que vive?

– Sistemática, impiedosa.

– O que acha do lugar onde vive, no caso, bairro e moradia?

– Eu gosto daqui. Acho um bom lugar.

– Eu também –sorri para ele.

– O que acha da sua vida?

– Acho que ela é simples, mas bem vivida, faço o que quero e quando quero. Poderia melhorar, mas não sinto que seja necessário.

– Muito bem, agora preciso que escreva uma justificativa para que eu possa confirmar que não criei falsas informações.

– Como se você fosse capaz de algo tão desonesto não é.

– Não ironize por favor – brinquei. Ele escreveu e assinou me entregando em seguida.

– Aqui está.

– Que bela assinatura – dei-lhe um leve empurrão. Ele segurou meu pulso e me puxou para perto – Você tem esse costume de mexer com a mente das pessoas Tate?

– Faço o que posso querida – ele piscou para mim e entregou o papel – Acho que isto é seu.

A quebra do clima foi categórica. Mas então eu voltava a pisar no chão e lembrava que tinha quinze anos e ele beirava o dobro da minha idade. Às vezes poderia ser um tabu, mas naquela época eu tinha certeza que ele era o homem da minha vida. Nos despedimos e fui para casa. Cheguei por volta das cinco e Jimmy estava na sala vendo TV. Lyra e Joey não estavam. Me joguei no sofá ao lado dele.

– Jimmy, já se apaixonou?

Ele me olhou incrédulo e depois mudou de canal.

– Por quê? Já está tendo uma queda por Jared?

– Não, claro que não.

– Então vai iludi-lo?

– Não prometi nada a ele Jimmy, vamos sair apenas, sem compromisso.

– Ele não para de falar sobre você, me pergunta o que você gosta, as músicas que ouve. Acho que ele vai te dar algo amanhã.

– Deixa de bobagem, ele nem me conhece.

– Mas ele quer, e você sabe disso.

– Vou tomar banho.

– Se arrume, mamãe disse que vamos jantar fora, ela foi buscar papai.

– E se eu não quiser?

– Ela nos deixou escolher o lugar.

– Me arrumo num minuto.

Ele riu e atirou uma almofada em mim. Naquela noite jantamos num restaurante japonês e foi tudo bem especial. Joey parecia menos carrancudo e disposto a novas amizades. Voltamos tarde e fui direito para a cama. Sentia falta de Tate. Chorei por ele novamente naquela noite.

Notas finais
Tate parece não se decidir sobre nada não? E o encontro de sábado, como será?