A Passageira

4 Capítulo IV


01 de agosto de 1994 — Anson/Maine

Eu estava em pânico. A sala estava ficando quente e eu suava como uma condenada. Eu via Djilla, uma amiga da escola na Pensilvânia e ela me dizia para cortar a corda. Num instante eu deixei que o fio se arrebentasse e o teto desabou. Quando abri os olhos, uma garota estava caída, ensanguentada na minha frente. Ela agonizava em seus últimos segundos. A pele morena, os cabelos lisos e negros emolduravam o rosto cortado e cheio de hematomas. As luzes se apagaram e alguém tapou minha boca com as mãos. Meu coração disparou e eu senti a vida se esvaindo de dentro de mim.

Acordei com o apito infernal da chaleira na cozinha. A primeira coisa que vi depois do teto rosa, foi o rosto da garota. Eu jamais havia visto em minha vida alguém como ela. Se eu houvesse visto, com toda certeza me lembraria. Abandonei os pensamentos na cama e fui para o banheiro. Era segunda, primeiro dia do mês de agosto e eu estava cansada de suar durante as noites de calor. Primeiro dia na escola nova, e eu apenas queria me deitar e pensar em Tate, ou quem sabe pensar em como me aproximar dele. A ideia da loira na porta do apartamento me deixou um pouco constrangida, mas isso passou quando os olhos dele tomaram conta da minha mente. Era um poder abusivo o que ele exercia sobre mim. Era pane total. Tomei um banho curto e apressado. Coloquei o uniforme horrendo e os tênis de caminhada. Meu material estava numa bolsa preta. Coloquei brincos de pena, pulseiras de madeira e artesanato hippie. Prendi os cabelos num coque alto e fui para a cozinha. Lyra colocava suco num copo pequeno demais para ser o meu. O sorriso dela era de empolgação para o primeiro dia de aula dos filhos queridos e dedicados. Jimmy exibia sua roupa roxa como um troféu. Ele era apaixonado por estudos e escolas. Não demoramos mais que vinte minutos para nos aprontarmos e logo já estávamos no carro. Eu não havia visto Joey pela manhã, o que me levou a crer que Lyra o levou para o trabalho e voltou para casa.

O caminho era curto e simples. Eu poderia ir sozinha outras vezes. Em pouco tempo, já era bem visível o prédio escolar, uma grande e antiga escola, segundo Lyra. McKirk College. O ambiente era bom, e a fachada muito bonita. Um gramado enorme separava a rua da entrada principal. Nós três fomos pela lateral, direto à sala do diretor. Ele disse muitas, muitas coisas que eu deveria ou não fazer. Assinei alguns papéis e fui liberada com Jimmy. Minha primeira aula do dia iniciou as oito da manhã e eu amei começar o dia com história. Minha professora se chamava Donna, portanto muitos a chamavam de Dona Donna. Sentei-me na terceira fileira, na penúltima carteira. Imediatamente ela me chamou para a frente da sala e me apresentou para todos. Eu me sentia observada, como um quadro em um leilão. A menina que ocupava o primeiro lugar me lançou um olhar longo e profundo. Senti nos conhecíamos de algum jeito. Ignorei a sensação e voltei para o fundo da sala.

Uma a uma, as aulas seguiram seus cursos até o almoço, quando eu me encontrei num ponto crítico. Na antiga escola, eu tinha meu grupo certo, com as pessoas certas e não podiam dizer que eu estava no lugar errado. Éramos sempre em cinco. Eu, Djilla, Emily, Ted e Ryan. Houvesse o que houvesse estaríamos no mesmo lugar. De repente eu estava com uma bandeja e não sabia onde me sentar. Jimmy estava com dois garotos numa mesa qualquer e senti que não deveria atrapalhar ainda mais a vida dele. Rodei o refeitório todo e a grande maioria olhava fixamente para mim, como se minha presença fosse um incomodo ali. Quase a ponto de jogar a bandeja no lixo e me aventurar pela escola vazia no andar de cima, a garota da primeira carteira estava sentada sozinha numa mesa minúscula no fundo do local. Era minha única chance. Me aproximei e tentei forçar um sorriso.

– Posso me sentar com você hoje? — perguntei insegura da resposta. Ela apenas assentiu com a cabeça. Me acomodei e tentei puxar conversa — Eu sou Mo ..

– Molly Gerritsen, está na minha sala, sei quem é você — disse ela num breve sorriso.

– Ah, e você quem é? — perguntei dando uma garfada no prato de batatas.

– Aubrey Jeans.

– Jeans?

– Sim, Aubrey Constance Jeans — ela pronunciou pausadamente — Você conhece meu pai não conhece?

Esperei um pouco para assimilar o sobrenome e a pergunta.

– Quem é seu pai?

– Clean, Clean Jeans. Moramos no prédio da Carhall. Você é nova em tudo não é mesmo?

– Sim, sou da Pensilvânia.

– Terra dos vampiros e do Conde Drácula? — ela franziu a testa — Não, lá é a Transilvânia. Me desculpe.

– Está tudo bem — falei — Aubrey, você mora só com seu pai?

– Sim.

– E sua mãe?

– Ela nos deixou. Na verdade nós deixamos ela.

Resolvi não perguntar mais nada. Não houve mais assunto até que ela se despediu e eu terminei meu almoço. Ela não estava na sala durante as últimas aulas. Na educação física, tive que correr muito e fazer alongamentos. Os garotos fizeram piadas por eu ser a única garota envolvida com atletismo, e eu acabei fazendo amizade com eles. Eles pediram meu telefone, mas eu resolvi não dar. No fim da tarde, Lyra não venho nos buscar, portanto Jimmy e eu fomos embora juntos.

– O que você achou? — ele me perguntou desenrolando fitas de cetim que foram presas em sua mochila.

– Normal, conversei com uma vizinha nossa, Aubrey — suspirei — Conhece ela?

– Não, mas as garotas são estranhas aqui.

– Todos são patéticos aqui Jimmy, inclusive nós.

Não conversamos mais até chegar em casa. Ele subiu e eu sentei nos degraus da escada para tirar os sapatos e meias que estavam desgastantes. Uma sombra cobriu minha visão, que já era precária pela má iluminação do corredor. Era Winter. O grandalhão vestia uma camisa cinza e um casaco escuro. Podia muito bem ter dois metros de altura, o que justificava cobrir toda a minha visão. Recolhi minhas coisas e saí dos degraus. Ele bufou e subiu em seguida. Esperei que dobrasse o primeiro lance de escadas e então me sentei novamente para arrumar a barra das calças.

– Durão ele não é? — sugeriu uma voz totalmente feminina. Elevei o olhar e observei duas garotas, em pé, á minha frente. Uma morena e a outra loira. Sim, a mesma loira do apartamento de Tate.

– Hum, sim — disse recolhendo novamente as coisas e me apressando em sair do caminho.

– Tudo bem — disse a outra — Vamos de elevador, não se preocupe. A propósito, você é?

– Molly, Molly Gerritsen, e vocês?

– Sarah Dorne — disse a morena — E ela é a Julie.

– Bem, olá — sorri devagar, quase não aparente. Elas retribuíram e foram embora.

Eu conseguia detestá-la só pelo fato de respirar, quanto mais por estar no apartamento do cara que eu mal sabia o que sentir. Passaram-se três semanas, e eu me mantive na escola solitária. As vezes eu via Aubrey, sempre no mesmo lugar. Mas na maioria das vezes eu não via ninguém, e me comprometia em sentar na escada de acesso ao vestiário para almoçar. No dia vinte e oito de agosto, nossa professora de Estudo Sociais, Srt. Greta, solicitou um trabalho de pesquisa de campo, no qual deveríamos escolher três pessoas para uma entrevista: uma que vivesse com a família; uma que vivesse apenas com um parceiro e um terceiro que vivesse sozinho. Eu conhecia as pessoas certas para isso, bastava criar coragem.