A Partitura da Prisioneira
3 O Piano que Chora
Saí como prometido com meus amigos, mas minha mente estava em outro lugar. Era como se eu estivesse apenas no automático, o rosto daquela pequena garota não saia da minha mente. Ela era tão frágil, por que tinha que sofrer tanto? Prometi a mim mesmo que quando chegasse em casa tocaria aquela outra composição, quem sabe desse jeito encontrá-la novamente? Senti uma raiva subir ao lembrar-me daqueles homens covardes. Se eles pudessem me ver e me sentir eles iam pagar caro.
Senti um liquido frio cair na minha calça e acordei dos pensamentos, estava todo molhado, derramaram suco em mim.
- Desculpe, desculpe, não irá acontecer de novo.
- Está tudo bem, só me molhou um pouco. Irei ao banheiro já volto.
Andei até o banheiro e tentei fazer de tudo para me enxugar, não obtive tanto sucesso quanto a isso. Olhei-me no espelho, meus olhos azuis pareciam verdes do outro lado do espelho até que vi a garota no reflexo. Fui para trás pelo susto, mas continuei fitando.
- Katherine? – corri até o espelho, mas bati a cabeça nele –
Apoiei-me no balcão da pia e abri a torneira molhando meu rosto diversas vezes. Aquilo estava me deixando louco. “Não devo estar apaixonado por uma garota que nem sei se existe” esse pensamento me acabava ainda mais, só de pensar que ela poderia ser apenas fruto de minha imaginação. A água estava vermelha, sangue? Minha cabeça estava sangrando, porém não a cortei quando bati no espelho.
- Ellion...
Eu estava ouvindo coisa? Ouvi uma voz conhecida tão doce que nem todos os doces do mundo chegavam perto da doçura. Era ela, tenho certeza, e eu a queria perto. Corri saindo do banheiro e avisei que tinha algo importante para fazer, corri pelas ruas de Londres, não podia perder tempo. Peguei um ônibus que para perto de minha casa e lá desci. Entrei nela e percebi que não havia ninguém, meu pai tinha terminado um livro muito esperado e tinha saído com minha mãe para comemorar. Entrei em meu quarto e peguei as partituras. Fui até a sala do piano e comecei a tocar com todo meu coração desejando vê-la de novo.
Abri meus olhos agora estava em um jardim, uma criança corria para pegar uma borboleta amarela. Parecia tão alegre, os cabelos voando, segurou a borboleta e mostrou para uma mulher também de cabelos dourados como a menina. Ela deu um beijo na menina e sorriu apontando para o céu. A pequena soltou a borboleta que voava livre em direção ao imenso céu. Pareceu triste, mas a mulher abraçou a menina.
- Todos nós temos o direito de ser livre, minha pequena Katherine.
A cena logo desapareceu e mostrou uma garotinha triste com uma boneca na mão. Estava com um vestido preto com babados. Ouvi vozes, e elas me deixavam triste.
- Coitadinha
- Tão nova perdeu a mãe
- Ela era tão jovem
Aquelas vozes me torturavam queria poder correr o mais longe dali, mas provavelmente não conseguiria. O cenário logo se desmanchou e me vi no quarto escuro, alguém tocava piano. Tão lindo, mas tão triste. O piano parecia chorar a cada tecla. Era ela quem tocava.
- Katherine? – corri até ela e ela parou de tocar vi lágrimas em seus olhos eu a abracei forte –
- Ellion, por que demorou? – no rosto dela não havia mais lágrimas e sim um sorriso – Estava ficando entediada.
- Pelo visto não só entediada
Senti seu corpo ao meu, era realmente muito pequeno parecia que podia se quebrar. Olhei em seus olhos verdes como esmeraldas. Pude ter a certeza, eu a amava.
- Como você veio parar aqui, Katherine?
- Eu aprendi a tocar piano com dois anos, fui chamada de gênio. Minha família era da nobreza, minha mãe morreu quando ainda era pequena e meu pai morreu há 2 anos. Pensaram que eu morri com meu pai, porém eu fui pega por pessoas más para ser vendida, mas acabei não sendo quando descobriram que eu toco piano.
- Mas você pode mostrar que é da nobreza para sua família. Qual seu titulo?
- Duquesa. Como se fosse fácil sair daqui. – a tristeza tinha voltado para os olhos dela, segurei e dei um beijo respeitoso em sua mão. Vi o rosto dela ficar vermelho, senti que o meu também-
- Eu irei lhe libertar dessa prisão, Katherine. Você será livre.
Vi nos olhos dela fios de esperança, ela me dera sua confiança e eu não deveria quebrá-la, eu não iria. Eu salvo ela até no inferno se precisar. Tinha medo de meus pensamentos, mal a conhecia e meu coração já a tinha como dona. Algo que percebi foi ela estar diferente da primeira vez que a vi ela estava fria. Mas agora parecia me esperar ansiosamente, ela vive aqui sozinha, deve ser muito solitário.
- Ellion? – a voz dela me libertou do transe – Daqui a pouco terei um novo concerto, você irá vê-lo?
- Sim, eu quero muito vê-lo. Pena que logo terei que voltar.
- Eu sei, você não pertence a essa época, Ellion – o sorriso se desfez –
- Não importa a qual época eu pertença, o fato de eu estar aqui com você me deixa muito feliz, além do que prefiro você rindo.
- Ellion... Ah! Já é quase horário de meu concerto, venha me ver.
Uma mulher entrou trazendo um vestido lilás e a soltou levando para outro lugar. Sai dali antes que me trancassem também lá dentro só. Eu disse que ia vê-la só não contava com o fato de voltar ao presente tão rápido. Não, não havia sido rápido, mas quando estou com ela às horas voam.
Quando percebi já estava em casa, meus pais tinham chegado. Vi minha irmã com eles, ela tinha olhos azuis iguais aos meus e cabelos loiros, era pequena com 4 anos, ela tinha ido passar uma semana na casa da minha tia, pedido feito por ela mesmo. Sorri e segurei-a no braço brincando com ela.
- Você é uma menina má, Artie, deixa seu irmão sozinho com esse povo doido
- Eu não sou má – fez bico — Não se preocupe Elli, eu vou te proteger.
- Que valentia – rimos juntos –
Mas na mesma hora lembrei-me que assim como ela estou impotente para proteger a quem quero. Abracei minha irmã e dei um beijo em sua bochecha.
- Eu que devo protegê-la – sorrir – Agora vamos pro seu quarto soube que eles – apontei nossos pais – compraram algo muito legal para você, e quero saber o que foi – a coloquei no chão e segurei sua mão –
- Ah Elli, assim acaba com a surpresa – minha mãe fingindo estar zangada –
- Eba surpresa, surpresa – ela corria em direção as escadas me puxando –
Acabei correndo até o quarto dela, não sabia de onde tirava tanta energia, devia ser porque eu estava sem. A vi gritar de felicidade com uma penteadeira mais madura, antes ela tinha uma da Barbie, mas agora uma de madeira com detalhes dourados e um espelho grande, nossa como minha irmã havia crescido. Do lado da penteadeira vi uma boneca, tinha olhos verdes e cabelos dourados, com um vestido rosa de época.
Não podia acreditar que aquela boneca parecia tanto com Katherine, só podia ser coisa de minha cabeça. Vi sangue sair daquela boneca, ela me fitava, Artie a pegou e começou a falar algo e abraçar a boneca, mas eu não ouvia nada. Senti um liquido nos meus pés, era sangue. Minha cabeça doía, ia perdendo a consciência. A última coisa que ouvi foi certamente meus pais gritando “Ellion”.
Acordei em uma sala com paredes e chão quadriculado preto e branco, havia um livro que conheço, aquele diário que estava comigo. Decidi ler algo para ver se entendia o que estava acontecendo.
“Desde que perdi meus pais me senti vazia, perdida em um próprio mundo sem direção. Era solitário e frio, uma sala onde só eu freqüentava. Ainda assim tinha esperança de voltar a ser como era antes”
A sala mudou e lá estava ela de novo ia me aproximar quando a ouvi falar irritada.
- Ele prometeu... Ele prometeu e não foi.
Ela devia estar falando de mim, eu não fui para o concerto. Ela estava chorando por minha causa, eu a fiz chorar. Andei até ficar de frente a ela, não via os olhos, esses se cobriam com a franja.
- Katherine – tentei segurar sua mão, mas só havia sangue, olhei em seu rosto, estava desfigurado e vermelho de sangue – Kath?
Puxei minha mão, e dei passos para trás, a ouvi falar de novo, estava aterrorizado.
- Você me prometeu me libertar. Agora o que eu sou? – ela deu uma risada aterrorizante e voltou a me fitar – O que eu sempre fui, um ser insignificante.
- Você nunca foi todos temos uma missão – disse vendo as lágrimas de sangue me aproximei ainda com medo – E eu quero cumprir minha promessa.
Ouvi ela gritar algo e pular em cima de mim, ela tinha se transformado em uma poça de sangue e senti o líquido quente em minhas mãos. Gritei apavorado, ela tinha morrido? E eu? O que acontecerá comigo? Devo estar ficando maluco, ou simplesmente morrerei em breve.
Senti duas mãos pequenas quentes em meu rosto e me chamando. A pessoa que sempre pensei mais amar estava do meu lado, quase adormecendo, provavelmente não saiu de meu lado. O rosto fino e pequeno, lábios rosados, cabelos loiros com uma tiara azul clara, e os olhos de uma pedra linda, a safira.
- Artie...
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