Notas iniciais
Será que Mori...

Um calafrio percorreu a espinha de Honey enquanto saboreava seus bolos. Todos já haviam se encaminhado para suas respectivas casas, então sua única companhia seriam as empregadas ou seu irmão se por um acaso ele acordasse. Embora os bolos estivessem especialmente deliciosos aquela noite, o tipo “loli-shota” do Host Club engoliu em seco. A sensação que teve foi tão ruim que se arrependeu de não ter pedido aos seus amigos que passassem a noite. Não. Foi melhor que eles tivessem ido. Eles não se sentiriam confortáveis em vê-lo chorando.

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Algumas das notas espalhadas pela grama verde traziam o rubro das gotas do sangue da família Morinozuka. A lâmina jazia inteira envolta pela carne e músculos de Mori, exceto a ponta que atravessou o braço logo abaixo do ombro, passando entre os ossos e quase atingindo as costelas se não fosse o pensamento rápido do intrépido guerreiro. Sem emitir sequer um ruído nem se importar com a dor, Mori aplicou com seu punho saudável um potente soco no estômago do atacante, fazendo-o cair imediatamente de joelhos. Com os olhos desfocados pela força da pancada, o gangster conseguiu ainda proferir algumas palavras.

-Takashi... Morinozuka? – A surpresa na voz do rapaz demonstrava que nunca esperaria ver um dos integrantes do famoso dojô de luta naquele lugar, quem diria ainda o campeão nacional de kendô! Ainda assim, sua expressão foi trocada por um sorriso de escárnio acompanhado por um olhar desafiador. – Você... vai se arrepender. Ninguém meche com a Gangue da Montanha e sai vivo, cara!

Não expressando nenhuma reação à ameaça a ele dirigida, Mori nocauteou seu oponente com uma poderosa joelhada que estraçalhou a cartilagem do nariz de seu alvo, deixando um rastro de sangue que marcava o caminho que o rosto desfigurado chegasse ao chão.

O vitorioso tornou a virar-se para verificar o estado da garota cuja vida acabara de salvar, mas se surpreendeu ao encontrar em seu olhar algo além do espanto comum em alguém que não está acostumado com o calor extasiante de uma batalha. Mori tinha ciência de que a lâmina que o feriu permanecia cravada em seu braço esquerdo e que o fato de ele não se importar poderia parecer surpreendente, mas ela parecia olhá-la com interesse. Não era possível que iria fazer o que o frio lutador podia ler nos movimentos que aquele frágil corpo preparava.

Apenas respondendo a um reflexo natural, Mori facilmente segurou a mão que a moça estendeu de forma agressiva para o canivete ainda preso em seus músculos. Quando o fez, ele involuntariamente aproximou seu rosto do dela, e assim ficaram por algum tempo, por mais que o tempo parecesse irrelevante naquele momento colorido pelo verde das árvores, pelo escarlate do sangue e pela escuridão da noite.

A garota podia ver que Mori não se sentia ameaçado ou sequer se ressentia com seu movimento de auto defesa moral. De fato, o carismático e ameaçador Takashi Morinozuka, famoso por seu título conquistado com facilidade e por cativar a todos com seu jeito silenciosamente fraterno e pela dedicação especial que nutria por sua função de protetor do pequeno descendente da invencível família dos Haninozuka, estava corado.

Mori lia em sua expressão as claras estigmas da abstinência, embora ainda suaves e irrelevantes perto das lindas feições de seu rosto. Seus atos eram justificados pela posição de seus pais, já que estudar numa escola de tanto prestígio implica um grande cuidado com as aparências, e enfrentar uma provação tão grande quanto à vergonha era algo que só os guerreiros mais corajosos aceitariam sem medo de perderem sua autoconfiança. Entretanto, nada disso importava. Não conseguia parar de tentar decifrar o porquê da distância entre seus rostos o incomodar tanto. Já estivera próximo assim de muitas pessoas, principalmente de Honey e até mesmo de Haruhi, que era tão garota quanto a jovem em sua frente. Mas aquela situação era desconfortável e constrangedora, por mais que estivessem sozinhos. Queria afastá-la e repreendê-la pelo que fez, mas não o fazia.

Ficaram lá.

Parados.

Olhando um para o outro, deixando o silêncio cantar sua canção.

A garota sentiu um líquido morno percorrer sua mão. Não havia percebido, mas conseguiu alcançar seu objetivo. Agora se sentia obrigada a despedaçar o momento, já que tinha de sair de lá e rápido. Colocou sua máscara mais sádica e preparou alguma jogada de efeito.

-Quer sentir dor, Morinozuka-sempai? Então me solte! – e torceu levemente o canivete, esperando afetar os sentidos daquele que impedia sua fuga.

Mori não se curvou ao desejo da impaciente segundanista. De fato, não expressou nem uma parte da dolorosa sensação física que a ação dela trazia. Apenas usou a mão que ainda estava sobre a da moça para espalhar um filete de sangue pelo ar noturno em um movimento súbito. “Dor” não é uma ferramenta a qual se pode recorrer contra os que não a tratam como inimiga. A garota franziu as sobrancelhas, num misto de raiva e curiosidade.

-Você ganhou, não tenho saída. O que vai fazer agora? Quer algo em troca do seu silêncio?

Aquele joguinho de poder não interessava a Mori, mas havia algo que ele queria saber a muito e aquele era o momento perfeito.

-Qual é o seu nome? – Sua voz saiu um pouco rouca devido ao tempo sem uso, o que ressaltou o tom de gravidade da questão.

A garota estranhou a simplicidade da pergunta, mas não tinha escolha.

-Kishikiya. Suiko Kishikiya.

Notas finais
Correção ao título:
Todos têm nome EXCETO os grunts que apanharam feito frutinhas
...
XD