A Paixão de Mori
7 Encontrando (alg)um caminho
Notas iniciais
Mori a observava atentamente. Estava encolhida no lado oposto do banco, evitando qualquer tipo de toque com o rapaz e tentando evitar, assim, qualquer demonstração de fragilidade, o que, claramente, não diminuía a frágil condição em que estava. Seus olhos dispunham inúmeras lágrimas, indiferentes a expressão quase raivosa abaixo da testa úmida de suor apoiada nas duas mãos. O rastro do pranto indesejado limpou a camada de maquiagem que disfarçava as leves olheiras que sinalizavam as muito mal aproveitadas noites de sono anteriores. Os dedos das mãos se entrebatucavam constantemente, como se tentassem distrair a mente da dona ou fiar um saída para aquela situação desagradável. Mantinha essa posição já havia alguns minutos, de forma que qualquer outra pessoa poderia pensar que a garota rezava fervorosamente. Mori, que gostava sempre de se prevenir quanto ao comportamento dos que o cercam, coisa irônica de se observar a essa altura dos fatos, sabia o motivo, ou melhor, a causa de tal suplício e se mantinha impassível. Apenas mantinha-se imóvel em seu lado do banco, os olhos fixos em vigilância.
Mudou-se em sua expressão apenas a elevação de suas sobrancelhas quando, ao fim de mais alguns poucos minutos, Suiko vagarosamente cessou o movimento nervoso com os dedos e, ainda com os olhos fechados, levou pesadamente suas costas ao apoio do banco e deixou sua cabeça pesar para trás. O ar saia e entrava ruidosamente de seus pulmões e a cor havia deixado quase por completo o seu rosto.
Suiko entreabriu os olhos e reparou de sobrolho a aparente indiferença de Mori. Um esboço de sorriso irônico surgiu em seus lábios.
-Então... Senhor Morinozuka... –Embora não aparentasse estar totalmente lúcida, o forte sarcasmo carregado na palavra “senhor” mostrava que a consciência não a havia deixado, — Não estava... Começando a se irritar com a minha resistência?... Não acha que... Eu consiga resistir agora, não é?... – A garota fechou novamente os olhos em um ato óbvio de resignação. – É a sua chance...
Mori não se deixava abalar: Sabia que a garota só o estava testando. Um teste desnecessário, mas obstinado. Talvez fosse fruto do delírio causado pela reação violenta do delicado corpo a falta da substância que ele forçadamente a privava, talvez fosse apenas o gênio dela que se sobrepunha mesmo aos outros efeitos que essa mesma falta causava. Isso não importa. O fato é que Mori estava preparado para aquilo. Para seu alívio depois de um tempo que lhe pareceu décadas, ele sabia o que fazer.
Ele observou por algum tempo os lábios entreabertos da garota, calculando se era realmente o melhor movimento possível. Tentou balancear risco com velocidade, mas ainda assim tinha vontade nenhuma de seguir tal procedimento. Fechou os olhos e soltou um suspiro quase imperceptível quando levou a mão aos lábios da moça e deixou uma pequena pílula rosa entre eles. Suiko, ao sentir o objeto em sua língua sorriu quase que por instinto. Sentiu então a base de uma taça se apoiar em seus lábios, e só então percebeu, não a tempo de impedir que a água levar a pastilha garganta à dentro, que era uma pílula muito menor do que estava acostumada. Olhou para Mori com um tom grave, desconfiada das intenções do rapaz.
-O que é isso? O que foi que você me fez engolir? – Mori poderia ter rido com a infantilidade daquela acusação sem nexo, mas já não era hora para julgamentos.
-O motivo da sua desgraça. – respondeu Mori, guardando rapidamente um objeto no bolso do paletó, antes que ela pudesse ver o que se tratava, e deixando a taça com a outra mão no mini bar da limusine. – Mas apenas em uma dose que eu julguei necessária por enquanto.
Suiko, ainda com a mente turva, levou um tempo para compreender o que ele queria dizer com aquela charada patética. Quando finalmente percebeu, carregou sua expressão de puro ódio e praguejou mentalmente todas as imprecações que pode encontrar contra ele. Apoiou seu ombro junto à janela e direcionou seus olhos para a janela, embora ignorasse o que se passava do lado de fora. Seu único foco era o fraco reflexo do rapaz apoiado com os cotovelos nos joelhos que a observava. Ele havia feito exatamente o que ela queria, e mesma assim ela não se sentia vitoriosa. Só então parou percebeu o local onde estavam. A floresta se fazia densa e era claro que estavam a uma distancia razoável de qualquer foco de civilização.
Era o terreno dele, e ela era sua prisioneira.
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Haruhi, deixando pesar sua cabeça em cima dos braços enquanto sentada a uma das mesas do clube, procurava recobrar suas energias. Honey não havia conseguido dormir direito durante a noite e estava com um mau humor tão destrutivo que “o heróico ato de manter nossas princesas a salva de tão impiedosa força da natureza até que a tempestade passe e os ventos entrem em seu sono habitual”, obviamente segundo Tamaki, era capaz de exaurir mesmo um batalhão de amas, por mais dedicadas que fossem. Haruhi virou lentamente sua cabeça, dirigindo seu olhar para o pequeno adolescente, que agora dormia com uma expressão não muito pacífica, apenas acalmada. Sua mente então divagou para onde poderia estar Mori àquela hora. Teria ele tido alguma dificuldade em uma tarefa que parecia sempre tão simples. Teria ele ignorado as conseqüências da sua partida. Saberia ele... se...
Tamaki delicadamente cobriu Haruhi com uma manta. Sabia que se tentasse movê-la daquela cadeira, ela acordaria e se recusaria a voltar a dormir. Adorava observá-la enquanto descansava. Sabia que os estudos, o Host Club e agora os cuidados de Honey que ela instintivamente tomou para si após a partida de Mori. Tamaki se sentou e apoiou o rosto em uma das mãos, mantendo seus olhos na expressão pacífica de Haruhi. Era uma expressão já quase não via. Então se surpreendeu quando percebeu que no fundo, bem no fundo, por ser a causa de tanto cansaço e preocupação, e não mais do que só um pouco e por um instante que não se justificaria, Tamaki não pode deixar de odiá-lo. Pousou sua mão livre na cabeça de Haruhi, sentindo os cabelos dela por entre os dedos em um lento afago que, se não a estivesse agradando, não a incomodava, já que continuava adormecida sonoramente. Claro que havia a possibilidade de ficar furiosa e chamá-lo de pervertido ao acordar (tentava deixar de lado a parte do espancamento. Só de pensar já doía), mas Tamaki não ligava. Só ocupava sua mente com a esperança de que logo tudo voltaria ao que era.
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