A Paixão de Mori
8 Hellhound
Notas iniciais
- Kyoya?
-Diga, Kaoru.
-Faz um bom tempo que você não desgruda do seu caderninho? Está planejando algum evento ou algo do tipo?
-Não exatamente.
-Não... “exatamente”?
-Estou calculando o prejuízo que o Mori está dando ao Host Club por não deixar instruções para melhores cuidados do Hani-sempai para evitar eventualidades. Como ele era responsável por isso até agora, ele arcará com a conta final.
-Ah, sim. Claro. (É só uma desculpa para lucrar em cima da situação. Kyoya sempre será Kyoya.)
-//-
Ao descerem do carro, a brisa fria da noite nas montanhas percorreu seus corpos e trouxe consigo um pouco da vida que lhes foi tirada pela tensão das últimas horas. Suiko observou aturdida enquanto Mori, de olhos fechado e com um leve e prazeroso sorriso no rosto, inspirava profundamente o refrescante ar puro que vinha do oeste. “Ele é algum tipo de gorila super evoluído ou algo assim? Deveria pelo menos tentar parecer menos estranho de vez em quando.” pensou ela, com um suspiro inconformado. Mori então abriu os olhos, reparou na lua cheia por alguns momentos e deu a volta no carro. Parou com as costas viradas para Suiko observando com muita atenção uma trilha razoavelmente bem cuidada, o único caminho que se podia perceber após o ponto onde o carro havia parado. O garoto, olhando sempre para o mesmo ponto, fez um sinal para o motorista e os faróis da limusine foram imediatamente apagados. Suiko estranhou por um momento, mas então percebeu ao longe na trilha, até então imperceptível pela interferência da luz dos faróis, uma suave luz alaranjada. Mori então estendeu a mão a ela, mostrando claramente era aquele ponto que precisavam alcançar. Já Suiko não estava tão segura.
-Espera. Vamos andar no meio da floresta sem lanterna, guia ou mapa?
Mori olhou fixamente para um ponto laranja em meio às árvores. — Não precisamos.
“Ah, sim. Claro. – pensou Suiko – “Ele deve ter visão noturna e um GPS embutido. Por que será que não estou surpresa?” – e colocou sua mão na dele muito a contragosto. Percebeu, ao começarem a andar, que se sentia como uma daquelas crianças plebéias que Pinóquio viu sendo arrastadas para o primeiro dia de aula. A diferença era que no caso dela estava mais para um ogro arrastando a donzela para uma gruta. Se bem que ela nenhuma donzela idiota como nas histórias, mas o papel de ogro servia bem para o outro.
Pousou uma mão no peito e soltou outro suspiro, esse demonstrando um leve cansaço. Percebeu então que a dose que Mori lhe deu estava fazendo efeito, embora não chegasse perto de ser o suficiente. Apesar disso, se sentia até bem. Não era uma vegetação muito fechada, então não precisava se incomodar com ramos ou arbustos. Talvez o ar da montanha realmente estivesse melhorando sensivelmente sua condição, embora não visse muita diferença entre aquilo e uma sala climatizada.
Seus devaneios foram quebrados pelo som do motor do carro acelerando e se afastando da entrada da trilha. Estava agora isolada com ele. Não estava de todo despreparada para isso, pois ele tomou seu celular logo no começo da viagem e seus objetivos ficaram óbvios, mas a situação atual se mostrava cada vez menos favorável. Não conhecia aquele lugar, sequer sabia onde estava pisando direito (se bem que teve a sorte de ouvi-lo e vir de sapatilhas ao invés de salto ou teria problemas com o solo irregular da trilha), não tinha meios de se comunicar com ninguém (e o pior, ninguém a viria procurar, pois sabiam que “estava bem acompanhada”), era fisicamente menor e mais fraca, seus sentidos não estavam sendo muito úteis e, principalmente, ele tinha o que ela queria e usava isso a seu favor. O “ar puro da floresta” parecia cada vez menos convidativo a cada passo que era praticamente forçada a dar.
Tentou pensar em outra coisa. Voltou sua atenção para seus sapatos, embora quase não os pudesse ver. Deveriam estar manchados depois de toda aquela caminhada na grama. Seus pais a estariam procurando agora? Não. Não sujariam seus sapatos. Aliás, ela estava em “tão boa companhia depois de tanto tempo parecendo não ter amigos”. Por que se dariam ao esforço? Melhor que não viessem mesmo. Pelo menos poderia esfregar na cara deles que se virou sozinha quando mais precisava. Quem sabe até se sintam mal por...
Suiko quase fraturou o nariz ao bater nas costas de Mori. Ele parou tão repentinamente que a garota nem sequer pôde concluir seus pensamentos.
-O que acha que está fazendo? – disse, levando a mão ao nariz e carregando todo seu semblante com uma fúria afetada. – Isso poderia ter deixado uma marca no meu rosto, seu...!
-Desculpe. – interrompeu Mori. Olhando atentamente ao seu redor. Suiko então percebeu que já haviam praticamente alcançado a fonte de luz, que vinha de uma pequena cabana de madeira. Fora construída em uma pequena clareira que dava os ares de um quintal. Poderia até parecer aconchegante... para um plebeu, é claro.
-É “aqui” que vamos ficar?
-É.
-E acha que essa... “cabaninha” será suficiente para me acomodar?
-Espero que sim.
-Por que não olha para mim quando fala. Parece que está me evitando e isso já começa a me incomodar.
-“Êle” está vindo.
-“Ele”?
-Sim. – Mori então dirigiu todo seu corpo para um ponto, colocando seu braço em posição defensiva horizontal na altura de seu peito e instintivamente empurrando Suiko para trás de seu corpo. – “Êle”.
Antes que Suiko pudesse impor sua insatisfação pelo muitíssimo mal educado empurrão do já muitíssimo odioso rapaz, percebeu dois reflexos âmbar acompanhados por um vulto acinzentado que se aproximavam rapidamente de onde estavam. O vulto saltou e, mostrando seus dentes em uma boca escancarada, cravou-os no braço de Mori, que caiu imediatamente apoiado em seu próprio joelho. Suiko previu outra briga desnecessária que o sucessor dos Morinozuka trouxe para si, mas dessa vez Mori permaneceu imóvel, assim como o assaltante de seu braço. Este, a propósito, era um spitz de raça Akita Inu muito maior que o padrão. Embora a pouca claridade proveniente da lanterna da cabana, via-se que lhe faltava a calda e um pedaço da orelha, e que seu focinho tinha marcas de mutilação. Seu pelo estava razoavelmente bem cortado, embora o branco de seu pelo tivesse uma tonalidade levemente enegrecida incomum em sua raça. Seu comportamento, aliás, também era incomum, já que qualquer receptividade natural faltava na expressão raivosa de seus olhos negros ao encarar Mori. O garoto permanecia com a cabeça baixa, numa postura quase submissa ao cão. Levantou lentamente os olhos e encarou os de seu atacante por alguns segundos. O akita então abaixou as orelhas e soltou um leve grunhido, largando o antebraço de sua vítima e abaixando a cabeça. Se pudesse falar, com certeza estaria pedindo desculpas. Mori levou a mão do mesmo braço que o cachorro atacou a sua cabeça e afagou-a, encorajando o akita a levantá-la e latir de forma afável e intima. Mori sorriu, levando as duas mãos a parte de trás das orelhas do animal e respondendo as suas boas vindas com carícias.
Suiko não pôde mais segurar o comentário.
-Essa... Foi provavelmente a coisa mais bizarra que eu já vi na minha vida. O que diabos é essa coisa?
-Este... é “Êle”.
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