A Outra Parte
2 Capítulo 1
Ser comum entre tantas pessoas diferentes era um carma que estava destinada a carregar nessa vida. No começo, era bem mais difícil entender porque eu era tratada tão diferente. Por que minha mãe nunca me acolhia quando eu tinha pesadelos, por que meu irmão nunca brincou comigo ou por que meu pai nunca me abraçou.
Crescer assim foi complicado, mas à medida que fui amadurecendo e entendendo quem eu era, acabei me acostumando mais com isso. Amava minha família, apesar dos traumas. Percebi que cada um lidava com a vida de um jeito diferente, e o deles já havia me magoado às vezes, mas fazia parte do meu crescimento e eu aprendi com isso.
Aprendi a me virar desde cedo, sei o que funciona ou não comigo quando adoeço, sei fazer o melhor café da manhã do mundo, consegui um emprego maravilhoso e entendi que ninguém além de mim é importante no meu aniversário. Enfrentei momentos difíceis até entender tudo isso, mas depois que aceitei, meus dias passaram a ser mais leves.
Naquele dia, acordei antes do sol nascer, como de costume. Fiz meu café preto com tapioca, comi calmamente e preparei outra xícara de café.
— Bom dia!
Falei abrindo a porta após uma batida. Meu pai levantou a cabeça e me encarou com a mesma expressão abatida de sempre.
— Trouxe seu café.
Deixei a xícara em cima da mesa, me despedi e ele apenas acenou com a cabeça. Peguei minha mochila no caminho e saí de casa. A caminhada e a paisagem eram uma das razões de eu gostar de acordar tão cedo. As árvores pareciam mais verdes, o vento, apesar de congelante, era um despertador natural.
Cumprimentei um patrulheiro que sempre fazia o caminho oposto ao meu nesse horário, o conhecia há alguns anos, mas não sabia seu nome, o que não era uma surpresa com a inexistência da minha vida social. Falava com ele por educação e, no começo, por medo. É um pouco ridículo, mas o rosto estoico e a altura absurda me assustaram quando fiz esse trajeto no primeiro dia de aula. Na minha cabeça, sorri para ele evitaria talvez um ataque, que era altamente improvável de acontecer, mas o meu eu de treze anos pensava diferente.
O caminho até o ponto de ônibus mais próximo era relativamente distante, mas eu gostava de caminhar. Peguei o transporte e esperei uma hora e meia até o meu destino. Estudava naquele colégio desde os treze anos, e agora, aos dezessete, estava me despedindo dele. Tive algumas boas lembranças lá, mas não fiz amigos. Neste lugar, eu era a diferente entre os comuns. As pessoas nunca me trataram mal, só não tinham coragem de conversar comigo por mais de alguns minutos, e eu entendia eles.
Fui até a biblioteca devolver os livros que havia pegado e bateu um sentimento de nostalgia ao entrar, provavelmente, pela última vez ali. Era um dos melhores espaços que eu conheci na minha vida e passei boa parte do meu tempo enfiada entre as estantes. Na minha vila, a leitura não era exatamente a prioridade, então eu não tinha um lugar para recorrer após a formatura. Devolvi os livros e fui para as aulas, que só eu e mais alguns gatos pingados estavam frequentando. Como era o último ano e as provas para as universidades já haviam passado, os professores só estavam dando orientações gerais. Não fiz nenhuma prova e não precisava de conselhos, mas gostava da escola e queria me despedir.
Depois de enrolar o máximo de tempo que consegui, voltei para casa lá pelas três da tarde e vi uma cena rara ao abrir a porta. Meu irmão estava na sala de estar com seu amigo de infância, que parecia bastante tenso. Entrei cautelosa e eles mal notaram minha presença. Fui direto para meu quarto tomar um longo banho.
Não conseguia entender o porquê desse tanto de tensão. Sabia que era um dia importante para eles, mas aquilo daria certo, com certeza. Depois de arrumada, desci para comer alguma coisa e, graças a Deusa, não tinha ninguém. Saí com um sanduíche na mão e fui até o meu trabalho.
— E aí!
Falei entrando na lanchonete em que trabalhava. João já havia chegado e adiantava algumas coisas. Fui trocar de roupa e já comecei o trabalho. Dona Helena tinha aquele local há tempos e virou um point para todos, o que não era uma surpresa pela beleza e pela qualidade da comida do local. Minha chefe raramente aparecia, então eu e João tomávamos a frente de praticamente tudo.
— Cresceu dois centímetros de ontem para hoje?
João falou colocando sua mão na minha cabeça. Seu comentário rendeu um dedo do meio para ele. Depois das brincadeiras habituais e de tudo organizado, passamos o resto do dia atendendo as pessoas, conversando e dançando. É, eu sei. Estranho. Mas João era expressivo e gostava de se movimentar, o que não era o meu forte, mas isso sempre me alegrou, então passou a fazer parte da nossa rotina.
Quando a noite já havia caído há algumas horas, estávamos limpando tudo e ajustando os últimos detalhes. João fingia que cantava com o rodo enquanto enxugava o chão e eu estava no caixa.
— Sina, como vai ser amanhã?
Olhei para ele com uma expressão de quem não tinha entendido.
— Normal? — Ele revirou os olhos e parou de cantar com o rodo.
— Como normal, Sinaia? Amanhã é a sua formatura, oxe. — Dei de ombros.
— Não tem muito o que fazer. Só vou pegar meu diploma e acabou. Vou trabalhar e olhar pra tua cara do mesmo jeito.
— Tu sonha, né?
— Não. Não quero fazer nada, João.
Ele suspirou cansado por está discutindo a mesma coisa há meses. Fechei o caixa e fui ajudar na limpeza. Depois de fechar tudo, João passa seu braço pelo meu ombro e segue até minha casa, como de costume.
— Por hoje foi só, então.
João falou enquanto parávamos em frente a minha casa. Eu dei um abraço forte nele de despedida. Quando comecei a trabalhar na lanchonete e o conheci, ele me acolheu instantaneamente e foi um sentimento que eu não sabia que existia. Desde então, ele passou a ser um porto seguro para mim e era bom receber carinho e atenção de vez em quando.
— Dorme bem, Sininha.
— Você também.
Falei com a voz abafada pelo seu peito. Ele estava beijando minha cabeça quando a porta da frente foi escancarada e meu irmão saiu apressado, mas freou seus passos ao nos encontrar. Miguel fechou a cara assim que viu João, os dois não se davam muito bem, sabe-se lá porquê. Meu irmão passou rapidamente por nós e foi embora.
— Enfim, o dia também não podia ser perfeito.
Dei uma risada e o empurrei de leve.
— Você vai amanhã? — Falou indicando com a cabeça o local que meu irmão tinha ido.
— Céus, não. Você quer ir?
—Sei lá, vai ter comida de graça.
— Você é incorrigível.
Ele deu um sorriso sacana e bagunçou meus cabelos antes de se despedir. Entrei em casa e fui direto para meu quarto, queria um banho urgente e depois cama. Depois de vestida, me joguei na cama esperando acordar só no dia seguinte.
O que não aconteceu. Ou aconteceu mais ou menos. Acordei desorientada com barulhos que meu cérebro ainda não tinha processado. Ao olhar para janela, percebi que a noite ainda estava alta e não estaria nem perto do meu horário. Olhei a hora no meu celular e ainda era meia-noite e cinco. Levantei da cama, ainda sem entender muito o que estava acontecendo, mas curiosa para saber a origem do meu despertar forçado. Desci as escadas e vi a porta aberta, o que fez com que as vozes, a origem do barulho, ficassem mais altas e mais perto de mim.
— Pela Deusa, volte para casa. Onde diabos você tá indo?
Era a voz de Miguel. Fui em direção a comoção lentamente, ainda esperando meu cérebro voltar a funcionar.
—Rômulo.
Uma voz firme e assustadora se sobrepôs às outras. Eu encolhi um pouco com o tom de comando usado, mas como isso não me afetava muito, saí de casa e encontrei meu pai, meu irmão e o melhor amigo de Miguel, Rômulo, do lado de fora.
Miguel estava tentando segurar seu amigo que parecia estar indo para a floresta que rodeava nossa vila, já meu pai estava um pouco atrás parecendo furioso. Rômulo estava se debatendo para se soltar do meu irmão, mas parou assim que botei meus pés totalmente para fora.
—Se acalme e volte. Seu pai não vai ficar contente com essa atitude.
Meu pai falou, mas Rômulo continuou tenso e parecia furioso, ou pelo menos foi o que suas costas mostravam.
— Vamos, cara. A gente espera até amanhã e vê se é isso mesmo.
E tudo aconteceu muito rápido. Rômulo empurrou meu irmão com força, o que fez Miguel se desequilibrar e cair no chão, já que não deveria estar esperando um ataque tão bruto.
— Miguel!
Eu gritei e corri até ele, me fazendo perceber pros demais, que estavam tão tensos com a situação que não devem ter me visto chegando. Abaixei ao lado do meu irmão, que parecia irritado, mas não machucado.
— Que porra você pensa que tá fazendo?
Gritei em plenos pulmões para Rômulo. Quando o olhei, ele estava me encarando com uma fúria e um desdém que eu nunca imaginei poder ver em alguém. Ele avançou rápido demais em minha direção e esbarrou no meu ombro com uma força desnecessária. Eu caí com tudo no chão e ele se transformou em seu lendário lobo preto e saiu correndo para a floresta.
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