A Outra Parte
6 Capítulo 5
Fiquei o restante do dia no apartamento de João, já que Dona Helena havia me dado folga depois de todos os acontecimentos. A vila ainda não sabia que Rômulo havia encontrado uma companheira, tudo que foi informado foi que a festa que aconteceria em homenagem aos vinte e um anos do futuro alfa havia sido cancelada. Eu confiava na minha chefe o suficiente para saber que ela não falaria para ninguém o que estava acontecendo.
Comi a lasanha assistindo algum filme besteirol que coloquei na TV da sala de estar. Já estava no fim quando vejo meu celular tocando.
— Alô?
— Volte para casa, papai quer conversar com você.
Delicado como sempre, Miguel desliga na minha cara sem esperar resposta. Chateada, arrumo a bagunça que fiz no apartamento de João e vou em direção a minha casa. Ao chegar, vou direto ao escritório do meu pai e o encontro já me aguardando. Eu sento na cadeira em frente a sua mesa e espero que ele comece a falar.
— Sinaia, eu entendo que a reunião hoje não foi agradável, mas eu espero que reconsidere o que disse sobre a posição de Luna e sobre aceitar Rômulo como companheiro.
Estava esperando que ele falasse algo relacionado ao que aconteceu mais cedo. Sei lá, me consolar pelo encontro desastroso, ficar ao meu lado e lamentar pelas palavras maldosas que haviam sido ditas para mim. Mas isso? O que diabos ele está dizendo?
— Eu não entendi. O senhor quer que eu me torne a Luna da matilha?
— Sim, já que isso vai ser natural ao se relacionar com o futuro alfa.
Foi ingenuidade da minha parte achar que seria acolhida. Eu o encarei por alguns segundos, ainda sem entender muito o que estava acontecendo.
— Eu realmente não consigo entender, pai.
— Não precisa de muito para entender o que acabei de falar, Sinaia.
— Na verdade, precisa sim. Sabe por quê? Porque o senhor nunca se prestou a falar nada sobre a minha vida, não tem motivo para começar agora.
Papai ficou sério e, apesar de estar morrendo por dentro, já que nunca o tratei assim, não conseguia mais aguentar essa situação.
— Fale direito comigo, garota.
— Bem, eu não estou mentindo. Não entendo e não aceito sua interferência.
— Meça suas palavras enquanto ainda morar sobre o meu teto. Eu estou interferindo porque sua decisão pode afetar a vida de uma pessoa, e não é qualquer um, é o homem que vai liderar futuramente nossa matilha.
— Não vejo como posso afetá-lo a tal ponto que o prejudique na liderança.
— Claro que não vê, você não tem uma loba.
Ouvir essas palavras, apesar de verdadeiras, da boca de meu pai doeu mais do que eu imaginava. Eu não tinha uma loba e de certa forma havia aceitado isso, mas o fato de não tê-la foi um dos motivos de papai nunca ter se importado comigo, ou de meu irmão não me considerar digna o suficiente para ter o mesmo sangue que ele, ou até mesmo de minha mãe sequer olhar para mim no dia a dia.
Papai pigarreou e recomeçou a falar.
— O que eu quero dizer é que ele vai precisar de você ao lado dele quando ocupar o cargo de alfa. Rejeitá-lo assim pode prejudicá-lo.
— Ele não pareceu se importar muito com a minha rejeição, já que eu sou tão patética e sem graça.
Papai suspirou fundo e cruzou os braços.
— Ele está lidando com muita coisa no momento e acabou descontando em você. Rômulo é um bom rapaz.
— Bem, então ele deveria ser seu filho, já que o senhor se importa mais com os sentimentos dele do que com os meus.
— Sinaia, os seus sentimentos são ínfimos comparado ao que ele sentiu quando você o rejeitou. O que eu estou pedindo é que você repense sua decisão.
— Não, o senhor está dizendo para eu jogar meus sentimentos no lixo por causa de um macho. Não é porque supostamente a dor dele é maior que a minha que meus sentimentos não precisam ser levados em conta!
— Controle seu linguajar, Sinaia, você não está falando com seus amigos. Eu sou seu pai.
— Sim, no papel. O senhor nunca agiu assim, não venha com isso agora!
Eu levantei furiosa da cadeira, sem entender de onde vinham tantos sentimentos ruins de uma só vez.
— O senhor nunca se importou comigo, por que diabos vem agora falar disso? Que se exploda essa história de Luna ou da outra parte. Eu não quero isso. Eu não quero isso!
Papai levantou também e eu sequer fiquei assustada com o quão alto e assustador ele é, só queria continuar gritando.
— Abaixe seu tom. Com quem você pensa que está falando?
— Com você! Ora, com quem mais seria? O senhor nunca se importou comigo, nunca perguntou se eu estava bem, nunca soube nada sobre os meus gostos, sobre a minha escola ou sobre qualquer menininho que eu gostasse. O senhor não tem nenhum direito de está falando assim comigo.
— Eu sou seu pai, eu que lhe alimentei e dei um teto para você, o que não parece fazer diferença nessa sua cabeça.
— Oh! Olha aí, obrigada por não fazer mais do que sua obrigação, o senhor quer um aperto de mãos? Ou um tapinha nas costas?
— Sinaia, é melhor controlar a sua boca.
— Ou o que? Vai me bater?
— Não me provoque, garota.
— Vamos, vai lá. Só falta isso mesmo para deixar meu dia ainda mais brilhante.
Ele respirou fundo e massageou as têmporas.
— Sinaia, eu só quero que você repense a sua decisão. Nada mais. Quero que tente entender a dor de perder um companheiro.
Então era isso?
— Hmm, e quem melhor do que o senhor para entender bem esse sentimento, não é?
Sabe quando você se arrepende de ter falado alguma coisa, mas você já falou e não tem como pegar de volta? Foi o que eu senti assim que abri a boca.
Papai me encarou mais sério do que nunca e eu engoli em seco. Apesar da culpa, não conseguia me desculpar com ele.
— Vá para seu quarto, eu tenho uma reunião agora.
Eu assenti e saí de seu escritório. Acabei esbarrando em Miguel, que estava perto da porta, mas não parei para me desculpar, só queria me trancar no quarto o quanto antes.
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Acabei perdendo a noção das horas olhando para o teto do meu quarto e me assustei com o toque do meu celular.
— Alô?
Minha voz saiu bem mais rouca do que eu imaginei.
— Morreu, desgraça? Por que não respondeu minhas mensagens?
Levantei um pouco para sentar na cama.
— Foi mal, perdi a noção do tempo.
— Hm... aconteceu alguma coisa? Sua voz tá estranha.
— Ai, amigo, só tô com vontade de chorar.
Minha voz embargou, mas eu segurei o choro.
— Eu tô indo aí, me dá um segundo.
Ia falar que não precisava, mas ele desligou antes. Eu me joguei na cama novamente, enquanto esperava por ele.
— Vamos, desembuche.
João falou entrando alguns minutos depois pela janela do meu quarto e trazendo algumas sacolas com ele.
— O que é isso?
Sentei na cama para dar espaço e ele se jogou ao meu lado.
— Doces.
Ele tirou um sonho de valsa e me entregou. João me empurrou com seu ombro, me incentivando a falar.
— Ah, amigo. Tá tudo tão estranho e confuso. Parece que tem séculos que eu me formei e tava com minha vida toda planejada, mas sequer tem uma semana. Eu ainda não processei essa situação toda, parece que não tá acontecendo comigo, sabe?
Dei uma mordida no chocolate enquanto falava.
— Isso tá me estressando tanto e eu disse tanta merda pro meu pai. Ele veio falar que eu devia reconsiderar o que havia dito de manhã e eu explodi. Nunca tinha falado dessa forma com ele, mas praticamente gritei na cara dele e ainda falei sobre a morte da companheira dele, amigo.
Minha voz embargou e João fez uma careta.
— É, tenso. Mas, Sina, sendo sincero, é muita coisa para processar em tão pouco tempo. Você recebeu a notícia e teve que enfrentar os líderes da nossa matilha e negar o vínculo com o filho deles, não é qualquer pessoa que tem coragem de fazer isso. E também não acho certo o seu pai te pedir uma coisa dessas, o mínimo que ele deveria fazer é ficar ao seu lado.
Enxuguei minhas lágrimas enquanto escutava ele.
— E, amiga, eu sei que esse assunto da outra parte é complicado para seu pai e foi meio errado relembrar isso, mas, sendo sincero, ele merecia alguns gritos. Não é de hoje que você aguenta muita coisa ruim vindo da sua família, isso deve tá acumulado há anos dentro de você e saiu agora com tudo isso que tá acontecendo. Nem uma pessoa tão boa quanto você aguentaria calada. Até pensei que você fosse aceitar tudo isso sem retrucar, amiga, e me sinto mal por pensar dessa forma, mas você nunca confrontou seus pais ou qualquer pessoa que te fizesse mal.
— Eu sei, até eu tô assustada comigo.
João riu e pegou mais um chocolate para si.
— Acho que isso sempre esteve dentro de você, só estava sendo negado por essa cabecinha dura.
Eu ri e deitei a cabeça em seu ombro.
— Eu ainda me tremo inteira quando vou enfrentar alguém, mas eu cansei, amigo. Acho que não tá seguindo minha vida como eu imaginei me afetou muito.
— Isso é normal, Sina, você vai enfrentar isso e escolher o que é melhor para você. Não esqueça que eu vou tá sempre aqui.
— Eu sei.
O abracei e ficamos conversando o restante da noite.
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