A Outra Parte
5 Capítulo 4
Acho que nunca me aconteceu ficar com estômago embrulhado em frente a um café da manhã tão bonito. Alice havia preparado um verdadeiro banquete, que complementou a paisagem arbórea do jardim. O frio ainda persistia, mas um pouco mais leve, e ter trocado a roupa por algo mais quente ajudou nisso.
João estava sentado ao meu lado direito, Miguel estava do meu outro lado, seguido por mamãe e papai. Esse último conversava baixinho com o alfa, que estava na ponta da mesa, e Alice estava ao seu lado. Rômulo sentou na minha frente, mas não olhou sequer uma vez em minha direção e comia como se não tivesse um elefante na sala.
— Bom, você descansou bem, Sinaia?
Alice começou a conversa olhando para mim.
— Sim, e a senhora?
Não é como se eu pudesse dizer que foi a pior noite da minha vida.
— Senhora me faz sentir muito velha, criança. Pode me chamar de Alice.
Eu soltei um sorriso sem graça e concordei. Ela realmente não parecia ter a idade que possuía. A pele alva, os lábios rosados e os cabelos loiros a faziam parecer quase uma fada.
— E tive um bom descanso sim, querida. Não está com fome? Percebi que não comeu nada até agora. Tem seus favoritos, seu pai me falou que você ama tapioca com queijo.
E como diabos ele sabia disso?
— Não, é meu favorito, já vou comer.
Peguei a tapioca e a enfiei goela à baixo, não tendo a menor vontade de comer, mas não querendo fazer desfeita para a Luna.
— Coma devagar.
João falou enquanto enchia um copo de água para mim.
Comi lentamente enquanto ouvia nossa Luna falar sobre o quanto ela amava esse jardim e o quanto ela estava feliz por termos aceitado o convite dela. Não é como se a gente tivesse tido alguma escolha, mas ela é gentil demais para ouvir algo assim.
— Bom.
O alfa pigarreou e olhou para meu pai. Naquela hora, senti minha alma sair do meu corpo e minhas mãos começaram a suar. Céus, ia começar agora e eu não me sentia pronta, nenhum pouco.
— Acho que precisamos resolver o assunto logo.
Papai concordou e ambos olharam para mim. E minha voz tinha simplesmente sumido. Eu não ia conseguir falar, talvez nunca mais encontrasse minha voz. Acho até que ela tinha desaparecido para sempre.
Senti João apertando minha mão embaixo da mesa e tentei reunir forças para isso. Se eu não resolvesse, ninguém mais iria.
— Certo...Bom, eu...eu aprecio ser reconhecida como companheira do filho de vocês, mas foi uma notícia que eu não esperava, nem em um milhão de anos, digamos assim.
Soltei um riso sem graça e me ajeitei na cadeira. Pelo amor da nossa Deusa, o que diabos eu tava dizendo. Apreciava? Que droga de palavra era essa?
— Bem, eu não tenho uma loba, como todos sabem. Não consigo entender esse sentimento, mas o respeito.
O alfa prestava atenção ao que eu falava, mas sua expressão era tão séria que me fez criar um caroço na garganta e gaguejar boa parte das palavras. Pigarreei tentando consertar minha voz que saia quase como um sussurro.
— Eu realmente respeito, mas não sinto nada por ele e o fato de ser companheira de alguém não estava nos meus planos. É uma ideia que sequer passou pela minha cabeça, sendo sincera. E eu também preciso respeitar os meus sentimentos, e eles me dizem que...que eu não quero isso.
— Não?
A voz grave e inesperada de Rômulo me interrompeu e eu direcionei meu olhar a ele, que me olhava com uma expressão sarcástica e com a sobrancelha levantada. Engoli em seco e voltei meu olhar para o alfa.
— Eu não quero ser a companheira de Rômulo.
Um silêncio absoluto e extremamente desconfortável prevaleceu na mesa.
— Você não quer?
O alfa falou as palavras lentamente, como se estivesse absorvendo a ideia.
— Sim. Não foi isso que eu imaginei para mim.
— E o que você imaginou? Viver às sombras dos seus pais para o resto da vida?
Rômulo falou tão agressivamente que não consegui retrucá-lo. Não estava esperando ser atacada assim, também não esperava uma boa reação, mas definitivamente não imaginei uma fala dessas.
— Céus, como conseguiu ficar mais idiota em tão pouco tempo? Isso é algum tipo de dom?
João falou sarcasticamente, mas sua voz estava dura e seu rosto vermelho.
— E o que diabos esse desertor tá fazendo aqui?
Desertor?
— Minha presença aqui é mais desejável que a sua para Sinaia.
Sabe quando algo grande vai acontecer, mas antes disso, há um silêncio que parece eterno? Foi isso que eu senti depois da fala do meu amigo, e só foi questão de segundos para Rômulo levantar da cadeira e partir para cima de João.
— Parem!
O alfa deu um comando, mas Miguel já segurava João, que havia levantado. Rômulo parou graças ao pai.
— Não estamos aqui para brigar! Cuidado com o que fala, João. E tenha o mínimo de respeito pela sua companheira, Rômulo.
Miguel empurrou João para cadeira e Rômulo sentou relutantemente, ainda encarando João.
— Acredito que você estava falando, Sinaia.
— Uhum. Er...pois bem, eu não acredito que essa união vai ser boa para nós dois. Acho que temos visões de vida bem diferentes e seria melhor não começar nenhum relacionamento. Entendo que o lobo de Rômulo me reconheceu como companheira e podemos fazer algum arranjo para que ninguém saia tão prejudicado, mas um relacionamento amoroso está fora de questão para mim.
Pigarreei e ajustei novamente minha postura, ainda olhando para o alfa.
— Em relação à Luna, acredito que Beatriz está mais preparada para assumir essa função do que eu. Não acho que ela precisa necessariamente ser companheira ou casar com Rômulo para assumir esse posto.
Alice e o alfa trocaram olhares após a minha fala.
— Não é comum que a Luna seja outra pessoa senão a companheira do alfa, querida. Na verdade, isso nunca aconteceu antes.
Alice falou e olhava para mim de forma temerosa.
— A Luna e o alfa foram designados para cuidar das matilhas pela própria Deusa, a união e o amor entre eles fazem a força de uma matilha. Ela nos deu seu amor para que possamos amar os nossos, foi assim que nosso mundo foi criado.
— Eu entendo, mas Beatriz foi treinada para isso. Ela deve saber melhor do que ninguém como cuidar da vila e de todos. Não é por não ser a companheira de Rômulo que ela não ame a matilha tanto quanto ela amaria se fosse sua outra parte.
— Sim, querida, ninguém discorda disso. Mas a união romântica entre o alfa e a Luna sempre permeou nossa espécie. Você também pode ser treinada para me substituir um dia, acho que isso seria o ideal.
Engoli em seco e o desespero já estava subindo minha garganta.
— Com todo respeito, eu não acho que seja o ideal para mim, Luna. Não fui feita para liderar ninguém e nem desejo isso.
Alice trocou olhares com o marido, que parecia não aceitar muito bem a situação.
— É realmente isso que deseja, Sinaia?
Concordei com a cabeça e todo mundo ficou em silêncio por um tempo.
— Não era o que eu esperava, confesso. Mas não podemos te obrigar a nada, nem a aceitar nosso filho e nem a tomar posse de uma posição que não deseja.
Um barulho alto interrompe a fala do alfa.
— Isso é uma completa idiotice. Pelos céus, como vocês concordam com esse tanto de besteira que essa menina tá falando? Ela não pode simplesmente negar um laço!
Rômulo falou batendo na mesa e se levantando novamente. Ele me encarava furioso e parecia prestes a atacar alguém.
— Como diabos você tem coragem de vim até aqui para falar tamanha idiotice? Você deveria agradecer por pelo menos alguém querer uma mulher tão sem graça e patética quanto você.
Dessa vez, ninguém conseguiu parar João, que já havia pulado a mesa e dado um soco em seu rosto. Miguel levantou segundos depois para tentar separá-los, mas não estava surtindo efeito. Papai levanta logo depois e puxa Rômulo para longe de João, derrubando o filho do alfa no processo. Ele segura João quando meu amigo tenta avançar novamente em Rômulo.
— Acompanhe João até a saída, filho, ele precisa respirar um pouco.
Miguel acatou a ordem do papai e foi arrastando João até a saída. Eu fiquei olhando perdida para João, não querendo que ele fosse tirado de perto de mim. Ele me lançou um olhar de desculpas e se deixou ser arrastado por meu irmão.
Rômulo, que já havia levantado, saiu na direção contrária e nos deixou em um silêncio totalmente incômodo.
— Peço desculpas a vocês pelo meu filho, ele não está enfrentando as coisas de maneira saudável. Não justifica o que ele falou a você, Sinaia, e espero que isso não comprometa tanta sua visão por ele.
Comprometia sim, mas apenas concordei com a cabeça para não criar mais confusão.
— Bem, como eu falava, não podemos obrigar você a nada, mas peço que reconsidere o relacionamento com meu filho. Ele talvez não mereça essa chance, mas como pai, eu peço que pense mais um pouco.
Acenei mais uma vez, apesar de não concordar com a ideia. Era impensável um relacionamento entre nós dois.
— Bem, eu preciso ir, daqui a pouco meu trabalho começa.
Levantei e me despedi de todos. Fui embora sem ouvir as despedidas dos demais, ansiosa para sair daquele lugar o quanto antes.
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Fui até ao apartamento de João para tentar encontrá-lo. Fiquei com a mão no ar novamente quando a porta abriu de supetão e um Miguel vermelho e bagunçado saiu de dentro do apartamento.
— Mas o que...
Ele não esperou que eu completasse a pergunta e foi embora rapidamente. Entrei no apartamento e João estava sentado com a cabeça entre as mãos.
— Vocês brigaram?
Meu amigo olhou para mim com uma expressão tão triste que apertou meu coração.
— O que houve, João?
Fui sentar ao seu lado, mas ele levantou e bateu nas roupas, como se tivessem alguma poeira.
— Nada, não se preocupe. Eu tô indo me arrumar, daqui a pouco começa meu horário na lanchonete. Fique aqui, se quiser.
João foi em direção ao seu quarto e me deixou na sala sozinha. Levantei para tirar o casaco que usava e tênis para ficar mais confortável.
— Tem lasanha no congelador e chocolate na bancada.
Meu amigo saiu do quarto ajustando a farda marrom da lanchonete e eu fiquei o observando. João era alto como quase todo homem lupino, tinha músculos proeminentes e era um dos homens mais belos que eu conhecia. Sua pele marrom com seus olhos amarelos davam um contraste bonito com seus cabelos castanhos repicados.
— Sinaia...
Ele falou se aproximando do sofá.
— Sinto muito por hoje, não deveria ter perdido a cabeça assim. Prometi que iria ficar ao seu lado o tempo inteiro e fiz merda.
— Não se preocupe, não estou chateada com você e nem tenho motivo para isso.
João beijou minha cabeça e pegou suas coisas para ir trabalhar.
— Você tá bem?
Perguntei um pouco antes de ele sair.
— Claro, amiga. Só fiquei um pouco estressado.
Sua expressão parecia triste quando ele fechou a porta.
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