A Outra Parte

4 Capítulo 3


A caminhada até ao escritório do alfa passou tão lenta que quase não parecia que o local pertencia àquela casa. Meus ombros estavam tensos e as batidas do meu coração podiam ser ouvidas a quilômetros de distância. Quando Miguel passou por mim e abriu a porta, eu me obriguei a respirar fundo e a colocar meus pensamentos em ordem. Eu não havia feito nada de errado, não tem nenhum motivo para todo esse nervosismo, mesmo que o clima de ontem para hoje não tenha sido um dos melhores, isso não tinha nada a ver comigo.

Passei por meu irmão, com João ao meu lado, e dei de cara com o alfa sentado atrás de sua mesa gigante e sua esposa Alice, a Luna da aldeia, em pé ao seu lado. Rômulo estava sentado em frente ao pai e de costas para a entrada.

— Sente-se, Sinaia.

O alfa falou apontando para a cadeira vaga que estava ao lado de Rômulo. João me guiou até lá e me fez sentar, já que, apesar dos meus recentes pensamentos positivos, não conseguia controlar totalmente meu corpo. Meu amigo ficou atrás de mim, colocando sua mão no meu ombro.

— Bem — O alfa olhou de relance para a mão de João e voltou seu olhar para mim — acho que precisamos conversar.

Acenei com a cabeça, não confiando na minha voz naquele momento.

— Esperávamos que Beatriz fosse a outra metade de Rômulo, já que isso vem acontecendo na nossa família há séculos. Mas não foi isso que aconteceu, o lobo de Rômulo a reconheceu como companheira, Sinaia, e espero que você entenda sua posição agora.

Eu fiquei o encarando durante um tempo, ainda sem entender o que ele havia falado. O que era mesmo? Sobre Beatriz? Ela era companheira de Rômulo, certo? Certo...

Não certo, pela Deusa, não certo! Sinaia era a outra parte de Rômulo. Sinaia. Que era fodidamente eu. Eu. Pelos caralhos. O que?

Minha cara de peixe morto de boca aberta tinha durado tempo suficiente para que João me sacudisse um pouco. Eu fiquei desorientada e olhei para ele.

— O que ele disse?

Perguntei e olhei para João, que estava com os olhos arregalados e tão estático quanto eu. Foi então que percebi que quem havia me sacudido tinha sido meu irmão, que agora estava ao lado do meu amigo.

— Ele disse que você é a companheira de Rômulo.

João respondeu de modo automático e nós ficamos nos encarando durante uns segundos. Isso até cairmos na gargalhada. Meu amigo chegou a se curvar de tanto rir e eu já estava enxugando as lágrimas dos meus olhos.

— Pela Deusa! Do que diabos eles estão falando?

João concluiu a frase muito sofridamente, dado a seu ataque de risos. Já eu nem encontrava voz para rir, estava só fazendo sons desesperados para respirar entre minhas gargalhadas silenciosas.

— Sinaia!

Meu irmão falou meu nome algumas vezes, mas sua voz parecia distante. Eu só o olhei quando ele tocou meu ombro. Virei meu rosto para ele, ainda sem conseguir parar de rir.

— Você ouviu isso?

Falei entre respirações.

— Sinaia, isso é sério. O que o alfa falou é verdade, e você não pode rir assim dele. Muito menos você, João.

Tentei acalmar o riso após a fala do meu irmão e olhei para o alfa, que nos encarava com cara de poucos amigos. Não teria nenhum motivo na Terra que fizesse esse homem me chamar para contar uma piada sem graça. Eu levantei de supetão da cadeira e encarei João, que estava tentando segurar outra risada.

— Pelo inferno de Luna, ele tá falando sério.

— Sim, eu sei.

João falou ainda rindo um pouco. Ai, que ótimo! No meio da situação, nós dois tivemos a mesma reação desesperada.

— Puta merda, João.

— Aham, eu sei.

— Não, puta merda mesmo! Pela Deusa! O que diabos? Isso não pode tá acontecendo, eu sou humana. Eu não tenho uma loba. Não é possível isso, não é?

Olhei desesperada para nossa Luna, que parecia o único ser lúcido nessa sala.

— Acalme-se, Sinaia. Sente-se primeiro, por favor. Quer algo para beber?

Ofegante e ainda desesperada, neguei sua oferta com a cabeça e voltei a sentar lentamente na poltrona.

— Olha, eu vou tá aceitando.

João falou e senti Miguel direcionar sua raiva para ele, mas meu irmão foi pegar água para meu amigo na mesa que havia no canto do escritório.

— Certo, eu sei que é um assunto delicado e precisa ser tratado com calma.

Ela lançou um olhar de lado para o marido, que se remexeu na cadeira.

— A outra parte de um lobo pode ser sim um humano, o nosso lobo reconhece a outra pessoa como companheiro, ela tendo lobo ou não. Isso é bem mais raro de acontecer, mas não impossível. O fato de seus pais serem lupinos pode ser um grande fator para isso também.

Acenei com a cabeça lentamente, esperando que todas as informações ditas nos últimos minutos entrassem na minha mente e fizessem algum sentido.

— Foi uma surpresa para todos que Rômulo tenha você como companheira, mas um laço é sempre algo a se comemorar.

Surpresa nem tanto, já que ninguém tinha 100% de certeza se Beatriz era realmente sua companheira. E duvido que tenha sido uma notícia que foi comemorada.

— Eu sei que é muita coisa para processar só hoje. Acho melhor todo mundo descansar agora e falar disso com mais calma amanhã. Tudo vai se resolvendo com o tempo.

Ela colocou a mão no ombro do marido, que não parecia concordar muito com o tempo dado para que eu processasse toda a informação. Ainda sentindo meu corpo completamente extasiado, acenei com a cabeça e tentei encontrar minha voz no fundo do meu ser.

— Ok, é melhor.

— Ótimo! Soube que gosta de café da manhã, certo?

Acenei novamente com a cabeça, incerta de como ela sabia disso.

— Amanhã tomaremos um café da manhã no jardim para falar melhor sobre isso. O que acha?

— Bom...parece bom.

— Certo. Descanse bem, Sinaia.

Pedi licença e me levantei, puxando João comigo. Mas parei na porta antes de sair.

— João pode vir comigo amanhã?

Miguel me olhou torto e notei, pela primeira vez naqueles minutos fatídicos, que Rômulo se retesou na cadeira e começou a balançar a perna.

— João não faz parte da nossa família e nem do assunto, Sinaia.

Meu irmão falou e eu virei abruptamente para ele.

— Não perguntei a você!

Miguel pareceu surpreso com a forma que falei com ele e ia retrucar, quando Alice interrompeu.

— Claro, querida. Da maneira que se sentir melhor.

Dei um sorriso sem graça para ela e puxei João para fora daquele escritório e daquela casa. E, se pudesse, o teria puxado para fora daquela cidade.

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Eu e João caminhamos em silêncio até minha casa, já que ainda estava processando tudo que havia acontecido. Acho que a reunião mal durou meia hora, mas foi capaz de virar minha vida de cabeça para baixo. Ao avistar minha casa, João me puxa para um abraço forte.

— Eu sempre vou tá aqui com você, Sina.

Eu o abracei de volta e ficamos assim por algum tempo.

— Mas gostei da forma que você falou com seu irmão, ele merece isso há algum tempo já.

Isso me rendeu um leve sorriso.

— Acho melhor eu entrar.

João beijou minha cabeça e nós nos despedimos. Suspirei fundo ao entrar em casa e me deparei com meus pais na sala de estar, ambos olhando para mim quando passei pela porta. Pela Deusa, eu não tinha mais forças para falar com ninguém hoje.

— Sinaia.

Papai me chamou.

— Pai, eu realmente não quero falar sobre nada, só vou subir e dormir. Boa noite.

Ele não falou nada, mas não parecia satisfeito. Já mamãe só estava existindo ali mesmo e mal me olhava. Subi as escadas em direção ao meu quarto e, esgotada metalmente, me joguei na cama.

E coitada de mim se achei que ia dormir. Fiquei revirando na cama a noite praticamente toda e mal consegui pregar os olhos.

— Céus!

Empurrei os lençóis de cima de mim, já no limite da minha paciência por tantos pensamentos que não tinham uma definição correta, só estavam sendo bombardeados na minha cabeça. Fui até o banheiro lavar o rosto e respirar fundo.

Certo, não adiantava nada ter uma crise agora. Eu precisava pensar com clareza.

Eu era a outra parte de Rômulo. A companheira predestinada a ele pela Deusa. Rômulo é o filho mais novo do líder da vila, mas é ele que vai assumir o local do pai, não o irmão mais velho. Que fugiu. Beatriz, apesar de ser da família Braga, não era a companheira de Rômulo, mas eu sim. Quando Rômulo for o alfa da matilha, ele terá uma Luna. Que guiará todos ao seu lado. E essa pessoa será eu.

Eu, Sinaia Romania. A humana da vila. A que não tem uma loba. A criança não desejada. A pessoa que se formou agora e vai completar a maioridade daqui há alguns meses. A menina que queria sair de casa, talvez morar com João por um tempo, depois ter minha casa própria e continuar trabalhando na Comida de Lobo. Talvez virar gerente. E, talvez, encontrar alguém que goste de mim, mesmo eu não tendo nenhuma loba. Não queria filhos.

E uma futura Luna sem filhos não vai dar um futuro herdeiro para a vila. Mas uma Luna precisa ter filhos. E para fazer filhos é preciso...bem, é preciso...Pelos Céus! Senti minha cabeça rodando e me sentei no chão do banheiro.

— Puta merda!

Levantei ainda zonza e fui calçar minha chinela. Peguei meu celular e saí de casa, indo em direção ao apartamento de João. O tempo estava frio de doer e minha calça moletom e camiseta não ajudavam em nada na minha proteção, mas no momento eu não poderia me importar menos. Cheguei no prédio e fui em direção ao apartamento de João.

— O que houve?

Ele abre a porta antes que eu bata. João estava quase fechando os olhos e sua cara estava amassada.

— Céus, eu te acordei. Sou uma amiga de merda.

Segurei meu rosto entre minhas mãos e senti meu amigo me abraçando segundos depois.

— Não pira, menina. Vem.

Ele me puxou para dentro de seu apartamento, me fez sentar no sofá e pegou um copo de água para mim.

— Tome isso e respire fundo.

Fiz o que ele pediu e tomei às grandes goladas a água oferecida.

— Eu não quero ter filhos.

Eu soltei essa frase que estava entalada na garganta assim que ele sentou ao meu lado.

— Hm, certo. É só não ter.

— Sim, mas Rômulo...a Luna precisa, sabe...

— Sinaia, se você não quer ter filhos, você não vai ter. E foda-se aquele pirralho, ele não tem nada a ver com isso.

Eu deixei o copo na mesinha de centro e me aproximei mais de João.

— Eu não sei o que fazer, não consigo pensar direito. Não era para ter acontecido isso. Eu me formei, ia sair de casa. Não faz sentido eu ser companheira de alguém, ainda mais de uma pessoa que eu sequer troquei mais que duas palavras na vida.

— É, o mundo dos lobos pode ser fodido às vezes.

— Sim, mas eu sou humana, não faz sentido.

— Amiga...faz um pouco, o nosso lobo escolhe a pessoa, não necessariamente o lobo dela. Ter ou não ter não é uma questão aqui. Quando a gente reconhece alguém, o lobo dela vem junto. Se não tem, não afeta em nada.

— Eu mal o conheço, João. Só queria morar sozinha, continuar trabalhando e viver minha vida simples e sem lobo.

— Bem, você pode, não totalmente, mas pode...

— O que? Eu não...o que?

— Sinaia, você, como humana, não tem certas características nossas. Você pode ser mais forte, ter a mesma longevidade, mas, ao não possuir um lobo, certos sentimentos não fazem parte de você. Quando encontramos a nossa outra parte, o nosso lobo a reconhece como um presente divino e é praticamente impossível viver sem ela. Você não sente isso pelo Rômulo, sente?

Neguei com a cabeça.

— A parte lupina dele sente isso, já a humana ainda não. Então, ele ainda consegue controlar certos impulsos em relação a você. Mas no seu caso, minha amiga, não há nada, nenhum sentimento. Você pode não aceitar isso. Deve ser por isso que ligações entre lobos e humanos são tão raras.

Eu fiquei absorvendo suas palavras por um tempo.

— Mas, ele não vai sofrer?

O olhar de João ficou mais duro.

— Vai, mas ele aprende a lidar com isso. A perda de um companheiro é muito mais dolorida quando ele parte dessa vida, alguns lobos não resistem e acabam morrendo um tempo depois. São raros os que continuam vivos.

Papai era a prova que se podia continuar a viver, mesmo após uma perda dessas.

— Mas você está viva. Ele vai conseguir lidar com isso.

— E a Luna? a vila...eu moro aqui também, todos nós precisamos da nossa Luna.

João suspirou e se recostou no sofá.

— Bem, essa é a parte mais difícil. Se fosse qualquer outro lobo, você poderia não aceitá-lo, mas confrontar o nosso alfa vai ser complicado. Mas se não é o que você quer, não faz sentido se forçar.

— E se eles me expulsarem?

— Eles não vão, Sina. Teu pai, apesar dos pesares, não ia deixar isso acontecer. Sem falar que o Rômulo não pode ter a outra parte tão longe.

Eu respirei fundo e afundei no sofá.

— Por que isso tá acontecendo? Seria tão simples ser a Beatriz.

João ficou me encarando.

— O que?