A Outra Filha do Natal
3 Capítulo 3 — Investigações na Fábrica
Nora não conseguiu dormir.
A carta voltava inteira cada vez que fechava os olhos. A caligrafia firme, o nome desconhecido.
Hila.
O nome ecoava sem rosto, sem história, sem lugar.
Na manhã seguinte, Nora voltou à fábrica como sempre. Cumpriu tarefas, respondeu aos elfos, sorriu quando precisava. Matt percebeu algo diferente, perguntou se estava tudo bem. Nora apenas disse que sim.
Mas o pensamento não a deixou em momento algum.
Quando voltou para casa, o som de passos familiares ecoou pelo corredor antes mesmo que ela o visse.
Seu pai havia chegado.
Ele entrou trazendo consigo o cheiro do frio de fora, o casaco pesado ainda coberto de neve. Assim que a viu, abriu os braços sem hesitar.
— Nora, minha filha — disse, com aquele tom que sempre a fazia sentir que era esperada. — Quanto tempo.
Ela foi até ele quase por reflexo. O abraço veio forte, sincero, como se ele quisesse compensar a ausência com aquele gesto único.
— Como você tem passado? — perguntou, afastando-se um pouco para olhá-la. — Tem se alimentado direito? A fábrica anda puxada demais?
Ela assentiu, tentando manter a voz firme.
— Está tudo bem.
As palavras soaram pequenas demais para tudo o que ela queria perguntar.
Stevan continuou falando, perguntando sobre os elfos, sobre os turnos, sobre coisas que só os dois costumavam comentar. Nora respondeu como sempre fez. Por fora, nada havia mudado.
Por dentro, cada frase parecia atravessar um campo minado.
Ela quis perguntar quem era Hila.
Quis saber por que aquela carta existia, mas não teve coragem.
Então Lizzie apareceu no corredor, animada como sempre, correndo até o pai. Ele se abaixou para abraçá-la, girando-a no ar por um segundo breve, arrancando risadas fáceis. Olivia veio logo depois, envolvendo os dois num abraço.
Stevan passou o braço pelos ombros de Olivia. Beijou-lhe a testa com naturalidade.
Era uma cena simples. Familiar. Correta.
Nora observou de alguns passos atrás.
Nada ali parecia falso. E talvez fosse isso que mais a confundia. Não havia culpa visível. Não havia distância. Apenas uma família funcionando do jeito que sempre funcionava.
Stevan a chamou de novo, convidando-a para se juntar a eles. Nora se aproximou, sorrindo do jeito certo, ocupando o lugar que lhe cabia.
***
Nora decidiu que não conseguiria simplesmente esquecer.
No dia seguinte, antes mesmo de ir para a linha principal da fábrica, mudou o caminho. Subiu os corredores laterais, menos movimentados, até a ala administrativa, um espaço mais silencioso, onde o barulho das engrenagens parecia distante, quase respeitoso.
Parou diante da porta de vidro fosco onde se lia, em letras elegantes:
“Louis Ardent — Vice-presidente da Fábrica do Polo Norte”.
Respirou fundo.
A secretária, Ella, levantou os olhos assim que Nora se aproximou. Tinha um sorriso educado, automático.
— Bom dia, Nora. Posso ajudar?
— Preciso falar com o Louis. Agora.
Ella piscou uma vez, surpresa apenas pelo tom. Depois assentiu, sem questionar.
— Claro. Pode entrar.
O privilégio pesou nos ombros de Nora enquanto empurrava a porta.
Louis estava de pé, analisando alguns relatórios flutuantes, a barba grisalha bem aparada, os óculos apoiados na ponta do nariz. Ao vê-la, sorriu com gentileza, aquela gentileza antiga, de quem a viu crescer pelos corredores da fábrica.
— Nora? Aconteceu alguma coisa?
Ela fechou a porta atrás de si. As palavras vieram diretas, sem espaço para recuo.
— Você sabe quem é Hila?
O sorriso de Louis não desapareceu de imediato. Mas algo nele mudou. Um microsegundo de atraso. Um endurecer quase imperceptível do maxilar.
— Não — respondeu. — Não sei quem é.
Nora o observou com atenção. O jeito como ele desviou o olhar para a mesa. Como ajeitou os papéis sem necessidade.
— Tem certeza? — insistiu. — Porque parece que você sabe.
Louis suspirou devagar, apoiando as mãos na borda da mesa.
— Onde você ouviu esse nome?
O coração de Nora acelerou. Aquela pergunta confirmava tudo o que ela temia.
— Eu… — engoliu em seco. — Eu encontrei uma carta. No escritório do meu pai. Era dele. Para ela.
O silêncio que se seguiu foi pesado, antigo.
Louis tirou os óculos, passando a mão pelo rosto como quem revisita uma memória que preferia manter enterrada.
— Nora… — disse por fim, num tom mais baixo. — Isso não é algo que você deveria estar investigando.
— Então você sabe — ela rebateu, a voz trêmula, mas firme. — Você sabe quem ela é.
Ele hesitou. Não respondeu de imediato.
Louis permaneceu em silêncio por alguns segundos a mais do que o necessário. Quando voltou a falar, o tom era controlado demais, como alguém escolhendo cada palavra para não deixar escapar nada além do permitido.
— Não importa, Nora.
Ela franziu a testa.
— Como assim, não importa?
— O que quer que você tenha lido — continuou ele, endireitando-se — Não importa agora. O Natal está próximo, a fábrica precisa de atenção. Foque nisso.
Ele fez um gesto vago com a mão, quase tentando suavizar a conversa. E então, continuou a falar:
— Talvez você possa até chamar a Lenizzie para ajudar. Ela anda… com tempo de sobra.
Nora soltou uma risada curta.
— Minha mãe nunca deixaria — respondeu. — Ela acha que a Lizzie não precisa se preocupar com esse tipo de coisa.
Louis não comentou. Apenas desviou o olhar por um instante, como se aquela frase confirmasse algo que ele já sabia.
Nora sentiu a impaciência subir, misturada à frustração.
— Louis — disse, voltando ao ponto — isso é sério. Se essa Hila existe, se essa carta existe… então meu pai traiu ou está traindo a minha mãe.
A palavra traindo pairou no ar como um estalo seco.
Louis ergueu o rosto de imediato. A gentileza desapareceu por completo.
— Pare.
A voz dele agora era dura. Definitiva.
— Não diga isso de novo. Você não entende do que está falando.
— Então me explique — ela insistiu, sentindo os olhos arderem. — Quem é Hila?
Ele deu a volta na mesa, diminuindo a distância entre eles. Não havia ameaça em sua postura, mas havia autoridade. E proteção.
Ele a encarou por alguns segundos longos demais. Os olhos de Louis, antes sempre gentis, agora carregavam um peso, como se aquela conversa tivesse aberto uma porta que ele mantinha fechada há muitos anos.
— Eu já disse — falou, controlando a própria voz — Não importa.
Deu mais um passo em direção a ela, não para intimidar, mas para encerrar.
— Concentre-se no que está à sua frente. No Natal. Na fábrica. É onde você é necessária.
Nora abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu. Ela percebeu, naquele instante, que não arrancaria nada dele. Não hoje. Não daquele jeito.
Respirou fundo, sentindo o nó apertado na garganta.
— Entendi — disse, por fim, embora não fosse verdade.
Louis assentiu, já se afastando, como quem dá a conversa por encerrada.
— Agora, por favor, volte aos preparativos.
Nora deu meia-volta. Caminhou até a porta com passos firmes, mas por dentro sentia tudo estremecer. Antes de sair, hesitou por um segundo, a mão pousada na maçaneta.
Ao fechar a porta atrás de si, o silêncio do corredor pareceu ainda mais frio. E enquanto se afastava, Nora teve certeza de uma coisa:
Se Louis insistia tanto em dizer que não importava, era porque importava muito.
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