A Outra
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Capítulo um. – Colégio Secundário de Manhattan.
De duas coisas eu tinha certeza naquele momento. A primeira era de que eu morreria um dia, porque, claro, todos os seres humanos um dia morrem. E a outra era de que, não adiantava nada minha mãe repetir por mais de duas mil vezes consecutivas para mim: Vai dar tudo certo, Rachel, fique calma. Porque, no fundo, no meu subconsciente, eu já sabia que não daria. E aquilo era um episódio súbito e imutável. Era como se fosse tudo programado, detalhe por detalhe, para dar errado na minha vida. Sempre. Talvez eu não tivesse de enfrentar algo no sentido físico da coisa, mas estar ali não deixava de ser uma espécie de tortura para mim.
E eu me sentia feito uma criança, que insiste em não soltar os dedinhos da saia da própria mãe. Se agarrar a ela por motivo de sobrevivência, como se aquilo lhe transmitisse um centésimo de segurança, no novo mundo que estava prestes, embora não quisesse, a enfrentar. Exatamente assim eu me sentia. A mesma sensação, talvez até um pouco pior, ou eu não estaria naquele estado físico e espiritual traumático.
Minhas mãos tremiam, e eu ficava cada vez mais pálida e gélida. O mundo parecia girar em minha volta, mas eu não conseguia avançar e professar por ele. Aparentemente as batidas brandas do meu coração pulsante não eram suficientes para me deixar viva. Tudo sugeria que a qualquer momento eu poderia parar de respirar. O sangue que corria pelas minhas veias, estava congelado. Eu parecia exagerar sob os limites, em uma circunstância que para muitos é normal, mas, para mim, o primeiro dia em uma escola, era motivo de desespero.Ainda mais quando na realidade aquele primeiro dia, não era o oficial. Eu estava um mês atrasada. Esse primeiro dia valia só para mim. E primeiros dias sempre eram ruins comigo, perturbadores, não havia como discutir.
Eu fixava a imagem na minha cabeça. Incapaz de arrancá-la de minha mente. Uma tripulação de pessoas desconhecidas circulando pelos corredores do local, esnobes, cada uma centrada em suas próprias instâncias, ou querendo saber as dos outros. Sempre que via o cenário assustador me lembrava de que cada face que eu ousaria conhecer esconderia segredos emblemáticos e dons maliciosos. Mas, aparentemente, somente eu sabia disso no mundo inteiro.
Alguns falavam que eu era exagerada ou melodramática, devido ao meu medo de enfrentar o desconhecido, mas tinha tirocínio com isso, eu sabia que não era só uma escola comum. O carro estava se aproximando da beira da calçada, vagarosamente. Embora para mim, parecesse que tudo estava indo a mil por hora. Mas tensão era habitual para alguém que já vivera isso tantas vezes.
Eu já havia cursado em várias escolas, em vários lugares ao redor mundo, e era a mesma coisa. Sempre quando me mudava do lugar que costumava viver, eu tinha a impressão que os rumos que estavam traçados na minha vida eram vasculhados e embaralhados. Eu deveria estar adepta a isto, mas, não, eu não estava. Porque aquele lugar, não era qualquer cidade do interior simples, ignorada e longínqua, em que todos se conheciam eram simples e simpáticos. Era Manhattan. A famosa ilha de Manhattan. Veja onde uma pessoa totalmente desatualizada e não-popular, como eu, estava. O lugar mais bombado dos EUA. Definitivamente eu não pertencia àquele ambiente.
Eu previa que cada rostinho, em que eu passava longos minutos apreciando através do vidro escuro da Mercedes da minha mãe, era perfeito, e parecia que todas as pessoas estavam prontas para festas, eram divertidas, populares. Eu ficaria perdida naquela selva. Mas, teria que me acostumar. Já que moraria na cidade por quatro longos anos e ficaria naquela escola por mais três, então eu não tinha escapatória alguma.
Meu pai trabalhava como empresário, e estava sempre viajando para negócios, sem dúvida a mudança era uma boa coisa para ele, e a nossa casa, tinha se transformado parte de um conjunto habitacional em Manhattan. Minha mãe sempre estava muito ocupada com a linha de moda criada por ela mesma, Designers Fashion Haillen, que ela ostentava ser a marca de roupas mais famosa do mundo, por isso não tinha tempo para “cuidar” das minhas necessidades ou ficar comigo, muito menos com o meu irmão, Scott Hudz Haillen, que permanecia me relaxado no banco detrás do carro. Então a única opção era jogarem,
a gente na primeira escola que aparecesse,para que morrásemos ali. Colégio Secundário de Manhattan, um internato...ÓTIMO.
Dava-me arrepios pensar que eu teria que passar dez meses de cada três anos de minha vida, comendo, bebendo, dormindo e estudando naquele lugar, com direito apenas, a sair nos feriados, férias e finais de semana. Exceto por aquele ano, que iria passar nove meses, já que estava por um, atrasada.
E ao contrario do que poderiam pensar ter Scott não me reconfortava. Ele iria passar a maior parte do tempo longe de mim, então, mesmo sabendo que ele estaria lá, eu me sentiria sozinha. E de qualquer jeito, eu tinha muitas razões para estar nervosa. E se as pessoas não gostassem de mim? E se me achassem toda a esquisitona que sempre mudava de cidades, tinha chegado atrasada e era Canadense? Sim, eu havia nascido no Canadá há dezesseis anos, mas nem me lembrava de como era lá, tendo em vista que do México, aos dois anos, eu tinha migrado direto para Nova Iorque, depois Tóquio, Brasil, Roma e por fim, Manhattan.
Bem, ali estava eu, prestes a sair da Mercedes escura da minha mãe, e entrar num Internato Secundário, permanecer ali por quatro meses, devido ao meu atraso, até estar de férias, e depois mais cinco meses.
Aquilo era um pesadelo.
Mesmo que eu tivesse socado tudo o que eu precisaria e que amava, nas minhas malas, sentiria saudades do meu quarto, ainda que eu só tivesse dormido nele por duas semanas. E também do meu gatinho. Do que eu era apegada.
Às vezes eu sentia um fiapo de esperança brotar dentro de mim, e acreditava que eu fosse me acostumar com aquele lugar. Mas, o nó que se formava em minha garganta, meu estado físico combinando com a tremedeira incessível indicava que não.
Minha mãe, Helena Dora Haillen, tinha acabado de estacionar depois de derrubar duas latas de lixo que estavam paradas na calçada. Scott gargalhou da situação, irônico, ao que minha mãe lhe lançou um olhar mortal.
— Scott, não ria da sua mãe, mocinho. Saia do carro e deixe-me conversar com a sua irmã. – Falou Helena rígida, para meu irmão Scott, que parecia ser a pessoa mais feliz do mundo, ele tinha a expressão elegante de alguém que nasceu em LA, mesmo. Diferente de mim, ele era encantador, olhos azuis fascinantes, que contracenavam com seu cabelo castanho alourado. Era estranho admitir que Scott, só estivesse feliz de pensar que ficaria longe de casa por meses. Ele arrancou a chave das mãos de Helena e pulou do banco de trás para fora, com a maior empolgação.
—Ok, Querida. — Começou minha mãe com seus olhos castanho-violeta e cabelo preto encaracolado. Ajeitando blazer branco pérola, e se mirando no espelho retrovisor. — Está é a última vez que vamos nos ver até o fim de semana. Está nervosa? – Perguntou Helena, de forma amigável.
Como se aquilo não fosse óbvio demais. Meu cabelo castanho oleoso e ondulado até os ombros estava respingando de tanto suor e escorregando de trás da minha orelha. Meus olhos violeta estavam palpitando e fitando as pessoas que passeavam pela entrada. Minhas mãos tremiam a cada segundo combinando com os resquícios roídos de unhas pretas que tinham. E meu rosto estava lívido. O frio prevalecia lá fora, cerca de uns dezessete graus. Ainda que eu usasse um suéter vinho, jeans, e All star, reforçados, eu não deveria suar daquele jeito. Eu estava prestes a ter um delírio.
—Eu vou ficar bem mãe. – Menti com muita paciência e compreensão com a minha velha mãe de 42 anos, que não podia entender o trauma que eu passava a cada segundo que me lembrava da necessidade de permanecer por dez meses consecutivos naquela escola, ou melhor, nove.
Escutei o porta-malas do carro se abrir em um barulho estivo.
—Certeza? Você me parece tão nervosa. – Argumentou ela, serena. -Hm... Acalme-se querida. –Pediu ela apreensiva, me fazendo um carinho no cabelo oleoso. -Pense pelo lado positivo, é uma grande chance de fazer amigos aqui em Manhattan. Você vai gostar. – Helena me bajulou, enquanto eu apresentava uma piscadela falsa. – E você também poderá se comprometer com os estudos. – E quem ligava para os estudos?
—É sério, mãe. Eu não to nem um pouco abalada com a mudança. E quanto à escola... Acho que vai ser legal. –Menti descaradamente, mais uma vez, e passei a manga do meu suéter na testa pra secar o suor que escorria sem parar. – E tem o Scott pra me ajudar. – Admiti falsamente, tendo em vista que íamos nos evitar, mas que dois imãs de geladeira sobrepostos.
Destranquei a trava da porta em uma só virada e a escancarei completamente. Só de aspirar o ar que circulava pela escola, e que não era o ar condicionado do carro da minha mãe, eu já sentia que não iria tolerar o peso do meu corpo e acabaria levando um tombo se levantasse.
Então, tentando recuperação imediata, eu fechei as minhas pálpebras palpitantes, e sem olhar ao redor, pulei do banco da frente para fora. Com a mente em branco. Num movimento rápido, cheguei até a parte traseira do carro, o porta-malas estava aberto. Descarreguei minhas duas malas rosa, gigantes, do porta-malas, com muita calma e tranqüilidade.
—Rach, entrega a chave pra mamãe. — Pediu Scott apressado jogando a chave do carro pra mim. Ele estava numa distância ampla do carro, com suas malas pretas, adiantando-se para entrar no colégio. – Tchau, mãe! – Gritou de longe para Helena, despojado e acenando, minha mãe apenas fez uma cara séria que eu olhei pelo retrovisor.
Imaginei que ela se sentisse desconfortável pela rebeldisse de Scott e pelas calças rasgadas que ele usava sem nem se importar. Eu arrastei minhas malas para calçada. Iria vislumbrar a entrada do colégio, mas
Helena me interrompeu de fazer isso.
—Querida, me dê um beijo de despedida. –Pediu a mulher, em súbito, talvez sentindo dó do que eu passaria no colégio por conta da atitude egoísta dela e de meu pai, John Hudz Kaillen, em ter me colocado no Internato, ao invés de deixarem-me ficar em casa e freqüentar um colégio normal.
Eu cruzei até ela e encaixei minha cabeça no vão de quatro dedos do vidro da Mercedes, deixei que os lábios macios da minha mãe pudessem encostar-se à minha testa. Afastei-me um pouco para não me sujar de batom vinho e protetor solar.
Sorri, brevemente, não que meu sorriso fosse algo agradável de mostrar a alguém que não se veria por um bom período de tempo, sendo um sorriso tão simplório, sem graça e branquíssimo, pela paixão que tinha por escovar os dentes. Apenas sorri por educação, e entreguei a chave a Helena.
—Tchau, mãe. –Me despedi ao que ela subiu o vidro escuro da
Mercedes com o botãozinho.
Eu me apartei mais ainda. E ela ligou num estampido o carro. Fiquei esperando até que ela dês- estacionasse e seguisse pela South Street até virar a esquina. O que, confesso, demorou alguns minutos, levando em conta que as habilidades de Helena Dora Kaillen, dona de uma grife de moda, no volante, eram míseras.
Olhei ao redor da entrada, não via mais Scott.
Posteriormente de ver o carro de minha mãe ir desaparecendo pela rua, o nervosismo invadiu cada gota de sangue que circulava pelas minhas veias. Eu sabia o que tinha que fazer, mas não me sentia pronta para encarar.
Depois de refletir alguns segundos, concluí que, a coragem era uma virtude e já que me faltava, eu tinha que aprender a cultivá-la dentro de mim.
Com um pouco de esforço, migrei da calçada rumo às escadas de entrada, arrastando minhas malas gigantes cor-de-rosa, uma em cada braço. Tentei equilibrar-me e não prestar atenção nos alunos que vagavam nos degraus. Percebi naquele momento, que talvez eu tivesse colocado coisas demais nas malas, para estarem pesadas daquele jeito.
Eu as conduzi violentamente com toda a minha força de uma garota magra de 16 anos, degrau por degrau. Quase tropecei nos primeiros. Tentei olhar pra baixo pra que ninguém notasse a figura que passava por aquela situação constrangedora, eu.
—Ajuda? – Perguntou uma voz masculina desconhecida, em um timbre rouco doce e gentil. Nos primeiros segundos não havia me dado conta, mas em um momento de noção, vi que aquela voz simpática tinha se dirigido a mim.
—Ajuda? – Repeti, um pouco abobada, após notar a figura ao meu lado. Um garoto de cabelos escuros desarrumados e charmosos, caídos sob sua testa, com olhos dourados, reluzentes, contracenando perfeitamente com seu físico bem torneado, e estilo produtivo.
Confesso que fiquei um pouco admirada por um garoto daquele nível, ter se dirigido a uma inovação de garota perdida como eu. Mas, talvez, eu estivesse enganada a respeito daquela escola e existissem ali pessoas simpáticas e agradáveis, e não só as populares e metidas à besta que sempre apareciam nos programas de televisão com Internatos. E talvez aquele garoto, que sorriu brevemente para mim, fosse uma pessoa aprazível.
— Hm, um pouco de ajuda seria ótimo. – Concordei depois de alguns segundos, já que aquelas malas estavam pesadas excessivamente e quase formando calos em minhas mãos. O garoto as tomou de mim e acomodou uma embaixo de cada braço. Fiquei pasma com a força dele, mas mesmo assim, prosseguimos pelas escadas de entrada do colégio, ambos quietos e internamente conturbados, embora meio sorridentes.
—Você é nova no colégio? – Perguntou ele, com um sorriso altamente sedutor e simpático. Interrompendo o nosso amargo silêncio. A pergunta tinha uma resposta extremamente óbvia. Eu apenas balancei a cabeça positivamente, afirmei que era nova. –Eu sou Josh Throne... É... Um prazer conhecer você...
—Rachel Stephenie Haillen. Rach.– Completei com meu nome e cognome, ao que ele, num ato de força ágil, levando em conta as malas que ele segurava, estendeu à mão direita pra que eu o cumprimentasse, o que eu fiz, é claro.
—Haillen... Acho que já ouvi falar. –Retrucou adoravelmente enquanto nós escalávamos os últimos degraus.
—Meu pai, é meio famoso... Mas acho que você já deve ter ouvido falar em Helena Dora Haillen... A estilista famosa, criadora Da Designer Fashion Haillen... Ou que também atende por “minha mãe” – Digo meio irônica, já que pude ouvir Josh rir. Estávamos alcançando a entrada do enorme colégio. Incrível, que não parecesse tão horrível naquela ocasião.
—Você é a filha da criadora de uma coleção de roupas famosa?- Interroga o garoto impressionado com a notícia.
—É, fazer o quê. – Respondi, sem delongas enquanto observava ele depositar as minhas malas no início da entrada da escola.
—Uau. Não deve faltar roupa no seu armário, Rach. – Disse o moreno, ainda deslumbrado. Talvez ele não entendesse porque uma garota tão cafona como eu, era filha de uma estilista que só andava de salto e era criadora de grifes super caras.
—Na verdade, eu não uso as roupas que ela faz. Não faz meu tipo. Total. – Contei um pouco acanhada. Não era tradicional eu dialogar sobre o meu guarda-roupa com um garoto. Ou melhor, eu não conversava disso com qualquer pessoa, já que não tinha nenhum amigo, por enquanto.
—Hm, eu entendo. – Ele proferiu num tom despojado, mexendo nos
cabelos densos. – Ei, Rach. Você sabe como funciona aqui? –Ele me indagou, já que havíamos chegado à entrada e eu estava inteiramente perdida com o ambiente, e não sabia o que iria fazer.
—Definitivamente, não. – Admiti, sentindo minhas bochechas corarem levemente com aquela situação.
Aquilo era totalmente novo pra mim. Era uma paisagem que eu nunca havia apetecido. O interior, depois da entrada, do Internato Secundário de Manhattan. A minha esquerda, exista uma enorme vidraça fragmentada, alguns divãs e uma televisão, preenchidos com alunos entediados por todos os cantos. Tudo impecavelmente enfeitado com plantas exóticas. Na minha frente à recepção plainava sem muita vida, em contraste com a recepcionista loira e magrela. As minhas costas havia uma escadaria grandiosa que eu acabara de escalar. E a minha direita paredes, que exploravam na entrada receptiva um branco-gelo espalhafatoso. Também havia uma passagem oculta, que eu pressentia que era o corredor de entrada para o interior do colégio.
Eu empreendia aquilo tudo com a mente, enquanto o garoto ao meu lado apenas mantia uma expressão sorridente e satisfeita.
—Hm, vem cá, eu vou te ajudar. – Falou ele, direto, me puxando pelo suéter vinho, avançando para frente até a recepção sem-graça, fazendo que eu abandonasse minhas malas na entrada, ao que eu me espantei integralmente, porque, ele nem me conhecia e já estava me levando puxada pelo braço. Era tão adventício.
Chegamos à recepção, então ele me largou e apoiou os cotovelos no balcão marrom. Ficou olhando ameaçadoramente, para a recepcionista de uns 35 anos, dona de um cabelo loiro esbranquiçado, olhos bem castanhos e boca vermelha de batom. Ela usava uma blusa roxa colada, hiper decotada, com uma saia cinza bucólica. Também trazia um crachá escrito: Alicia Doony. Josh a fitou com uma expressão pidonha, então, Alicia largou o telefone vermelho que estava tão entretida e colocou no gancho meio que à contra gosto.
—O que quer Sr. Throne? –Perguntou ela com uma voz arrogante e olhou pra mim como se eu fosse alguma espécie de alienígena. Fitou bem sarcástica o garoto ao meu lado, que esbanjava charme.
—Eu nada, Doony. Quem quer é essa garota aqui. – Disse ele apontando pra mim, ao que eu arregalei meus olhos e quase sentir que eles fossem saltar de tanta admiração devido a seus argumentos confinadores. — Ela é nova na escola. Chegou hoje. Sabe em que quarto ela vai ficar? – Perguntou apressado para a recepcionista, que revirou os olhos, e arrumou os óculos com tranqüilidade. Ela balançou parcialmente a cabeça, conforme o timbre preocupado dele era articulado.
—Qual é o seu nome, garota? –Dirigiu-se ela, para mim, com intolerância.
Eu respirei por alguns segundos profundamente e tentei disfarçar o jeito que minhas mãos tremiam. Eu odiava ter que falar meu nome.
— E idade? –Continuou Alicia. Idem, eu também odiava ter que dizer.
—Rach...Rachel Haillen. – Enunciei apreensiva, com um jeito acirrado, eu não apreciava meu nome, por ser tão medieval. – Quinze anos. –Suspirei subitamente num tom rápido e um pouco ríspido que fez aqueles olhos castanhos encolhidos se voltarem pra mim estupefatos.
—Hm, Srta.Haillen. Sim, é claro. A diretora Norma havia me avisado de sua chegada. Vou consultar o dormitório que você vai ficar no computador, mocinha. Um momento. –Ela contou rigorosa.
Sentou-se na cadeira aparentemente confortável e branca, de frente para o computador, e começou a digitar um monte de palavras rápidas no teclado, redondamente ilegíveis para o meu ângulo de vista. Desisti de tentar decifrar e apenas fiquei brincando com os meus dedos no balcão enquanto ele me olhava afoito.
—Então, tomara que você pegue os mesmos horários de aula que eu. – Principiou ele, puxando por fim assunto comigo. Eu ergui o olhar e o observei atentamente, enquanto enroscava uma mecha de cabelo para trás da orelha.
—É. Você também está no primeiro ano? – Questionei interessada. Apoiando-me no balcão por vez, e vendo muitas pessoas olharem para nós dois com curiosidade, mais pra mim do que pra ele. Será que eu tinha adquirido alguma espécie de vírus contagioso? Parecia que sim.
—É, estou. –Ele continuou modesto, e ignorou a minha distração e pouco entusiasmo. –Você sempre morou aqui em Manhattan, Ray? –
Ele inquiriu pra mim, numa abreviação singela e fofa do meu nome. Eu sorri um pouco com isso. E ao mesmo tempo tentei arrancar com os dentes um resto de esmalte lascado das minhas unhas roídas de cor preta.
—Não. Mudei-me há duas semanas. E sou Canadense. É que estou sempre mudando na verdade. É uma tradição de família. –Expliquei para ele, com jeito de orgulhosa, por morar e conhecer vários lugares.
Não que eu devesse me orgulhar, na maior parte do tempo eu costumava criticar isso, mas estando ali com Josh, parecia divertido e emocionante já ter conhecido diversos lugares, uma espécie de adrenalina juvenil, em que se gabar torna-se um prazer.
— Quando se tem um pai empresário e uma mãe estilista disposta a fazer que sua grife de moda seja a mais bombada do mundo, esse é o seu destino na vida... –Continuei para ele, carismática e um pouco mais empolgada, um tanto mordaz, já que tinha ouvido o garoto abafar um riso. Eu nunca havia me deparado com alguém tão simpático como ele. Era um milagre da natureza. — Bom, pelo menos até os dezoito.
—Sei... E vai passar quanto tempo aqui? – Mais uma pergunta ele fez pra mim, ao que eu percebi que já estava na hora de eu fazer perguntas também, mesmo assim acenei com a cabeça suavemente sem reclamar.
—Provavelmente quatro anos. – Respondi rápida e intuitivamente, engasgando na garganta uma pergunta que eu faria para ele, impedindo-o de me contestar novamente. – E você, sempre morou em Manhattan?
—É. –Ele respondeu com um acenar e com uma acumulada vontade de me fazer mais perguntas. Eu o vi piscando pra mim. Talvez tivesse sido apenas um cisco no olho.
—Sinto interromper a adorável conversinha de vocês, mas, eu já achei o dormitório que você vai ficar Srta. Haillen. – Disse Alicia, arremetendo nossa conversa, levantando-se de cadeira branca, apoiando as mãos, com as unhas postiças vermelho-rubi, no balcão, e segurando um folheto impresso naquele instante, já que a tinta estava frágil e um tanto borrada. – Vai dividi-lo com... –Ela deu uma pausa para ler algo escrito no computador preto de tela cristal líquido. — Claire Marrie Deyn, Lana Louise Brooks e Michelle Heinaah Waitten. –Comentou Alicia, antipática, piscando automaticamente os cílios cobertos de camadas de rímel barato.
Eu ouvi os nomes femininos com atenção. Todos eles pareciam pertencer a pessoas finas e populares de elite. Senti o meu sangue ferver mais do que já estava. Eu teria que compartilhar um dormitório com essas garotas por meses consecutivos até me formar. Arrepiante, palavra ideal pra descrever essa ocasião. O silêncio tomou conta de nós por alguns minutos.
—Ah, claro. –Simplesmente falei para quebrar o silêncio constrangedor entre nós três, que embora fosse abafado com as conversas alheias dos alunos da escola que ficavam conversando na entrada do colégio e na área da tevê, estava me matando.
—Aqui está a chave do seu aposento. – Ela falou juntamente me entregando uma chave dourado brilhante, que reparei estava gravada com ‘216’.
Eu fitei a chave com uma amarração na garganta, perguntando-me quantas vezes, eu giraria a chave em torno de uma fechadura de um dormitório que me pertenceria.
—Espero que goste da escola. – Continuou a recepcionista. — Seu uniforme já a aguarda sobre sua nova cama, Srta. Haillen. – Explicou paciente enquanto eu inclinava a cabeça ansiosa para ver os horários que estavam envolvidos nas mãos morenas dela. — Os uniformes são obrigatórios todos os dias, exceto pelos fins de semana, esteja avisada disso desde já. Aproveite o seu domingo e suas aulas começam a amanhã, segunda feira dia um de Março de 2009. O seu armário será entregue amanhã também. Agora, tenha um bom dia, Srta. –Terminou ela num texto aparentemente decorado, e me entregou também uma listinha de horários de aulas que eu peguei sem dar bola, já que tinha perdido a graça bisbilhotar os horários.
Depois de falar, Alicia se sentou sem dizer mais nenhuma palavra e voltou suas atenções para o telefone vermelho barulhento.
—Legal. Você vai ficar no mesmo quarto que Clarie. –Josh exclamou um pouco empolgado pra mim.
—Claire? –Perguntei confusa, sem fazer a mínima idéia de quem poderia ser a tal descrita por ele.
—Claire Deyn. A minha namorada. –As palavras saíram secas e atravessaram em mim, e embora eu não ousasse compreende-las, já havia percebido e entendido tudo.
Claro, um garoto como ele tinha uma dona com certeza. E ele apenas
estava sendo simpático, e não estava nem um pouco interessado numa castanha canadense. Não que eu quisesse que ele estivesse interessado. Realmente, a coisa que eu menos precisava era de um garoto para pegar no meu pé. Por mais bonito e gentil que fosse ainda rejeitava todos.
—Ah, é...? Que legal. – Menti disfarçando o meu desapontamento com o fato dele só ser simpático, e mais nada. –Vou pegar a minha mala e ir pro quarto. – Repliquei um pouco fria, e corri para encontrar minhas malas. Josh tentou me acompanhar. Mas, eu era mais acelerada.
—Ei, Rach, vai com calma. – Ele pediu pra mim, já que eu estava perto das minhas malas com toda afobação possível. – Você ainda quer minha ajuda? –Ele perguntou meigo, estacionando ao meu lado ofegante, depois de me perseguir.
Eu vi que estava agindo como uma idiota. Eu não precisava ficar fria com Josh, um garoto tão maneiro, só porque ele tinha namorada. Aquilo era ridículo. E fora isso quem sabe, não era um começo de uma adorável amizade?
—É... Tá, eu adoraria ajuda. – Falei incrédula, observando ele colocar as duas malas por baixo dos braços musculosos e brancos. Como eu me via perdida, Josh foi me guiando.
Passamos pela recepção de novo, ao que Alicia ergueu as sobrancelhas finas pra nós e continuou a fofocar no telefone. Ele indicou pra que seguíssemos a esquerda, o que era óbvio, já que pela direita só teria sofás e uma televisão. Eu o deixei ir a frente, para poder segui-lo.
Entramos num corredor pequeno e curto com paredes branco-gelo e alguns quadros e brasões da escola, estampados. Depois viramos pra direita, e encontramos outro corredor reto e mais largo, branco, cheio de armários azuis que mais pra frente abria novos espaços.
O silêncio entre eu e ele predominava. Até que ele me disse que algumas salas de aula ficariam seguindo o próprio corredor dos armários e contornando a direita. Só que ao invés desse caminho, nós cortamos o corredor ao centro, e encontramos um salão grande com alguns bancos no meio, quadros, plantas exóticas e janelas, que abria espaços gigantes.
Vi placas que diziam aonde ir para alcançar o restaurante, a área da piscina, a biblioteca, sala de dança, corredor de dormitório e mais salas de aulas. Parecia ser o salão principal da escola.
Bem iluminado e lotado de alunos esnobes que passavam por nós arrogantes. Aquilo realmente me deixava um pouco amedrontada. Quantas vezes eu passaria por aquele salão? Eu fiquei um pouco nervosa, mas com Josh me guiando parecia menos assustador. Também tinha alguns alunos se beijando, conversando, isolados.
Algumas garotas balançavam a cabeça pra ele, e mordiscavam a antena do celular comumente cor de rosa. E alguns garotos ajeitavam a blusa e davam uma piscadela pra mim. O que eu achei totalmente absurdo.
Eu e ele seguimos pela escada adiante, dentro do salão, em que havia uma placa dizendo que ela levaria a um espaço com entrada para o corredor dos aposentos femininos e masculinos.
Sem comentar qualquer coisa, permaneci andando, e ele segurando minhas malas gigantes. Senti um pouco de dó, porque elas estavam realmente pesadas. No topo da escada tinha na nossa frente um espaço grandioso com mais alguns armários, e tinha o nome de cada aluno gravado numa plaquinha prata. Enquanto Josh e eu atravessávamos, atrevi-me ler os nomes... “Jack Rollen”, “Kate Dalk”, “Kathleen Morien”... Nomes bem sofisticados que pareciam pertencer a pessoas ricas, esnobes, e louras. Porque, mesmo eu não tendo nada contra, parecia que todos os metidos, eram loiros.
Depois de passarmos pelos armários neste espaço, viramos à esquerda, que resultava num pequeno hall com uma grande entrada dourado gravada ao lado com “mulheres”.
Pelo visto, imaginei que o segundo andar inteiro era feito de dormitórios femininos e masculinos, e se nós tivéssemos ido pelo outro lado, chegaríamos a um hall gravado com “homens” na entrada.
—Chegamos. – Ele afirmou estacionando as minhas malas no chão, cor bege. – Aqui... –Ele começou, apontando para uma enorme entrada decorada à direita da placa “mulheres”. — É à entrada do corredor dos dormitórios femininos, e... Os homens são proibidos nessa área. –Diz, ele ajeitando seus próprios cabelos, habitual dele. –Pelo outro lado, vocês é que são proibidas. –Ele me alerta, ao que eu encontro as respostas sobre minhas dúvidas. No segundo andar, tinha um corredor que levava à halls de dormitórios masculinos e femininos. Tudo parecia ostentoso demais. Não pude deixar de reparar no lustre gigantesco e mediévico que pairava sobre nossas cabeças. –Depois eu te ajudo a conhecer o colégio, se quiser. – Continuou Josh, interrompendo minhas reflexões e conclusões.
Meu cérebro levou alguns segundos para processar a informação que ele estava me dizendo.
—Sim, claro que quero. – Concordei, balançando a cabeça, finalmente entendendo o que ele dizia e acenando já que aquilo era uma opção muito boa. Era como ter um guia numa viagem turística. – É só entrar aqui... –Digo apontando a entrada de mulheres. — Seguir e achar a porta certa do dormitório?
—É sim. – Concordou ele.
Eu já estava pegando as alças da minha mala cor de rosa gigante, pra entrar temerosa quando senti as mãos frias dele me segurarem pelo ombro.
— Espera Rachel. Eu só queria que você soubesse que, eu, gostaria de ser seu amigo. – Ele falou, sem timidez, olhando, com aqueles olhos dourados, cintilantes, para dentro dos meus, castanhos-violeta.
—Ah, nós já somos amigos. – Joguei simpaticamente ao que ele me compensa com um sorriso perfeito. – Te vejo depois Josh. –Despedi-me feliz, empurrando com esforço minhas malas numa entrada que supostamente originava portas de dormitórios, e sentindo as mãos frias dele desencostarem do meu ombro.
Ele se virou de costas. Fiquei mirando o vulto colocar as mãos no bolso e sair do hall.
Acordei do mundo imaginário. Ficar olhando aquele garoto ir embora era algo tão inútil quando se tinha um novo mundo a explorar.
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