Notas iniciais
O passado de Hannibal

A hora do jantar sempre me deixa um pouco inquieto. E, ao olhar o prato servido na minha frente, me decepciono. Como sem animo, não consigo sentir o gosto da carne de boi. A cada garfada dou dois goles de vinho para, pelo menos, sentir um gosto saboroso nesse jantar. A casa vazia, nenhum barulho, nenhuma sujeira, tudo em seu devido lugar. Ao comer o ultimo pedaço de carne de boi lembrei o meu passado, do gosto verdadeiro de uma carne, da sensação de poder, do sangue escorrendo no meu queixo e o odor que aquela carne deixava no ambiente.

Faz tempo que não como aquela carne suculenta. Faz tempo que não vejo meu porão desarrumado, cheio de papel filme. Faz tempo que não ouso o barulho da serra em contato com o osso. Meu equipamento teve estar empoeirando em cima do armário, só me esperando. Acho que a ultima vez que fiquei satisfeito com meu jantar foi quando vinguei a morte de Mischa. Vingar a morte de minha irmã foi a segunda coisa mais bonita que já fiz na vida. A primeira foi jantar os homens que haviam jantado minha irmã.

Mischa tinha 5 anos quando faleceu. Os gritos de pavor ainda ecoam nos meus ouvidos e na hora não pode fazer nada, mas depois de 12 anos eu finalmente fiz algo. Eu trouxe a justiça aos responsáveis pela morte cruel de Mischa. E, de certa forma, foram os responsáveis pela morte de meus pais. Aqueles homens, nunca vou esquecer os rostos, principalmente, dos rostos de pânico e pavor que sentiam enquanto eu tirava suas vidas. Eram soldados contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial, mas quando a fome e o desespero bateram, agiram como um alucinado nazista colocando uma criança na câmara de gás.

Após minha vingança, me dediquei a terminar a faculdade de medicina e, desde então, como só carne de boi ou porco. Não achei mais nenhum proposito para matar e transforma-lo em jantar. Mas, de uns tempos para cá, uma sede por essa carne vem se aumentando cada vez mais, e, muitas vezes, me pego pensando nisso. Em voltar ativa. Não aguento mais comer carne de boi sem gosto. Preciso achar alguém. Agora, eu como médico formado e trabalhando no melhor hospital de Paris, vai ser fácil escolher alguém.

- Vai ser fácil – suspirei confiante. Deitei-me na cama e, antes de pegar no sono, fiquei lembrando dos detalhes das duas coisas mais bonitas que já fiz na minha vida.