A Origem

11 Capítulo 11 – Lendas da Criação (Parte 1)


Notas iniciais
A primeira parte irá contar sobre a lenda de uma das civilizações mais importantes e mais injustiçada dentre a LT27. Kêndo continua em seus estudos.

Ao ler os mais diversificados livros, Kêndo aprendia novos poderes, conceitos, estratégias e dinâmicas para batalhar desde a telepatia à construção de objetos a partir da imaginação, de campos de energia a mundos paralelos, do controle mais insignificante até a destruição universal. Toda vez que finalizava uma leitura, ia para fora provar seus novos aprendizados dentre as longas árvores ao redor da casa de seu tio e quando este via que era algo em escala mais perigosa, criava um mundo paralelo para o garoto treinar e não cometer tolices no mundo real como na vez em que tentou criar a energia estelar, tipo de poder que só era possível de ser criado com sucesso através do manuseio de uma estrela, algo que o príncipe não tinha, e ao tentar criar, o poder saiu do controle de sua mão e teria capacidade de destruir o planeta inteiro. Felizmente Kindoran estava perto e no momento exato em que a expansão da energia ficou próxima de seu corpo, criou um campo de energia que eliminou aquela potência da realidade.
Kêndo se dedicou, acima de tudo, a ser capaz de usar a aura protetora que sua mãe havia lhe entregado, energia que até então só havia sido atravessada pela flecha dourada de Paradise em forma de ancião arqueiro. Era um poderoso escudo que seria extremamente útil na luta contra seu pai, porém o garoto tinha que entender como seria digno de usá-la. Lembrava-se das palavras de sua mãe: “a aura só será sua quando seu espírito e coração forem majestosos”. “O que são espírito e coração majestosos?” era algo que o garoto se questionava frequentemente enquanto estudava.
Sol e lua disputavam pelo protagonismo de estar no céu e o tempo ia passando. Já se tratava de 1 ano desde os ocorridos e o jovem não havia lido um terço da grande biblioteca, não por falta de esforço, mas porque os livros eram mastodônticos, revezavam entre 2000 a 5000 páginas – os mais curtos. Kêndo não se prendeu a dominar apenas poderes, era curioso como sua mãe um dia foi, queria entender como o universo funcionava, os eventos que aconteceram antes de seu nascimento e principalmente, a origem dos planetas. Infelizmente neste ponto, os livros não podiam ser ditos como totalmente confiáveis pois contavam a origem das civilizações através de poucas evidências factuais e lendas que eram contadas pelos próprios povos. Cabia a Kêndo crer se tais histórias eram reais ou não através de sua interpretação sobre o universo.
Leu por exemplo, a criação do Reino dos Nobres (capítulo 2) onde as lendas contadas pelos seres de lá envolviam o Dragão Celestial: Aragon. Aprendeu sobre a lenda do Grande Glacial que era tido como suprema entidade do Reino do Gelo. Entretanto foram duas lendas que mais o entreteve: A Origem dos Antigos e A Origem dos Heroicos. O príncipe que o diga, nunca com quaisquer outros conhecimentos havia ficado tão concentrado, lia e relia cada livro sobre essas histórias caso não entendesse de primeira. Eram magníficas, esplendorosas, dignas daquele universo, ou este era digno daquelas lendas.

A Origem dos Antigos

Contava-se que no início de tudo havia apenas uma densa escuridão e um ser. Este era Cacique, o deus dos antigos. Se personificava em um ancião que pouco abria seus olhos cansados e inertes de pálpebras inferiores e extensas tal como sua boca, de rosto decrépito e bronzeado, pele marrom, com um longo cocar na cabeça confortável em seu cabelo preto que acompanhava a pouca vestimenta tribal que se tratando de panos verdes que tampavam suas partes íntimas e uma corrente de ossos que encobriam seu pescoço, além das várias tatuagens em seu corpo tão complexas e sublimes que representavam o sentido da vida, do universo e da morte, e principalmente, portava o cachimbo sagrado que estava sempre em sua boca: Lig Van Die Heelal. Possuía uma personalidade tranquila, despreocupada e misteriosa sobre seu próprio poder. Foi Cacique que – segundo a lenda da Antiguidade – criou o universo a partir do longo soprar de fumaça expelida quando tragou o pito formando os diversos astros existentes no espaço e partículas que continham a energia vital Lewe para surgirem seres vivos sob o mundo. No entanto, o índio usou suas próprias mãos para moldar o planeta chamado de Antiguidade e o povo que conteria sua essência e tradição, os Antigos, para apreciarem a grande criação de seu deus. Arrancou um pedaço de sua alma e deu vida a um deus à qual foi nomeado seu irmão, K’Nakara, que teria como destino proteger o globo da civilização do grande índio. Este irmão se encarnava em um humanoide com olhos brancos sem pupila e cabelos longos, com uma argola que adentrava pelo septo de seu nariz negroide, de dedos pontudos e corpo robusto com uma personalidade séria e responsável sobre seu dever com um ar que fazia imaginar o mais fervoroso dos búfalos e com poderes que transcendiam a vida e a morte. E então o criador concretizou o mortal mais importante daquelas terras. Era ele, Kaiso Senshi, alto, de pele clara e corpo não tanto oval, olhos brilhantes, barba de longas épocas e uma única trança em sua cabeça careca, com uma roupa tribal marrom carregando sempre em sua mão direita a impetuosa Lança Primal. O antigo era austero, nobre, justo e generoso, com uma energia raríssima que seria passada para poucos das futuras gerações de antigos: o Mantra. Se trata de uma das fontes de poder com tonalidade vermelho vinho mais impetuosa de todas que, se minimamente dominada, tem a capacidade de destruir galáxias. O homem então tomou suas primeiras ações em vida observando o mundo e, especificamente, o planeta em que foi criado girando seu corpo em 360° graus onde enxergava o belíssimo céu azul, a vivacidade das árvores frutíferas e gramas ao longo de morros e campos extensos, com animais e monstros dos mais diversos espalhados no meio desse ecossistema. Kaiso não sorria, mas foi em suas primeiras horas de existência que sentiu descomunal felicidade dentre aquela paisagem de uma natureza que somente seu criador era capaz de conceber em tamanha grandiosidade. Cacique por fim, deu vida a 6 moços e 6 moças para que o líder cuidasse e direcionasse a educação destes para se multiplicarem na futura e harmoniosa civilização antiga. Senshi estava ciente de seu dever de proteger sua civilização como K’Nakara estava de proteger o planeta de seu irmão.
O poderoso líder dos antigos era como deveria ser para seu deus ancião, todavia o irmão deste último, apesar de admirar a pessoa de Senshi, achava que lhe faltava um sentimento de ingenuidade para ser justo não somente com seu povoado, mas com todos aqueles que necessitassem de ajuda futuramente. Assim, interferiu na personalidade de Senshi lhe dando esta emoção, e diante disso, fez com que Cacique se aborrecesse pela primeira vez em sua eterna presença. O índio o puniu lhe tornando uma entidade, assim, sendo mais vulnerável aos mortais. Tomado por ódio, K’Nakara prometeu que criaria um monstro que destruiria o planeta da Antiguidade e acabaria com o que Cacique mais valorava: sua civilização. Adiante a entidade se refugiou para o lugar mais imperfeito e tenebroso que havia sido criado pela fumaça do cachimbo sagrado: Donker Wêreld, o submundo dos condenados.
Passaram-se dois séculos, Kaiso estava em uma árvore que curiosamente era isolada de todas as outras, tal que tinha galhos finos e geométricos, de flores e folhas brancas tendo apenas a companhia de Senshi e da pedra a qual ele assentava-se apoiado em sua lança, com a cabeça inclinada para baixa e de olhos cerrados. Talvez seu olhar estivesse voltado para a trilha de formigas que carregavam as pétalas brancas caídas, mas seu pensamento e senso do universo que adquiriu com o conhecimento passado pelo próprio Cacique ao longo do tempo estava focado no monstro que se aproximava lentamente a quilômetros de distância. Um quimera branco, bípede, robusto, de chifres pequenos em contraste com suas longas asas forjadas nas trevas, com um rosto que se assemelhava a um urso que tinha uma peculiaridade triangular de ponta virada para baixo da cabeça até o nariz não tampando seus olhos verdes sem pupila, com garras de uma horripilante fera. K’Nakara lhe nomeou como Griterecth, o ser prometido à vingança de exterminar a Antiguidade e os antigos.
Por um momento Kaiso notou uma formiga fora da trilha que no mesmo instante, se realinhou com as outras. Tempo suficiente foi esse para que Griterecth, cruel e tempestuoso, surgisse em curta distância à esquerda do líder, ainda seguindo em linha reta, direção que o faria chegar no vilarejo dos antigos que já eram milhares de tribais com duas gerações à frente sendo preparados para viverem suas vidas; o primeiro antigo não era o alvo, seu povo sim. Eram várias tendas agrupadas na remota planície da região, pequenas plantações em alguns pontos, amplos cercados de animais criados, com algumas crianças de todos os tamanhos correndo aos ventos da liberdade. Antes ao alto, ouviam-se risos infantis, conversas aleatórias entre belas camponesas, ruídos animalescos como o da cigarra, da abelha e provavelmente de um estranho monstrinho dos gramados que nunca mostrou-se para os viventes dali. Entretanto, uma só batida de seu líder com a Lança Primal ao chão foi o suficiente para que os únicos barulhos sucessivamente fossem passos lentos e apressados dos civis se refugiando na maior estrutura do vilarejo, criada exclusivamente para proteger-lhes de uma possível batalha ou guerra; a ocasião mostrava ser impossível não haver a primeira. De Griterecth e Kaiso, não houve sequer uma palavra, mas o antigo ouviu outro ser falar uma única palavra: vá. O monstro disparou uma esférica e colossal energia ao vilarejo e não tardou para que seu adversário chegasse, à ordem de seu deus, para eliminar a energia com uma investida reta de sua lança, transformando o poder disparado em simplesmente pó. Iniciou-se a grande batalha que apenas não se tornou de escala universal porque Senshi controlava seus ataques e os de seu inimigo para não destruir o universo, e assim, Kêndo pôde ler sobre cada movimento e estratégia entre os dois seres. O desfecho houve quando o antigo entendeu que não conseguiria matá-lo mesmo com o poder do Mantra, porém o derrotaria reduzindo-lhe a uma energia que teria de ser presa em um corpo. Kaiso viu que em meio ao caos surgido em consequência da batalha, havia um garoto perdido, que, entretanto, não possuía pais, estes abandonaram ele e o vilarejo, em incongruência era um menino que amava sua terra e povo por ter sido cuidado e criado lá sem ser desprezado. O garoto continha um potencial oculto para aguentar o monstro dentro de si e foi escolhido pelo líder para portar a energia. Seu nome era Wither.
K’Nakara percebeu sua derrota e aceitou o julgamento de Cacique que o reduziu mais uma vez, agora a um espírito que viveria no corpo do pequeno Witcher para que pudesse enxergar a beleza e a alegria do mundo equilibrado criado pelo deus índio, tal lugar que não precisava de mais ou de menos personalidade. Porém a ação anterior do atual espírito sobre Kaiso não podia ser revertida e se tornou claro a ingenuidade nele quando decidiu criar as leis universais, contrariando o índio que lhe avisou sobre graves consequências que aconteceriam ao seu planeta caso fizesse. A oposição do antigo ao aviso de seu deus tornou este último um cético com o destino de sua criação. Dizem que naquele dia, Cacique abandonou a obra que tanto teve orgulho de criar: a Antiguidade. Kaiso Senshi não havia percebido, mas teria decidido o futuro de seu planeta no momento em que criou suas leis...

Notas finais
O próximo capítulo será a parte final sobre o conhecimento que Kêndo adquiriu sobre a origem principalmente de duas das mais importantes civilizações que surgiram neste universo.