A Orig. da Energia - As Crian. do Caos (obsoleta)
13 Os gêmeos
Notas iniciais
– Fico até decepcionada em ter mandado ele... – comentou Geardyne, bufando – Não deu nem pro gasto...
– E então? – disse Cole, em meio a arquejos – Não quer descer aqui e resolver as paradas?
– Gostaria muito, mas tenho uma platéia pra entreter. E sei muito bem que você mal se mantém de pé.
“Droga, ela notou isso?”, pensou Cole.
– Pode sair, antes que me... aborreça... – disse Geardyne, e pontuou a última palavra com uma ameaça que fez o garoto se tremer. Andou calmamente até onde seus amigos estavam, e desabou no chão, cansado demais para se mexer. Logo depois, ouviu-se o ranger de uma das grades do outro lado da arena. De lá, saíram duas figuras: eram muito parecidos, tanto no jeito de vestir como no jeito de andar. Assim que vieram para a luz lunar, viu-se que se tratavam de gêmeos.
Tinham cabelos pretos e muito grandes, espetados como uma vassoura e caindo em parte por suas costas. De pele branca e pálida, quase doente, usavam um tipo de camisa curta e colada preta. O que os diferenciava era na parte inferior, que um usava calça roxa e o outro usava calça vermelha, estas que eram folgadas e quase bufantes, presas na parte dos pés, onde terminavam numa sapatilha de kung-fu preta. Suas expressões eram confiantes e divertidas, como se mal conseguissem esperar pela oportunidade à sua frente.
– Gostou da luta, mano? – disse um deles.
– Gostei mano, e você? – respondeu o outro.
– Foi mais ou menos, mano: o Martin ficou enrolando. Aí perdeu.
– Já viu alguém pra enfrentar? Parecem todos fortes, mano.
– Tô vendo, mano. Ei, eles tem um especialista, mano!
– Mano! Caramba, são oponentes formidáveis.
– E um esgrimista também, mano. Outro oponente bem forte...
– Mas a gente tem que matar eles, mano.
– Tudo bem, mano. Conto contigo.
Mal terminaram a conversa e dispararam numa velocidade absurda. O solavanco levantou uma placa do chão de pedra, com o pé de cada um bem desenhado pela pisada. O ar vibrou com ferocidade, estourando os tímpanos dos desavisados. Bem perto de se engajarem, um virote escuro silvou pelo ar, forçando a parada dos dois: uma parede escura e sombria se elevava entre os irmãos e o esgrimista.
Um deles saltou em direção ao especialista, indo mais rápido ainda, enquanto o outro ficou parado com as mãos no chão. O de calça roxa entrou com um chute, que Daniel não conseguiu bloquear totalmente, sendo jogado instantaneamente para trás e batendo com força na parede. Do nada, ouviu-se uma explosão e um clarão jogou o corpo de Lúcio para cima, que tentava se estabilizar no ar. O irmão de calça vermelha tirou as mãos do chão e chegou instantaneamente no ar onde o batedor estava, segurando o pé dele e atirando-o no chão.
– Ah, mano. Foi muito rápido – disse o de calça vermelha.
– Eles decepcionaram, mano – respondeu o de calça roxa.
– Me pergunto quem são vocês dois – disse uma voz jovem, mas sombria.
Viraram o olhar para a direção, constatando que Daniel estava de pé. Apesar de ter sofrido cortes e arranhões pelo corpo, eles eram superficiais, e nesse momento estava limpando poeira de sua besta. Assim que ele a guardou, os dois viram Lúcio surgir da escura presença dele, estalando o pescoço e os encarando com intensidade.
– Oh, mano!!! – gritou o vermelho, claramente empolgado – Eles são fortes mesmo!
– É, mano!!! – dizia o roxo, compartilhando do sentimento – Vamos nos divertir!
Eles se viraram para os dois e suas expressões divertidas mudaram num instante para antecipação de batalha. Foi aí que num movimento sincronizado, eles se curvaram muito baixo, numa reverência, aos dois.
– Eu sou Inil – disse o de calça vermelha.
– E eu sou Kudric – disse o de calça roxa, e ambos então levantaram.
– Soldado da cidade de Califa, Daniel.
– Soldado da cidade de Cião, Lúcio.
Após as apresentações, as duas duplas se encararam. A tensão era palpável, com o menor movimento sendo captado pelos olhos treinados dos soldados. E em um instante tudo se tornou um borrão, quando todo o combate começava em altíssima velocidade.
Numa jogada de braço, Daniel disparou quatro virotes em sucessão, sendo um físico e os outros de Energia negra. Inil saltou para desviar enquanto Kudric se abaixou, mas ainda avançando. No ar, o irmão foi vítima do ataque de Lúcio, que havia sumido do campo de visão deles e reaparecido atrás dele. Segurando-o, executou um pilão giratório de alto impacto, levantando poeira. Kudric havia atacado o especialista com um soco ascendente, mas Daniel executou um contra-ataque direto, socando com precisão e arremessando o homem para trás.
Com o troco dado, Daniel mencionou algo rápido para Lúcio, que confirmou com a cabeça. Sacou o florete largo da cintura e executou alguns cortes no ar para reajustar-se ao peso. Com a postura acertada, segurando a arma apontada para cima enquanto mantinha a mão livre nas costas, Lúcio parecia uma pessoa diferente daquela que enfrentara o Lendário, e os irmãos estavam prestes a descobrir.
Investiu rapidamente e estocou em direção à Inil, deixando um rastro de calor. O irmão, Kudric, atirou uma pedra no caminho do ataque, e a rocha se despedaçou. Com os cacos e poeira a obscurecer a visão, Lúcio efetuou dois cortes na fumaça e recuou, quando escutou um grito.
– Lapis Crepitus!– Inil ressurgira no ar, com os braços levantados como se tivesse tentando levantar muito peso de uma vez. Instantaneamente, todo o chão da arena tremeu e começou a se separar em crateras, subindo e descendo. Era como se o solo estivesse borbulhando, o que tornava difícil para manter-se de pé. Os espectadores tropeçavam e caíam, mas Geardyne não se importava. Achava interessante toda a comoção que os gêmeos provocavam.
Desequilibrado, Daniel recebeu um golpe esmagador no lado do corpo e Lúcio no rosto. Kudric tinha o olhar ensandecido de prazer, o punho fumegando levemente. Estalando o pescoço, Daniel guardou a besta e deslizou sua lâmina de braço para fora, sendo envolvida em pequenos ossos humanos, formando uma serra. Com um giro rápido, cortou Kudric quando veio lhe atacar de novo, largando uma boa quantidade de sangue no chão.
– Ha ha! Essa eu senti... — comentou Kudric.
– Que tal essa? — surgiu a voz de Lúcio, perfurando e transfixando bem no meio do peito dele. Aturdido, Kudric apenas gesticulou indignado. Como era de esperar, Inil foi em auxílio ao irmão, liberando chamas num tornado entre eles. Só se via a silhueta em meio ao furacão de fogo, e que Kudric se desvencilhava da ajuda oferecida. Num instante ele cobriu a distância até Lúcio, mas Daniel esperava por algo assim:
– Ossum Carcer!– uma rede de ossos humanos emergiu do solo revirado, bloqueando o inimigo. No mesmo momento, Lúcio tocou nas grades e murmurou: Calor Unda...", conjurando uma onda de calor violenta, usando a parede como foco. O barulho de calor era audível, e as ondas escaldantes voejavam por dentro da prisão. Escutou-se os gritos de Kudric com clareza. Inil achou estranho e por isso não tardou a tentar esmagar os ossos quentes, com os punhos. Ao abrir, viu que o irmão estava todo chamuscado, e muito quente. Sem misericórdia, Daniel apareceu pelo vapor e estocou com a lâmina de braço, errando por pouco. Pela primeira vez, desde que a batalha começara, eles sentiram medo.
De início, era divertido ver aquelas duas pessoas que pareciam Sensitivos comuns se debaterem, mas gradualmente viam uma luz estranha nos olhos, como se ainda tivessem Energia para lutar, não importa a situação. Nesse momento, Inil levou o irmão para longe e executou movimentos estranhos com os braços, como se concentrasse algo neles. Gradualmente, a Energia ficava visível, o que Daniel e Lúcio sabiam que não era boa notícia. Tentaram avançar nele, mas então ele pronunciou as palavras que ecoaram como definitivas.
– Libero Damnum...– um dos punhos girou na direção do especialista, que não conseguiu desviar, e o outro, independentemente, perseguiu o esgrimista. O impacto no contato os jogou para longe num estrondo sonoro que rasgou o solo e parte da platéia. O pescoço dos dois caíram inertes, os corpos incrustados à parede.
Todos estavam em silêncio, chocados demais com o resultado. A platéia então irrompeu em vivas, sedenta pelo sangue que corria por toda a arena. Vergil, Cole e Tyler estavam atônitos, mas ao ver as expressões de Lillian e John, passaram à estranheza. Os dois observavam com preocupação, mas não como se a batalha tivesse terminado. Como se acompanhassem a velocidade do pensamento dos três, ao visualizar novamente os dois soldados, sentiram sua Energia aumentar. Foi aí que Daniel começou a se mexer e pouco depois Lúcio, a Energia começando a transbordar de seus corpos, emergindo e refulgindo, se revolvendo como se estivesse debaixo d'água e então explodindo no fluido do Primeiro Nível. Daniel estava envolvo num fluido de cor preta ligeiramente arroxeado, dando-lhe uma aparência etérea, e Lúcio estava com um de cor azul-clara, que chamejava a seu redor. Os olhares de ambos estavam sombrios, como se ainda estivesse inconscientes apesar de se mexerem, mas aí sumiram, tamanha a rapidez demonstrada ao socarem cada um os irmãos, lançando-os para o outro lado da arena e batendo na parede. Com outro vulto, eles surgiram defronte e os gritos se misturaram:
– Osssum Vipera!
– Incendium!
Um tornado de calor visível emergiu dos braços cruzados de Lúcio, o mantendo no ar com a potência do ataque, enquanto uma cobra do tamanho de uma sucuri feita de inúmeros ossos finos, mas resistentes trafegava em alta velocidade pelo meio, de bocarra aberta e deslocada, parecendo ainda maior. Se antes havia muita poeira elevada, paredes rachadas e partes da arquibancada destruídas, agora, depois da alta explosão que dispersou ossos e pedras derretidas, não havia mais nada a não ser uma cratera que abriu boa parte da arena, mas ainda não revelando o que se passava fora das paredes.
Lúcio apareceu em meio à constante poeira, de florete sacado, mas sem o fluido de Energia. Ainda sangrava e parecia que tinha quebrado alguma costela, mas estava de pé, com um olho fixo no local onde estavam os gêmeos. Daniel estava ajoelhado logo atrás dele, de mão na besta, preparado para disparar o virote. Não parecia estar muito melhor que o amigo, com sangue a empapar o cabelo e as roupas. Passaram vários minutos em que nada aconteceu, a poeira sumindo. E então revelou os dois gêmeos, de corpos ainda inteiros, mas altamente lacerados e queimados, com o peito arfando em busca de ar puro.
– Esses idiotas... — rangeu Geardyne, a voz quase incontrolável de raiva — Não devia ter-los chamado.
"A arena está sem condições de comportar mais alguma coisa. Esperem um momento..."
Com um aceno de cabeça, fechar de olhos e abrir de braços, Geardyne liberou Energia, que fora num volume tão grande que os garotos se questionaram se era mesmo possível. Pouco a pouco, as paredes quebradas foram se reconstruindo, os buracos no solo foram preenchidos, e as arquibancadas consertadas. Com o número menor de pessoas que assistiam, a arena ficara um pouco mais vaga, o que deixava mais impressionante a dimensão que tudo acontecia ali.
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