A Orig. da Energia - As Crian. do Caos (obsoleta)
3 Descoberta pessoal
Notas iniciais
Deu um salto da cadeira e ficou de pé em uma das carteiras em postura de combate. Olhou para os lados, e viu que os outros três estavam também em posição, mas não avançavam. Cole e Tyler ficaram confusos, mas Lillian tratou de acalmar os ânimos.
– Pare com isso, não viemos aqui lhe atacar. Viemos pedir sua ajuda.
Com o coração na boca, pronto para proferir as palavras de aceleração, mal conseguiu responder direito.
– P-Por que minha ajuda? Nós estamos no Universo, não é?
– Se acalme, vou explicar o que aconteceu.
“Muita coisa se desenrolou em Ryokun depois que Alucard fora morto. A notícia não demorou a se alastrar, o que provocou uma disputa da resistência com a Mão do Monarca sobrevivente. Sendo derrotados após uma incrível luta, os sobreviventes foram banidos para a Grande Anêmona. A resistência rebelde, comandada por Alator Straga, tomou o governo e tentou fazer um reino popular. Infelizmente, não deu certo, pois as cidades eram muito descentralizadas, e apenas Alucard tinha o poder para controlar tudo. O sistema ruiu e os vários grandes polos viraram assentamentos independentes.”
– Uau... – admirou-se Vergil. Cole estava surpreso também. Apenas Tyler ainda estava confuso, mas não fez menção nenhuma de interromper.
– Por um ano, voltou-se a paz no continente. Mas foi interrompida quando se soube que a linhagem Dorman ainda estava viva. Imediatamente, todos os caçadores disponíveis foram atrás dos filhos de Alucard, para eliminar tudo que remetia àquele governo decrépito de vez, pilhando casas e vilas com o propósito de conseguir recursos para si.
“No entanto, Jim, que estava no comando dos discípulos do Círculo da Batalha, não concordou com isso, mas estava mais preocupado com o rasgo dimensional formado pelo transporte que Erwin fez com vocês: aparentemente o homem idoso não tinha feito todas as precauções, e morreu pouco tempo depois, deixando o portal aberto. De início, achávamos que ele funcionava direto, mas foi logo descoberto que reagia com algo de Ryokun e desse mundo ao mesmo tempo.”
– Mas Jim não treinava novos recrutas, não é? – disse Cole, pondo a mão no queixo.
– Ele é um tremendo bobão. Deixou isso tudo para mim. – bufou Lillian, mas não estava realmente com raiva. Mencionava o nome dele com certa ternura. – Enfim, foi através desse portal que eu e minha divisão fomos parar aqui. Suspeitamos que os filhos de Alucard tenham chegado aqui, no Universo.
– O país é muito grande e o mundo nem se fala! Como vamos encontrá-los? – exclamou Vergil, quase se levantando.
– Não sei ainda, mas sei de uma coisa: eles vão atrás de você.
– Como aquela que apareceu na minha frente a alguns dias atrás? Segurando um carro com a mão?
– Exatamente.
Vergil confirmou com a cabeça. Era muita coisa para absorver de imediato, mas tinha certeza que iria procurá-los. Não podia ser ameaçado assim e deixar barato. Como Cole disse, iria ver a história a fundo e o porquê dela.
– Mas me diga: de que ajuda serei se os filhos de Alucard me matarem? Eu não consigo fazer nada do que fazia em Ryokun, e nenhum de meus amigos também.
– Até que você seja treinado no uso da Energia daqui, que felizmente conseguimos decifrar, você terá a guarda de um dos nossos. Cole ficará com outro e Tyler com dois. Eu estarei procurando sinais que mostrem onde eles estão.
– Certo. – disse Vergil, e após pensar um pouco, perguntou novamente – Por que apenas eu e Cole fomos chamados para cá? Por que não os outros também, e por que Tyler e Niéle estão aqui?
– Vocês foram convocados porque conseguiram ver através da ilusão do parceiro dela. Niéle é de minha divisão e Tyler se tornou um Sensitivo recentemente.
– Eu me tornei? – perguntou o garoto, confuso.
– Sim, assim como eles dois, que mantiveram suas aptidões. Agora... – continuou Lillian, vendo que a hora não permitia segurar os alunos por mais tempo – Vou indicar os pares: Niéle insistiu em ser sua guarda, Vergil.
Ele olhou para trás. A menina acenou e deu um sorriso mostrando os dentes e escondendo os olhos, acentuando suas bochechas. Queria entender mesmo o motivo dela estar tão interessada em si, mas não questionou. Só estava preocupado com o desenrolar dos eventos. Tinha certeza que a mulher que lhe atacou era filha de Alucard. E só pela pequena amostra de poder, parecia ser tão poderosa quanto o pai. Talvez até mais. Soube logo depois que os três restantes eram Daniel, John e Lúcio, os três soldados sobre o comando da Solar (Lillian) que se juntaram ao grupo deles quando fizeram uma expedição à Lua Crescente, uma ilha exótica e perigosa de Ryokun. Daniel, o rapaz sombrio que estava no canto, ficou como guarda de Cole. John e Lúcio ficaram com Tyler. Mesmo vendo o grande porte físico do rapaz, Vergil ficou preocupado com ele, que não tinha nada haver com a história e agora estava envolvido até o pescoço. No dia seguinte, iriam iniciar o treinamento após as aulas, com a máscara que era classe suplementar de Física. Mas ainda estava pendente a questão da alteração das Profecias, cujo sujeito não fora mais mencionado.
Chegou em casa absorto nos pensamentos, se perguntando sobre o porquê de haver esses acontecimentos. Mas também um pouco animado por saber que existia uma maneira de usar a Energia novamente. Seu próximo dia seria cheio, e mal podia esperar.
No intervalo, seus amigos vieram conversar. Já sabiam da história, por isso não estranharam Niéle e Daniel se juntarem ao grupo, e agora tentavam procurar alguma solução.
– Eu ainda acho que é só ela – disse Kenneth.
– Não é, Kenneth. Lembra do que Vergil disse? “Os filhos de Alucard”, no plural.
– Mas se em dois anos só apareceu uma, hein? – retrucou Kenneth.
– Ainda acho que é bom ficar atento.
– Não se preocupem! – disse Niéle, estufando o peito, o que o tornou maior ainda – Eu vou protegê-lo.
– Por que não se revelou antes, então? – rebateu Suzan, um pouco desconfiada. Ela e Claire eram as únicas que não confiavam nela.
– Lillian ainda é um pouco resentida...
– Quando nos convocaram novamente, vocês não estavam em canto algum – disse Daniel, a voz quase surgindo do nada. – Ela precisava ter a certeza que ele não recuaria. Aí depois de enfrentá-la, foi decidido.
– Uma estratégia perigosa... Eu podia ter morrido – comentou Vergil.
– E isso prova que você é muito mais do que aparenta – disse Kenneth, dando um forte tapa nas costas dele – Dá-lhe, cabeludo!
Todos riram do comentário. Estar entre amigos o fazia se sentir bem, e esquecer dos problemas. E pensar que estava preocupado com o vestibular e o curso superior que iria fazer. Somou-se agora pessoas buscando vingança: um ótimo estímulo. Felizmente não estava sozinho nessa empreitada.
O dia avançou até a última aula, onde iria começar a usar Energia. Vergil, Cole e Tyler estava na sala de esportes do colégio: um grande espaço plano, formado por duas quadras de esportes lado a lado, arquibancadas de tijolo revestido e pintado de cinza, e um canteiro lateral para tráfego de pessoas. Do lado oposto que vieram, Lillian apareceu na porta, trajando uma armadura de escamas metálicas e sua confiável espada-seta, formada por uma lâmina longa de espada ocidental reta, com uma calha central para leveza sem perda de potência e a empunhadura soldada e enrolada com tiras de couro para contato com a mão. No final do punho, uma ponta de flecha exagerada repousava, e ele se lembrava que havia uma corrente fina e resistente ligada à ponta. Daniel, John, Lúcio e Niéle apareceram poucos segundos depois carregando algumas mesas de roda com algo pesado em cima, coberto com um pano branco.
– Olá a todos – discursou Lillian – Pelos próximos meses, iremos treiná-los para serem Sensitivos desse mundo novo, o Universo.
– Estamos prontos – apressou Cole, ansioso pelo começo.
– Tudo a seu tempo, garoto. Tudo a seu tempo.
“Primeiramente, iremos ver em que nível estão. Como vocês sabem, o Sensitivo é uma pessoa capaz de manipular Energia. A Energia é a base de tudo no mundo, e eles a usam para fazer atos incríveis. Todas as pessoas são capazes de usá-la, mas apenas os Sensitivos a conduzem e convertem de modo a executar feitos extraordinários como resistir danos físicos mortais, destruir blocos de pedra com as mãos e etc. Portanto, para definir seu nível de maestria, quero que vocês sintam o fluxo ao redor. Percebam todo o ambiente e sua Energia...”
– Mas como irei perceber isso, professora? – perguntou Tyler, sem entender muito.
– Sinta o vento, por exemplo. Sinta a corrente que passa por entre os dedos... Acompanhe sua respiração à velocidade do ar. Feche os olhos para aprimorar sua percepção. Escute e note as partículas de Energia com seu corpo...
Para Vergil, essa fora a parte fácil. Sempre que meditava na aula de arte marcial, sentia esse fluxo, mas não sabia o que era, apesar de se sentir completo ao fazê-lo. Assim que abriu os olhos, notou Tyler com dificuldades, lutando para ter a sensação. Cole estava indo bem, conseguindo manter fluidez com as correntes de ar que passavam pelo ginásio. Sabia disso, pois conseguia ver vários pontos luminosos permeando o ambiente, ligados por finas linhas amareladas por todos os lados e se conectando a ele. Estranhou, pois mesmo antes, em Ryokun, não conseguia ver isso e mesmo antes de iniciar esse treinamento, após a meditação, não via nada. Procurou bem ao redor, vendo que as linhas apontavam sempre para algum ponto que usasse Energia, não importando a natureza: viu várias acompanhando os cabos de força das luzes acima deles, outros próximos ao chão, como que procurando tubulações de água. Viu quantidades bem grandes em volta de Cole e Tyler, bem como Daniel e John. Lúcio e Lillian tinham um pouco menos, mas a que mais chamou sua atenção foi Niéle, que parecia um farol costeiro em meio à lanternas de acampamento. Quando piscou para ver melhor, toda essa ligação sumiu, não revelando mais nada. Frustrado, pois queria ver como estava nessa rede, apenas esperou os dois confirmarem estar prontos para o próximo passo.
– Assim, com isso, vocês poderão agora acessar a Energia de dentro de vocês, para executar as três disciplinas: Alteração, Fundação e Percepção. Vamos testar cada uma para focar seu treinamento. Lúcio, Daniel, me ajudem aqui.
O rapaz sombrio e o planejador caminharam até os três, que observaram com interesse. Daniel estava trajado com um sobretudo preto e capuz, com uma lâmina por cima do braço direito brotando da manga. Lúcio usava uma roupa simples, composta de uma camisa preta de mangas curtas e uma calça jeans simples. Um coturno marrom completava a visão do garoto que parecia um recruta mirim. Um florete longo, firme e de empunhadura larga estava pendendo de seu lado esquerdo, com um pequeno escudo redondo e metálico nas costas. Não fossem as armas e a bota, ele poderia se passar facilmente por um civil.
– Lúcio, pode começar.
O menino andou um passo à frente e esticou os braços. De primeiro instante, não ocorrera nada, mas depois eles sentiram uma mudança no ar, como se estivesse esperando algo.
– Quero agora que me digam onde está minha Energia... – disse com uma voz densa e um pouco grave, mantendo a postura. Lillian deu um passo e acertou-lhe um cascudo com a mão de armadura, o que produziu um som seco.
– Mostre como é que se faz para usar a Percepção, seu tolo!
– S-sim, mestra. Desculpe-me por isso.
“Para a forma mais simples de Percepção, você deve concentrar parte de sua Energia nos pontos de percepção do mundo, que são os olhos, ouvidos e pele. Assim, você consegue incrementar os sentidos e se focar no abdômen, pode detectar outros Sensitivos à distância. A língua e o nariz também são pontos de percepção, mas para luta não é usada, a menos que você queira provar o ar como uma serpente ou notar odores diferentes. Apesar de não existirem muitos de Percepção, é uma das disciplinas mais importantes para sobrevivência, já que pode evitar o perigo antes que chegue. Agora, quero que foquem nos olhos e digam onde está a minha Energia.”
Vergil se concentrou, e pelo canto do olho percebeu seus amigos também fazendo o mesmo. Tranquilo consigo mesmo, encontrou o centro de Energia de seu corpo, no abdômen. De lá, conduziu a corrente até suas órbitas, sentindo-as preenchidas com poder. Era uma sensação estranha, parecia que havia lavado o olho com água, mas sem o ardor conhecido. Abriu os olhos e conseguiu distinguir as mesmas linhas amarelas ligadas pelos pontos, a grande rede de Energia do universo. Fora isso, conseguia também ver com perfeição. Claro, tinha boa visão, mas as coisas que ele via nítidas estavam mais delineadas e sem perda de detalhes pela distância.
Foi aí que notou um ponto crepitando como fogo, muito discreto no topo do ginásio, que não parecia fazer parte do conjunto. Era do tamanho de uma bola de tênis, e ele notava uma linha de Energia partindo de lá até Lúcio, ligando os dois e evidenciando mais ainda a conexão.
– Tem um ponto seu ali, Lúcio. – disse Vergil, apontando para cima.
– Bom, mas haviam três mais próximos. Aquele ali foi um dos primeiros residuais que deixei. Sua Percepção é muito boa, não lembrava de ser assim antes em Ryokun. – respondeu Lúcio e ao encarar o garoto, disse – O que é isso no seu olho?
Lillian e Daniel voltaram seu olhar para o que era de estranho: nos olhos de Vergil não se via a conhecida íris castanho-escura, mas uma de cor azul-escura, quase de textura metálica. Sua pupila estava totalmente branca e ocasionalmente eles viam um lampejo vermelho passar por todo o olho.
– Tem algo de errado? – perguntou Vergil, temeroso.
– Não, nada – disse Lillian, tranquilizando-o – É apenas uma reação à passagem de Energia. Algumas pessoas experimentam mudanças no corpo ao usá-la. Você não se lembra de Suzan?
– Verdade... – disse, recordando quando Suzan utilizava a Flamma Anima, a alma do fogo, que se tornava um vulcão em forma humana, com pele rachada e exibindo um brilho vermelho de lá, olhos que liberavam chamas ao piscar e a capacidade de incendiar ao toque.
Cole e Tyler tiveram bastante dificuldades nessa parte, conseguindo ver os três pontos crepitantes à frente dele, mas não identificando nenhum outro. Com isso, Niéle anotou algo numa prancheta e John começou a caminhar em direção à mulher de armadura.
– Agora, veremos sua Fundação. John e eu iremos ajudá-los nessa parte. – disse Lillian, se postando à frente do grupo.
Os três fizeram que sim com a cabeça, visivelmente ansiosos. Falando seriamente como estava, eles finalmente veriam do que eram capazes os Sensitivos (apesar de Cole e Vergil já saberem) nesse mundo. Ser capaz de saltar mais que um ginasta olímpico, atacar mais forte que um boxeador peso-pesado e resistir a mais dano que um tanque de guerra: não era de se admirar que fosse instigar jovens que queria fazer tudo isso e mais.
“Para a Fundação, vocês irão fazer a mesma coisa que fizeram para a Percepção. Irão conduzir sua Energia até todo o corpo igualmente, o seu ponto focal. Daí, vocês irão atacar esse alvo para determinarmos a força.”
John pôs a ponta de uma corda no chão. Os garotos sentiram a Energia partir dela e percorrer o chão. Do nada, areia começou a se juntar ao redor em um pequeno ciclone. Essa areia se aglomerou, até ficar circulando num disco de ar vertical de um metro de diâmetro. O garoto, apesar de estar observando os alunos, se mantinha concentrado na tarefa.
– Primeiro você, Vergil, já que tem mais experiência.
Um pouco nervoso, o menino deu um passo à frente. Lembrou-se da sensação que era manter eletricidade nos punhos e pés. Dessa vez, ele sentiu como se as extremidades ficassem subitamente mais densas, como se a pele e os tendões fossem osso puro, somados à estrutura calcificada de seu corpo. Preparou a postura e chutou com velocidade. O disco perdeu força de giro, dispersando areia, mas manteve a forma. Um pouco frustrado, recuou e esperou os outros fazerem o mesmo.
John refez o alvo e indicou para Cole. O garoto socou, mas não obteve mais sucesso que Vergil, recuando um pouco desconcertado. Já Tyler foi uma surpresa: ao esperar John retornar o aglomerado à força que deveria, Tyler fez um buraco que destroçou a estrutura do disco, se desfazendo logo depois. Lillian deixou escapar um sorriso e John não escondeu a cara de surpresa. Mas o mais atônito com isso era o próprio Tyler, que olhou para o punho, que não havia sofrido nada. Vergil e Cole se surpreenderam, imaginando que ele se sairia bem em Fundação, mas não tanto. Com isso, eles viram surgir a silhueta sombria de Daniel por trás da aura radiante de Niéle, que anotava algo. Lillian se encaminhou para o lado e deixou os dois demonstrarem o teste.
– Agora para a Alteração, que é a disciplina de manifestar a Energia longe do corpo – disse Daniel, e com uma das mãos, apontou para o outro lado do ginásio. – Vocês irão para lá comigo e Niéle vai para o outro lado, proteger a parede.
– Por que proteger a parede? – perguntou Tyler.
– Porque iremos tentar destruí-la. – respondeu com um sorriso maldoso.
Se recostaram ao final do ginásio. Havia pelo menos 30 metros de distância até o outro lado, mas não sabiam dizer o exato. O que mais os intrigava era o jeito que iriam fazer o estrago. Viram a menina do outro lado tocar na parede e a mesma se revestir em chamas alaranjadas que lambiam o ar. Estranharam o fato de proteger uma parede com fogo, mas não questionaram.
– Ok, agora vocês irão fazer o seguinte: foquem Energia num ponto além da mão. Não precisa ser muito perto, mas não façam distante demais, senão vão acabar cansados para a próxima parte. Daí, apenas deem o comando mental de disparar, que irá lançar o projétil criado até a parede.
Os três assentiram. Já familiarizado, Vergil levantou o braço e manteve a palma da mão firme, convocando Energia para logo à frente dele. Uma esfera vermelha que estalava ocasionalmente, do tamanho de uma bola de handebol foi se formando. Do tamanho certo, ele apenas pensou em lançar até o outro lado do ginásio. O simples ato foi o suficiente para enviar aquele projétil a toda velocidade pelo ar e atingido a parede com um solavanco. As chamas que haviam sumido subitamente do local, voltaram a aparecer. Nesse pequeno instante, Niéle do outro lado anotou algo na prancheta e mandou o sinal para o próximo. Tyler tentou, mas sua esfera pulsante roxa de metade do tamanho da de Vergil não chegou a deslocar chama alguma de lugar. Desapontado, deixou sua vez para Cole, que com uma esfera mais ou menos do mesmo tamanho de uma bola de futebol, enviou-a para a parede, que dispersou bastante fogo de lugar, quase rachando-a no processo. Finalizando os testes, Lillian pegou a prancheta e disse para os garotos.
– Agora que tenho os resultados, irei preparar o melhor regime de treinamento. Até a próxima.
– Ok! – disseram os três.
Assim se transcorreram três meses. A professora havia focado o treinamento na disciplina que cada um tinha mais afinidade, exceto Vergil, que havia mostrado aptidão quase igual em todas as três. Lillian estranhou o fato, já que era a primeira vez que isso acontecia. E o próprio garoto constatava que antes de retornar ao mundo normal, ele era focado em Alteração. Mas sem reclamar, aguentou o regime de prática da Energia em cada uma das disciplinas, associado ao aumento de capacidades físicas de cada um, tornando-se rotina. Embora não tivessem a mesma magnitude do que eram capazes em Ryokun, já sentiam que eram pessoas excepcionais, capazes por exemplo de quebrar uma coluna de concreto com um soco concentrado.
Nesse meio-tempo também não houveram novos ataques, mas nunca deixaram de estar alertas. Seus amigos que não participavam do treino estavam transcorrendo suas vidas normalmente, assim como o resto dos estudantes e professores.
Quando terminaram o treinamento, no vigésimo quinto dia do terceiro mês, Cole teve um mal-estar, se ajoelhando.
– O que foi, cara? – preocupou-se Vergil.
– N-não sei – respondeu Cole, com a voz um pouco falha – Parece que congelaram meu sangue, mas meus músculos estão em ebulição.
Lillian se apressou a eles, e sentiu o pulso do garoto. Vendo que não estava errado, tocou no ombro dele, sentindo sua Energia. Apesar de não ter uma ótima Percepção, ela era capaz de interpretar as variações de Energia do indivíduo como ninguém, o que lhe garantiu a posição como instrutora na cidade de Osmos. Com um leve sorriso, disse firmemente.
– Crie uma esfera de Energia.
– O que?
– Use a Energia. A sensação vai passar assim que o fizer.
Sem entender muito, Cole abriu a palma da mão e a deixou em forma de garra. Fechou os olhos e se concentrou em manter Energia nela. Subitamente, a sensação sumiu, e em sua mão não se encontrava a esperada esfera, mas sim uma massa um pouco disforme de água, se revolvendo em pequenas ondas, como um mini planeta Terra feito somente de oceanos. Ele contemplou o trabalho admirado, vendo a massa se contorcer e girar, nunca mantendo a mesma forma.
– Está aí o motivo de ter acontecido aquilo com você: sua Energia está desenvolvida de forma que pôde suportar a criação de um elemento da natureza. Você ascendeu de categoria, Cole.
O garoto, ao escutar aquilo, encheu o peito de orgulho. Satisfeito consigo mesmo, assim que terminou o treino, saiu com passos confiantes. Estranhara ter o controle sobre a água e não sobre o vento, mas nem por isso deixou de gostar. Dois dias mais tarde, vira uma coisa parecida acontecer com Tyler, tendo a sensação que tinha aumentado o peso muitas vezes, e ao fazer a esfera de Energia, permanecia roxa, mas atraía qualquer coisa que chegasse perto. Mas o mais preocupante de tudo era Vergil: o garoto tinha maior afinidade que os dois, aprendia as coisas mais rápido e desenvolvia as habilidades na Energia com maior destreza, mas não havia manifestado nenhum sintoma estranho com relação à isso. Resolveu ficar de olho para caso pudesse ajudar e disse o mesmo para Tyler.
As mesas pesadas com os panos cobertos que haviam visto durante todo o período de treino nada mais eram que um conjunto de armas, dos mais variados tipos, que também fora ensinados aos garotos sua manipulação e propriedades de cada uma. Haviam espadas retas europeias, kukris africanas, chu-ko-nus chineses, katanas japonesas e etc. Tudo isso para preparar para os perigos por vir, o que sentiam que não tardaria a chegar.
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