A Ordem de Drugstrein
45 Batalha de Garyjan - Parte 4
Notas iniciais
Capítulo 044
Batalha de Garyjan (Parte 4)
Aghata disparou um raio elétrico apenas por reflexo e conseguiu atingir um dos trolls com grande perícia. Este foi arremessado para trás, tendo o corpo coberto em queimaduras.
Nesse mesmo tempo, Gorgar reagiu instintivamente e cercou a si mesmo e a outra mestra em suas chamas negras. Dois dos cinco trolls foram feridos e se afastaram ao mesmo tempo que o terceiro era atingido pela baixinha de cabelos escuros.
Um deles, porém, conseguiu abrir a defesa ofensiva do mago negro utilizando uma parte de uma das casas que eles haviam destruído há pouco. Aghata, que estava concentrada em atacar uma das criaturas cinzentas, percebeu tarde demais a aproximação desta e só conseguiu conjurar uma barreira no último instante. O escudo ficou fraco e não aguentou o impacto, quebrando-se. A seguir, o enorme punho do troll foi novamente dirigido contra a mestra.
Um tremor de terra de enormes proporções foi sentido pelo casal de mestres. A terra se levantou ao seu redor e, em seguida, dirigiu-se contra todos os inimigos, formando quatro grandes ondas cheias de pedras.
Os trolls tiveram de recuar e se reagrupar. Um deles foi soterrado e provavelmente não sobreviveu ao duro golpe. Os outros quatro se mantiveram firmes enquanto seu poder de regeneração devolvia-lhes a capacidade total para o combate.
— Todos bem? – perguntou Jonathan enquanto aproximava-se dos dois. Estava acompanhado de Nicolas.
— Humph.
Gorgar demonstrou sua habitual “simpatia”.
— Obrigada, Jony, ainda bem que você apareceu para nos ajudar.
— Como eu não faria isso para minha antiga companheira de equipe? Mesmo que isso já faça sete longos anos.
— Eles estão vindo. Depois vocês conversam e trocam suas carícias – Gorgar, com seu sarcasmo.
Ignorando os comentários do outro mestre, Aghata conjurou uma tempestade de raios para ferir todos os trolls ao mesmo tempo. O poder de ataque não era suficiente para derrubá-los, mas conseguia atrasar-lhes o suficiente para que todos se reorganizassem.
— Nicolas, vá até o Mark e dê-lhe cobertura. Acho que ele não vai acordar tão cedo e mais alguns trolls vão se aproximar quando eu despachar os soldados daqui – Jonathan começou a distribuir as ordens.
— Despachar os soldados?
Aghata perguntou enquanto desfazia as nuvens carregadas e unia as duas mãos em um poderoso tangrea. Agora ela podia atacar apenas um inimigo que os outros dois mestres cuidariam dos demais.
— Sim, vamos nos retirar da batalha em breve. Apenas precisamos ganhar tempo até que os aldeões sejam retirados daqui.
O mestre respondeu quase que ao mesmo tempo que atacava. Três enormes golens surgiram, apesar do tamanho deles ser equivalente aos trolls, sua força e resistência era inferior, então seria necessário os três para combater apenas um inimigo.
— Não fugimos de nossas batalhas – disse Gorgar em um tom ríspido enquanto combatia os outros dois adversários com suas chamas negras.
— Spaak foi atrás de Kayan e Guin, que se dirigiram até os taurinos shamans que estavam lançando os meteoros. Ele disse que não havia chance de vencermos e concordo com ele. Tem mais trolls vindo pra cá e alguns deles já alcançaram o centro da cidade.
— Droga! – uma pausa para lançar um novo feitiço. – Não queria ter de abandonar essa cidade – afirmou Aghata
— Mas é preciso.
A seguir, Jonathan desfez os três golens que tinham acabado de derrubar e exterminar um dos trolls e correu até o duque de Garyjan, avisando-o para que ordenasse para suas tropas organizarem a retirada conforme fora previamente arquitetada. Após isso, pediu para que Anita e Nathie abandonassem os inimigos por conta dele e ajudassem Nicolas.
— Aghata, Gorgar, cuidem desses outros três trolls e mantenham as coisas por aqui. Irei avisar as equipes do Karion e da Alice para se prepararem para uma retirada.
Ambos concordaram – Gorgar de mau grado – e investiram contra os últimos dois inimigos que restavam para esperar pelos demais que se aproximavam.
* * *
As ruas revestidas de pedras da cidade estavam manchadas de vermelho. As paredes, antes com acabamento fino, que traziam beleza à cidade, estavam destruídas e mutiladas.
Em meio a toda essa destruição, Sarah Harppon corria com Kayan Atreius desacordado em suas costas. Ela mantinha os dois braços em volta de suas pernas, enquanto os do rapaz estavam envoltos em seu pescoço. Apesar de carregar um peso maior que o seu próprio, a garota não sentia dificuldades em correr, pois utilizava sua aura para tal objetivo.
Seus problemas vinham de outro ângulo. Estava começando ser difícil evitar ser vista pelos trolls. Pior do que isso, era saber que as criaturas cinzentas estavam atacando os aldeões e militares da cidade, que nada podiam fazer para se defender.
Tentou varrer esses pensamentos da cabeça e continuou.
Então, percebeu que os cavaleiros estavam organizando as pessoas para que elas se retirassem da cidade. Aparentemente Jonathan havia percebido como a situação era crítica e ordenado tal ato mesmo sem consultar Spaak. O que era bom, pois provavelmente não veriam o mestre por algum tempo.
Apertou ainda mais o passo e queimou um pouco mais de aura para chegar mais rápido. O tempo era um inimigo a partir daquele momento.
* * *
Soldados humanos corriam em desespero. Apenas os mais corajosos permaneciam na linha de frente tentando combater os enormes inimigos. Curiosamente estes eram os primeiros a morrer.
Quando todos eles pensaram em fugir dali, três imponentes rajadas elétricas cortaram o ar em direção aos respectivos alvos. Um mesmo número de trolls foi arremessado para trás, caindo ao chão e provocando um estrondo grave, além de seu urro grosso e tenebroso. Porém, passado poucos segundos eles levantaram-se como se nada tivesse acontecido.
— Então isso são trolls – comentou Karion.
— Eles parecem ser mais fortes que os taurinos – complementou Arion.
— Se comparados aos taurinos guerreiros eles são mesmo. Tomem muito cuidado – Alice os alertou enquanto se aproximava juntamente com Ângela.
Karion esboçou uma careta, mas não disse nada. A seguir, ele e os irmãos entraram na batalha de uma vez. A outra mestra e sua companheira de equipe fizeram o mesmo.
— Ângela, você é uma maga branca e a mais vulnerável entre nós, mantenha-se sempre perto de mim.
— Certo – a garota respondeu com uma expressão séria.
Cada vez que a mestra conjurava um crisis katris, uma enorme explosão de fogo atingia o troll que tentava avançar. O vento resultante do impacto fazia com que seus cabelos loiros e lisos se esvoaçassem. Seus olhos azuis refletiam o vermelho intenso das chamas.
— Resistentes. Droga! É exatamente igual os livros dizem.
— Li, me dá cobertura que eu vou congelar ele.
— Certo, mas tome cuidado.
A garota piscou para a outra enquanto corria em direção ao inimigo, Alice manteve suas chamas queimando para que a criatura não atacasse sua companheira. Com dezoito anos, Ângela era quatro anos mais nova que a mestra. Ela também tinha os olhos azuis e os cabelos loiros, porém, ondulados. Ambas tinham uma beleza ímpar, que as tornava uma dupla irresistível.
O plano foi executado com êxito. A maga conseguiu saltar contra o troll e tocar-lhe o peito com as duas mãos. O movimento foi rápido e ela conseguiu congelar essa parte do corpo da criatura com um ryado antes que ela pudesse reagir.
Para fechar o combo, Alice disparou um raio de pura energia contra o inimigo. Seu ataque atingiu o alvo com perfeição. A pele e parte da carne congelada facilitou a penetração do feitiço que trespassou o corpo robusto, deixando-o caído ao chão.
— Boa, Li!
— Não comemore ainda, tem mais dois deles vindo.
As duas mulheres prepararam-se para retornar ao combate e investiam contra os ofensores. Alice utilizou um crisis katris para envolver ambos em chamas. Ângela atacou com um tangrea na intenção de ampliar o dano. No entanto, o que parecia estar fácil complicou-se quando o troll que havia sido derrubado há pouco se levantou novamente.
— Droga! Isso vai ser mais difícil do que eu imaginava.
Nesse meio tempo, os irmãos Wigg enfrentavam outros três inimigos. A resistência e regeneração deles era algo que os impressionou muito, principalmente pelo fato de que, lutando cada qual contra um, não conseguiram derrubar nenhum deles.
— Esse poder de cura não permite que matemos nenhum deles. Vamos nos concentrar apenas em um, certo?
Seguindo as ordens do mais velho, eles dispararam um raio cada um. Os ataques atingiram um único troll e este foi arrastado pelo chão, formando duas grandes valetas por onde seus pés passaram. As queimaduras surgiam junto com os urros de dor da criatura, porém, sua pele também se regenerava quase que na mesma velocidade.
Os outros dois avançaram correndo contra os três irmãos. Karion percebeu a investida e desviou seu feitiço contra eles. O mais adiantado saltou para o lado, causando um grande tremor com sua queda e evitando o dano massivo do ataque que receberia, sofreu apenas um choque intenso. O outro arremessou uma carruagem contra o mestre que lhe atacava e ignorou o dano do feitiço, já que seu poder de regeneração iria repará-lo.
— Porcaria!
Gritou antes de saltar para o lado e girar no chão. O transporte caiu no solo e se partiu fazendo com que pedaços de madeira e metal atingissem seu corpo. Olhou para os irmãos instintivamente, mas não teve tempo de avisá-los que um dos inimigos atacava de maneira veloz e cruel.
Os gêmeos conseguiram perceber a investida da criatura, mas tudo foi tão rápido que apenas Anion conseguiu criar uma barreira para tentar se defender. Arion ainda manteve o feitiço elétrico por mais um segundo para garantir que o troll que atacavam não mais os incomodaria. Obteve sucesso nisso, mas o preço foi que seu irmão não conseguiu suportar o corpo pesado do inimigo em sua barreira e ela se quebrou.
O rapaz recebeu um impacto pesado do punho inimigo no ombro esquerdo e foi arremessado contra a parede de uma casa, onde se chocou para, então, cair no chão. Anion desesperou-se ao ver que o irmão sangrava, mas não pôde ajudá-lo porque tinha de manter seu escudo de energia contra o adversário.
— Saí daí agora!
Karion gritou para o irmão enquanto preparava um feitiço poderoso contra o inimigo. O troll pareceu perceber que um ataque muito forte seria lançado contra ele e desviou sua atenção para o novo alvo. Anion aproveitou para sair do local, correndo em direção perpendicular ao trajeto feito pela criatura cinzenta.
As massas de ar que se formavam nas palmas das mãos do mestre começaram se reunir alguns metros a frente de seu corpo. Com medo, o gigante cinzento parou de correr e tentou recuar, mas os ventos foram lançados contra ele em grande velocidade. Um turbilhão de vento atingiu o corpo do troll com velocidade suficiente para cortar e dilacerar sua carne e até mesmo ossos. Foram necessários alguns segundos, mas o troll foi mutilado até a morte.
— Ajuda ele! – disse Karion ao irmão enquanto encarava o último inimigo da região.
Um poderoso ataque elétrico proveniente de um tangrea atingiu o corpo da criatura que se aproximava em alta velocidade.
O feitiço, no entanto, acabou perdendo a força quando houve a necessidade de dividi-lo para atingir um outro troll que se aproximava pela retaguarda do mestre. Só então ele percebeu que outros três o acompanhavam de uma distância um pouco maior. A frente deles, recuando, vinha a mestre Alice e a maga branca Ângela.
— Cuidado, Karion, eles são muitos.
— Ângela, cure o meu irmão, vamos precisar dele na luta.
O Wigg praticamente ignorou o aviso da outra mestra e deu uma ordem a maga que nem era sua subordinada. Ela não ficou feliz com isso, mas teve de concordar que era necessário.
No ritmo em que as coisas iam, nenhum dos cinco sairia vivo daquela situação. Alice pensou na segurança de quem lhe era mais querida: Ângela, e tomou uma difícil decisão.
— Vão embora daqui. Os quatro! Eu vou segurar eles até que vocês tomem distância suficiente.
— Mas e você, Li?
— Eu vou depois.
As imensas chamas destruíram algumas casas que estavam no caminho, fazendo com que estilhaços de vidro, metal, madeira e alvenaria fossem arremessados por todos os lados. No meio das chamas intensas e explosivas, cinco trolls foram pegos, sendo impossibilitados de avançarem.
— Não vou deixar você pra trás!
— Não seja teimosa, Ângela, você tem que ir.
No meio da discussão, a equipe de Karion conseguiu abater o último dos inimigos que restava em seu caminho de fuga para se reunirem com os demais magos. Por mais que odiassem a ideia de se retirarem de uma luta, sabiam que não existia meios para vencer, uma vez que mais quatro trolls podiam ser avistados vindo ao longo do horizonte.
— Eu vou logo atrás de vocês, prometo – Alice piscou como que para confirmar o que dizia.
Relutante, Ângela acompanhou os três irmãos que já seguiam pelo meio dos escombros, corpos humanos e bestiais caídos ao chão. Ela teria se salvado caso os acontecimentos seguintes tivessem levado mais que cinco segundos para acontecer.
Um dos trolls conseguiu desvencilhar-se do ataque da mestra, que estava se enfraquecendo. Ela não teve tempo de se defender e a criatura atingiu-lhe com o enorme joelho, causando-lhe uma marca roxa na testa e uma luxação. Além disso, ela caiu sobre um pedaço de metal afiado que havia sido lançado de uma das casas e acabou recebendo um profundo corte nas costas.
— Li! Não!
Ângela ignorou o grande número de inimigos que cercava a mestra e avançou em seu encontro. Gritou enquanto reunia a maior quantidade de aura que podia e lançou um poderoso feitiço de luz em forma de cúpula, afastando os trolls do local. Manteve uma pequena redoma luminosa enquanto curava superficialmente os ferimentos que a outra maga havia adquirido.
— Ângie... sua idiota, poderia ter escapado...
— E o que adiantava eu ter escapado sem você, sua idiota. O que eu ia fazer sem minha querida irmã e única família?
Alice sorriu para Ângela e as duas levantaram-se. A seguir, ambas lançaram suas chamas na intenção de combater os inimigos que se aproximaram, mas isso não os manteria afastados por muito tempo, uma vez que sua energia estava próxima do fim e os trolls regeneravam-se com facilidade. Um, dois, três, todos eles romperam as chamas e avançaram contra as duas. A mais velha segurou forte a mão da mais jovem e puxou-a para junto de si. Sorrindo e com os olhos marejados em lágrimas, as duas irmãs se abraçaram um segundo antes da enorme mão de um dos gigantes cinzentos esmagasse ambos os corpos contra o solo rochoso, tirando-lhes, assim, a vida.
Os irmãos Wigg continuaram correndo em direção ao sul da cidade. Karion parecia não sentir qualquer tipo de pena ou remorso pelas duas que ficaram para trás e acabaram morrendo. Os gêmeos, por outro lado, pareciam sentir-se um pouco mais melancólicos, talvez, por causa de serem um ano mais jovens.
— Droga! Não devíamos tê-las deixado para trás – queixou-se Anion.
— Foi uma escolha delas e não poderíamos ter evitado isso – o mais velho respondeu em tom sério. – E, se ficássemos, apenas teríamos o mesmo destino que elas.
Um pouco mais a frente, os três encontraram-se com Jonathan, que tinha acabado de derrubar e enterrar um troll com um feitiço clayn.
— Garotos, que bom que estão bem. Onde estão Alice e Ângela?
— Mortas – Karion respondeu de maneira imediata e fria. – Alice mandou que saíssemos de lá enquanto ela mantinha alguns deles ocupados, mas acabou sendo atingida nesse meio tempo. Ângela tentou ajudá-la e apenas morreu junto com ela.
— Mortas... – balbuciou antes de continuar. – Temos de sair daqui. Vamos nos unir aos outros e sair dessa cidade antes que seja tarde demais. Já devem ter reparado que os soldados estão fazendo exatamente isso.
Apesar de surpreso com a frieza e perplexo com a perda de mais duas amigas e companheiras de ordem, o mestre conseguiu manter sua concentração em algo mais importante: a sobrevivência e retirada do maior número de pessoas possíveis da cidade. Os quatro voltaram a correr, desta vez, todos em direção ao sul.
* * *
Sarah continuava sua empreitada em meio aos destroços da cidade. Ela sentia que metade de sua energia já havia se esgotado, pois agora, além de correr, ela tinha que se concentrar em manter uma ilusão de invisibilidade aos olhos dos trolls. Aliviou-se ao ver o pessoal reunido, mas, ao mesmo tempo, sentiu-se intimidada pela quantidade de trolls que eles enfrentavam. Eram cerca de quinze e possivelmente mais estavam à caminho.
— Pessoal... – pausa para respirar – Que bom que estão bem.
— Nem todos, Sarah. Perdemos duas das nossas e temos dois feridos – Jonathan a informou.
Só então ela reparou no estado em que o grupo se encontrava. Karion tinha um corte grande na testa, que sangrava um pouco. Gorgar estava com o braço quebrado, mas os dois feridos aos quais eles se referiam eram Anita e Mark, que estavam inconscientes e caídos no chão.
– Onde está Spaak? – Aghata perguntou enquanto disparava um tangrea contra um troll que tentava uma aproximação.
— Ele ficou lutando contra um taurino shaman que parecia ser muito forte mesmo. Disse que nos alcançava em Gynoloock.
— E Guin? – perguntou Jonathan, visivelmente preocupado com seu subordinado.
A garota não teve coragem de responder com palavras e simplesmente abaixou a cabeça. O mestre entendeu o que ela queria dizer e deixou um gemido de agonia escapar.
— Sarah, leve o Kayan. Nathie, pegue a Anita. Nicolas, você cuida do Mark. Arion e Anion, os escolte em segurança. Nós manteremos os trolls ocupados até que tenham uma distância considerável de vantagem.
Aghata assumiu a liderança rapidamente e todos seguiram suas ordens a risca. Ela, Jonathan, Gorgar e Karion permaneceram por mais dois minutos em batalha. Após isso, eles formaram um enorme tufão em conjunto e conseguiram confundir os trolls tempo suficiente para uma fuga rápida.
Por mais de uma hora os magos tiveram de correr sem pensar em descansar até alcançarem um grande comboio contendo os moradores da cidade que, antes bela e pacífica, agora jazia em ruínas e gritos bestiais podiam ser ouvidos a quilômetros de distância.
* * *
Kayan acordou com uma terrível dor de cabeça, sem contar uma pior em seu braço. Ainda permaneceu alguns segundos de olhos fechados tentando lembrar-se do que tinha acontecido, mas tudo o que conseguiu foi a lembrança de ter recebido um golpe muito forte na cabeça. Movimentou-se um pouco e verificou que, apesar de um pouco dolorido, seu corpo estava completamente curado.
Ainda de olhos fechados, virou-se para o lado esquerdo, tomando cuidado para não remover seu cobertor com o ato. Assim que concluiu sua ação, sentiu um pouco de ar morno atingindo-lhe o rosto. Assustado, abriu os olhos de imediato apenas para fazer com que seu coração disparasse ainda mais. Ao seu lado, com o rosto a menos de 10 centímetros de distância, estava Sarah, linda e serena, dormindo pacificamente com uma respiração calma e regular.
Ficou observando a garota por algum tempo, não fosse a curiosidade que aflorava de seu interior para saber tudo o que havia acontecido, ele poderia ficar à observá-la por horas.
Por fim, sentou-se e concentrou-se em ver aonde estava. Era uma barraca simples com dois colchonetes e dois cobertores. Pelo fecho, alguma fraca luminosidade entrava, dando ao local uma meia luz suficiente apenas para ver a silhueta das coisas.
Verificou novamente o próprio corpo para ter certeza de que estava tudo bem. Confirmou e agradeceu à Sarah mentalmente por isso. Em seguida, verificou que vestia-se apenas com uma calça de linho. Imediatamente olhou para a garota deitada a seu lado e, para sua decepção, descobriu que ela vestia-se com uma túnica de algodão e, provavelmente uma calça do mesmo tecido – ele não teve certeza pelo fato de ela estar com o corpo coberto e apenas com o braço esquerdo e a cabeça expostos.
Sua movimentação fez com que Sarah acordasse. Ela levou alguns segundos para raciocinar e perceber que Kayan também estava acordado. Imediatamente sentou-se no colchonete e pôs-se a encará-lo.
— Finalmente! Tive medo que... que...
Ela não concluiu a frase, apenas abraçou-o com toda a força que podia. O rapaz, então, retribuiu ao carinho da mesma forma intensa.
— Até parece que eu estou dormindo há vários dias.
— E estava. Você ficou desacordado por dois dias e três noites. Ninguém sabia quando você ia acordar ou se... ou se ia realmente acordar.
— Tudo bem. Já passou, eu estou bem. Graças a você.
— Estou tão feliz.
Por mais de alguns minutos ambos permaneceram daquela forma. Se dependesse da vontade de Kayan, novamente, ele permaneceria daquela maneira por horas. Mais uma vez sua curiosidade falou mais alto.
— Onde estamos? O que aconteceu?
Perguntou enquanto, sutilmente, desvencilhava-se do abraço e voltava a encarar a maga branca. Permaneceram muito próximos, quase que com as faces coladas uma na outra.
— Estamos acampados em uma floresta próxima à cidade anã de Gynoloock. Nós perdemos a batalha e tivemos que nos retirar da cidade. Por sorte, treinamos os soldados para fazer isso e pelo menos noventa por cento das milhares de pessoas da cidade saíram vivas e se espalharam pela região. Graças a isso também conseguimos mantimentos, roupas e barracas para continuarmos com nossa viagem.
— Eu não consegui salvar o Guin. Nem sequer o corpo dele poderemos enviar pra família.
— Não foi culpa sua, você se arriscou mais do que deveria tentando salvá-lo.
Temendo a resposta, Kayan finalmente fez a próxima pergunta que estava entalada em sua garganta.
— Nós... perdemos mais alguém?
Sarah abaixou a cabeça como se estivesse fazendo uma breve prece, depois voltou a focar seus olhos castanhos nos negros de seu amigo.
— As irmãs Alice e Ângela também acabaram morrendo na batalha.
Apesar de triste com a notícia, Kayan sentiu um certo alívio em saber que não era ninguém mais próximo a ele, como Spaak, Anita, Nathie ou Nicolas. Por fim, perguntou a coisa que mais lhe prendia a curiosidade.
— E como eu sobrevivi?
— Spaak e eu corremos atrás de você quando você seguiu o Guin. Tivemos um contra tempo com uns trolls e, quando chegamos lá, você já estava desmaiado. Spaak ficou para lutar e mandou que eu seguisse com você para nos retirarmos da batalha. Ele disse que nos encontraríamos depois.
— Obrigado por me salvar e por me curar.
Num gesto rápido e carinhoso, Kayan beijou o rosto de Sarah. Ela corou com o gesto, mas não ficou nem um pouco constrangida, apenas sorriu. Ele, na verdade, queria beijar os lábios da garota que tanto amava, mas, apesar de estarem a sós, não era o momento ideal para isso; não com todas as percas dos últimos dias.
— Acho que vou sair da barraca e agradecer ao Spaak também. Tenho certeza que ele vai me dar uma bela bronca.
— Kayan... ele não está conosco.
— Como assim?
— Lembra-se que eu disse que ele ficou combatendo o taurino shaman? Acontece que ele não apareceu ainda. Jonathan acredita que aquele não seja um taurino shaman qualquer e sim o general deles e que nem mesmo Spaak poderia vencer. Ele disse também que... – ela parou de falar por um instante.
— Que... – insistiu.
— Ele disse que é muito provável que o Spaak não tenha sobrevivido.
Um nó se formou na garganta de Kayan. Seria mesmo possível que um de seus melhores amigos tenha sido morto em combate? Pior do que isso, caso fosse verdade, ele seria o culpado por essa morte.
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