A Ordem de Drugstrein
66 A Mais Profunda Escuridão - Parte 3
Notas iniciais
Capítulo 065
A Mais Profunda Escuridão (Parte 3)
O castelo era bem pequeno, contando apenas com um salão principal, duas torres, um moinho e um estábulo. Suas muralhas não chagavam a cinco metros de altura. Aparentemente o maior valor estava no vilarejo que se formava ao redor de seus muros.
— Quer lidar com isso, Karzus?
— Você quer dizer, sozinho?
— Esse tipo de missão é feita em três pessoas apenas por garantia. Geralmente um mago bem treinado de Drugstrein é capaz de superar esses desertores em um duelo.
— Se vocês não se importarem – respondeu-lhes Karzus.
— Vá em frente.
O rapaz pensou por um segundo em qual seria sua abordagem. Depois disso, seguiu até próximo do castelo onde um dos soldados gritou para ele do alto da torre.
— Quem vem lá?
— Sou Karzus Mirl, da Ordem de Drugstrein. Desejo falar com Ritch agora mesmo. Se ele sabe o que é melhor para ele, vai sair de dentro deste castelo e se render imediatamente.
Enquanto aguardava uma resposta, Kayan e Mathen aproximaram-se do rapaz, mas permaneceram a mais de dez metros de distância para que Karzus pudesse resolver sozinho a situação.
Alguns minutos se passaram e Ritch não saiu do castelo, ao invés disso, uma dezena de flechas foram lançadas contra Karzus, que apenas conjurou um escudo de energia para se defender. As flechas se chocaram contra a barreira e caíram inutilmente no chão.
— Saiam daqui! – exclamou Ritch. – Este é o meu castelo!
Da torre oposta a que se encontravam os soldados com seus arcos, uma labareda de fogo se precipitou contra Karzus, que, mais uma vez, defendeu-se com seu aurus pinn.
— Parece que terei que ir até aí te buscar.
Para chegar até seu objetivo, Karzus começou a conjurar uma espécie de pilar de gelo sob seus pés. O gelo foi se elevando lentamente em direção àquela torre.
Quando ele estava no meio do caminho, porém, uma forte rajada elétrica surgiu da torre que ele almejava e avançou furiosamente contra o jovem mago. Kayan ao ver aquele feitiço sendo lançado daquela maneira, conjurou um crisis katris que destruiu completamente a estrutura que Karzus estava construindo e derrubou-o no chão, deixando que o tangrea passasse sobre ele
— Por que...
Antes de completar a pergunta, Kayan estava sobre o rapaz e, com a força de sua aura, pegou-o pela túnica e arremessou-o cinco metros para trás de si.
Karzus permaneceu aonde foi jogado e encarou Kayan enquanto segurava o braço esquerdo que se machucara na queda. O olhar e a aura que Kayan emanava assustaram-no a ponto dele não protestar e apenas se afastar um pouco mais, unindo-se a Mathen.
Kayan, em seguida, estendeu sua mão direita com a palma aberta em direção ao castelo para conjurar um clayn. Com o uso daquele feitiço, todo o castelo começou a tremer como se fosse um terremoto de pequena magnitude. Apesar do tremor não ser tão violento, foi suficiente para causar algumas pequenas rachaduras nas estruturas do castelo.
— O soldado que atirar mais alguma flecha pode se considerar um homem morto. Ritch, você pode sair daí e se entregar. Se fizer isso, apenas irá para Kallamite para se reabilitar. Se insistir em lutar, não posso garantir a sua vida.
Minutos mais tarde, os soldados do castelo estavam todos enfileirados em frente da muralha e Ritch havia se entregado de maneira pacifica.
Enquanto Mathen colocava um inibidor de aura em seu prisioneiro, Kayan aproximou de Karzus, que já havia conseguido curar seu braço com um ressin.
— Se você quer morrer, morra longe de mim.
— Eu... eu não iria ser atingido por aquele raio.
— Você pretendia defendê-lo apenas com a sua aura, não é?
Um pouco assustado com o tom ameaçador de Kayan, Karzus apenas acenou afirmativamente com sua cabeça enquanto engolia em seco.
— Nunca subestime um oponente.
— Faça o que eu digo, não faça o que eu faço – sussurrou o rapaz quando Kayan virou-se.
— O que você disse?
Irritado, Kayan envolveu seu punho nas chamas negras e golpeou a árvore atrás de Karzus, arrancando um grande pedaço de sua casca. Seu punho passou ao lado do rosto do rapaz, que tentava encará-lo sem demonstrar medo.
— Deixe pra lá. Vamos voltar para Drugstrein.
* * *
No caminho de volta para o castelo, já montados em seus cavalos, Mathen aproximou-se de Kayan para conversar com o rapaz.
— Você não acha que foi um pouco rude demais com o Karzus?
— Não.
— Você sabia que ele era capaz de parar aquele feitiço apenas com a aura.
— Talvez, mas isso não muda o fato de que aquilo era exibicionismo.
— É porque aquele garoto te admira e queria te impressionar. Ainda não percebeu isso?
— Tanto faz.
Após a resposta fria, Kayan fez com que seu cavalo acelerasse um pouco seu trote. Mathen deixou um suspiro cansado escapar por entre seus lábios e fez com que seu cavalo acompanhasse o do amigo.
— Aquele garoto me lembra muito você no ano passado, sabia? Você não se lembra de já ter feito coisas para causar boa impressão para alguém?
— Sim, lembro-me de como eu era imaturo. As coisas mudaram e será melhor para Karzus aprender isso da maneira mais fácil.
— Kayan, não havia perigo real ali. Não precisava ser tão duro com ele.
— Eu já disse que não me importo?
Com aquelas palavras, Kayan forçou os calcanhares contra a barriga de seu cavalo e colocou-o em meio a um galope, deixando um Mathen bastante aborrecido para trás.
* * *
Por vários dias a equipe de Kayan ficou sem qualquer missão. Nesse meio tempo, Mathen conversou com Karzus e se desculpou em nome do amigo. O próprio Atreius, entretanto, mal conversou com os dois.
Naquela noite, um grupo de bardos muito conhecido passou por Drugstrein e foi convidado a tocar na taverna da ordem. Por este motivo, o local estava muito lotado, com mais de duzentas pessoas entre magos e mestres. Até mesmo o granmestre Grendolow compareceu e recebeu uma mesa logo em frente ao palco onde os músicos se apresentariam.
Nathie encontrava-se sozinha em um local perto ao balcão onde os taberneiros preparavam as bebidas e a comida. Em sua frente uma ave assada e um copo de hidromel. A garota já havia superado a traição que seu ex-namorado Karion cometeu contra a Ordem de Drugstrein. Ainda assim, não estava com vontade de festejar como a maioria dos magos ali presentes.
Inesperadamente, um homem de uns vinte e cinco anos, cabelos escuros cortados curtos e uma aparência um tanto quanto sombria sentou-se ao seu lado e pediu uma caneca de rum ao taberneiro.
— Mestre Gorgar, boa noite, faz tempo que não te vejo – cumprimentou a garota.
— Boa noite – respondeu quase baixo demais para ser ouvido.
Ele observou-a por um momento. Parecia que se esforçava para se lembrar dela e, por fim, acabou lembrando-se.
— Você é Nathie Durgan, não é? Conhecemos-nos naquela guerra contra os bárbaros.
— Sim. Por um momento achei que não se lembraria de mim.
— Por um momento realmente não me lembrei – respondeu, sincero.
Nathie mal havia tocado em seu assado, mas sorvia o hidromel lentamente. Gorgar, por sua vez, tomou todo o conteúdo de sua caneca de uma única vez e pediu por mais.
— O senhor parece um tanto quanto triste.
Ele olhou para ela e um minuto de silêncio se passou nesse meio tempo.
— Talvez eu realmente esteja.
— Os magos desta ordem te julgam mal apenas por causa de sua esfera na magia e por seu jeito quieto e misterioso. Eu acho que o senhor é uma boa pessoa.
Um meio sorriso curvou os lábios do mestre.
— Você é uma das poucas pessoas que me dizem isto, sabia?
Após aquela frase, Gorgar não conseguiu evitar levar seu olhar para o local onde Aghata estava. O problema é que a moça estava acompanhada de Spaak Firyn.
— Agora eu entendo porque o senhor esta triste. Ainda sente alguma coisa pela mestra Aghata, não é?
— De onde tirou isso, garota? – respondeu ele com um tom de voz agressivo.
— Não precisa esconder seus sentimentos, mestre Gorgar. O senhor não perderá sua credibilidade por demonstrar o amor que sente por uma mulher.
Após a segunda caneca de rum, Gorgor estava mais propenso a seguir o conselho de Nathie.
— Você também é uma das poucas a perceber que ainda sinto algo por ela – admitiu por fim. – Mas não há mais volta, ela está com Spaak agora e parece que o que sente por ele é muito mais forte do que tivemos um dia.
— Essas coisas podem acontecer com qualquer um. Também já amei uma pessoa que não correspondia meus sentimentos.
— Karion Wigg.
Gorgar olhou para ela com seriedade e ela devolveu-lhe um olhar cheio de surpresa. Levou o corno de hidromel à boca antes de falar qualquer coisas.
— Como o senhor sabia? Poucos tinham conhecimento de nosso envolvimento.
— Reparei que aquele rapaz sumia em alguns momentos quando armávamos nosso acampamento. E você também sumia quando isto acontecia.
A garota repousou o corno sobre o balcão enquanto pensava em suas próximas palavras.
— Parece que o senhor reparava mais em mim do que eu imaginava.
O mestre terminou sua terceira caneca de rum antes de tomar sua decisão. Ele aproximou-se lentamente da garota enquanto sua mão direita acariciava-lhe o rosto. Beijou-a de uma maneira muito mais carinhosa do que ela poderia imaginar. Aquele gesto surpreendeu Nathie ao ponto dela falar a primeira coisa que lhe veio à cabeça quando eles se separaram.
— O rum tem um sabor bem forte.
Constrangido, Gorgar deixou algumas moedas sobre o balcão e levantou-se para sair da taverna. Nathie, por sua vez, também pagou por sua refeição e levantou-se para ir atrás do mestre. Quando o alcançou, puxou sua mão para que ele se virasse e beijou-o de uma forma muito mais intensa e luxuriosa que beijo anterior.
O casal permaneceu abraçado por alguns momentos enquanto ouvia o som suave da melodia que os bardos tocavam. Foi Gorgar quem primeiro falou ao sussurrar no ouvido de Nathie.
— Gostaria de conhecer a torre dos mestres?
— Adoraria – respondeu ela em meio a um sorriso malicioso.
Gorgar, então, conduziu-a pela taverna enquanto suas mãos mantinham-se unidas.
* * *
Kayan encontrava-se na parte mais profunda da taverna. Ele estava sozinho em uma pequena mesa de madeira. A sua frente uma grande caneca de rum. Ele achava a bebida amarga, mas se seu antigo mestre, Arthuro Magnum, a bebia era porque devia servir para alguma coisa. E realmente servia: embriagava muito mais rapidamente que qualquer outra bebida que o jovem já havia provado.
Sua solidão física, porém, não durou muito tempo, pois Spaak e Aghata se aproximaram do rapaz. O Firyn seguia na frente e conduzia a namorada pela mão. Eles pareciam bastante animados com a presença dos bardos ali no castelo.
— Olá, Kayan, ainda não o parabenizei pelo seu título de mestre – disse-lhe Spaak.
— Eu também não. Meus parabéns, Kayan, é um título mais do que merecido.
— Obrigado – respondeu ele com a voz um pouco embargada.
O casal tomou a liberdade de puxar duas cadeiras e se sentar de frente para o mago negro. Pediram um pouco de vinho e carne de veado para acompanhar.
— Vocês dois estão juntos – observou ele. – Meus parabéns.
— Demorou um pouco, mas o Spaak percebeu que não pode ficar mais sem mim.
— E essa baixinha aqui não resistiu aos encantos do ruivo mais charmoso de Drugstrein.
O casal beijou-se brevemente enquanto Kayan tomava uma grande golada de sua bebida.
— Você está bebendo rum? Pensei que você preferisse vinho ou hidromel – comentou Spaak.
— Geralmente sim, mas rum é mais forte.
— Ele também deixa bêbado bem mais rápido – complementou Aghata.
— Essa é a parte boa – concluiu Kayan, enquanto terminava com sua caneca e pedia outra quando uma das moças que servia na taverna trouxe as bebidas de Spaak e Aghata.
O casal entreolhou-se. Eles perceberam o quanto Kayan parecia entristecido apesar de tentar esconder seus sentimentos. Eles sabiam que o rapaz ainda devia estar sofrendo pela morte de Sarah e tentaram animá-lo. Kayan, porém, mais bebia do que falava e, por fim, ele saiu da taverna meio cambaleante após apenas umas dez músicas tocadas pelos bardos.
* * *
Thays estava muito animada para visitar a taverna da ordem. A garota vestia-se com um vestido azul sem mangas que chegava até a altura dos joelhos. Aquela vestimenta destacava suas curvas e a maior parte dos homens logo reparou quando a Cyren chegou à taverna. No entanto, Thays não estava ali para ser cortejada por homem algum. Tudo o que ela queria era se divertir com seus amigos e foi por isso que ela dirigiu-se diretamente para a mesa onde estava Ellien.
— Esta tudo bem com você? – indagou ela, percebendo que a amiga não parecia muito animada.
— Ah, oi Thays. Esta tudo bem sim – mentiu.
— Para mim você não parece assim tão bem.
Tomou a liberdade de se sentar ao lado da amiga e pedir vinho para beber.
— Onde está o Fedrick?
Não recebeu uma resposta com palavras, uma vez que a garota apenas deu de ombros e tomou um gole de seu vinho.
— Não vai me dizer que vocês terminaram o namoro.
— Terminamos. E o pior é que ele parece nem se importar com isso – respondeu ela, aborrecida.
— Como assim? Ele já está com outra garota?
— Ainda não. Está com os primos dele em algum lugar nessa taverna.
Um momento de silêncio pairou no ar enquanto Ellien bebericava um pouco de sua cerveja escura.
— Você quer conversar sobre isso?
— Se você estiver disposta a ouvir os lamentos de uma amiga solitária e depressiva.
Aquele não era bem o tipo de coisa que Thays procurava, mas não poderia deixar Ellien ali sozinha, então decidiu que tentaria animar a amiga.
— Na verdade, há algum tempo nossa relação vinha se desgastando porque... porque ele queria dar um próximo passo e eu ainda não me sentia preparada para isso.
— Deixe-me adivinhar, vocês brigavam porque ele ficava te pressionando.
— Às vezes sim. Você teve esse problema com o Kayan?
— Não exatamente. Ele queria e eu também me sentia um pouco tímida com essas coisas, mas não brigamos por causa disso. Agora eu me arrependo um pouco, acho que eu devia ter perdido minha virgindade com ele. Mas isso não vem ao caso, vocês terminaram por causa disso? Se for, ele...
— Não foi bem por causa disso – interrompeu antes que Thays tirasse conclusões precipitada. – Nós estávamos avançando nesse quesito, mas, então veio a invasão e a Sarah morreu. Ela era muito minha amiga, Thays. Sei que vocês não se gostavam, mas eu senti muito a perda dela. Ainda sinto falta dela, para falar a verdade.
— Na verdade, acho que meu assunto com a Sarah era mais rivalidade mesmo. Também me senti triste quando ela morreu, principalmente por saber o quanto o Kayan está sofrendo por causa disso.
— O fato é que eu fiquei bem triste com a morte dela e o Fedrick não conseguia me entender. Ele não soube me consolar ou me animar. Percebi que ele não me amava de verdade e acho que eu também não o amava de verdade, então resolvi terminar nosso relacionamento.
— E isso faz quanto tempo?
— Alguns dias.
— Se foi você quem terminou, por que está aí toda deprimida?
— Eu... eu só me sinto indesejada, sabe.
Thays levantou-se da cadeira e puxou a amiga, colocando-a em pé. Após isso, abraçou-a com força até sentir seus ossos estalarem.
— Não seja tola, Ellien. Você tem muitos amigos aqui neste castelo.
— É que...
Thays, então, pegou a caneca de vinho e fez com que a Iker a virasse de uma vez.
— Você está precisando beber um pouco, se distrair, vamos lá perto do palco falar com a Nathie.
— Acho que seu plano não vai dar certo – disse Ellien enquanto via a Durgan saindo acompanhada de um homem de cabelos escuros.
— Essa Nathie não perde tempo mesmo. De qualquer maneira vamos para perto do palco. Se o Fedrick está se divertindo você também vai se divertir.
* * *
Alguns dias se passaram após a apresentação dos bardos na taverna de Drugstrein. Thays, Nathie e Anita reuniam-se nos jardins do castelo para tomar o seu café da manhã juntas. Cada uma das garotas contribuiu com algum alimento e no final elas tinham muito mais do que poderiam comer, mas o real objetivo era mesmo passar uma manhã agradável enquanto jogavam conversa fora.
— Então o homem com o qual você saiu naquela noite era o Gorgar? – indagou Anita, surpresa.
— Ele mesmo.
— Gorgar Magnum, o sobrinho do mestre de elite Arthuro?
— Eu tinha que dar um jeito de me relacionar com a elite de alguma forma. Assim eu posso me sentir tão importante quanto a prima de um granmestre ou a irmã de uma mestre de elite – brincou ela.
— Ele me parece ser tão sombrio – afirmou Anita.
— Por isso você se interessou nele, não é? – concluiu Thays.
— O que dizer, eu tenho uma quedinha por esse tipo de homem misterioso. Mas ele me trata muito bem, diferente de outro aí que eu conheci. Ele é surpreendentemente carinhoso quando estamos a sós.
— Mas vocês estão namorando? – perguntou Anita.
— Ainda não, mas acho que é porque ele está meio sem jeito de oficializar nosso relacionamento. Todos já sabem que estamos juntos porque já fomos vistos na taverna duas vezes.
— E depois da taverna você vai visitar a torre dos mestres, não é, sua safada?
Thays provocou-a enquanto abraçava a amiga e afagava-lhe a cabeça com a mão. Nathie apenas deu de ombros, sem concordar ou discordar.
— E você, Anita, quando vai dar uma chance pro Allef? – indagou Nathie. – Ele parece bem determinado em te conquistar.
— Ele tinha se acalmado por um tempo, mas agora parece ainda mais determinado – afirmou ela. – Estou até pensando em conhecê-lo melhor, mas tem um problema.
— E qual seria esse problema?
Anita corou com a pergunta de Nathie e disfarçou tomando um gole do suco de laranjas que elas haviam trazido para a refeição.
— Não riam de mim, mas... mas eu nunca beijei ninguém antes.
— É sério isso? Com dezenove anos e nunca beijou ninguém, como isso é possível? Você é tão bonita, Anita, os homens devem fazer fila para te beijar.
— Eu rejeito todos eles, sou muito criteriosa – defendeu-se. – Estou pensando em dar uma chance para o Allef porque ele é bem mulherengo, mas nas duas últimas luas ele tem rejeitado todas as mulheres que tem estado atrás dele, então acho que realmente quer algo sério comigo.
— Acho que ele está realmente apaixonado por você – afirmou Thays. – Mas pela confiança que temos uma na outra eu tenho que te contar uma coisa. Há muito tempo, quando você e a Nathie partiram para a guerra contra os povos bárbaros, eu e o Allef acabamos dormindo juntos.
— O quê? Como assim? Eu...
— Acalme-se, Anita – completou Thays. – Nós não temos nada em comum, foi apenas àquela noite depois de muito vinho. E é como você mesma disse, ele não está interessado em nenhuma outra mulher a não ser você, eu lhe garanto.
— Vocês acham que eu deveria sair com ele?
— Sim! – responderam as duas, em uníssono, e não conseguiram evitar rir com a coincidência.
— Nesse ritmo só eu vou ficar sozinha – afirmou Thays.
— Eu já te disse que você deveria tentar se aproximar do Kayan de novo, não te disse?
— Já pensei nisso, mas ele está muito diferente. O Kayan está se afastando de nós cada vez mais.
— A morte da Sarah o afetou muito – complementou Anita. – Já se passou mais de duas luas desde que isso aconteceu e a maioria das pessoas já se recuperou de suas perdas, mas ele parece ainda manter seu luto.
— Não é bem luto, Anita. Kayan está mudado. Aquilo o mudou, para pior – afirmou a Cyren, cabisbaixa.
— Olá garotas!
Para a sorte das três, Mathen apareceu com sua saudação animada. Ele vinha de dentro do castelo e parou em frente à mesa de madeira que elas utilizavam para seu café da manhã. Sem hesitar, apanhou um generoso pedaço de bolo e o comeu.
— Garotas, vocês viram o Kayan por aí? Estou procurando por ele, mas não o encontro em lugar algum do castelo.
As três entreolharam-se assustadas.
— Agora que você mencionou, não o vejo há dias – disse Nathie.
— Falei com ele faz três dias sobre pegarmos uma próxima missão. Ele me disse que iria pensar no caso e que iria para a biblioteca, como de costume. Desde então não o tenho visto.
— Última vez que o vi foi na taverna naquela noite dos bardos.
— Pessoal – chamou Thays, um tanto quanto assustada. – Posso estar enganada, mas acho que Kayan deixou o castelo de Drugstrein.
A perspectiva da Cyren parecia bem provável e todos decidiram sair pelo castelo à procura de seu amigo.
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