A Ordem
9 Um novo inicio, o Conselho
Notas iniciais
Denny
*
Denny abriu a porta da sala de reuniões com mais força do que pretendia, entrou com passos fortes no local sombrio e depositou com força os livros que tinha trazido consigo. O Conselho não mudara quase nada, ainda era a única mulher entre machistas ortodoxos que eram tão velhos com corpos tão novos. Porém a diferença era clara: Thomas estava entre os integrantes. Sua presença era tão forte e sua aura tão poderosa que Denny ficou arrepiada. Ela sabia que ele a olhava com seus inquisidores olhos verdes por trás do manto negro que era o seu cabelo. Ele usava um sobretudo preto de couro e uma calça escura, seu olhar era divertido. Thomas seria o garoto perfeito se não houvesse um demônio por trás daquela postura arrogante.
A sala de reuniões era um local grande, havia uma grande mesa de madeira e imensas cadeiras de pedras longe da mesma completando-a, as janelas do lugar eram tão grandes que iam do chão ao teto. A cadeira do Governador ficava na cabeceira da mesa, era revestida de veludo e bem convidativa, a outra ponta da mesa era tomada pela pessoa que estava sendo discutida ou algum convidado. Neste caso, a cadeira estava sendo usada por Jack.
Ele a olhava com nítida raiva, ela sabia que tinha sido idiota com ela por ter dito aquelas coisas para o menino, ainda mais quase contando um segredo que faria ele a odiar para sempre. Ela o entendia, se odiava por ser daquele jeito, entretanto as condições da noite passada eram favoráveis para todo aquele showzinho.
– Olá, senhores. – disse cordialmente.
– Está atrasada, Governadora. – um homem loiro e um pouco gordo que se chamava Anthony disse em alto e em bom som.
– Acho que não lhe dei permissão para falar, senhor. – Denny olhou para o resto do Conselho, dez ao todo, e passou a língua pelos lábios, passaria por tudo aquilo novamente – Creio que os senhores estão acostumados com as formas de mandato de Gerard, eu presumo que alguns aqui ainda lembram de como era comigo no comando e sabem que não sou nada igual a ele. Para quem não está acostumado com minha presença, posso avisá-los, não sou corrupta ou uma machista tirana como muitos aqui. Porém, acredito que há corações bons que me ajudarão e governar com sabedoria. – Denny tentou sorrir, mas era impossível com toda aquela pressão – Agora vamos para o principal. Jackson.
– Peço permissão para interrogar o suspeito. – disse Thomas com seu sotaque espanhol.
– Tens o controle da mente, senhor? – disse Denny tentando manter a calma, não poderia deixar Jack nas mãos de Thomas, porém não poderia dizer não ao Caçador, ele a acusaria de usar algo fora do Conselho com motivo.
– Obviamente, senhorita.
– Permissão aceita. – Denny virou e sentou em sua cadeira, seria impotente dali em diante.
– Jackson Campbell. – anunciou o moreno – Sabe que, agora até o fim desta reunião, será compelido por mim para fins que vão além de meus atos?
– Sim, senhor. – disse Jack com um tom firme.
– Ótimo. Responderá minhas perguntas sem ter escolha.
– Pode fazê-las, senhor.
– Quem te trouxe para Nuestra Asuncíon?
– Jennyfer Salvatore, ela me encontrou nos Estados Unidos, Ohio. – Jack sorriu confiante, porém ele estava dando informações demais.
“Menos informação, Jack.” Interferiu Denny mentalmente.
“Isso é a verdade, Jennyfer.”
“Não me chame assim se for para zombar de mim. Agora, não fale muito, quando se começa a falar só fica mais fácil para toda a verdade ir junto.”
“Tudo bem, capitã.”
– O que estava fazendo no pântano na noite em que Gerard o achou?
“Minta”
– A Governadora me levou para lá.
– Por quê? – Thomas levantou de sua cadeira e ficou em pé atrás da de Jack, com uma visão privilegiada de Denny, ela estremeceu, porém se manteve firme, ele não faria nada com ela.
– Não tive a chance de saber, assim que chegamos lá três vampiros nos atacaram e Jennyfer teve que matá-los.
– Sim... – Thomas passou o dedo pensativo pela barba rala – O que você é Jack?
– Um Caçador. – disse sem voltas.
– De qual Ordem? – Jack olhou para Denny com um olhar suplicante, estavam encurralados, se ele mentisse pediriam por uma demonstração e Jack não poderia fazê-lo, o menino teria que dizer a verdade e isso viriam com grandes conseqüências.
“Fale a verdade, Jack.”
“Não posso, Denny, podem me matar ou fazer algo pior. Consigo mentir”
“Não farão nada com você, me ouviu? Não deixarei que passe pelo o que eu passei. Mas por enquanto... só diga a verdade. Confia em mim?”
“Sempre confiei.”
– Sou da Ordem dos Extratores. – disse com a voz esganiçada.
– Essa Ordem não existe, Jackson. – falou Thomas decidido.
–Creio que exista. – interrompeu Denny.
– É impossível! – falou Thomas mais alto do que deveria, ele parecia mesmo surpreso com aquela declaração, seu rosto estava pálido e sua boca se contorcia – Senhores, não há relatos dessa Ordem, acredito que seja impossível essa afirmação e talvez Gerard tenha feito o certo ao acusar Jackson.
– Senhor Thomas – disse Anthony – se nossa Governadora insiste em tal afirmação, vamos ouvi-la. – o homem tinha uma incrível facilidade para bajular seus superiores quando lhe convinha, porém, naquele momento, Denny agradeceu seu jeito desagradável.
– Obrigada. – Denny levantou e se dirigiu aos livros que tinha trazido para a reunião, abriu em umas das páginas que havia marcado e leu uma parte – “Há uma Ordem perdida no tempo, aquela sem descendentes, aquela sem ossos para que possa ser habitada. Essa Ordem é enganosa por natureza e precisa de um hospedeiro favorável a ela. Alguns a chamam de Extratores, outros de Absorvedores e uns até mesmo de o próprio mal.”
– Díos mio. – disse um dos Caçadores presentes, depois dessa exclamação as vozes se elevaram no Conselho, todos começaram a falar sobre Apocalipse e outros sobre morte, todos se desesperavam, até mesmo os que não acreditavam.
– Senhores! – gritou Denny, todos fizeram silêncio na mesma hora, ela gostava de ter esse poder em especial, alguma regalia em ser a Governadora. – Creio que não haja motivo para pânico, Jackson é só mais um Caçador, pertencente a uma Ordem em que ele é o primeiro descendente. É só um menino.
– Ele pode estar mentindo. – gritou um.
– Por que um menino mentiria? – gritou George, um velho amigo de Denny – Além do mais, o menino está compelido, não pode falar menos do que a verdade.
– Ainda creio que é impossível. – Thomas suspirou e voltou seu olhar para Jack – Está falando toda a verdade Jackson? Jure pelo Souverain.
– Toda a verdade, eu juro. – Jack sorriu inocentemente e olhou para Denny esperando aprovação, a menina apenas o olhou. Tudo tinha dado certo.
***
A reunião foi tranquila depois de todos aceitarem a essência de Jack, Denny estava ansiosa para sair daquela sala e deixar aquelas homens repugnantes. Ela deixou os livros, pediria a May que os pegasse mais tarde, estava prestes a sair quando viu que ainda restava um homem naquela sala.
– Ótima reunião, Jenny. – falou Thomas indo em direção a menina, ela não correu, era forte o bastante para encará-lo.
– Obrigado, Tom. – disse ironicamente, Denny cruzou os braços e tentou abandonar o frio que tomara conta de seu corpo. – Queria saber o que está fazendo na minha Sede.
– Bem, talvez devesse perguntar ao seu amigo Austin. – a menina tentou argumentar, mas logo Thomas a impediu – Não o culpe, você é orgulhosa demais para contar sua história para alguém, Austin não sabe quem eu sou porque você não contou a ele. E, respondendo sua pergunta, estou aqui para ser o excelentíssimo professor do Jack.
– Não vou deixar que mexa com ele. – falou a menina decidida, Thomas passou por ela e encostou-se ao alisar da grande porta de madeira, a garota virou para encará-lo e percebeu que ele tampara a passagem, a conversa acabaria quando ele quisesse.
– Jenny, mi querida, será que não percebe que eu sou um vilão apenas para você? – disse ele arqueando a sobrancelha.
– Por que será, Thomas? Você acabou com a minha vida. Minha família...
– Poupe-me de suas explicações e acusações, sua família morreria naquela noite independente do que tivesse acontecido. – Thomas sorriu sádico e sacudiu a cabeça, deixando alguns de seus fios negros caírem por cima de seus olhos – Querida, não vê que isso é apenas mais uma desculpa que você arrumou para esconder a verdade?
– Que verdade, Thomas? A verdade que você destruiu minha família e agora voltou do inferno para destruir a minha?
– Vejo que continua uma graça de pessoa. – Thomas arrumou a postura e começou a andar até que ficasse a um passo de Denny. – Estou avisando, você não está assim por causa de Scott e porque o amava tanto que não pode tocar sua vida, você está assim porque é covarde o bastante para culpar outras pessoas e não ver a verdade.
– Você não...
– Posso não ser desta Sede, mas sei de tudo o que acontece aqui e sei que você está falando de novos tempos e diz que não é igual ao Gerard. Entretanto, querida, você está tão presa nesta sua cúpula que não percebe que está se tornando ele.
– Você não me conhece, Thomas, não pode falar nada disto e espero que não que não escute novamente estes desaforos, senão faço questão de pessoalmente matar você.
– Seria um favor.
– Então espero cumprir esse favor. – Denny passou por ele e correu para o quarto, nada do que ele disse poderia ser verdade. Nada.
O quarto sempre fora seu refúgio. O cômodo era gigante, com três partes: a cama, o escritório e uma pequena sala. Denny correu para sua pequena sala e jogou o abajur na parede, depois chutou a mesa e gritou. Sua vida nunca melhorava, em nenhum momento ela melhorava, a Caçadora também não ajudava. Jack estava com raiva dela, Victória também e Austin, Austin que ajudara tanto com tantas coisas, ajudara com Henry e sempre fora um perfeito amigo.
Talvez Thomas tivesse razão e ela estava virando o Gerard. Voltou a gritar e foi em direção ao armário onde guardava suas bebidas, Scott estaria com raiva dela. Esse era o grande problema, Scott não estava aqui, ele estava morto e já virara pó há muito tempo, ela o amava e sempre amaria. Entretanto, ele não estava mais com ela e a menina tinha que parar de se importar com o que ele achava, tinha que parar de pensar nele.
A garota pegou a bebida e se jogou no sofá, se policiou para não chorar, não podia chorar, não por algo que Thomas falara. Ele tinha a facilidade para machucá-la que e ela repugnava, afinal, ele era o vilão... somente para ela.
Depois de um tempo, quando estava em sua terceira garrafa, alguém entrou no quarto, abriu a porta com cuidado e entrou batendo os saltos. Denny pouco se importava com quem estivesse entrando, só pediu que fosse embora para que pudesse desfrutar de sua depressão a sós.
– Senhorita? – era May, a voz dela estava mais próxima, porém Denny não olhou para trás – Está acordada... Trouxe os livros que a senhora pediu.
May apareceu no campo de visão de Denny e arregalou os olhos surpresa, ela correu até Denny e tirou a garrafa da mão dela. A Caçadora levantou embriagada e quase caiu no chão, se apoiou no sofá e encarou a serviçal que tirara seu único alento.
– Devolva-me, May. É uma ordem! – sua voz estava esganiçada por causa da Vodka e sua mente estava enevoada.
– Desculpa, senhorita. – disse a menina se afastando – Prometi ao Mestre Scott que não deixaria a senhora beber.
– Mestre Scott não está aqui! – gritou – Ele morreu! Ele me deixou e você é minha empregada e não dele. Devolva-me!
– Díos mio, não! – Denny avançou na menina, May levantou garrafa e a ultima coisa que Denny ouviu antes de apagar foi o som de vidro se quebrando.
*
Jack
*
Jack estava na sala de treinamento usando um arco e flecha ali abandonado. Estava ficando fácil demais usar aquelas armas, ele decidiu treinar com as facas, pegou-as, a cada faca nova era uma nova tentativa de roubar a essência da faca. Ele riu secamente ao acertar o centro do alvo. Na primeira vez que lutou, Denny o achara péssimo e não entendeu o que Austin viu no pequeno garoto. Porém agora até Jack ficava abismado com o que podia fazer, ele conseguia fazer o que quisesse, nada o impedia.
Ele mirou a nova faca no cabo da outra e atacou, acertando bem o centro. O pensamento em Denny cresceu e ele ficou com raiva. Por que ela sempre tinha que agir de um jeito tão ignorante? Jack nunca entendia o que tinha feito de errado para que ela ficasse com raiva dele. Era triste pensar nela daquela jeito, ele não queria ficar com raiva ou irritado, ele queria...
Um grito agudo interrompeu seus pensamentos, ele olhou para trás para ver May entrando desesperada com as mãos ensaguentadas e olhou vermelhos de chorar. O coração de Jack pulou e ele jogou a faca que estava segurando no chão e correu até a garota.
– Eu não queria... Mestre Jack... Eu não queria! – disse a menina entre soluços.
– Respire e conte-me com calma, May. – a menina tentou respirar, mas só serviu para mais uma lufada se lagrimas descer por suas bochechas.
– Minha senhora estava bebendo... Prometi ao senhor Verlac que nunca a deixaria beber – senhor Verlac deveria ser Scott, presumiu Jack, ele contorceu os lábios sem saber realmente o motivo – Ela veio para cima de mim e eu não sabia o que fazer, então atingi a cabeça dela com a garrafa – explicado o sangue nas mãos de May, pensou Jack. – A senhorita vai me despedir... Eu não quero voltar a ter câncer, senhor Campbell, não posso. – Jack sentiu pena da garota, Denny tinha sido idiota mais uma vez, porém Jack não deixaria Denny fazer nada com May.
– Vamos. Leve-me até sua senhora.
***
Denny estava no chão, sua testa sagrava e seu corpo estava em uma posição desconfortável. Jack foi até ela e a pegou no colo, se martirizando por fazer aquilo, ele tinha que parar de ser um idiota. Denny era muito pequena, pensou, ela estava encolhida contra seu peito e resmungava algumas vezes, Jack a botou na cama e se virou para May que permanecia imóvel.
– Ei May – ela o olhou assustada – Pode juntar os cacos e me trazer um quite de primeiros socorros?
– Sim, claro. – ela correu até a mesa no escritório e tirou uma caixa branca, entregou a Jack com cuidado e mirou um olhar cuidadoso a Denny, depois foi até os cacos e começou a colhe-los.
Jack sentou na ponta da cama e tirou os sapatos da menina, depois tirou as luvas com cuidado e as depositou no criado mudo. Abriu a caixa e começou a limpar o ferimento na cabeça da menina, quando terminou May já tinha ido embora. Ele guardou a caixa no criado mudo e estava prestes a ir embora, quando Denny o chamou:
– Jack... É você?
– Sim... – a menina não abriu os olhos, mas segurou a mão de Jack.
– Eu sou uma pessoa horrível, não sou?
– Não, você não é. – Jack tirou um fio de cabelo da testa e depois retirou a mão com cuidado – Talvez um pouco irritada, desagradável, mesquinha e sem sentimentos, mas é só às vezes. – Denny abriu um pequeno sorriso e apertou a mão de Jack, a luz das velas do quarto a faziam ficar mais bonita, mais jovem, porque por mais que estivesse no corpo de uma adolescente, Denny se mostrava ser muito mais velha. Entretanto, naquela momento ela parecia uma menina desolada que não sabia o que fazer. – Mas você não é uma pessoa horrível.
– É gentileza sua mentir para mim. – ela abriu os olhos, sua pupila estava delatada e seu olhar estava perdido – Me diga o que você vê quando olha para mim?
– Den... – Jack não estava entendendo, o menino suspirou e deixou a verdade sair – Vejo uma mulher muito forte que sempre me protegeu e uma menina que teve o coração ferido várias vezes. Vejo também que uma garota que guarda um senso de humor e que tem medo de ser feliz, mas não sabe o que estar perdendo com isso.
Denny fechou os olhos e apertou a mão de Jack, ele devolveu o gesto e depois começou a sair da cama.
– Fica comigo? Eu não quero ter pesadelos, hoje não. – Jack hesitou – Você me deixa tranquila... Por favor.
– Sinto que vou me arrepender disso. – Denny abriu espaço para ele na cama, Jack se deitou de frente para a menina que o encarava com certa felicidade e um certo medo.
– Desculpa. – disse depois de um grande silencio. Seus olhos estavam sonolentos e sua bochecha mostrava suas covinhas, seu corpo estava encolhido e sua voz esganiçada, Denny parecia acabada, tão psicologicamente quanto fisicamente. Jack queria prendê-la em uma bolha. Na sua bolha.
– Pelo o que?
– Você sabe o porquê.
– Está tudo bem. – Jack foi para mais perto da menina e a puxou – Vem cá. – ela deitou no canto de seu braço e fungou, Jack a abraçou pensando seriamente se aquela era a Denny que conhecia. – Agora você tem que dormir.
– Obrigado, Jacky.
– De nada, Den.
Ele estava na ponte, esperando por mim.
Era a hora de encará-lo mesmo que todo o meu ser tivesse pedindo-me para não ir. Apertei o passo ao ver a antiga cabeleira loira encostada na ponte de Viena. Era o começo da manhã, o sol começava a nascer e as pessoas ainda temiam as ruas, porém logo, logo sairiam para trabalhar. Felipe estava olhando para o nada, eu conhecia esse olhar, o olhar pensativo que ele usava quando tinha que fazer algo difícil. Ele usava um sobretudo cinza e calças da mesma cor, sua bengala — presente do pai por causa da infecção da perna – estava encostada na ponte.
Ele me escutou chegar, mirou seu olhar bronzeado para mim e sorriu, seu lindo e perfeito sorriso me fez arrepiar e tudo não parava de girar. Assim que cheguei até ele, Felipe me puxou para um beijo longo e carinhoso, eu sabia que aquele seria o último.
– Achei que não viria. – disse com seu doce sotaque italiano.
– Não quero ouvir o que você tem a dizer, mi amoré. – olhei para o rio que corria abaixo de nós, queria que ele nos levasse daqui e não deixasse que ele fosse embora.
– Eu sei... Nem eu quero, acredite em mim. – ele me apertou mais em seu abraço, seu calor era reconfortante com o frio do outono, seu cheiro era conhecido e sua pele suave.
– Eu entendo você... Não estava em meus planos me apaixonar por ti, Felipe Campbell. – ele riu e eu me arrepiei.
– Que bom que admite seu amor, Jennyfer Salvatore. – ele suspirou – Você sempre foi a mulher mais linda que eu conheci, me apaixonei por você desde o primeiro momento que a vi. Lembra? Naquela festa de ano novo: “Celebrando o Novo Século.”
– Com certeza me lembro. – sorri – Você tentou me beijar. O que você disse... “Quer ter a honra de ser o meu primeiro beijo de 1801?”
– E você estava doida para fazê-lo.
– Fizemos muito mais coisas aquela noite. – sorri travessa e tinha certeza que ele também sorria, éramos cúmplices, amantes e amigos.
– E depois disso você ficou com todos os meus beijos... – sua voz diminuiu – Eu... Eu não quero deixá-la.
– Eu sei.
– Mas eu não posso ficar com você, querida, não sendo o que você é.
– Eu sei. Quando contei a você o que eu era, eu sabia que seria difícil para você.
– Não é só difícil... Eu vou envelhecer e você ficará linda e jovem para sempre; Meu trabalho é cuidar de um banco e o seu é matar demônios. Eu nunca seria bom para você e você nunca seria boa para mim.
– Acredite quanto eu digo que nunca esteve em meus planos te amar. – eu estava chorando, tudo aquilo era a verdade triste e dolorosa que eu estava tentando me preparar para ouvir, só que não funcionou, nunca mais o veria e isso me mataria. – Eu sei o que acontece quando um Caçador ama um humano... Eu só não consegui.
– Acho que você está destinada a amar um Campbell, só que infelizmente não sou eu. – o sol estava nascendo e as pessoas já começavam a sair das casas, Felipe começou a falar mais baixo, perto do meu ouvido. – Talvez um dos meus descendentes seja um Caçador.
– Seria um Caçador terrível.
– Terrivelmente lindo. Beleza é de família, querida Jennyfer. – ele sorriu, estava na hora de se despedir.
– Então esse é o nosso adeus.
– Não, esse é o nosso começo. Para os dois.
– Então – afastei-me e limpei as lágrimas, estiquei a mão e ele apertou, como velhos amigos – um bom começo para você, senhor Campbell.
– Uma linda história para você, senhorita Jennyfer.
– Eu amo você.
– Também amo você, minha Caçadora.
Segui até a minha carruagem sem olhar para trás, já tinha feito isso antes, já tinha deixado pessoas que amava por ser quem eu sou, Felipe só seria mais um. Infelizmente mais um.
Jack acordou com sinos tocando. Eles faziam um barulho infernal, sua cabeça estava girando, que sonho tinha sido aquele? Era Denny? Talvez a explicação seria que ele dormiu encostando nela e assim tinha visto o seu sonho. Então Denny já tinha conhecido um Campbell, em 1801, por que ela nunca contou para ele? Jack merecia saber.
Denny coçava os olhos e tirava o cabelo da frente do mesmo, o garoto não queria ter raiva dela, não depois da noite passada. Por que esses sinos não paravam? A cabeça de Jack latejava por causa disso.
– Hoje é domingo, os sinos tocam meia hora antes da missa matinal. Tinha me esquecido disso. – ela sorriu e olhou para Jack – Bom dia.
Jack acudiu a cabeça para tirar o cabelo dos olhos e sentou, ainda atordoado com seu sonho roubado. Denny sentou preocupada, a feição de Jack devia estar incriminando-o, ele não era muito bom em mentir.
– Posso saber o que foi? – Denny tirou as presilhas de seu coque já destruído e passou a mão pelos cabelos cacheados para ajeitá-los, o ferimento da noite passada já era uma pequena casquinha em sua testa.
– Por que não me disse?
– Não adivinho o futuro.
– Por que não me disse que já namorou um Campbell? – Jack a fuzilou com o olhar, Denny se encolheu e abaixou o olhar, talvez Jack não devesse ter sido tão ignorante.
– Tem muitas coisas que eu não contei a você, Jacky, mas eu pretendo mudar isso. – Denny suspirou, olhou para Jack e segurou a mão dele, o menino quase retirou por instinto, mas não o fez, não poderia rejeitar um gesto de carinho dela. – Eu ia perguntar como você sabe disso, entretanto acho que nós dois já sabemos como. – a menina arqueou a sobrancelha – O nome dele era Felipe Campbell, o conheci na Itália do século XIX e foi uma das melhores pessoas que conheci. Eu o amava e sei que ele também me amava, só que nós dois juntos nunca daria certo... Assim como eu e Scott.
– O que aconteceu com ele?
– O que eu sei é que ele herdou o banco do pai e se casou Rosalina, os dois tiveram dois filhos e o filho mais velho se mudou para os Estados Unidos onde abriu um bar chamado Mistic, o qual e fui várias vezes.
– Esse bar era do meu tio avô. – Jack sorriu, era tão estranho sua família estar conectada com Denny mesmo antes dele nascer.
– É... Eu o conhecia, era um cara meio rude. – Denny ainda segurava a mão de Jack e ele a apertou, Denny fazia parte do seu passado, do seu presente e do seu futuro, ele esperava. – Você me lembra ele... Seu jeito impulsivo e seus olhos são exatamente como os dele. – Denny colocou a mão perto dos olhos de Jack e passou o dedão pela curva do olho esquerdo. – Exatamente como os dele.
“Acho que você está destinada a amar um Campbell, só que infelizmente não sou eu.” Jack vaticinou que Denny estaria pensando na mesma frase, Felipe tinha profetizado um Caçador em sua família. Talvez Jack e Denny...
Uma batida na porta fez os dois se assustarem e levantarem da cama. Denny correu até a porta e abriu uma fresta, escondendo Jack de olhares curiosos.
– Bom dia, Governadora, venho avisá-la que a espero na missa.
– Bom dia, Padre Digory, bem... Eu desço em um minuto. – Denny fechou a porta e foi até o armário escolher um vestido – Acho melhor você ir, se atrasará para sua primeira aula. – algo em seu tom de voz fez com que Jack se preocupasse, ela pegou um vestido rosa claro e o jogou na cama, foi até onde Jack estava e o olhou com preocupação. – Não confie em seu professor.
– Você sabe quem é o meu professor?
– Nosso querido e estimado Thomas Araceli.
***
Depois de colocar uma calça jeans preta e blusas da mesma cor, Jack foi para a sala de treinamento. Vozes vinham da sala, ele decidiu não entrar, mas também não se afastou. O menino reconheceu a voz de Charlotte e a outra deveria ser a voz de Adam, suposto amigo dela. Os dois pareciam discutir.
– Você não pode me pedir isso, ok? – a Caçadora tremeu falar, sua voz estava carregada de algo que Jack não reconheceu. Ele deveria ir embora, mas algo fora do normal o prendeu ali.
– Querida...
– Não... Adam, por favor.
– Você sabe que nada disso trará Ben de volta.
– Eu sei! – gritou – Se fosse possível fazer qualquer coisa eu faria, Adam. Eu nunca mais serei mãe, você sabe o quanto isso dói? – fungou – O que eu posso dar a você? Se ficar comigo nunca poderá ser pai e nunca formará uma família. Eu não quero isso para você, não para você, Adam.
– Ei... Eu sei do que estou desistindo.
– Não, você não sabe... – fez-se um longo silencio antes de uma risada seca – Quando fiquei grávida de Ben, achei que era a pior coisa do mundo, sabe... Estrias e essas coisas de grávida, achei que não seria nada demais. Porém, quando segurei aquele pequeno ser nos meus braços, nada me importava mais, somente um amor incondicional que eu sentia por aquele bebê. Não é algo que se pode desistir, Adam. Você me deixaria feliz encontrando um amor que possa lhe dar uma família.
– Charlotte, você não percebe? Não vai existir outro amor. Eu amo você.
– Não deveria amar. – passos em direção a Jack o alarmaram, ele estava saindo quando Charlotte apareceu na porta, ela secou as lágrimas rapidamente e tentou sorrir. – Jack! Você estava aí há muito tempo?
– Não – respondeu com rapidez – Acabei de chegar. Tudo bem?
– Sim, só poeira, sabe? É um lugar muito antigo. – ela secou as lágrimas no vestido azul e saiu apressa pelo corredor. Jack suspirou e entrou na sala de treinamento, ele esperava ver Adam, mas o Caçador não estava lá, o menino achou estranho, mas aquilo estava longe de ser a coisa mais estranha da sua vida. A sala de treinamento era um lugar grande, com um chão de mármore janelas imensas com toda a Sede, tinha ,em todas as paredes, armas de todos os tipo. Havia alvos e um quadrado delineado com uma fita azul para lutas.
Jack passou a mão no cabelo e suspirou, não queria ter aulas com o Thomas, não sabendo o que ele fez para Denny. O menino ouviu passos e virou para ver Thomas entrando na sala, ele estava usando calça jeans desbotada e uma blusa azul escura com gola em V. seu cabelo estava bagunçado e o Caçador sorria, satisfeito com algo.
– Olha se o Jack não é pontual.
– Você também não é nada mal. – Jack arqueou a sobrancelha e Thomas sorriu, indo em direção ao menino.
– Vejo que Jenny contou a você nosso terrível passado. – ele foi até o quadrado de luta e chamou Jack, o aluno foi e ficou de frente para o professor. – Não me julgue por algo que ela disse, não sou tão mau assim.
– Não? – zombou Jack – Porque você me ajudou muito na reunião do Conselho.
– Aquilo? – Thomas riu – Ora Jack, você realmente me surpreendeu! Suas habilidades não são muito comuns.
– Acho que você está falando demais e me ensinando de menos.
– Como quiser, Extrator. – Thomas abriu os braços e se afastou alguns passos do menino – Vamos ver o que você sabe.
Jack se preparou e Thomas também, o moreno foi o primeiro a atacar vindo para cima de Jack com um soco, o menino se desviou com facilidade, porém Thomas passou a perna nos pés de Jack e ele caiu. O loiro girou para sair da mira do soco e se levantou, Thomas vinha com outro, Jack segurou seu pulso e tentou tirar a força dele, só que não funcionou. Enquanto o menino ficava estupefato com o fato de não conseguir extrair nada, Thomas desferiu um soco no estomago de Jack.
O menino se curvou com a dor e Thomas pegou o seu braço e virou para trás, provocando uma dor incessante no braço direito. Jack tentou se livrar, mas o Caçador prendeu com mais força de braço. Os dois ofegavam, Thomas chegou perto do ouvido de Jack e gargalhou.
– Surpreso, Jack?
O loiro jogou a cabeça para trás atingiu o nariz de Thomas, o moreno o soltou e grunhiu de dor. Jack se afastou e recuperou o ar, o nariz de seu adversário sangrava e ele teve que sorri com aquilo.
– Isso foi por Denny, canalha.
– Me chama do que quiser – Thomas massageou o nariz e passou a mão para tirar o sangue – Você não me conhece.
–Acho que sei o tipo de pessoa que você é.
– Nossa que dor! – gritou o Caçador e foi até uma pequena geladeira e pegou ma bolsa de gelo que ficava ali, Jack secou o suor e tirou a camisa, estava fazendo um calor terrível na sala, talvez fosse um pouco de raiva também – Você tem uma cabeça bem dura, mas eu aceito, mereci isso.
– Por que eu não consegui tirar sua força? – Jack foi até mesa de madeira que mantinha algumas facas que precisavam ser amoladas e sentou, Thomas sentou-se no quadrado de luta.
– Porque um Extrator não consegue extrair de outro. – Jack prendeu a respiração, aquilo era plenamente impossível, Jack era o único Extrator, Thomas só pode estar mentindo.
– É impossível!
– Agora é você que não acredita em mim, não estamos em situações tão diferentes, estamos? – Thomas tirou o gelo do nariz, mas não para de sorrir – Por que eu mentiria, garoto? Eu previ que você descobriria mais cedo ou mais tarde,então não há motivos para esconder de você.
– Os outros sabem? – Jack estava tentado a acreditar, mas era algo difícil de acreditar, ainda mais em Thomas, que não tinha um passado muito respeitável.
– Não. Jenny não sabia que eu era Caçador até me ver no baile e Austin pensa que eu sou um Mago muito poderoso e antigo. Isso não é algo que saímos contando, por isso achei tão impossível você ser como eu.
– É.
– Então, posso confiar que você não contará meu segredo?
– Por que eu faria qualquer coisa por você?
– Porque eu e você somos iguais. Você sabe como é ser assim, como é estranho ter um poder como esse e sentir tudo o que nós sentimos.
– Eu não sou igual a você. – Jack levantou e sentiu se rosto ficar quente de raiva.
– Sim, você é. – Thomas se levantou e ficou a dois passos de Jack. – Nossa diferença é eu você é novo e cheio de ilusões e eu sou velho o bastante para saber que a vida é uma droga e que ser imortal é um saco. Eu não quero perguntas, Jack, quero seguir tranqüilo aqui e assim que terminar meu trabalho ir embora e continuar com essa droga de vida. Dei-me uma chance e verá que não sou tão mau.
– Talvez.
– Muito bom contar com você, Jackson.
***
O resto dia foi tranqüilo. Charlotte e Adam não foram para o almoço e nenhum dos dois foi visto pelo resto do dia; Austin ficou surpreso ao ver Denny o abraçando e Victória caiu na gargalhada, ao todo foi o almoço mais feliz que Jack presenciou. Ele não contou a ninguém sobre o segredo de Thomas, de fato era um peso gigante ser quem eles eram, se Thomas não queria isso Jack podia entender.
O Caçador estava em seu quarto, sentado na janela vendo o sol de pôr. Era uma visão incrível, assim como toda a Espanha. Jack percebeu que seria feliz ali, de um modo estranho estava se acostumando com as pessoas e o local, não se imaginava mais em casa com a família. A porta do quarto rangeu e Jack viu Denny entrar, ela estava de calça desbotada, seu casaco de couro e seu cabelo preto estava preso por um rabo de cavalo, para variar. Ela segurar um papel e foi até Jack um pouco agitada.
– Vim me despedir. – ela sentou na janela também e ficou olhando para o sol já me seus últimos segundos.
– Posso saber aonde você vai?
– França, falar com o Souverain.
– Antes que ele morra e tal.
– Isso – a menina não parava de olhar para o envelope que segurava, a curiosidade de Jack cresceu e ele quase perguntou o que havia nele – Eu andei pensando no que Thomas me disse e percebi que ele está certo.
– O que ele te disse? – Thomas tinha feito isso com ele, dito algo que Jack ficara o dia inteiro pensando, era algo terrível.
– Ele disse que estou me tornando o Gerard, eu bati o pé falando que era mentira, mas ele está certo, estou me tornando uma idiota. – ela olhou para Jack com um olhar suplicante – Prefiro morrer a me tornar igual a ele.
– Você não é ele. – Jack arrumou a colona e pôs a mão em cima da de Denny.
– Eu também me disse isso... Só que se eu não mudar agora, vou me tornar ele. Olha o que eu fiz com May.
– Não se culpe.
– Eu tenho que me culpar. – Denny se levantou e secou uma lágrima que caia, esticou a mão e entregou o envelope a Jack, ele pegou, mas não abriu – Eu vou melhorar, prometo.
– O que tem aqui?
– Leia assim que eu sair. – Denny abaixou e deu um beijo na bochecha de Jack, os dois sorriram um para o outro e Denny seguiu silenciosa para a porta.
Jack abriu o envelope e começou a ler.
Querido Jack,
Não tenho outro modo de te contar isso, não há modo de te contar isso, então vou entender se me odiar.
Eu deixei sua irmã ser morta.
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