A Ordem
2 Caçadores
Notas iniciais
Jack não quis ser indelicado – o que era praticamente impossível com a beleza da menina, era como se você tivesse que protegê-la acima de tudo – , mas ao olhar para o braço estendido de Denny viu a mesma Marca que havia aparecido nele na noite anterior. Agarrou o pulso da menina e tentou acalmar os batimentos cardíacos. Esperou que Denny recolhesse o braço e o chamasse de louco, mas ela apenas sorriu com uma pitada de pena.
– Você é como eu. – Jack estranhou as palavras, afinal, o que ele era? Um maníaco que sonhe com a namorada morta e vê marcas aparecerem do nada? Ele estava mais para um masoquista com problemas de memória. O garoto passou o dedão da mão livre gentilmente pelas inúmeras curvas da Marca da menina, Jack a sentiu se arrepiar, do mesmo jeito que ele mesmo se arrepiou ao sentir o contato de Lawrence na noite anterior – Quero dizer, tem a mesma Marca que eu. – Jack esticou o braço e puxou a manga do palito para que Denny visse a sua marca.
– Você está certo nas duas sentenças. – o menino recolheu o braço com um pouco de desapontamento, havia alguém igual a ele no final das contas.
– Então... – Jack levantou o olhar e sustentou ao máximo o olhar penetrante de Denny – O que eu... O que nós somos?
– Caçadores. Uma raça mais forte, mais rápida e mais dotada que os humanos — a voz de Denny continha um sotaque estranho, como se juntasse todas as línguas do mundo e juntassem em uma voz leve e prazerosa de se ouvir.
– Não pode ser... – Jack se virou indignado e passou a mão pelo cabelo, a menina falava com tanta calma e precisão que só havia dois motivos para tanta certeza: ou ela praticara a sua vida toda para esse momento ou estava dizendo a verdade. E se Jack ainda estava sã, com certeza era a segunda. – Você não pode ser igual a mim, você não teve que ir para uma clinica e não tem sonhos...
– Sonhos estranhos que parecem tão reais como uma lembrança? Ou quando você acorda e vê que tudo o que sonhou era verdade? Ou a certeza que tem algo escondido nele, há um significado? – Denny olhou satisfeita para Jack, ganhando uma luta que ele mesmo havia travado. – Sei tudo sobre você, Jackson Campbell. E posso confirmar, cegamente, que somos iguais. No que se diz a respeito de quem somos e qual raça pertencemos.
– Eu não posso absorver isso tudo de uma vez. – Jack nunca se sentira tão fraco quanto se sentira agora, ele não era maluco, havia mais coisa, muito mais do que Jack havia imaginado um dia em sua sórdida vida.
– Eu sei que é demais... – Denny se aproximou de Jack e esticou o braço para tocar lhe no ombro – Vai para casa e absorva a morte da sua amiga. Eu te encontro quando melhorar.
Jack prendeu a mão da menina para impedi-la de ir embora e, quando tocou, sentiu algo diferente. Uma onda de energia passou pelo corpo do menino fazendo-o tremer e se arrepiar, podia sentir cada músculo de Denny. Sentiu o ar a sua volta se tornar mais leve e a dor de cabeça, que até o momento não sabia que tinha, passou deixando-o leve como ar. Jack encarou a menina cuja expressão ficava entre o suspense e a admiração.
– O que foi...? – a frase ficou no ar, Jack sorriu como uma estranha leveza, nunca se sentira tão forte quanto sentia naquele momento. Soltou a mão da menina, a mesma dobrou os braços contra o corpo e tentou afastar o frio, mas Jack só sentia calor, um calor vibrante e inominável.
– Você fez o que chamamos de Transfusão de Energia, o que só aprendemos quando já temos treinamento suficiente. – a menina não parava de tremer, Jack pegou o casaco e a cobriu, o terno quase engolia Denny, que era três vezes menor que Jack – Eu não estava preparada, só isso.
– Ham... eu não sei como eu fiz isso. – Jack tentou sentir culpa, mas o sentimento bom que havia se formado sobrepunha todas e qualquer chances de sentir o contrario.
– Eu também não sei. – declarou Denny ainda mostrando claramente o que a Transfusão havia causado nela. – Vai para casa. Descanse.
A menina se virou para ir embora sem esperar uma resposta de Jack e nem se importando por ainda estar usando o casaco dele. Jack se sentiu impelido a andar mais rápido que Denny e fechar quaisquer oportunidades de saída. A garota levantou o olhar e o impôs profundamente em Jack, que congelou no lugar hipnotizado, sem conseguir tirar os olhos dos olhos de Denny. Ele pensou em como eram lindos e como brilhavam mais agora.
Denny piscou e quebrou uma conexão que havia se formado por mais rápida que tenha sido. Jack também piscou, tentando lembrar o que estava prestes a fazer quando entrou na frente de Denny, mas havia esquecido completamente, ele apenas pensava no que poderia ter acontecido.
– Desculpe Jack, é o meu jeito de prevenir. – os olhos de Denny haviam voltado ao normal, mesmo não sendo nada normais.
– O que aconteceu agora? – perguntou Jack ao massagear as têmporas.
– Não podemos conversar aqui. – Denny se virou e começou a andar, Jack entendeu que era para segui-la, ele não fazia ideia para onde ela ia, mas seja para onde Denny fosse seria lá que obteria respostas, então ele não hesitou.
*
Denny
*
Denny não entendeu Jack, o menino a seguiu para onde quer que ela fosse, sem dizer uma palavra ou hesitar. A menina sempre achou que ele seria um mimado desde a primeira vez que viu o pequeno bebê loiro com uma família perfeita, a qual Denny nunca teve. Porem Jack era encantador, mesmo com o seu jeito peculiar, ele era encantador, tinha algo de diferente nele. Entretanto, nada que chamasse a atenção de Denny, ela nunca fora atraída por loiros, não gostava da postura arrogante e metida que eles tinham, e Jack não era nem um pouco diferente.
Ela conhecera muitas pessoas em sua vida – uma das reações de ser imortal – , mas Jack não era nem de longe como uma delas. Denny o conhecia desde pequeno, cuidou do menino, ela conhecia Jack inteiramente, o que ele pensava, que cor que ele gostava, o que ele tomava no café da manha e muitas outras coisas. Um fato estranho já que Jack nunca soube de sua existência e eles nunca trocaram palavras, até agora.
Denny, sem querer, pensava em como seria falar com Jack, depois de tantos anos só observando, mantendo distancia para não chamar atenção. Foram dezessetes anos difíceis, fugindo de monstros sem poder se mudar, morando sozinha em um chalé na floresta, conhecendo poucas pessoas. Contando, somente, com a companhia de Jack, sabendo ele ou não.
Quando finalmente chegaram ao chalé de Denny – que a mesma não teve o trabalho de chamar de lar – olhou em volta para ver se não havia nada suspeito e convidou Jack a entrar. O pequeno chalé azul de Denny não tinha muita decoração, apenas a sua cama desarrumada – já que não teve tempo para se preocupar com arrumações com os acontecimentos da noite passada – uma pequena cozinha com uma bancada velha, um fogão, geladeira caindo aos pedaços e uma pia, tudo em um mesmo cômodo. Havia também uma lareira e uma televisão velha com uma pequena poltrona – o lugar preferido de Denny.
Denny tirou o casaco de Jack e o jogou na cama sem se preocupar com um possível amassado na peça impecável. Ela não teve o trabalho de devolver, Jack havia sugado boa parte de sua energia, não que Denny fosse precisar, mas ficou irritada do mesmo jeito, ela tinha que dar permissão para que pegasse algo que a pertencia. Jack entrou sem jeito no recinto e ficou olhando a decoração, Denny não soube se era de surpresa ou de desapontamento.
– Quer um pouco de chá? – Jack acordou do seu torpor e olhou perdido para Denny – Quer chá ou não?
– Ah sim, quero... Você morou aqui a sua vida toda? – Denny caiu na gargalha ao pensar em tal possibilidade, mas percebeu que Jack não participava de sua piada e decidiu contar a ele.
– Somos imortais, Jack, é impossível ficar em um lugar por muito tempo – Jack ficou boquiaberto e Denny foi para o fogão esquentar o chá.
– Quer dizer que eu vou ficar assim para sempre? – como se fosse efeito, Jack tocou no cabelo, Denny pegou a chaleira e colocou o chá em dois pires pequenos, convidou Jack para sentar na cama e lhe entregou o chá.
– Não reclame, você teve sorte. A Marca não é constante, você pode recebê-la quando muito pequeno ou quando muito jovem.
– Nossa... Eu não aguentaria ser criança para sempre.
– Você não consegue ser nada por muito tempo. – Denny tentou conter a amargura na voz, mas não foi o suficiente, ela conseguiu captar o olhar de pena em Jack. – Você vai se dar bem com isso.
– O que mais eu posso fazer? Quer dizer... A nossa raça, alem de Transfusão de Energia?
– Nós temos... Dons, cada um, ao nascer, recebem o seus dons. E é por isso que eu estou aqui. – Jack fez uma feição desentendida e sorriu. – O que foi? – Denny perguntou, ela não aguentava quando pessoas riam sem ela saber o motivo.
– Você é estranha. – Jack caiu na gargalhada e Denny ficou realmente irritada com a ação do garoto. – Desculpe – Jack tentou se recompor, Denny levantou irritada e foi para perto lareira. – É só que... Eu não espero que você entenda, mas Denny! A minha vida toda eu fui tachado de estranho com problemas mentais, e agora você aparece magicamente e me diz que eu sou um Caçador e fala tão sério sobre essas coisas que chega a ser engraçado.
– Não tem nada de engraçado aqui! – gritou Denny mais severa do que pretendia – Essas coisa são sérias até demais, o que eu estou fazendo aqui, Jack, está colocando a vida das pessoas em perigo, inclusive a minha. Nenhum Caçador deve ter treinamento antes. Então, se você rir novamente eu vou fazer com que isso vire realidade.
– Desculpe – as pálpebras de Jack caíram pesadamente e Denny percebeu que o chá estava fazendo o efeito desejado – O que está acontecendo?
– Você vai me agradecer depois, garoto. – Denny deixou o recinto antes Jack apagar por completo, ela sabia que tinha que fazer isso, não queria que Jack passasse pelo que ela passou, sua missão significava protegê-lo de tudo e de todos, e foi isso que ela fez.
*
Jack
*
Jack acordou desesperado, como se tivesse ficado preso por alguma coisa. Levantou da cama macia com um pulo e lembrou que estava no chalé de Denny. Jack relaxou, depois lembrou que a menina tinha dado algo para ele e se alarmou. Olhou em volta e viu Denny no fogão, com o cabelo preso em um coque desarrumado usando um casaco de moletom com um short jeans. Jack percebeu que ainda estava com a roupa do cemitério e sentiu o bile subir, a lembrança de Lawrence causava uma dor estranha.
– Boa noite. – disse Denny sem olhar para trás, Jack seguiu com passos silenciosos até a bancada e viu, pela pequena janela, que já era noite.
– O que você fez comigo? – perguntou Jack com a voz rouca.
– Te droguei para você dormir. Eu já passei por isso, e eu tenho certeza que se eu não te drogasse você não conseguiria dormir com a imagem de Lawrence sendo morta, agora que você sabe que e verdade, e toda vez que fechasse os olhos veria o monstro indo em sua direção.
Jack percebeu, pelo tom de voz de Denny, que ela falava isso por experiência própria. Jack sabia que ela era imortal, mas se perguntava quantos anos ela tinha, Denny se comportava com autoridade, aquele tipo de autoridade que se tem com os anos. Ela era pequena, mas isso não a impedia de ser mandona e misteriosa, ela era intrigante, e Jack sabia disso.
– Quanto tempo eu dormi?
– Dois dias. – Denny se virou com dois pratos lasanha à bolonhesa, ela tinha um corte na testa que parecia ser letal, com sangue seco.
– Está feio isso ai. – disse Jack sentindo uma fome terrível.
– Com dois Caçadores aqui, chamamos muita atenção dos monstros, quando eu fui pegar roupas para você fui seguida e tive que lutar. Vai se curar daqui a pouco.
– Ah nós temos super cicatrizamento. – Jack esperou pela risada de Denny, mas a menina só começou a comer – Eu tinha que avisar aos meus pais.
– Eu os hipnotizei. Eles acham que você está na casa de Paul. – Jack estava a ponto de descordar quando Denny complementou – Também disse para não ligarem ou irem a casa de Paul e apaguei a mente deles para não saberem que eu fui lá. Satisfeito? Eu sei como fazer as coisas.
– Eu não duvido disso. – Jack não conhecia a Denny, mas ele sabia que não era uma boa jogada irritá-la – Seria péssimo se eu perguntasse quantos anos você tem?
– Seria. – fez-se um silencio até Denny responder – Mais ou menos quinhentos anos, parei de contar depois de um tempo.
Jack quase se engasgou com a lasanha, era impossível pensar que ela era tão velha. Denny era tão linda e tão jovem que pensar que ela já tinha vivido tanta coisa e era tão velha fez Jack ficar realmente surpreso.
– Eu apostaria isso. – Jack novamente esperou algum sorriso de Denny, mas ela estava concentrada em acabar a comida. – Eu posso saber algo sobre a nossa raça agora?
– Antes você vai tomar um banho, esta realmente fedendo.
***
Denny conseguiu pegar uma das camisas preferidas de Jack, vermelha com o símbolo da Grifinória – Harry Potter era um de seus livros preferidos. Botou a calça jeans escura e saiu do pequeno banheiro de Denny. Ela estava sentada na poltrona azul com uma caneca, olhando freneticamente para o fogo que dançava em chamas vividas. Jack sentou na ponta da cama, que ficava perto da poltrona.
– Eu vou te contar só o que você precisa saber. – Denny não esperou a resposta de Jack. – Dentro da nossa raça, existe o que chamamos de Enigmas, são chamados assim porque ninguém sabe de onde eles surgem. Os Enigmas são dons, dons específicos para cada Ordem. Nós temos cinco, mas a nossa história nos diz que houve dons que se extinguiram durante os séculos. Existe a Ordem dos Mágicos, são Caçadores dotados de magia e outros; A Ordem dos Feiticeiros, Caçadores dotados de extrema inteligência, principalmente; A Ordem dos Assassinos, Caçadores que tem como principal dom, matar; A Ordem dos Aventureiros, a minha, somos compelidos a qualquer coisa ou algo que envolve perigo, somos atraídos por isso, e tem os nossos olhos, que não são apenas bonitos; E, por ultimo, a Ordem dos Atiradores, qualquer um que pertence a essa Ordem atira com total precisão. Mas não ache que são apenas esses Enigmas, cada Ordem tem vários outros, mas damos o nome segundo o Enigma que mais se sobressai.
“Há dezessete anos, um amigo meu descobriu que um menino tinha nascido com um dom raro, perdido durante as eras. Ele sabia que esse menino seria alvo do Conselho e do Souverain, então me designou ir atrás do menino e cuidar dele, para que nenhuma infelicidade acontecesse. Porque nós nunca sabemos quem vai virar Caçador, é uma coisa totalmente inconstante, se não tivesse alguém por perto o menino poderia ser morto, como vários Caçadores são. Então eu cuidei do menino, mas sem ele nunca perceber que eu estava lá.”
– Toda a minha vida... – Jack tentou escolher as palavras, mas elas saiam sem seu consentimento – Você esteve lá? – Denny assentiu e tomou o liquido que estava na caneca – Como eu nunca...
– Você percebeu, é claro, mas eu apaguei da sua mente. – Jack se sentiu confuso, massageou a têmporas como se o movimento pudesse trazer a memória de volta, não era uma boa sensação saber que sua memória foi roubada.
– E aí? O plano toma que rumo agora? – disse Jack mais irritado do que deveria, Denny estava tão tranquila, contando a história como uma professora faria, mas Jack não se sentia como um aluno, sentia como se toda a sua vida tivesse sido uma mentira.
– Eu vou te treinar, descobrir qual é a sua arma e te ensinar sobre o nosso mundo. Quando eu achar que está pronto, te levarei para a Espanha, lá, conhecerá outros como nós e a assumirá o papel que foi designado a você desde o seu nascimento.
– Posso saber que papel é esse?
– Liderar a revolução, usando o seu Enigma.
– Que é...? – Denny fez uma careta.
– Eu não sei, eles não quiseram me falar, disseram que eu ia perceber. Mas você não mostrou nada de diferente durante os anos, eu não sei qual pode ser esse tal Enigma.
– Mas as pessoas que estão na Espanha sabem? – Denny assentiu e Jack se deixou cair na cama com a cabeça latejando de tanta informação. – Então eu sou obrigado a ir.
– Não é. A minha missão não inclui te forçar a fazer o que você não quer. Você vai ter que decidir: aceitar o treinamento e ir comigo para a Espanha ou tomar o seu rumo e não saber nada sobre você mesmo. Mas tenha em mente que, se aceitar a primeira opção, você vai ser obrigado a fazer coisas que eu não posso dizer que vão ser boas, mas terá que fazer.
Um estrondo do lado de fora fez Jack pular da cama, ele viu Denny correr até a bancada e abrir um compartimento secreto. Nele havia armas de todo o tipo, Denny pegou uma espada prata de noventa centímetros e uma adaga trabalha em ouro. Ela sorriu ao ouvir um novo estrondo e olhou para Jack, ela tinha uma expressão totalmente assassina.
– Seu treinamento começa agora. Você vai me ajudar a matar o monstro ou vai embora?
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