A Oferta
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Eu sei que já deve ter gente pensando que só escrevo sobre eles, mas o que eu posso fazer? Foram injustiçados até o fim!
Espero que gostem.
Tenham uma boa leitura!
E eu já nem vou mais pedir desculpa pelo tamanho... não consigo escrever oneshots curtas...
— Eu tinha me esquecido como você tem jeito com crianças.
— Isso é uma oferta, Jen? – Ele me respondeu olhando em meus olhos.
De início eu só soube ficar vermelha, mas... e se essa fosse a oportunidade?
A minha resposta a ele, um sorriso e uma frase:
— Não, Jethro, não é.
Logo em seguida fui para minha sala. Mas a pergunta de Jethro ainda pairava no ar.
E se eu dissesse sim?
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Eu tinha me esquecido como você tem jeito com crianças.
Isso é uma oferta, Jen? – Foi tudo o que eu pude responder.
Jen sempre soube que eu gostava de crianças. E o comentário dela não era novidade para mim. Novidade era o sorriso que ela havia dado enquanto observava Zack conversando com DiNozzo.
Eu conhecia vários sorrisos de Jen, e cada um de seus inúmeros significados. Porém aquele era novo para mim.
Não era o sorriso que ela me daria se estivesse considerando a proposta, e muito menos era o sorriso sarcástico que me dizia que ela achava a ideia absurda.
Eu simplesmente não pude decifrar o que ela pensava por trás daquele sorriso.
E isso me consumiu durante o dia, cada vez que eu escutava o clicar de um salto alto eu procurava por ela, e o sorriso ainda estava em seus lábios quando nossos olhares se cruzavam.
Mesmo depois que ela apareceu no meu porão – com um vestido que eu jamais direi a ela que eu tinha gostado – para conversar sobre o caso – sim, é claro que era sobre isso, o tal encontro dela não deveria ser tão importante assim, afinal, ela se dignou a descer no meio da poeira para trocar meia dúzia de palavras comigo, eu ainda não tinha descoberto o que se passava em sua mente.
A única certeza que tinha, ela não tinha encontro nenhum naquela noite.
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Dois dias e muita dor de cabeça depois, finalmente Zack estava reunido com seu pai. Eu não vi o reencontro, mas fiquei sabendo que minutos antes Jethro e o garoto pareciam tão sincronizados enquanto conversavam que quem os olhasse diria que eram pai e filho. Porém, essa magia se perdeu assim que Tony e Ziva chegaram à sala do esquadrão com o Comandante.
Zack correu para o pai, e Jethro ficou observando a cena.
Isso aconteceu há horas, e desde então me pego pensando: como Jethro agiria com uma criança dele?
Até onde sei ele não teve nenhum filho com nenhuma das três ex-esposas. Particularmente acho estranho para quem ama tanto ficar perto de crianças como ele. Mas, afinal, o que eu realmente sei do passado de Jethro, além do fato de que ele tem uma queda por ruivas?
Nada.
E, mesmo assim, ainda me pego pensando na proposta.
Eu realmente me ofereci para ser mãe de algum filho dele naquela hora?
Acho que não.
Acontece que a imaginação é algo muito poderoso. Basta-se plantar a ideia. E logo aquilo te consome com imensos “E se?”
Sim. eu me vi pensando nestas duas palavrinhas nas últimas vinte e quatro horas mais do que seria possível.
E se eu dissesse sim? O que Jethro faria?
A primeira retórica dele seria: “E o não para fora do trabalho, Jen?”. Esse é o meu maior empecilho.
Eu disse não. Quando eu queria dizer sim. Mas o que ele queria que eu respondesse?
Inferno, estávamos no meio de vários outros agentes, funcionários do NCIS, ele estava caçando um terrorista, eu tinha acabado de assumir a Direção! Não tinha como eu dizer sim ali, com tantas testemunhas.
Se ele, ao menos, tivesse me perguntando isso quando estávamos dentro do MTAC à sós... com certeza minha resposta teria sido diferente.
E agora?
O que eu faço?
Porque eu estou muito tentada a parar na frente da mesa dele e dizer: “Sim, Jethro, é uma oferta.”
Com isso eu jogo a bomba no colo dele. Eu dou a oportunidade para ele.
E, silenciosamente, acabo por falar também que no fundo, eu nunca o esqueci.
Não, eu não posso fazer isso! Eu tenho que ter um pouco de amor próprio!
A carta que escrevi foi por amor próprio ou foi por medo? Por medo do que eu sentia – sinto! Que raiva mulher, admite logo! – por ele.
Joguei meus óculos em cima da mesa, esfreguei os olhos. Ainda estava no primeiro relatório que havia aberto logo depois do almoço.
Pensar nele é um atraso de vida!
Olhei para o relógio, 23:45.
Acho que já posso dar o dia por encerrado.
Juntei minhas coisas, vesti meu casaco, nem me dignei a levar nenhum relatório para casa, se aqui eu não trabalhei, não vai ser em casa que eu farei alguma coisa.
Eu só tinha um único objetivo: um banho de banheira e uma garrafa de vinho, para ver se assim eu controlava os pensamentos errantes da minha cabeça que envolviam Jethro, um menino de cabelos castanhos e olhos azuis e a mim.
Eu sou uma besta!
Apaguei as luzes do escritório, fechei a porta e caminhei para as escadas, lá de cima só via a escuridão. Porém, à medida que descia os degraus, notei que tinha uma única mesa iluminada.
A dele.
E o meu lado irracional agiu mais rápido do que eu meu lado racional.
Caminhei até a mesa dele, parando bem na sua frente. Jethro não parecia estar nesse mundo enquanto encarava uma garrafa de alumínio – que vou fingir que não sei que tem Bourbon ali dentro — . Meus saltos denunciaram a minha presença e assim que tomei fôlego ele me encarou, mas não disse nada.
Céus, eu amo aqueles olhos azuis!
Respirei fundo e soltei a bomba:
— Sim, Jethro, é uma oferta.
Saí sem falar mais nada, indo na direção dos elevadores.
Não tive mais notícias dele naquela noite.
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— Mas que diabos foi aquilo? – Fiquei encarando as portas dos elevadores. Eu bem que tentei correr para alcançá-la, mas foi em vão.
Pela primeira vez em tempos, usei as escadas, mas cheguei tarde demais para pará-la. Só vi as luzes do carro se afastando.
O que ela quis dizer com: Sim, Jethro, é uma oferta?
Acho que fiquei tempo demais parado no meio do estacionamento vazio, pois até um dos guardas veio me perguntar se eu precisava de algo.
Entrei no carro e fui direto para a casa dela. Jen teria que se explicar, ela não pode simplesmente soltar uma frase dessas e sair andando como se o mundo a pertencesse.
Cheguei em tempo recorde em Georgetown. Dei uma olhada em volta, vi o detalhamento de segurança patrulhando. Todas as janelas estavam escuras. Ou ela já estava dormindo ou estava no estúdio trabalhando.
Acontece que ela não saiu do NCIS com nenhuma pasta... mas Jen não dorme cedo.
Fiquei pensando se deveria ou não bater na porta da casa dela.
Ali era o melhor lugar, não é?
Acontece que eu perguntaria o que?
O que ela quis dizer com aquela frase?
Ela, com certeza, me responderia com alguma outra frase cheia de palavras grandes e das quais eu não saberia o significado.
Me pus a pensar. Aquilo tinha que ter ligação com alguma coisa.
Foi quando meu cérebro clicou. E tinha.
Eu perguntei se era uma oferta, se ela queria ser mãe dos meus filhos.
Ela disse não, porém tinha um algo a mais. Ela sorriu. Um sorriso que eu não soube decifrar.
Então ela veio com a resposta pronta.
Sim, Jethro, é uma oferta.
Eu não poderia encará-la agora.
Será que ela tem noção do que ela falou?
Não ela não tem.
Será que ela tem noção do que essas palavras significam?
Ela pensou seriamente nisso ou só quer brincar comigo?
O problema é um só.
Eu não consigo mais esquecer a imagem que se formou na minha mente, Jen, uma menina de cabelos vermelhos e olhos verdes e eu.
Olha o que você fez comigo, Jen.
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Achei que ele viria na minha casa e cobraria explicações, fiquei esperando, mas ele não veio. Pude jurar que ouvi aquela caminhonete na rua da minha casa, mas ninguém nunca tocou a campainha.
Dizer que consegui dormi, é mentira. Bastava eu fechar os olhos e eu via Jethro e um garotinho que era a cópia dele.
Comecei a pensar se não tinha feito a coisa errada. Eu sabia tudo o que esse “sim” envolvia.
Envolvia muita coisa que eu deixei para traz em Paris. Envolvia voltar em 99 e reviver todas as emoções que aquela missão me proporcionou. Das mais inebriantes àquela que partiu o meu coração.
Envolvia conversar sobre a carta. Sobre o “Querido Jethro, eu te amo, mas tenho que partir.”
Envolvia muito mais do que ter uma noite ou duas ou várias até que essa criança fosse concebida.
Porque eu não conseguiria ser a mãe do filho dele e deixá-lo livre para conquistar a primeira ruiva com pernas compridas que passasse na frente dele. Eu não conseguiria fazer isso.
Eu não conseguiria vê-lo todos os dias, estar do lado dele em vários momentos e não o ter do meu lado na hora que eu acordasse ou fosse me deitar.
Eu deveria falar para ele esquecer o que eu disse.
Era a coisa certa a se fazer.
Mas por que meu coração se apertou quando eu pensei nisso? Por que só a ideia de ter que abandonar aquele menino me fazia me sentir sufocada?
O que eu fui fazer? Por que eu disse sim?
Me arrumei para o dia, levantei a minha cabeça como se ninguém ou algo pudesse me afetar, me escondi atrás da fachada de diretora e atrás dos meus óculos escuros. Eu que me virasse com o fim do meu sonho de ser mãe.
Sonho que nem sequer eu sabia que tinha até que Jethro plantasse a ideia em minha mente.
Cheguei no prédio, como de praxe, ninguém gostava de dividir o elevador com a Diretora, menos mal. Ainda escondida atrás de meus óculos escuros, respirei fundo e me preparei para encarar cada um dos agentes que eu sei, sempre me mediam dos pés à cabeça, sempre esperando que eu vacilasse para poderem dizer: “Eu avisei, uma mulher não pode dirigir uma agência federal armada!”.
As portas se abriram e eu sustentei os olhares, com a cabeça erguida e passos firmes. Passei pela MCRT, Tony, McGee e Ziva já estavam ali, pelo canto do olho vi que Jethro não estava sentado em sua mesa.
Subi os degraus, tirei os óculos e encarei os meus domínios.
Vocês podem não gostar, mas eu sou a rainha desse lugar. – Era o que eu dizia para cada um que ousava me olhar de volta.
Cynthia já estava em sua mesa e me cumprimentou com o sorriso de sempre. Eu tinha sorte de ter uma assistente tão leal.
Abri a porta de meu escritório e...
Eu deveria imaginar que ele estaria ali, no fim das contas.
— Bom dia, Agente Gibbs! – Cumprimentei assim que fechei a porta.
— Estamos só nós dois, corta a baboseira da diretora, Jen.
— Então, Jethro, o que você quer? – Andei até a minha mesa e deixei minha bolsa.
— Você realmente quis dizer o que disse ontem à noite?
Merda. O que eu poderia dizer agora? Mentir, falar que era uma brincadeira? Não era. Falar a verdade e o que? O que vamos fazer quanto a isso?
Mais uma vez eu não estava pensando direito quando respondi.
— Sim. – A palavra saiu estrangulada, baixa, sussurrada. Como se eu estivesse com vergonha de admitir algo.
Jethro deu dois passos e parou bem na minha frente. Levantou meu rosto para que eu o encarasse. E ali eu não era a Diretora de uma agência federal. Eu era a mulher que tinha fugido do amor da sua vida por medo.
— Você entende a esperança que acabou de me dar?
Olhei no fundo dos seus olhos azuis. E ali eu vi algo que não era esperança. Era dor.
O que tinha acontecido com ele?
— Esperança? – Perguntei.
— Sim. Você realmente está disposta a isso? – Ele saiu da minha frente e encarou o porto.
E a visão do menino preencheu minha mente enquanto eu buscava por uma resposta.
— Sim. Estou. – Minha voz estava firme. Por algum motivo eu não poderia desistir daquele menino.
— Jen... – Ele ainda estava de costas. – Nós vamos precisar conversar.
E aí estava.
— Eu sei... vamos ter que ajeitar muita coisa... vamos... vamos ter que conversar sobre Paris.
— Não é sobre isso.
— Jethro, eu não vou me casar com você por conta disso. Podemos... – Eu não sabia o que falar quando ele me encarou.
— Também não é sobre isso. Eu preciso te contar algo primeiro.
— Sobre?
— Hoje à noite. – Ele falou e saiu, me deixando sozinha e cheia de dúvidas.
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Eu não poderia aceitar essa oferta de Jen sem contar para ela o que realmente aconteceu no meu passado.
Contar sobre Diane e Rebecca foi fácil. Falar do motivo de que eu construo barcos também, mas falar das minhas garotas?
Isso não era fácil.
E eu pedia que ela entendesse o motivo de eu nunca ter falado nada, pois eu já não conseguia não me imaginar com outra menina ao meu lado me chamando de papai.
Por anos eu mantive o luto, tentava seguir em frente, mas quando uma das minhas esposas descobria sobre Shannon e Kelly, eu sabia qual era o próximo passo. O divórcio.
Porém, com Jen, com ela eu não poderia fazer isso. Não por causa do que ela estava me oferecendo.
Era por ela.
Como eu disse quando ela voltou para a minha vida, eu realmente senti falta dela, em todos os sentidos.
É claro que a mente analítica dela iria pular direto para o casamento, iria querer explicar Paris.
Eu não precisava da explicação de Paris. Não quando ela disse sim. Pois esse sim, foi a prova que eu precisava de que todas aquelas palavras eram mentira.
Eu ainda não sabia o motivo dela ter fugido, e nem queria saber.
O que me importava agora era: será que ela entenderia?
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Passei o dia pensando no que Jethro havia dito. O que ele tinha que conversar comigo?
Na pior das hipóteses ele poderia tentar me fazer uma oferta maluca de que ele ficaria com a criança quando ela nascesse. Ou talvez, ele realmente queria saber o motivo por trás de eu ter escrito aquela carta.
A minha única certeza: eu não poderia ir com a cara e a coragem para essa conversa.
O dia passou devagar, como que brincando com a minha paciência e ansiedade.
Às dezoito horas, dei o dia como finalizado. Dessa vez eu realmente tinha trabalhado. Coloquei em meu cérebro que eu precisava me concentrar em algo ou ia acabar com uma úlcera nervosa. Assim, depois do almoço, sem nenhuma interrupção, coloquei meu serviço em dia, obviamente teriam mais relatórios amanhã, mas era o amanhã.
Eu não sabia nem o que esperar desta noite.
Ao chegar em casa, eu ponderei, deveria ir para a casa de Jethro direto, ele viria até aqui? Eu teria que ligar para ele para falar que já estava aqui? Ou ele me ligaria?
Eu parecia uma noiva neurótica.
Resolvi que uma dose de Bourbon poderia me ajudar, mas só de pegar a garrafa meus pensamentos voaram para Jethro. Era melhor beber outra coisa.
O que eu tinha em casa que era tão forte quanto uma dose de Bourbon?
Nada. Vasculhei cada canto e eu não tinha nada. Uma garrafa de vinho tinto era a única bebida alcóolica que tinha de diferente.
Sem isso, parti para segunda coisa que poderia me trazer um pouco de paz.
Chocolate.
Nem me importei em ser educada, peguei a caixa de chocolates belgas que havia comprado na minha última viagem à Europa e me joguei no sofá.
Liguei a televisão só para ter algum barulho dentro daquela casa. Meu celular estava do meu lado e a cada mordida em um dos bombons, eu lançava um olhar para o aparelho.
E nada dele tocar.
Já estava desistindo quando a campainha tocou, me assustando.
Pelo olho mágico vi Jethro e ele tinha uma caixa em suas mãos.
Abri a porta, estranhamente ele não falou nada e eu não tive coragem de dizer nada.
Ele ia em direção ao meu escritório, assim, só me restou puxá-lo pela camisa e indicar a sala de tv.
Ele me olhou interrogativamente, eu dei de ombros.
— Não é uma conversa profissional, Jethro.
Ele assentiu e entrou na sala. Depositando a caixa na mesinha de centro, ao lado da caixa de bombons que já estava pela metade.
Ele me conhecia muito bem para saber que aquela quantidade de açúcar significava que eu estava nervosa, assim, só olhou na minha direção e levantou uma sobrancelha.
— Você deveria imaginar isso, afinal, me deixou no escuro o dia inteiro. – Respondi seca, ao ver o seu olhar.
Ele se sentou. Imitei o gesto, mesmo estando na minha própria casa. Jethro empurrou a caixa na minha direção.
Levantei uma sobrancelha.
— Acho melhor você olhar tudo isso primeiro. – Me respondeu e virou o rosto.
O que tinha ali?
— Você tem certeza? – Minha voz estava baixa.
— Se nós vamos realmente seguir com a sua oferta a diante, você precisa saber disso. – Ele não me olhou ao me responder, e eu tive a impressão de que a voz dele estava embargada.
Agora eu não tinha certeza se eu deveria abrir a caixa, fiquei parada encarando o objeto.
— Jen, eu preciso que você veja o que tem aí dentro. Eu não posso conversar sobre isso. – Para muitos, era somente Jethro, mas em sua voz era perceptível a dor.
Cheguei mais perto da caixa e me ajoelhando no chão a abri.
Pareciam recordações. Álbuns de família.
O que tinha de tão perigoso ali? Fotos de família são inofensivas.
Mas essas não eram.
Quando dei por mim, encarava um Jethro muito mais novo, a data nas fotos, escrita à mão, em uma caligrafia feminina, me dizia que era o fim dos anos 70.
Observei foto por foto.
Um casal radiante, um Jethro que eu não conheci e nunca sequer imaginei, sorria na maioria das fotos. E em uma, meu coração parou.
O olhar apaixonado dele era dirigido para uma ruiva. E ela não era nenhuma das três ex-esposas dele.
Passei por mais algumas fotos, e o Jethro com vinte e poucos anos de idade estava com o traje de gala dos Marines e de mãos dadas com a mesma ruiva, agora vestida de noiva.
Quase me engasguei.
Passei mais algumas páginas, fotos, cartas que ele escreveu para a esposa, agora eu sabia o seu nome, Shannon, era 1981 e ela contava para ele que estava grávida.
Quis parar por ali. Ele fora casado quatro vezes e tinha um filho. Como ele escondeu esse bebê pode tanto tempo? Porém, eu ouvi a voz baixa dele:
— Continue.
Esse álbum acabava com uma foto de Shannon com uma enorme barriga de grávida. A data e a nota embaixo da foto me diziam que era 1982 e ela estava grávida de oito meses.
O álbum seguinte era rosa, cheio de desenho de bonecas e ursinhos e a primeira foto era de um bebê, a segunda, de Jethro com o bebê nos braços, o olhar de adoração dele me deixou sem fôlego.
A legenda da foto: não tem duas semanas e já é a garotinha do papai.
Eu quis gritar, quis chorar, quis perguntar onde elas estavam.
Virei a página, e o retrato da família feliz foi o que vi, era o batizado da bebê, o seu nome, Kelly, Jethro, Shannon com a filha nos braços, um casal ao lado da mãe e um senhor de olhos tão azuis quanto os de Jethro ao lado dele, presumi que era o pai dele.
Avancei no álbum, os primeiros passos de Kelly, a primeira palavra que ela falou, “papai”, Shannon colocou na legenda que tinha carregado a filha por nove meses na barriga para ser trocada antes que ela completasse um ano.
Era uma legenda que me faria rir, se eu não estivesse tão chocada com o que estava vendo.
O segundo álbum terminou e eu peguei o terceiro sem hesitar.
Kelly crescia a cada foto, seus cabelos eram castanhos e olhos azuis iguais aos do pai, e tinha o sorriso sincero e doce da mãe.
Ali estavam as fotos, os primeiros desenhos, a marca da mãozinha dela. Não sei o motivo, mas algo se apertou em meu peito.
Os anos passaram, e os desenhos viraram cartas, a garotinha do papai agora escrevia as suas palavras para ele, e sempre terminavam do mesmo jeito: “eu sinto a sua falta, papai, volta para casa”.
Até que, em junho de 1991, tudo acabou. Não tinha mais nada.
Quis perguntar o que aconteceu, quando meus olhos pousaram em um arquivo do NIS.
Abri, meus olhos, já tão acostumados com arquivos assim, pousaram no nome da vítima.
Era melhor dizer: vítimas.
Shannon Gibbs e Kelly Gibbs.
Comecei a tremer.
Li os demais campos sem acreditar. Até que parei.
Mortas.
As garotas de Jethro foram mortas.
Não quis acreditar. Era demais para mim.
E explicava tanto.
Na caixa ainda tinham mais alguns objetos, não tive coragem de olhar de perto, mas o brilho de duas alianças douradas chamou a minha atenção.
Ele não se divorciou por quatro vezes. Não. Ele perdeu a primeira esposa de forma trágica.
E não só a esposa, a filha também.
Kelly, com oito anos. Tão nova, com tanto para viver, foi tirada desse mundo. Foi tirada do pai que a amava tanto.
Ama. Jethro ainda ama tanto a filha quanto a finada esposa.
Eu não tinha notado que ele tinha saído da sala. Quando dei por mim, tinha um copo de cristal na minha frente. Virei o conteúdo em uma golada e foi só quando coloquei o copo na mesa de centro que notei que minhas mãos estavam molhadas. Eu estava chorando. Chorando pela mãe e filha que foram assassinadas. Chorando por uma criança que eu não conheci, mas tenho a certeza de que era amada e adorada pelos pais. Chorando pela vida que tiraram de Jethro.
E o próprio Jethro estava parado na minha frente, esperando que eu falasse algo.
Mas falar o que?
O que eu tinha para falar que ele não tivesse escutado durante todos esses anos?
Sinto muito não vai aplacar a dor dele.
Olhei para ele. Jethro tinha uma Moranguinho em sua mão.
Como você pôde passar por tudo isso sozinho, Jethro? Era o que eu queria perguntar, mas não podia.
Eu não tinha a mínima ideia do que ele sentia.
O arquivo sobre o assassinato delas ainda estava aberto sobre o sofá, e foi aí que eu consegui ler.
Ele não estava aqui quando isso aconteceu. Estava no Kuwait. Enquanto ele defendia o país, ninguém defendeu as duas. Quanta ironia. Por fim, o que mais me deixou revoltada. O caso ainda estava em aberto.
Nunca foi resolvido por questões burocráticas. O mandante estava no México, vivo, enquanto Jethro tinha perdido tanto. Tinha perdido tudo.
Fechei o arquivo, ainda não tinha parado de chorar, e o guardei na caixa. Fiz o mesmo com os álbuns, um por um, com cuidado. Ali eram as lembranças de um passado feliz. Assim que o último foi para a caixa, a fechei e fiquei parada encarando a televisão na minha frente.
“Você entende a esperança que acabou de me dar?”
As palavras de Jethro só fizeram sentido agora.
É claro que ele se daria bem com crianças, ele era um pai, ele tinha tido a própria menina para brincar, para tomar conta, para amar.
A maneira como ele tratou Zack, o garotinho com uma camisa velha do NIS, lixando o barco com ele. Fico me perguntando se Kelly tinha feito a mesma coisa. Gosto de pensar que sim, que ela usaria uma camisa velha do pai, provavelmente dos Fuzileiros, e ficaria fazendo mais bagunça do que o ajudando. Gosto de pensar que Jethro iria preferir os sorrisos de quem está aprontado de Kelly do que obrigá-la a trabalhar de verdade.
Meu Deus... o que eu fui falar!
Com a caixa fechada, o clima ficou muito mais estranho. Parecia errado tentar dizer algo, quando Jethro ainda parecia perdido no passado.
E pensar que ele não era o único com segredos ali.
Se ele confiou em mim com esse segredo, com o passado dele, nada mais justo do que contar a verdade para ele.
Me levantei de supetão e sai da sala, creio que ele deva ter entendido errado a minha atitude.
— Eu já volto. – Falei.
Corri em meu estúdio, e, depois de destrancar uma das gavetas da escrivaninha, tirei de lá os meus motivos para ter entrado no NCIS, para ter fugido de Jethro em 99 e ter voltado só agora.
Já na sala, fiz o mesmo que ele.
— Aqui. – Entreguei a caixa, que nem de longe era tão grande quanto a dele.
Ele levantou uma sobrancelha e pegou a caixa de madeira desconfiado.
E assim como ele havia feito, eu o deixei ter o tempo dele, porém eu não teria coragem de olhar aquilo tudo de novo.
A caixa foi aberta, e eu voltei em uma noite de sexta-feira, dez anos atrás.
—----------------------
Eu não soube o que se passou na cabeça de Jen enquanto ela via foto por foto, enquanto ela descobria o passado que eu tanto quis superar mas tinha medo de esquecer.
Eu vi quando ela se engasgou quando descobriu sobre o meu primeiro casamento. Vi o momento em que ela descobriu sobre a gravidez de Shannon.
Ela hesitou, e eu a pedi que continuasse.
Então ela abriu o álbum que era dedicado à Kelly.
Não vi suas reações, mas as ouvi. Jenny prendeu a respiração por tanto tempo que eu fiquei com medo de que ela desmaiasse.
E álbum após álbum suas reações eram ouvidas.
Até que ela chegou no último. E ficou pasma quando acabou. Nesse momento eu saí da sala, precisava de uma bebida, e eu sabia que ela também. A última vez que olhei para o seu rosto ela chorava.
Assim que voltei, vi os olhos treinados dela no arquivo do NIS. Ela sabia o que procurar e onde procurar.
Suas mãos tremiam quando ela levou o copo, que eu ofereci, à boca. Com um gole ela tomou todo o conteúdo.
Depois ficou encarando o nada. Olhou para mim, uma, duas, três vezes. Eu dei a ela tempo o suficiente para que ela falasse algo.
Jen não disse uma palavra.
Ela não brigou, não xingou, não me chamou de hipócrita por ter guardado esse segredo por tanto tempo.
Ela não fez nada.
Mais uma vez ela viu o arquivo, acabando de lê-lo e de absorver cada uma das informações que ali tinha.
E a primeira reação depois do choro e da tremura foi o ódio. Seus olhos faiscaram quando suas mãos pousaram nas últimas linhas do relatório escrito por Mike Franks.
Eu sabia o que tinha ali.
Ela fechou o arquivo e começou a guardar cada um dos álbuns com cuidado na caixa. Quando terminou, começou a pensar.
Eu conhecia aquela feição, ela se decidia por algo.
E ela havia tomado uma decisão. E de súbito se levantou e foi para outro lugar.
Como todas as outras ela também iria fugir.
Só que eu estava errado.
— Eu já volto. — Ela me disse.
Conhecendo a casa, e ouvindo seus sapatos fazendo barulho, eu sabia que ela tinha ido até o escritório.
Tomei o último gole da bebida e ela reapareceu.
Tinha uma caixa de madeira na mão, virou a chave que a trancava e me entregou.
— Aqui. — Disse por fim e se sentou no sofá.
Antes de abrir a caixa, dei uma olhada em Jen. Ela encarava a televisão sem ver, os músculos de seus ombros, pescoço e rosto estavam tensos.
Abri a caixa e nada daquilo era o que tinha em mente.
Recortes de jornal sobre o suicídio de um Coronel do Exército, documentos onde diziam que o mesmo era um traidor. Outros tantos de anos atrás, sobre uma investigação. Uma foto de um sujeito que nunca vira, virei-a para ler o nome
Rene Benoit – traficante de armas.
Estava escrito com a letra de Jen.
Voltei para a reportagem do jornal, só então vi o nome do Coronel.
Jasper Shepard.
Em letras menores, debaixo da foto do Coronel, estava escrito.
O Coronel foi encontrado morto, dentro de sua casa, na noite de sexta-feira, por sua filha Jennifer Shepard.
Me atentei para a data. Maio de 1995.
Há mais de dez anos atrás.
Passei os olhos pela reportagem. E uma sigla me chamou a atenção. Voltei ao começo da frase.
O Coronel trabalhava em uma força tarefa envolvendo o Departamento de Defesa, o Conselho de Segurança e o NCIS. E com a ajuda de um informante, estava tentando negociar um acordo com a Rússia.
Outro recorte de jornal, também primeira página, trazia uma história muito diferente.
Quinze dias depois de seu suicídio, vem à tona que Jasper Shepard estava recebendo suborno. Ele utilizava de sua posição como responsável da Força Tarefa para desviar as armas nucleares russas para um traficante de armas, recendo milhares de dólares.
O dinheiro nunca foi encontrado. Porém o Exército e o Departamento de Defesa dos EUA já comunicaram que Shepard já foi desonrado post morten, perdendo todas as condecorações bem como o direito de ser enterrado com honras militares.
Quanto a estas acusações, procuramos a filha do Coronel e única parente viva, que não quis se pronunciar.
Lancei um olhar para Jen, ela continuava impassível olhando para a TV, mantendo-se de costas para mim.
Passei para os demais documentos, eles tinham diferentes tonalidades, alguns papeis já estavam amarelados pelo tempo, outros pareciam mais recentes. Eram pesquisas, Jen vinha cavando, investigando.
Embaixo de todos os documentos, vinha uma espécie de relatório ou diário.
E a letra de Jen estampava as páginas. Ela tinha feito uma linha do tempo, ano após ano da investigação do pai, com nomes e localização de cada um que também se envolveu no casso.
E um nome se destacava. Rene Benoit.
Jen tinha ido a fundo, ou ido até onde as permissões de acesso que ela tinha como agente federal lhe permitia.
Permissões de Acesso. Agente Federal.
E tudo fez sentido.
Ela tinha se tornado uma agente para fazer exatamente isso. Para investigar o suicídio do pai. Talvez não tinha sido suicídio em si.
Tornei olhar no diário, mais algumas páginas, e era possível ler a convicção de Jen em suas palavras.
Papai foi assassinado. E eu vou provar.
Diferentes canetas foram usadas, algumas entradas tinham datas, outras não.
Até que uma me chamou atenção.
Era datada de 1999.
Eu preciso voltar a focar no meu plano de cinco pontos. Eu preciso focar no motivo de ter virado agente federal. Eu preciso limpar o nome do meu pai.
Mas é tão difícil quando eu estou do lado dele. De alguma forma, ele faz com que a dor seja menor, que a vingança não importa.
Teve momentos que eu quis contar para ele, saber o que ele achava de tudo isso. Às vezes eu penso se eu não sou louca de tentar provar a inocência de meu pai, porém eu paro e penso, todos nós cometemos erros, porém esse tipo de erro meu pai não cometeria, não.
Como conciliar o que sinto por Jethro com o que tenho que fazer?
Outra entrada, essa ainda de 1999, de uma data que eu reconhecia bastante. Um dia antes de Jen me deixar.
É isso. Eu não posso voltar para os EUA e perder a minha chance. O nome de Benoit foi mencionado pelos nossos alvos. Ele ainda está na ativa, quatro anos e ele está impune.
Não importa quanto tempo passe, ele vai pagar. Eu vou provar que foi ele quem matou o meu pai.
Espero que a decisão que eu tenha tomado seja a certa. Pois estou sacrificando meu coração por isso.
Espero me perdoar um dia. E espero que, se um dia eu voltar a ver Jethro, ele possa entender também. Eu o amo tanto, tanto, mas eu preciso fazer isso, ou eu nunca vou ter paz.
Torço para não estar errada. Porém, será que serei capaz de viver com a dor de um coração partido?
Jen parecia saber o que eu lia, e saiu da sala. Até onde consegui vê-la, tinha ido para a cozinha.
Passei pelas demais entradas. À medida que as permissões de segurança de Jen vão aumentando, mais ela vai escrevendo. E para cada entrada, tinha um documento correspondente.
Folheei os documentos da caixa, o último era bem recente, parecia ter sido impresso há poucos dias.
Mais uma vez procurei pela entrada.
Era de dois meses atrás.
Inacreditável. Eu encontrei cada uma das pessoas que trabalharam com meu pai em 1995. Eu consegui acesso a todos os documentos sobre aquela operação. Eu achei até o responsável pelo diálogo entre EUA e Rússia.
E ainda não acredito no que fiquei sabendo. No que descobri.
De que adianta ter feito o que fiz, ter lutado o tanto que lutei, ter aberto mão de tanta coisa, para no final não ter nada?
Ou melhor, eu tinha. Eu tinha aquilo que temia.
A Jenny de dez anos atrás estaria chorando sentada no chão abraçada às próprias pernas.
A Jenny de 1999 voltaria correndo para dentro do avião e pediria perdão à Jethro.
A Jenny de hoje se pergunta se valeu à pena.
Não, não valeu. Eu abri mão da minha vida para nada.
De que adianta ter poder, ser considerada por muitos como a mais influente mulher de D.C. se, no final do dia eu volto para uma casa vazia?
Eu fiz o que fiz pelo meu pai. Nunca foi por mim. E agora eu vejo que deveria ter pensado em mim e esquecido tudo.
Eu tenho o mais alto cargo do NCIS, tenho a certeza de que meu pai era corrupto e não tenho mais nada. Eu não tenho nem uma vida.
Parabéns Jennifer, você completou o seu plano de cinco pontos, vai fazer o que agora? Morrer sozinha? Pois você jogou a sua chance de ser feliz pela janela há muito tempo.
Fico me perguntando como ninguém ainda fez a associação entre o corrupto Coronel e a atual Diretora do NCIS...
E se um dia fizerem? O que eu vou dizer?
Sim, ele era meu pai, e era corrupto também. Mas eu não sou assim. Eu só sou burra mesmo.
Grande discurso e grande tiro no pé.
Eu consigo me odiar, às vezes.
E assim terminava o diário. O final da nota era uma transcrição de uma conversa que ela tivera com alguém que parecia estar morrendo de câncer no pulmão.
“Eu e seu pai recebemos o dinheiro. Ele disse que investiria em algum lugar ensolarado, eu voltei para a Rússia e estou morrendo de câncer.
Meu pai está morto.
É o que você está dizendo. Mas ele estava parado, exatamente onde você está, ontem, me ofereceu um cigarro e deu uma risada, dizendo que esperava te encontrar um dia.”
Virei a página, a última frase:
Se um dia ele me procurar, eu mesma dou um tiro na testa dele.
Fechei o diário. Guardei as folhas. Ela ainda não havia voltado.
Jen virou agente do NCIS para limpar o nome do pai dela. Seguiu um plano de cinco pontos até que ela chegasse a uma posição que lhe permitisse acesso total a todos documentos da agência e do Governo. E para isso abriu mão da própria vida, e da própria felicidade, para no final ser confrontada com duas verdades.
O pai não morrera e ele era corrupto.
Pensei em chamá-la, mas como sempre, Jen parecia ler a minha mente, e estava parada na porta, escorada no batente e rosto não muito feliz.
— Espero que você me entenda agora. – Ela pediu.
Apenas meneei a cabeça.
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Era tudo muito confuso, eu mesma ainda não tinha processado tudo aquilo. Ainda tinha coisa ali que eu precisava investigar. E só tinha uma certeza, eu desperdicei um tempo precioso para nada.
Jethro lia e relia o diário. Ele leu meus pensamentos, leu o que eu fiz e porque fiz.
Nossos passados, nossos segredos foram expostos sem filtro nessa noite.
Tínhamos muito o que absorver. Muito o que falar. Muito o que ouvir também.
Difícil era saber dar o primeiro passo.
Tentei ser a corajosa. Se eu havia me declarado em 1999, começar agora não seria tão complicado.
— Espero que você me entenda.
Ele meneou a cabeça, porém não sabia sobre o que ele concordava. Meu pai? Minha fuga? Minha carreira? Meus sentimentos por ele?
Chegamos a uma encruzilhada.
Os parceiros de seis anos atrás estavam cara a cara novamente, porém sem máscaras, sem filtros. Não éramos mais agente e diretora. Não éramos mais o casal movido pela luxúria. Não havia oferta.
Só havia o passado e suas consequências que deixaram marcas profundas em nós dois.
Ele me encarou. E o azul encontrou o verde e eu não soube ler o que se passava ali.
— Precisa pensar? – Perguntei. E, mesmo que minha voz não fosse mais alta do que um sussurro, parecia que eu estava gritando.
— Você também precisa. – Foi a resposta que recebi.
— Eu nunca vou entender a sua dor, Jethro. Nunca. – Falei quando ele se virou para pegar a caixa com as lembranças do primeiro casamento e da filha. – E não te culpo por nunca ter falado nada. Tem coisas que são mais fáceis de suportar quando não se fala em voz alta.
Ele me olhou, desistindo de sair. E eu tomei isso como um continue.
— Mas eu posso te ajudar, posso tentar fazer você ver que existe algo além da dor.
— E você? – Ele me perguntou. – Você fez tudo o que fez para provar um ponto.
— Me arrependo de algumas escolhas que fiz, não do que descobri. – Fui sincera.
— Se arrepende de ter entrado no NCIS?
— Não. Eu teria que fazer algo no fim das contas, e acho que não tenho a paciência necessária para ser advogada no fim das contas. Só tem uma coisa da qual vou sempre me arrepender.
Ele pareceu ponderar e eu tive certeza de que ele se lembrava do que havia lido.
Espero que a decisão que eu tenha tomado seja a certa. Pois estou sacrificando meu coração por isso.
Espero me perdoar um dia. E espero que, se um dia eu voltar a ver Jethro, ele possa entender também. Eu o amo tanto, tanto, mas eu preciso fazer isso, ou eu nunca vou ter paz.
— Você conseguiu achar a paz que procurava Jen?
— Quanto ao meu pai? Sim. Eu achei. Não era o que eu esperava, contudo é o que é. Eu não posso mudar isso.
— O que você pode mudar? – Ele me perguntou.
— Já não está mais nas minhas mãos, Jethro. Eu lancei a sorte ontem à noite. Estou esperando a roleta acabar de girar para saber o que me sobra.
E aqui, toda a noite virou do avesso.
Jethro veio até aqui para me contar sobre o seu passado. Sobre o motivo que ele me pediu para não dar a ele falsas esperanças.
E eu vi as provas, eu soube o motivo por trás de vários atos dele. E eu o aceite. Porque o Jethro que eu conheço, que eu amo, é esse Jethro. E eu posso conviver com as memórias de um passado. Mas não posso conviver com comparações.
Já ele, Jethro jamais esperou que eu jogasse tamanha bomba no colo dele. Talvez, se eu aparecesse com uma certidão de casamento, uma criança ou qualquer outra coisa, ele teria aceitado melhor.
Todavia, era ele o relutante agora.
Ele soube de todos os meus motivos, ele sabia porquê eu fugi, e o que eu fiz ano após ano. Ele sabia que eu tinha usado do meu posto para conseguir informações. Que eu fugira do meu detalhamento de segurança. E que tinha uma grande incógnita na minha vida. E isso poderia aparecer a qualquer momento.
Como eu dissera, era a vez dele. Eu não sairia correndo, não mais, não posso abandoná-lo quando o tenho tão perto. Não tenho mais condições de fazer isso, uma vez fora suficiente.
Sim, eu aceitei a oferta. Ofereci a única coisa que eu ainda tinha.
Será que ele aceitaria apesar de tudo?
—----------------------------
E lá se vão cinco meses desde aquela noite. Jethro depois do que leu e do que eu falei, me deu um beijo na testa e foi embora.
Foi a última vez que ficamos sozinhos fora do escritório. Ele começou a enviar Tony, Ziva e até mesmo McGee para conversar comigo.
No final das contas foi o meu passado, que era um fardo pesado demais entre nós dois, que acabou nos separando.
Não tinha nada o que eu pudesse fazer a não ser observá-lo de longe.
Ele sabia a verdade, toda ela. Nos mínimos detalhes.
Eu estava disposta a tentar de novo, jogar fora o “não” do primeiro dia. Dar a ele tudo o que eu podia.
Mas isso não era o bastante quando os muros caíram.
Queria que a amizade que tínhamos tivesse sobrevivido àquela noite, sobrevivido à oferta. Mas nem isso me sobrou.
Eu estava condenada a voltar para uma casa vazia e a reviver um sonho que agora jamais seria realidade.
Não posso dizer que não tentei, pois eu havia tentado.
A voz de Cynthia me tirou do meu estado contemplativo. Tinha que me apressar, pois tinha um almoço com um senador para ir.
Me preparei para as cantadas veladas e as insinuações de duplo sentido. Tinha horas que eu sentia falta de ser agente de campo e de me permitir esquecer de toda a diplomacia.
Desci as escadas, dei uma olhada e a equipe dele parecia estar no horário de almoço. Mas Jethro estava ali.
Ele acompanhou o meu andar com os olhos, como sempre.
E como sempre eu tentei entender a distância que ele havia tomado, depois da nossa conversa.
Estava esperando as portas do elevador se fecharem quando uma mão as impediu. Jethro entrou, achei um movimento estranho, ele vinha me evitando como se eu fosse a peste, até mesmo os outros agentes repararam.
— Boa tarde, Diretora.
— Agente Gibbs.
E era assim, eu deixei de ser Jen. E ele deixou de ser Jethro.
A viagem foi curta e silenciosa. Nos despedimos com um aceno de cabeça, ele seguiu para o portão principal e eu para meu carro que me esperava.
O almoço durou mais do que a minha paciência poderia aguentar e quando me vi livre do senador e sua trupe de palhaços, achando que poderia ficar com a tarde de sexta-feira livre, encontro o meu motorista morto e uma arma apontando diretamente para a minha testa.
—----------------------
Não era culpa dela, não era. Jen tinha sido muito mais corajosa do que eu imaginara. Ela me mostrou tudo o que fez e os motivos de ter feito. Ela me entregou cada um dos pensamentos dela. E cada uma das emoções. Até que, por fim, ela tinha me dado a última oferta.
Era tudo o que eu queria, porém não poderia aceitar. Mesmo que eu conseguia visualizar toda a cena, cada uma delas, para todas culminarem em uma garotinha ruiva correndo pela casa acompanhada por um pastor alemão.
Acontece que a intensidade dos sentimentos de Jen me fizeram pensar: eu seria capaz de amá-la nessa intensidade? Seria capaz de corresponder ao que ela precisasse? E se, por algum motivo, a garotinha com quem tanto sonho, não fosse ruiva, mas tivesse cabelo castanho? E se ela me lembrasse Kelly? Eu seria capaz de amá-la, mesmo vendo Kelly nela? Eu não sabia a resposta.
Assim, fiz o que eu sabia fazer, eu fui muito bom em afastar cada uma das minhas ex-esposas apenas ficando em silêncio, um dia elas cansaram disso e pediram o divórcio.
Contudo não era assim com Jen, não havia casamento, nós trabalhávamos no mesmo prédio, ela é a minha Chefe, eu a vejo todos os dias, e não consigo não a imaginar grávida. Eu a observava de longe, via ela conversando com cada um dos agentes, Vi ela ficar próxima de Abby, tentar fazer amizade com McGee, impor um pouco de respeito em Tony.
E como eu queria falar algo, queria poder dizer que eu pouco me importava com o aconteceu com a família dela, ela é quem importava. E, por ironia, as palavras da carta que ela me deixou era o que eu usava para me convencer a ficar longe. Eu ficava longe por medo de machucá-la, eu não podia ver Jenny machucada por minha causa. Mesmo que o olhar triste que ela às vezes dirigia a mim, me dizia que eu já tinha feito isso.
Será que ela tinha visto o mesmo que eu? Será que ela nos viu como uma família?
Porém, por mais que eu tentasse ficar longe dela, ainda existia aquela inexplicável atração entre nós. E hoje estava mais forte do que nunca.
Tinha mandado a equipe almoçar, nosso caso tinha uma nova pista e eu não queria DiNozzo ou Ziva reclamando de fome quando fossemos resolvê-lo. Estava sozinho pensando no que havia perdido e havia jogado fora, quando os saltos de Jen chamaram minha atenção.
Ela pode ter mudado um pouco o visual para se encaixar no mundo dos homens, pode ter cortado o cabelo – e eu sentia falta daquele cabelo comprido – podia fingir me ignorar, mas não tinha jeito, às vezes eu só precisava ficar do lado dela.
E ela passou perto da minha mesa, não falou nada, o que ela falaria? E foi para o elevador.
Eu não pensei no que fazia, só fiz o mesmo caminho, as portas estavam quase se fechando quando conseguir entrar. Jen ficou surpresa com o meu movimento, vi isso em seu olhar e se afastou de mim. Mas em um espaço tão pequeno, isso era impossível. Ela mudara o cabelo, o guarda-roupa, mas não o perfume, o mesmo de anos atrás, o mesmo que ainda posso sentir naquele casaco que ela me devolveu.
Ficamos em silêncio, não sei no que ela pensava, mas eu pensava nela. Nela e na nossa criança que nunca existiria.
Nos despedimos com um aceno, eu fui para a cafeteria mais próxima e ela para alguma reunião não sei onde. Bem, eu acho que é uma reunião, depois de tanto tempo sem saber sobre ela, poderia ser um encontro.
Voltei para o escritório para encontrar Tony e Ziva se bicando, voltando no tempo esses dois se parecem em muito comigo e com Jen. Se eles forem inteligentes vão saber o que fazer. McGee como sempre ignorava o barulho e jogava alguma coisa no computador.
— Peguem suas coisas. – Ordenei. E nem assim DiNozzo e David ficaram quietos.
Fomos, fizemos a batida, pegamos as drogas e uma peça chave para a investigação. Que Ziva matou dentro do elevador.
Eu falei para Jen que ela era uma assassina e não uma investigadora. Mas acabei aceitando a israelense por um único motivo. Jen havia me dito que queria que ela aprendesse com o melhor. Bastou um elogio dela para que eu atendesse aos seus desejos, ou ordens, agora são ordens.
Fui direto à sala dela, depois de tanto tempo, era até estranho. Não me importei no que Cynthia dizia, entrei sem bater e ela não estava lá, o escritório estava vazio.
— Eu avisei, Agente Gibbs. – A fiel secretaria me falou com tom jocoso.
— Onde ela está?
— Em um almoço com o Senador Roberts.
— Tem quanto tempo que ela saiu? – Perguntei.
— Mais de duas horas.
Talvez ele fosse mais do que almoço de trabalho.
— Ligue para ela. – Ordenei.
— Agente Gibbs, a Diretora não gosta de ser incomodada quando está em um compromisso.
Peguei o telefone da mesa de Jen e disquei os números que sabia de cabeça.
— Diretora Shepard. – Ela atendeu no terceiro toque.
— Por que demorou para me atender?
— Agente Gibbs. – Ela disse exasperada. – Precisa de alguma coisa?
— Sim, preciso da Diretora no prédio, a assassina do Mossad que ela colocou na minha equipe acabou de matar a minha principal testemunha.
— Infelizmente não poderei te ajudar agora. Estou ocupada.
— Jen... – Era um alerta.
— Jethro eu não posso conversar com você. – Ela me respondeu.
Ouvi um barulho estranho.
— Bem, Jethro, você deveria escutar a Diretora do NCIS. – Uma voz que eu não conhecia tomou as rédeas da ligação.
— Quem é você?
— Você tem algo que quero, eu tenho algo que você quer. Siga as instruções e poderemos conversar mais. – Me alertou e desligou a chamada.
Tinham acabado de sequestrar Jenny.
Assim que desliguei o telefone, pedi para Cynthia o endereço do hotel onde Jenny iria. Ela relutou e só me passou quando eu avisei que ela não teria uma Chefe ao final do dia se não fizesse isso.
Com o endereço na mão, mandei que McGee rastreasse o celular de Jen. Ele me olhou espantado. E só recebeu um tapa na cabeça.
Não deu em nada, o aparelho tinha sido desligado ou estava jogado no meio de alguma avenida.
No hotel não tivemos muito sorte, o motorista de Jen fora morto, no carro não havia nenhuma pista que pudesse nos mostrar quem a havia sequestrado.
A única pista que poderíamos esperar era uma segunda ligação.
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Eu não poderia depender da sorte se quisesse sair viva dali. Me virei como pude, tentei me soltar e fugir, para no final das contas ser presa de novo. Se Dempsey achava que as ameaças dele me fariam tremer, estava errado. Eu já tinha visto coisa pior, encarado situações piores e vivido outras tantas que o fariam chorar.
Ele achava que me tinha como carta de troca, coitado.
— Eu sou como uma ex-esposa para ele. Alguém que ele quer bem longe. – Falei assim que ele disse que Jethro viria correndo me salvar.
A segunda ligação foi feita. Eu teria poucos segundos para dar alguma pista para eles. Sabendo que Ziva tinha matado o irmão de Dempsey, eu teria que ser bem esperta para sair viva dessa.
Dempsey tentou barganhar, pedia coisas impossíveis, o irmão e o carregamento de drogas, em troca pela minha vida.
Como eu estava valendo pouco.
Não sei o que Jethro falou do outro lado, mas o traficante sorriu.
— Converse com a sua equipe. – Ele ordenou.
— Jen, você está bem? Pode me falar alguma coisa? – Jethro me pediu.
E eu falei o que eu sabia que somente ele me entenderia.
— Eu gostaria de ter trazido o meu casaco.
A ligação foi encerrada e eu rezei para Jethro entender a mensagem.
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Eu gostaria de ter trazido o meu casaco.
— O isso quer dizer? – Tony me olhou. – Ela não poderia ter falada nada mais útil?
Me pus a pensar, é claro que Jenny diria algo que parecia inofensivo, mas que no fundo tinha algum significado. Um significado que somente eu entenderia.
Eu gostaria de ter trazido o meu casaco.
De todas as coisas que ela poderia falar, foi justo essa.
Ela estava em algum aeroporto, mas qual.
— McGee pesquise aeroportos onde aviões de pequeno porte estão para decolar nos próximos noventa minutos. – Ordenei.
— Como assim, Chefe? O que tem um aeroporto a ver com o que a Diretora disse? – Tony perguntou.
Fiquei calado, ninguém mais precisava saber sobre isso.
Os dedos de McGee voavam pelo teclado até que ele achou.
— Fairfax.
Era para onde iríamos.
— E o morto?
Eu tinha uma ideia quanto a isso. Mas o meu único objetivo era resgatar Jen com vida.
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Eu já vi Jethro fazer coisas malucas, outras muito além de insanas, porém a de hoje? Um morto no volante? Essa ganhou de muitas.
Por alguma razão eu sabia que ele estaria escondido ali atrás, assim, quando me mandaram abrir aquele porta-malas, eu sabia que teria que ficar fora da linha de tiro.
Depois disso, o restante da tarde foi um borrão. Quando dei por mim, estava no banco do carona, com Jethro dirigindo igual a um doido pela estrada. De tempos em tempos ele olhava para mim, como que se certificando que não havia muitos danos.
Meus pulsos doíam, onde me bateram também, mas meu orgulho estava mais ferido do que meu corpo. Eu havia perdido um agente, Stanley era um excelente agente e ótimo motorista. E discreto, quantas vezes ele me viu chorar no banco de trás e não disse nada, apenas me entregou uma caixa de lenços e papel? Ele não merecia esse fim.
Encarar a paisagem que passava como um borrão era melhor do que pensar no que tinha acontecido ou na pessoa do meu lado. Acontece que eu não consigo não pensar em Jethro e essa proximidade depois de tanto tempo está me fazendo querer perguntar para ele porquê ele se afastou de mim.
— Quando chegarmos no NCIS, quero que Ducky te examine. – Ele falou de uma hora para outra.
— Eu estou bem. Não preciso ser examinada. Tenho que ligar para a família de Stanley, tenho muito mais com o que me preocupar do que com o meu estado.
— Isso não parece bem para mim. – Ele levantou o meu pulso esquerdo para me mostrar e depois o apoiou na minha perna, nem isso – sua mão foi até a minha testa onde tinha um corte e eu tive que me controlar para não reagir ao seu toque,
Fiquei calada, brigar com ele em nada mudaria o que já estava na cabeça dele.
A situação estava tão séria que Jethro parou dentro da garagem de provas e me escoltou até a autópsia, onde Ducky já estava me esperando.
— Jennifer, minha querida, como você está? – Ducky veio ao meu encontro.
— Meu orgulho está mais ferido do que eu. – Falei.
— Mas é claro que sim, e desde quando você não fica remoendo um erro?
Até Ducky me conhecia a esse ponto.
Jethro entrou na autópsia e ficou do meu lado enquanto Ducky limpava os machucados em meu pulso e colocava uma bandagem. Quando ele passou para o corte na testa eu acabei por me encolher assim que o antisséptico entrou em contato com a minha pele. Para a minha total surpresa, Jethro apertou a minha mão, como que me dando forças. Se Ducky notou alguma coisa, ficou com suas opiniões para si.
Não demorou muito e logo o corte fora colado e um adesivo para mantê-lo fechado foi colado na minha testa. Eu estava liberada para ir para casa. E mesmo assim fiquei sentada na mesa de alumínio fria.
Ducky se foi, restando somente Jethro e eu dentro do necrotério.
Eu tinha muito o que falar. Eu sabia onde tinha errado.
— Eu baixei minha guarda, eu sei, não precisa ficar me julgando. E nem venha com o papo de que o trabalho de diretora me deixou devagar, não tinha nenhum indício de que algo estava errado quando abri a porta do carro. E não, eu não estava seguindo a regra #09. Não deixam as pessoas entrarem armadas para um almoço com algum senador, Jethro. E eu estava me saindo muito bem lá, estava quase conseguindo me soltar, não precisava de você ter tido todo esse trabalho para me resgatar... – Estava falando e andando pela autópsia ao mesmo tempo, algo dentro de mim estava, finalmente se encaixando. Eu quase morrera hoje, e a única forma que eu tinha para por para fora esse medo que veio de forma retardada, era brigando comigo mesma, como se Jethro estivesse brigando comigo.
E ele? Bem ele estava parado aonde esteve desde que Ducky tinha começado a me examinar, não tinha mexido um músculo, apenas acompanhava o meu rompante com os olhos.
Parei virada para ele, todo o comprimento da sala nos separando e mesmo a essa distância, eu conseguia me sentir pequena debaixo do seu olhar.
— Não me olhe como se você fosse me repreender. Eu não sou mais a sua novata. – Falei em um tom que não permitia discussões.
— Eu vou te levar para casa, Jen.
— Não posso ir, tenho que avisar a família do Stanley. – Bati o pé e saí da autópsia, achando que o tinha deixado lá.
O elevador nem tinha chegado e ele já estava do meu lado, se assomando sobre mim. E ficou desse jeito, como um guarda costas mesmo quando entrei no meu escritório e estava ao telefone com a viúva de Stanley.
Foram quinze minutos de choro por parte dela, ela ficou desesperada e eu tentava explicar que ela não ficaria desamparada. E, ao fundo, eu pude ouvir o choro de uma criança, meu coração se apertou por ela, não sabia se era menino ou menina, mas não teria mais a companhia do pai. Tudo por minha culpa.
Me despedi da viúva e enterrei meu rosto em minhas mãos.
— Não é sua culpa, Jen. – A voz de Jethro mais perto do que eu estava prevendo. Sua mão segurava delicadamente meu braço. – Vem, está na hora de ir para casa.
Olhei, não sei como, mas minha bolsa estava em minha sala, mas meu casaco estava desaparecido.
Eu não queria ir para uma casa vazia onde os demônios do dia chegariam para me assombrar. Eu preferiria ficar trabalhando até que o cansaço me consumisse e eu apagasse no sofá do meu escritório. Não seria a primeira vez e tinha certeza de que não seria a última.
— Jen, vamos. – Ele me levantou da cadeira, pegou a minha bolsa e com uma mão nas minhas costas saiu me guiando pelo prédio.
No estacionamento, procurei por um dos sedãs do NCIS, mas ele me guiava para a velha pick up. Tinha muito tempo que eu não andava naquele carro, me perguntei se meu par de brinco ainda estava caído em algum lugar daquele carro...
Jethro abriu a porta e me ajudou a subir, depois deu a volta e se sentou atrás do volante. Eu tirei os meus sapatos e coloquei os pés no banco, abraçando as minhas pernas. Eu queria chorar, gritar, falar alguma coisa... mas não conseguia, eu não conseguia por para fora a sensação de ter encarado a morte tão de perto, de novo.
Estranhamente, Gibbs dirigiu devagar, e uma viagem que normalmente com ele ao volante levaria quinze minutos, já estava em trinta e não estávamos na metade. A uma certa altura, ele pegou a minha mão esquerda e a segurou, nossas mãos entrelaçadas em cima do banco.
Olhei para o gesto, a última vez que ele havia feito isso, fora na Europa, aliás, ele só dirigia desse jeito enquanto estávamos lá.
O que significava tudo isso? Depois de meses sem dirigir a palavra a mim a não ser quando estritamente necessário, o que era isso? Remorso? Tentei tirar a minha mão da dele, e ele a segurou com mais força.
Virei meu rosto na direção dele e ele levantou nossas mãos para enxugar uma lágrima no meu rosto, tentei me afastar, isso não faria bem para mim.
— Jen... não.
Não o que? Quis perguntar. Por que de tudo isso?
— Não digo eu! Você não pode fazer isso comigo, Jethro! Não pode fazer isso e depois ignorar a minha existência. – Tomei coragem para falar o que estava engasgado na minha garganta nos últimos cinco meses.
— Regra #51. – Ele falou.
— Às vezes você está errado. – Citei a regra que tinha aprendido. – Eu estou errada? Eu já recitei para você onde eu errei, agora me solta.
— Não. Eu estava errado.
Leroy Jethro Gibbs não admite que errou. Nem se o mundo estiver acabando. E essa resposta foi como se eu tivesse levado um choque.
— Sobre?
Ele parou o carro. Estava em casa. Minha, nada convidativa, casa vazia, escura e fria.
— Você. Eu. A sua oferta.
A oferta... é claro que ele iria dizer isso. Como se eu precisasse de outro motivo para querer me jogar na cama e pedir que o mundo acabasse.
— Bem, agora que você se explicou. Obrigada pela carona, Agente Gibbs. – Soltei a minha mão. – Tenha uma boa-noite. – Me virei de costas para ele e tentei calçar os meus sapatos no escuro.
— Jen, não volte para o seu lado de diretora. Não agora.
— E o que você quer que eu faça, Jethro? Você acaba de jogar na minha cara que se arrepende daquela conversa, da oferta que te fiz. Tudo bem, mensagem entendida, agora me deixe ir. Aqui acaba a Jen e o Jethro. Aqui começa de verdade Diretora Shepard e Agente Gibbs. – Disparei. Eu não sei se ele podia ver, mas eu estava chorando. Era triste encarar o fim.
Jethro segurou a minha mão que estava na maçaneta, me impedindo de abrir a porta.
— Eu estava errado por ter saído naquela noite, Jen. Por ter ficado tanto tempo longe de você.
Ele não estava fazendo sentindo e em um raro descuido dele, abri a porta e desci. Eu devo ter batido a cabeça com mais força do que pensei.
Logo escutei uma porta batendo e por mais que eu apressasse meus passos, ele me alcançou com facilidade, se eu quisesse fugir dele, deveria ter tirado o salto.
Abri a porta e entrei, ele conseguiu entrar logo atrás de mim e me aprisionou entre ele e a porta.
— Me escute, por favor. – Me pediu, as duas mãos no meu rosto.
— Não. Você não vai desfazer a imagem perfeita que eu tenho na minha mente. Isso eu ainda tenho.
— Eu fiz o mesmo que você fez em Paris. Eu saí dessa casa naquela noite por medo. Não tinha certeza se eu poderia te amar na intensidade que eu sei que você me ama, Jen.
Arregalei meus olhos, ele realmente disse que me amava?
— E... e o que mudou?
— Eu quase perdi você, de novo. Por duas vezes hoje eu vislumbrei a hipótese de você indo embora, a primeira quando você mencionou o casaco. Eu vi toda a cena de Paris em câmera lenta novamente. E a segunda quando eu vi Dempsey apontando uma arma para você e vi que você não tinha como se soltar.
Tinha mais ali. Muito mais.
— Eu não posso pensar em te perder em definitivo, Jen. Em não te ver andando pelo NCIS, em não escutar a sua voz. Eu não quero perder a esperança que você me deu.
E aqui voltamos ao início de toda essa bagunça.
— Você está me dizendo...
— Um começo. Um recomeço... como você quiser chamar, Jen. Eu só te peço uma coisa, não me deixe.
— Eu não tenho forças para fazer isso, Jethro. Eu não tenho. – E fiz o que eu deveria ter feito naquele dia no alto daquelas escadas.
Eu não tinha um nome para o que era isso. Recomeço era continuar algo que tivemos, mas nós não éramos os mesmos de Paris. Cada um conhecia os segredos mais profundos do outro. Começo, também não era. Nós não temos um nome, somos nós.
—-----------------
Não passou despercebido para ninguém que algo tinha mudado. Jethro voltou a frequentar a minha sala e a não tratar a minha porta como uma porta, para o desespero de Cynthia. A primeira pessoa que se aproveitou da mudança foi DiNozzo, que abriu uma rodada de apostas para saber quando eu me tornaria a futura ex-esposa #04. Abby, veio logo em seguida, sabendo ser a preferida de Jethro, sempre que podia ela tentava pescar alguma informação com ele, e na grande maioria das vezes ela deixava para falar algo quando eu estava ou perto dos dois ou passando, desde que eu pudesse escutá-los.
Nós dois nos viramos bem em tentar esconder tudo isso. Ficamos bem, sem nenhum alarde por mais de um ano. Sim, escondemos o “nós” de todos no NCIS por todo esse tempo. Até que em uma manhã já não era possível de se esconder.
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— Jen... e então?
Eu estava sentada no chão do banheiro, esperando pacientemente que os exames de gravidez me mostrassem seus resultados. Era a terceira vez que eu estava fazendo isso, nas outras duas não tinha dado em nada e eu vi como Jethro ficou desapontado.
— Quer esperar? – Falei, à toa, ele já estava do meu lado e olhava para os sete testes devidamente enfileirados.
— Quanto tempo?
— Mais dois minutos. – Murmurei. Estava tão ou mais tensa do que ele.
Vi que ele começou a contar os segundos de trás para frente.
— Não faça isso, o contador regressivo do celular vai avisar.
Ele nem se importou com o que falei.
E os resultados foram aparecendo um a um na nossa frente, sete resultados idênticos.
Olhei sem acreditar. Jethro em pegou em um abraço de urso.
— Kelly vai ser irmã mais velha! – Ele sussurrou.
— Sim, ela vai. – Eu tentava conter as emoções, mas estava difícil, então só soube beijá-lo.
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E foi por conta dessa pequena notícia que nós reunimos a equipe mais próxima a nós dois, no meu escritório, depois do expediente.
Todos estavam nervosos, mas quem tinha a maior cara de culpado por qualquer coisa era DiNozzo.
— Há algo acontecendo, minha querida? – Ducky foi o corajoso.
— Sim. Tem. – Eu avisei. – Dentro de alguns meses eu vou ter que me afastar do NCIS.
Abby foi a primeira a reagir.
— Meu Deus. Não me diga que você está doente?
— Não, Abbs, a Jen não está doente. – Jethro respondeu por mim.
A primeira pessoa que fez a ligação entre o que eu havia falado e a posição de Jethro perto de mim foi Ziva e ela imediatamente abriu um sorriso.
Tony percebendo o sorriso da namorada, perguntou o que estava acontecendo.
— Olhe por você mesmo, seu tonto. – Ziva falou e deu um tapa na cabeça dele.
E DiNozzo não percebeu nada. Porém Ducky e Cynthia notaram.
— E essa boa notícia chega quando? – Ducky perguntou.
— Dentro de sete meses, mais ou menos, ainda não sei ao certo. – Falei e não consegui esconder o sorriso.
Abby e Tim fizeram as contas rapidamente.
— EU NÃO ACREDITO! – A saltitante gótica veio pulando nos abraçar. — Eu vou poder mimar esse bebê, não vou? E Tony eu ganhei aquela aposta!
Foi só aí que a ficha de Tony caiu. E o queixo também.
— Um bebê não estava na aposta. A gente só queria saber quando ela... – Ele parou e depois continuou. – Deixa para lá, isso é mais sério do que tudo.
E começaram os abraços de congratulações e uma nova aposta foi aberta.
Era menino ou menina? Com quem se pareceria?
— Gibbs... Jenny... quando é o casamento? Não que se precise estar casado para ter um bebê... eu só acho... – Abby começou de novo. E pela cara dela, creio que ela queria armar uma festa de arromba.
— Se nós precisássemos de algumas testemunhas de última hora... – Eu comecei.
— Eu estou pronta para qualquer coisa! – Abby gritou.
E quem precisa de festa e cerimônia na igreja quando se tem sete pessoas para fazer uma bagunça inimaginável em um cartório?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Sete meses e meio depois, Jen dava entrada na maternidade, parecia até estranho que ela tinha trabalhado o dia todo, andado pela agência toda dando ordens e se informando dos casos e agora estava aqui.
— É muito bom você não surtar, Jethro. Eu estou fazendo o trabalho difícil. – Ela me ameaçou e começou a empurrar.
Duas horas e muitos gritos depois, recebemos nosso filho nesse mundo.
— Eu não disse que era um menino? – Ela falou toda orgulhosa enquanto o segurava pela primeira vez.
— A primeira coisa que vão nos perguntar é que nome escolhemos.
— Isso é problema seu, Jethro. Só não o chamar de Leroy e tudo está bem.
Quando as visitas foram liberadas, Abby entrou igual a um furacão e foi parar do lado de Jen.
— Então? – Ela pulava e eu temi que acordasse nosso filho, mas ele já deveria estar acostumado com ela e sua falação, afinal, passou os nove meses escutando Abbs ir e vir o tempo todo.
— Benjamin, conheça a sua família. – Nós o apresentamos.
Ziva e Jimmy resmungaram algo, Tony abriu um sorriso e foi logo dizendo.
— Pequeno Ben, o tio Tony aqui vai te ensinar tudo o que você precisa saber.
— Já começou errado, Tony... muito errado. – Jenny avisou com um sorriso.
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Depois de tanto temer voltar para uma casa vazia, hoje é até gratificante quando paramos o carro na porta da garagem e vemos as luzes acessas e sombras atrás das cortinas.
— Bem-vinda de volta! – Jethro me deu um beijo antes que entrássemos e fossemos alvo dos dois pequenos furacões que nos esperavam.
Ben, hoje com cinco anos era o mais agitado. Mas se prestássemos atenção, era possível escutar uma vozinha mais fina, exigindo algo.
Desci do carro, peguei minhas malas e bolsas, ali tinha os presentes de todos, duas semanas em uma conferência na Europa e eu trago metade do continente como lembrança.
Assim que fechamos o porta-malas, a porta da frente se abriu e Ben veio correndo nos abraçar. A cópia de Jethro dando as últimas notícias sobre o que estava acontecendo lá dentro.
Na porta, parada ao lado de Ziva estava a menina dos olhos de Jethro, Catherine, com seus dois aninhos, cabelos vermelhos e olhos verdes, nos esperava de pijamas e pantufas.
— Mamãe!! Papai! – Ela gritou assim que nos viu abraçando o irmão. Cath quis acompanhar o irmão, mas Tony a impediu.
— Agora não, pimentinha. Daqui a pouco seus pais vão estar aqui dentro. – Ele falou todo carinhoso.
— Mas tio Tony.... – Ela pediu.
Apressei os passos antes que Tony cedesse ao pedido dela.
Nem bem pisei na porta e tive que me ajoelhar.
— Cadê meu abraço, Moranguinho?
E ela me deu um braço apertado.
— Po que a senhola demolou, mamãe?
— Eu estava trabalhando, filha. Mas estou de volta, e não vou viajar nem tão cedo.
— Acho bom. – Ela disse e me encarou.
Cumprimentei Ziva e Tony que ainda estavam na porta, Abby e Tim estavam jogando algum jogo na TV, e esses eram os padrinhos de nossos filhos, que às vezes são mais crianças do que eles.
Cumprimentei Noemi e Ducky que estavam falando sobre as propriedades de alguma planta.
— O jantar ficará pronto logo, Señora.— Nossa governanta nos informou.
Jantamos todos juntos, Ben fazendo questão de me atualizar sobre o tudo o que ele fazia na escola. Cath tentava acompanhar o raciocínio rápido do irmão, um dia ela conseguiria, mas ainda não era a hora e como ela sabia disso, só fazia um bico e escutava pacientemente.
Depois de entregar os presentes que trouxe – Era uma espécie de Natal antecipado para todo mundo — os adultos da família foram embora e resolvemos assistir a algum desenho com as crianças. Como eu fiquei um tempo fora, os dois resolveram que queriam ficar no meu colo ao mesmo tempo.
— Mas e o papai? – Perguntei.
— Ele já tava aqui. A senhora não. – Ben respondeu simplesmente, sem tirar os olhos da TV.
Cath se sentou entre nós dois, a cabeça ne meu colo e os pés no colo do pai. Com menos de meia hora estava dormindo abraçada ao urso polar que ela tinha ganhado.
Benjamin resistiu um pouco mais, porém não chegou ao final do desenho. Quando notamos que ele estava realmente dormindo, levamos os dois para os quartos.
— Eu sinto falta disso cada vez que tenho que entrar em um avião. – Falei com Jethro quando acabei de ajeitar nosso menino na cama.
— E pode ter a certeza de que os dois sentem a sua falta também. – Ele falou me abraçando.
Ficamos um tempo no quarto de Ben, vendo-o dormir no seu pijama que imitava uma farda.
— Pensar que isso aqui só foi possível depois que te fiz uma oferta. – Murmurei para Jethro.
Ele deu aquele sorriso de lado que tanto amo.
— Fico feliz em saber que pelo menos você sempre teve a coragem de dar o primeiro passo.
— Está admitindo então que isso – apontei meu dedo dele para mim e depois repeti o gesto. – só existe porque eu sou a responsável? – Sorri para ele.
— Não, Jen. Mas se não fosse a sua oferta...
— Nós dois ainda estaríamos brigando pelos corredores do NCIS e cada um naquela agência ainda estaria apostando quando é que iríamos dormir juntos.
— Mais ou menos isso. – Jethro apagou a luz do quarto e me guiou até o nosso. – E só para constar, eu também senti a sua falta, Jen.
— Você falou algo mais ou menos assim quando eu voltei.
— E vou falar cada vez que voltar para casa.
— Olha que assim eu me caso com você! – Brinquei.
— Sinto te decepcionar, Jen, mas você já fez isso.
— Só para você saber, Jethro, eu faria de novo. Eu faria tudo de novo.
E cada palavra era verdade. Se fosse para viver esse presente, eu faria tudo de novo. Porque não existe nada melhor do que voltar para casa depois de um dia de trabalho e saber que sempre serei recebida com um abraço e um beijo das pessoas mais importantes da minha vida.
Notas finais
Honor Code é um dos meus episódios favoritos... A conversa entre Gibbs e Jenny, Gibbs e o pequeno Zack...
Vou parando por aqui. Volta ainda nessa semana com o próximo capítulo de Cartas para Você!
Até lá!
Muito obrigada por lerem!
xoxo
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