“Sol”. Mais que somente o nome de uma estrela, essa é a definição usada, universalmente, à toda e qualquer massa de energia em combustão que queime tão forte, dentro de si mesma, a ponto de causar infinitos e incontáveis feixes de luz, em todas as direções, iluminando todo o éter ao seu redor, assim como toda a galáxia. Um conceito simples, fácil de se lembrar, principalmente quando se está sendo atacado pelas luzes dessa estrela. Não adiantaria muito, em tal situação, usar um pedaço de tecido ou pano velho, que se pudesse arrancar das próprias roupas, para tentar se proteger; o calor continuaria lhe queimando, forçando a sua vista, procurando algum fim no qual repousar. O repouso, entretanto, não seria o fim; o contato dos feixes de calor com o solo, composto de uma pedra tão dura como o feldspato em sua forma mais crua, só faria com que ainda mais temperatura subisse, esgueirando-se pelo ambiente.

Que desgraça”, reflete um pobre homem, atônito, vendo-se seguir o próprio destino por dentro desse cenário. Olhar para a frente o faria encontrar uma estrada mal desenhada por meio ao solo amarelo, quase laranja, cruzando pela horizontal mais ao longe de ponta a ponta. Olhar para os lados — qualquer um deles — não o faria encontrar nada de interessante, além de uma ou outra árvore seca, frita e nascida pela beira da tal estrada, erguida num marrom escuro, refletindo o clima daquela região. Olhar diretamente para cima o cegaria com certeza — mas se ele resolvesse fazer isso defendendo o olhar das luzes do sol com a mão esquerda, ele veria um céu azul, sem nuvens, limpo. Veria, também, a imagem de um outro planeta, bem distante e enorme, tão grande que consumiria, sozinho, mais que a metade de todo o campo de visão do caminhante. Aquela seria uma das vistas mais bonitas que ele já teria contemplado, não fosse a situação precária na qual se encontrava.

Demoraria, quem sabe, mais um ou dois minutos até o viajante começar a se cansar daquela viagem. Foi por puro poder do acaso é que, ao longe, um barulho se tomava em início. Por dentre à estrada mal conduzida, que aparecia-se mais à frente, vinha alguma coisa, bem distante pela direita. O caminhante ergueu um pouco mais o olhar e deu um riso de suspiro. Com olhos afiados como os de uma águia Gaiana, ele podia ver uma maquinaria se aproximando; um compartimento alto, todo feito de ferro ou algum mineral similar, munido de quatro patas, caminhando em alta velocidade, como se fosse um verdadeiro animal. Era natural esperar que estava sendo pilotada por algum Ardroyano. A carroceria selvagem não demorou pra atravessar-se pela estrada e, em pouco tempo, ela já cruzava-se com a imagem do viajante, à beira do protótipo de rodovia, pedindo carona. Haja visto o bom coração do piloto, ela parou.

— Obrigado! — rugiu o homem, em resposta. Uma vez mais próximo à maquinaria, ele não pôde deixar de evitar reparar nos detalhes de sua construção; era realmente feita de ferro, tanto nos braços e pernas quanto no compartimento interno, principal e superior do veiculo. Cada um daqueles membros tinha detalhes finos desenhados, porém já riscados e sofridos pelo tempo. As juntas eram feitas por dentro de estruturas emborrachadas e pretas, num tom pouco mais escuro que o do próprio carro. Enquanto reparava nesses detalhes, o viajante corria, dando a volta pela máquina, subindo enfim pelo pé de apoio ao lado direito.

O caminhante meteu-se por dentro da porta aberta da cabine de controle, chegando-se ao assento de passageiro somente para ver, logo ao seu lado, um Ardroyano de fato. Para um humano, como ele, seria sempre engraçado ver um ser diferente como aquele, de estrutura também humanoide, porém bem menor, com escamas pelo corpo e bico de ave à frente do rosto. Aquele piloto, em específico, vestia-se com rasgos velhos de pano, assim como o próprio viajante.

— Olá. — cumprimentou o homem-ave. Não parecia muito animado, mas era bastante cortês. Ele munia-se, em mãos, de um manche horizontal; tal era o controlador daquele transporte. Cada um dos três dedos de suas mãos eram usados para acionar botões e fazer os braços e pernas da montaria moverem-se. À vista, parecia simples; não era.

— Oi, obrigado de novo... — disse, enquanto tentava se acomodar à poltrona do passageiro, feita num material diferente. Era, com certeza, algo leve, talvez algum tipo de planta ou flor como algodão, pronta para abrigar qualquer Ardroyano que, mesmo que fosse adulto e gordo, mal conseguiria passar dos cinquenta e cinco quilogramas.

— Pode ficar à vontade.

A maquinaria voltou a mover-se. Enquanto seus passos rugiam alto pelo lado de fora, o silêncio reinava pela cabine de comando. O rapaz viajante punha-se a tentar analisar minuciosamente cada centímetro do interior do veículo, ainda que fosse tudo muito simples e liso, sem tantos detalhes. O Ardroyano, ao mesmo tempo, encarava o carona com certo receio, de canto de olho.

— Eu... nem consigo me lembrar quando foi a última vez que vi alguém c0mo você por aqui — disse. — tem algum nome?

— Ted. — respondeu, sorrindo brandamente. — E você?

— Camelo.

— Legal... mas o quê quis dizer exatamente com “alguém como você”?

— Um humano... um Gaiano, não é isso?

Pelos motivos corretos, Ted respirou fundo e quase engoliu seco. Não haveria qualquer outra frase, dita pelo Ardroyano, que lhe pudesse surpreender mais.

— Quer saber quando foi a última vez que vi um... um humano, como você, por aqui?

— Quero.

— Foi quando teve a Revolução das Ostras.

— ... Ah, é? — respondeu Ted, sentindo-se levemente desconcertado. Lembrou-se, sem vontade, desse acontecimento histórico envolvendo todo o planeta de Ardroye; uma guerra massiva à nível nuclear, polarizada por duas nações inconsequentes, movida pela disputa do controle de um território marítimo.

— É... — continuou Camelo, sorrindo. — Eu, por muita sorte, vivia longe de onde foi a matriz de todo o problema... então eu consegui não me envolver nisso.

— Ainda bem, né.

— Sim, com certeza... e depois que as bombas pararam de cair, muitos membros da União fizeram visita ao nosso mundo... vieram prestar ajuda pra gente...

— É... — murmurou o viajante, sem saber muito mais o quê dizer.

— ... Enquanto eles estiveram aqui, algumas histórias começaram a circular por algumas cidades, principalmente aqui em Higurat. — disse o piloto, referindo-se ao nome de sua nação; a terceira maior de Ardroye.

— Histórias?

— Histórias, ahm... boatos, né, eu acho. — corrigiu-se. Ted reposicionou-se sobre a poltrona. — Muita gente começou a falar por aí que, quando as bombas começaram a cair, apareceu, pelo solo, por entre as casas, alguns flashes, borrões de luz. Cada um de uma cor diferente.

— Hmm... Entendi. — disse o homem, sem expressar nenhuma reação específica. Seu olhar permanecia fixo no horizonte distante. Graças à isso ele pôde perceber que, conforme a maquinaria avançava à frente pela estrada, uma pequena floresta começava a aparecer-se pela direita, ao longe. Ele precisaria estudar ainda muito mais para poder entender como é que seria possível uma floresta crescer num meio árido como aquele. Pensou, ainda, sobre como era interessante a forma como a flora formava-se sempre idêntica ou, no mínimo, parecida em todos os mundos, fosse Gaia, Ardroye ou qualquer outro.

— É. Teve gente que até ousou mais, dizendo que, por algum momento, viram formas dentro desses clarões, como se... tivesse alguém dentro deles.

— Que interessante. — disse Ted, ainda reprimindo toda e qualquer expressão em seu rosto. Camelo sorriu novamente, encarando o Gaiano uma vez mais de canto de olho.

— A gente sabe que Gaia fica bem longe daqui, e Zyllia também. Não teria como um de vocês aparecer aqui do nada, sem bons meios pra isso.

— É, né...

— Eu sei que você é um membro da União, agora... aqueles borrões... aquilo eram vocês também? Por acaso você é um deles?

Ted engoliu seco. À tal altura, ele compreendia a sagacidade de Camelo; não teria como esconder nada, nem mentir para ele.

— É. Sou sim. — respondeu, sorrindo.

— Será que, então... de repente eu to te ajudando em alguma missão importante, é isso?

— É, acho que... sim.

— ... É uma honra poder ajudar você... vocês, aliás. — disse. Ted virou o olhar, encontrando os olhos de Camelo. — Eu sinto que... é como se eu estivesse retribuindo um favor.

— Um favor?

— É. Um de vocês, num borrão amarelo, foi quem salvou a vida do meu irmão naquela guerra horrível.

Camelo acabou transmitindo muita emoção e gratidão naquela última frase. Ted sentiu toda aquela energia e, por uma última vez, sorriu de volta ao Ardroyano. Por um momento, desejou ter sido aquele borrão, mas sabia que, se era amarelo, não havia sido ele.

— Nesse caso... essa gratidão que você sente, você pode retribuir em atitudes como essa que você está tendo agora. — respondeu Ted, dizendo mais que três palavras pela primeira vez na conversa. — Dar uma carona pra alguém que precisa. Ajudar com alimentos algum vizinho seu que tenha necessidade... ou seja, ajudar, como puder, todo mundo que estiver perto d-

Enquanto Ted falava, ao longe, nos céus, alguma ave disparava um estampido alto pelo bico. À qualquer Gaiano — ou Ardroyano, ainda — tal canto, apesar de ter vindo em alto volume, não trazia consigo nenhum tipo de significado. Uma das únicas pessoas em todo o Quadrante do Universo que poderia entender o que é que estava acontecendo era Ted. Ele ergueu a mão esquerda, sinalizando que havia interrompido sua fala por algum motivo, e meteu a cabeça por fora da cabine, por meio do buraco que formava a janela, forçando a vista contra a floresta que vinha mais ao longe pela direita. Era possível ver que, ainda mais por detrás daquele bosque, começavam a erguer-se algumas construções, como se fosse ali o início de alguma cidade.

A ave que havia gritado era conhecida como Bigoto. Era similar ao que se conheceria por um grifo; um corpo quadrúpede, de força muscular média, trazendo em si uma cabeça parecida com a de uma águia, porém com um bico mais alongado, e orelhas longas, similares às de um lince. Os bigotos usavam um par de asas, às costas, para poderem voar, e eram a espécie mais veloz entre todas as aves conhecidas de Ardroye. Talvez isso fosse só um efeito psicológico, mas por ser a ave mais difícil de se caçar, era também uma das mais cobiçadas do planeta no quesito culinário. Poucos ardroyanos poderiam dizer já ter comido carne de bigoto; os que podiam, diziam também que é a carne mais deliciosa do mundo. Era como se essa caça fosse uma verdadeira conquista de vida, conquista essa que um seleto grupo de ardroyanos acabava de conseguir.

Em seis, num bando, eles se reuniam, numa parte próxima ao centro daquele pequeno bosque anteriormente avistado por Ted, para contemplar um enorme bigoto amordaçado e amarrado pelas asas e patas. Três deles reuniam-se ao redor da ave, enquanto que os outros três, munidos de armas brancas e facões, ficavam mais distantes, como se fizessem a segurança. Isso era, de fato, necessário; após toda a dor sofrida por conta das guerras, o povo ardroyano havia se tornado mais compassivo. Caça, mesmo para alimentação, já não era tão bem vista publicamente quanto antes, enquanto que tortura — que é o que aconteceria ali a seguir — poderia resultar até mesmo em linchamento.

— Ouvi dizer que a parte mais gostosa é a junta do ombro — dizia um dos ardroyanos, enquanto recebia auxilio dos outros dois próximos para terminar de amarrar o animal. Nenhum deles, fosse os três ali ou os três seguranças, tinha mais que um metro e quarenta de altura. Todos vestiam-se em roupas de couro, em marrom e preto, e os seguranças usavam, adicionalmente, um cinto, no qual prendiam, cada um, uma faca de lamina comprida.

— Fica ainda melhor se for feito na hora, com ele ainda fresco. — continuou um dos outros.

— Fresco? ... Ah, entendi, a gente tira parte por parte enquanto ele ainda ta vivo, é isso?

— Isso aí.

A cada nova palavra dita pelos ardroyanos, o bigoto se desesperava mais. Era como se ele entendesse que não era só a morte que estava por vir — como se entendesse, detalhadamente, cada uma daquelas palavras, o que seria considerado impossível para qualquer animal como ele.

Enquanto aqueles três tratavam de garantir-se que o bigoto estava bem amarrado e que a fogueira, logo ali ao lado, preparava fogo da maneira mais adequada possível, os outros três ardroyanos, postos mais distantes ao redor em posições estratégicas, continuavam a formar segurança. Um deles, assistindo à cena, sorriu, enquanto previa a própria imagem se servindo da deliciosa carne daquela ave. Talvez fosse por isso é que sentiu um pigarro lhe atacar na garganta. Virou o rosto à esquerda, tossindo. Assim que voltou a cabeça à frente, percebeu, de canto de olhos, que um de seus colegas, que deveria estar à direita um pouco mais distante dali, havia sumido.

— ... Zyed? — retrucou o segurança. Levou a mão direita até a região da cintura, onde tinha uma faca amarrada, e portou-se dela, enquanto que os outros, percebendo a situação, levantaram-se e viraram-se todos em direção ao local onde o tal Zyed deveria estar.

O segundo guarda que ainda restava ali, posicionado ao lado oposto daquele espaço, caminhou um pouco pela lateral, ainda próximo às árvores. Houve um barulho muito breve e ele sequer teve capacidade de reagir quando algo surgiu e lhe abduziu de lado, sendo puxado para algum lugar escuro, oculto em meio ao bosque denso. Mal teve tempo de gritar, mas o resto dos ardroyanos conseguiu ouvir o que aconteceu; viraram-se, novamente, somente para perceber que um segundo colega havia sumido.

— Quem é que ta ai!? — gritou o segurança restante, enquanto que os outros três, sem saber muito bem o que fazer, só tentavam, por algum motivo, ficar longe do bigoto.

Soltem a ave.

Tal voz, potente, fluiu com velocidade pelo interior daquele local. O segurança, que era o mais esclarecido entre os quatro ardroyanos que ainda estavam ali, tinha a impressão de ver vultos passando por dentre as copas das árvores.

— ... Como assim? — rugiu, em resposta, um dos outros. — Esse é o nosso almoço !

É verdade; o bigoto seria o almoço daquele grupo de ardroyanos. Essa é a realidade que repousa à natureza de todo e qualquer mundo conhecido — o mais forte devora o mais fraco, torna-se mais forte por conta disso, ajudando a própria espécie a subir na cadeia alimentar. Tal verdade era muito bem conhecida por aquele vulto heroico que corria por dentre as árvores. A única coisa que ele não poderia admitir, fosse ou não permitido pelo Criador, era a tortura e o sadismo que estariam prestes a ocorrer ali naquela situação.

— Soltem a ave. — repetiu a voz.

Antes que algum dos outros precisasse dizer alguma coisa, o segurança restante tomou atitude. Ainda com a faca em mãos, deu alguns passos em direção ao bigoto.

— Você quer que eu solte ele, é isso? — disse. Encarou os olhos da ave pela última vez e ergueu a arma. Com a mais pura intenção assassina, passou a baixá-la, apontada diretamente ao pescoço do bigoto.

Como uma verdadeira aparição do além, uma imagem azul circulou-se pelas árvores e, em um segundo, chegou até o carniceiro, acertando-o com potência. Livrando-se da preocupação de ser visto — preocupação essa que, pelas mais relevantes ordens possíveis, não poderia ser ignorada à toa — a figura parou os movimentos logo após acertar o ardroyano, evitando um choque brusco à ele que lhe pudesse ferir gravemente. O segurança foi jogado para trás de imediato, enquanto que os outros três, ainda totalmente parados, tiveram a visão daquela figura: um ser humanoide, portado numa armadura de cor azul, com inúmeros detalhes tecnológicos, além de um elmo à cabeça, também azul, com uma viseira opaca à frente. O corpo dele brilhava daquela mesma cor, numa pura energia azul que emanava de si.

— O que é isso... — murmurou um dos ardroyanos, dando um passo para trás. Estava assustado, apesar daquela figura azul não trazer uma imagem de malicia.

— Vão embora daqui agora. — disse, referindo-se aos outros três, enquanto virava o rosto para os encarar. Ergueu bem o tronco, estendendo o braço esquerdo até o grupo que o observava, materializando, em sua mão, um dispositivo similar à um telefone celular. Ele tinha um visor e seu design era bem detalhado. — Se continuarem aqui, serão autuados pela Justiça do Quadrante !

A resposta surgiu-se quase de imediato ao soldado azul; o segurança ardroyano, mostrando-se em excelente aptidão física, ergueu-se e, rapidamente, atacou o guerreiro da União na cabeça, usando a faca que tinha em mãos. O resultado não foi feliz para a arma branca, que quebrou-se ao meio quase antes mesmo de atingir o elmo de seu adversário.

— ... O quê... — lamentou-se o guerreiro ardroyano. Congelou-se então, por um instante, percebendo como seu ataque havia falhado de uma maneira tão arbitrária.

Até aquele momento, o único gesto do policial galático havia sido baixar o braço esquerdo, trazendo o dispositivo mais pra perto de si, como se esperasse o ardroyano fazer tudo o que tinha vontade. Ao final de todo aquele caos, justamente para deixar claro a diferença de poder entre eles, tomou controle sobre aquela energia azul ao seu redor, fazendo-a circular-se pela área de seu corpo e, subitamente, expandir-se, acertando o segurança e jogando-o bruscamente para trás, fazendo-o acertar-se numa árvore e cair ao chão inconsciente.

Se fossem um pouco mais imbecis, os três civis teriam ficado ali, parados, encarando aquele soldado azul, mesmo depois daquela demonstração ímpar de poder. Em menos de cinco segundos já não se tinha visão de nenhum deles, tempo esse no qual o patrulheiro, depois de respirar fundo e conter a energia azul ao seu redor, ficou olhando para as copas das árvores. Elas, com certeza, eram um dos maiores milagres do Criador, um presente à todo e qualquer ser vivo que tivesse a felicidade de nascer nos mundos.

Virou-se de frente ao bigoto amarrado e deu um passo em direção dele, para aproximar-se, enquanto seu elmo e o dispositivo em sua mão esquerda sumiam, como fumaça, deixando revelado o rosto de Ted. Ele agachou-se, tomando responsabilidade de livrar a ave daquelas amarras com as próprias mãos, sem feri-la, com calma. Em menos de um minuto o bigoto já estava totalmente livre e, uma vez livre, ele não disparou voo aos céus, como faria praticamente qualquer outra ave desesperada; ele permaneceu ali, em pé, encarando o homem fundo nos olhos como qualquer ser-irmão encararia o próprio Criador.

— Você tá livre agora. — disse Ted. Meteu a mão por cima da cabeça do bigoto, fazendo-lhe um carinho. — Pode ir.

Os olhos da ave brilharam, trazendo consigo uma luz que, por si só, serviu ao soldado como a mais sincera resposta às suas palavras e ações — um agradecimento por ter tido sua vida salva.

— É, eu sei. — continuou o homem. — É, foi ela mesmo que me avisou. Pode ir.

O bigoto baixou levemente a cabeça, num último gesto de agradecimento. Ergueu as asas, virou-se e saltou pelos ares, gozando de toda a liberdade que podia. Enquanto ele subia, um segundo bigoto surgiu próximo à ele — o mesmo que havia gritado momentos atrás — e, juntos, eles seguiram em direção à sabe-se lá onde.

Ted acompanhou aquele casal com o olhar enquanto pôde, até eles sumirem por detrás das árvores. Respirou fundo novamente, enquanto o resto de sua armadura também apagava-se, assim como ocorrido com seu elmo. Deu um chute pelos pedaços de madeira que alimentavam o fogo baixo da fogueira que seria usada para assar o bigoto vivo. Virou-se, encarando o segurança ainda desacordado. Apesar de acabar de ter salvo uma vida, ele não estava verdadeiramente feliz. Era triste, na realidade, o fato de ele ter sido necessário ali, não só porque havia uma vida em risco de tortura, mas também pelo fato de trabalhos como aquele serem responsabilidade de outros colegas seus, que, aparentemente, não estavam fazendo seu trabalho.

Foi como se um tornado subitamente surgisse naquela área; as árvores, de repente, passavam a chacoalhar-se enquanto folhas voavam, carregadas por uma ventania forte. Normalmente qualquer um se surpreenderia ou mesmo se assustaria com aquilo; não Ted. Ele ergueu a cabeça, somente para ver, mais ao alto, uma enorme maquinaria surgindo, pouco a pouco. Era claramente uma nave, estreita e comprida, que não fazia nenhum barulho em seu funcionamento, com um orbe à ponta, na parte de baixo. Ted virou o corpo, ficando de frente à nave, enquanto o orbe emitia uma luz azul em sua direção. Uniu as duas pernas e levou a mão esquerda à cabeça num gesto de continência, como faria qualquer soldado dedicado.

Enquanto Ted era abduzido para dentro daquela nave, ao longe, para fora do início da floresta, Camelo observava aquela cena com um sorriso ao rosto, ainda dentro de sua montaria, parada à beira da rodovia. Se havia, antes, qualquer dúvida em seu coração, naquele momento já não existiria mais: os heróis eram reais. Em algum lugar, por entre os planetas, havia seres-irmão trabalhando pela justiça e pela ordem.