Pinceis foram jogados à mesa, os cabos de madeira dantes lustrosa agora estavam opacos e até lascados, sustentando cerdas meio endurecidas pela tinta mal lavada. Potes coloridos foram distribuídos aleatoriamente, o azul ao lado do verde, o preto paralelo ao roxo, o branco contíguo ao amarelo dentre tantas outras tonalidades escuras e claras.

Um puxão do banquinho para perto da mesa, a escolha bem pensada de um pincel, o mergulho do mesmo em um frasco de tinta e, finalmente, o primeiro toque na escultura.

A atenção aos detalhes dava as mãos à criatividade vívida de Carlos. O par de avelãs profundamente concentradas absorviam a imagem e a faziam dançar pelas curvas de seu cérebro. Seus dedos não eram mais tão ágeis; entrelaçando-se à haste amadeirada, a lentidão graciosa fazia as cerdas ondularem serenas como o mar no crepúsculo. Movimentos repetitivos, porém incansáveis.

Tons frios, neutros e quentes se unindo numa mistura de perversão, horror e drama floreados com um toque de sombria beleza. Beleza esta que somente no canto mais escuro do âmago pode ser tocada como um objeto e sentida feito a mais pura das essências.

Eva tinha a pele marrom arroxeada — pelo menos o que restara. Da cintura para baixo os tons de vermelho predominavam, até mesmo nos ossos expostos da panturrilha. O róseo dos músculos dilacerados, as marcas fundas dos dentes por sobre a carne e a dor incolor de uma vil traição.

Arkus era pálido tanto quanto o luar, nunca se interessara pelo calor dos raios solares. Os olhos carmesins, levemente acastanhados, refletiam a sanha insana que habitava seu interior tão desfigurado quanto sua face. Seus bigodes prateados seguiam a linha que seu sorriso escarninho desenhava. A piada da vez era a imagem deplorável da rainha caída diante de si.

Astrid estava contemplando a cena ao lado de seu novo marido e senhor. As sobrancelhas negras, delineadas, erguidas em sinal de desprezo pareciam ter sido perfeitamente esculpidas para o seu rosto; os lábios curvilíneos, tão rubros quanto o fluido vital o qual Eva derramava em agonia. Seu grande coque ereto feito uma pomposa coroa em sua cabeça com algumas mechas ondulando ao redor de seu esquálido e pérfido semblante. Era o retrato da perfeição, munida de toda a perversidade que um coração inumano seria capaz de carregar.

Carlos podia ouvir os lamentos suplicantes de Eva arranhando seus tímpanos; metade de si ignorava, convencendo-se de que tinha de continuar seu trabalho enquanto sua outra parte desmanchava-se em admiração por aquela tétrica paisagem cuja qual todas as criaturas noturnas, até as mais ameaçadoras, choravam por Eva.

O rapaz observou absorto por profundos e longos minutos seu trabalho concluído. O orgulho pulsava vivo em seu peito, acalorava cada fibra de seu ser, responsáveis pelos músculos que se contraíam num satisfatório sorriso e o canal lacrimal que dava um bonito efeito cristalino em seus olhos.

Era linda a tragédia que brotava de sua mente, era formidável o modo como seus dedos se comunicavam tão perfeitamente com sua imaginação, era sublime... Era poético.... Até irreal!

Seus olhos rodearam o ambiente e por todo o recinto, as criaturas sorriam para aquela obra. Eva, Arkus e Astrid eram bem-vindos àquele mundo, um lugar onde tudo era verdadeiro, onde os piores pesadelos infantis saem de cada fresta gélida das paredes.

Fez um ótimo trabalho!

A sensação de conquista acompanhou o escultor até a cozinha, agora era a melhor hora para se apreciar uma garrafa de cerveja quase trincando. O estalido do gargalo sendo desobstruído era muito relaxante, o primeiro gole frio descendo por sua garganta ressequida era como uma fonte clara brotando no meio de um ardente deserto, o arroto grave fora a consequência daquela moderada degustação.

— Você devia ter mais modos.

Uma voz repreensiva puxou as orelhas de Nunes, virando sua cabeça na direção daquela sonoridade musical que tanto lhe agradava.

Jennifer surgiu da sala de estar, o rapaz notara que aqueles cabelos outrora tão escuros, agora estavam rosados com salpicadas de verde e azul. Carlos nos primeiros segundos pensou que a moça deveria processar a cabeleireira que lhe fizera tal lastimável pintura, porém após poucos instantes, à medida em que aquele corpo esbelto se aproximava lentamente da cozinha, lembrou-se de que quando se é uma professora de um jardim de infância, tais imagens são inquestionáveis.

Seu riso demonstrou passiva aceitação a este novo visual.

— E você devia inovar mais — brincou ele apontando para a cabeça dela. — Que tal um nariz vermelho? Ou uma daquelas flores que soltam jatos d’água?

— Muito engraçado — ironizou a bela oriental revirando os olhos e procurando na geladeira por outra garrafa de cerveja.

O casal sentou-se à mesa, ambos exaustos e propensos a tirarem uma soneca ali mesmo. Mas assim tão cansado, Carlos não podia adormecer, não agora que Jennifer estava ao seu lado.

A mulher sabia abrir uma garrafa com graça e firmeza, bebia goles longos feito um homem e, sem querer, deixou escapar um arroto ainda mais grave que o de Carlos.

— Agora quem é que tem que ter bons modos? — provocou o escultor dando mais uma golada em sua cerveja.

— Não enche!

Era engraçado vê-la zangada, principalmente pelo fato de que Jennifer não era capaz de pronunciar qualquer tipo de palavrão. Desde que se conheceram, Nunes não se lembrava de tê-la ouvido expressar algum descontentamento com um simples foda-se. Era sempre tão contida, apesar de partilhar certas excentricidades com ele, como o fascínio pelo sombrio e o grotesco.

Os olhos puxados agora miravam através do vidro da janela, o rapaz sabia onde aquele olhar estava, pois já o fizera milhares de vezes como se para provocar o artista. A grama do quintal precisava ser cortada, porém havia mais de quatro meses que Carlos não cumpria sua promessa feita após um dia cansativo de trabalho na esperança de Jennifer calar a boca.

— Eu vou cortar a grama — respondeu de modo a revelar sua inquietação diante dos olhares da namorada.

— Ah, tudo bem — consentiu a professora dando mais um gole na bebida.

Nunes percebeu que a moça só estava distraída e, no fundo, sentiu raiva de si mesmo por revelar seu estado de culpa diante de uma tarefa não cumprida. Ela nem estava pensando na grama, realmente não estava, mas agora já era tarde. Havia reforçado sua promessa, não havia como voltar atrás.

— Vai ser logo — avisou.

— Está certo — assentiu ela acenando levemente sua cabeça e provando mais um pouco da bebida, que estava começando a esquentar em meio aquele sofrido calor.

— Eu prometo! — insistiu ele.

Jennifer voltou suas órbitas escuras para as belas avelãs desesperadas de Carlos, mais uma vez pegou sua mão — ambas geladas por segurarem as garrafas — e sorriu amorosamente para aquele homenzinho avoado.

— Querido, não faça promessas das quais não pode cumprir.

— Vá se foder! — retrucou o escultor desenhando um sutil riso no canto de sua boca. Tal traço se aprofundou em um sorriso quando sabia que sua adorada professora não o repreendia pelo palavreado chulo, porém em alguns momentos, não seria ruim ser castigado.

Mais um gole cada um e, no silêncio cansado, Carlos punha-se a admirar a beleza exótica daquela pequena figura à sua frente.

A pele de seu rosto feminino era lisa de modo que, poderia espalmar durante anos uma peça de argila, plastilina ou qualquer outro material e nunca conseguiria a leveza cândida tal qual daquela superfície. O perfume doce que exalava era ainda mais cativante que o aroma de tinta ou até mesmo resina.

Carlos olhava para cada centímetro de Jennifer, cada forma e o jeito que executava tarefas, desde as mais simples como pentear os cabelos até as mais árduas como cuidar da casa, tão alegre e incansável. Ela com toda a certeza era uma escultura viva, contudo, infelizmente não era fruto de seu trabalho.

De volta à garagem, Carlos visualizava um álbum sobre sua mesa. Lá estavam contidas várias de suas incomuns criações, lembranças de convenções e exposições reproduzidas em pedaços de papel. Memórias de seu auge, a época na qual as pessoas adoravam odiá-lo por expor o repugnante diante de seus olhares amansados por mentiras confortáveis. A época em que seus colegas o invejavam por tamanha imaginação, técnica, habilidade e, assim, sentia-se colocado no mais alto dos pedestais.

Para aonde fora este tempo? O que aconteceu com o ídolo adoravelmente odiado? Carlos não compreendia até hoje o que saíra da boca daqueles críticos nefandos cujos quais sem dó nem piedade apontaram seus dedos para a face confusa do artista e friamente o apunhalaram com suas afiadas palavras.

Medíocre!.... Simplório!.... Apelativo!... Leigo!... Desprovido de talento!!!

Seu coração era como um frasco de tinta caído, manchando os traços surreais e pueris de sua assinatura que, até dado momento, tinha a absoluta certeza de que era algo original. Líquido escarlate que pintou seus olhos com tons de ira e sugou cada lucro daquela mente enriquecida, empobrecendo-a.

A decadência veio. Era iminente. Deixou-se levar como um barquinho de papel na enxurrada. Estava perdido. Vazio. Oco feito um vaso sem lindas flores a lhe adornar. Quebrado a ponto de sucumbir ao sedutor soro da verdade, o néctar dos fracassados, como assim passou a chamar.

Materiais desperdiçados na esperança de fazer surgir algo agradável aos gélidos olhos daquele outrora com alma de criança perturbada, porém nada reluzia. Nada tirava o sabor amargo da derrota de sua língua ou calava as vozes zombeteiras que aos seus ouvidos repetiam: Você perdeu!

Você escolheu o vício errado, Carlos. Pegou a mão cuja qual acreditava que o levaria aos céus, mas só contribuiu para que afundasse cada vez mais. Quando algo tão frágil se parte, deixe sofrer! Deixe fugir sem parar! Você não é um pedaço de gesso ou argila, pode ficar inteiro de novo.

E naquela densa escuridão, onde nada podia sobreviver, uma luz tão forte o fez enxergar o caminho de volta para casa. Um par de deslumbrantes ônix reluzindo sobre suas opacas órbitas acastanhadas e a piedade tão aguardada, calorosamente concedida.

Ela fora a ponte que lhe trouxe de volta à vida! O ser magicamente talhado em sonhos apaixonados cujos quais conduzem a imaginação para onde desejar. O anjo sagrado que o fez acender a chama mortiça da crença em seu peito apagado. Ela...

Jennifer foi a melhor coisa que aconteceu em sua vida, tinha de admitir. A adorava e enquanto mirava as personagens femininas que fabricara em toda a sua carreira, sua mente lhe mostrava o óbvio que há tempos não conseguia ou não queria enxergar. Cada rosto lembrava o dela, os narizes pequenos e arredondados, a boca de boneca, os olhos puxados, o corpo diminuto e esbelto. Cada traço era mecanicamente copiado a partir da imagem já criada, a perfeição artística existente e não, não foi ele quem a criara.

Como Carlos adorava odiá-la.

Odiava o fato de que seu sorriso suave não passara por seus dedos ágeis, que a forma curva de seu maxilar não fora previamente desenhada, que a tinta a qual dava vida àqueles olhos sensíveis era impossível de achar. Odiava os movimentos belos e tênues que se punha a executar, nada faria tão magníficos movimentos como aquela escultura cheia de vida fazia. Odiava não ser capaz de produzir tão sublime criação quanto a arte que seus olhos incessantes descascavam.

Eva era Jennifer, tão jovem e inocente, dona de toda a beleza que a noite podia lhe entregar. Astrid era Jennifer, forte e decidida, senhora de seu próprio destino, amante perfeita para se ter por perto e Arkus era Carlos. É claro! Como não havia percebido?

Nunes, o rancoroso homem que não admitia perder, odiando toda e qualquer coisa que estivesse além de suas habilidades, de seus domínios, de seu poder criativo tetricamente fragmentado.

Jennifer, por que tão perfeita? Carlos, por que tão medíocre?