Notas iniciais
Olá pessoal, Essa one faz parte do Desafio Surprise do QG Dramione (quem não conhece o QG e é louco por esse casal maravilhoso precisa conhecer o QG!). Como o QG está comemorando seu primeiro aniversário os temas e datas do desafio dessa vez são surpresa tanto para as leitoras quanto para as autoras (teve muito gente tendo ataques de ansiedade nessa última semana kkkk) Nas notas finais coloco a temática certinha para vocês. Um agradecimento imenso para a Larissa Hyuuga que fez essa capa linda. É a primeira vez que escrevo algo tentando um tom mais de comédia, então se não colar me perdoem amores kkk E tem uma história igualzinha sim no Spirit e não é plágio, meu perfil por lá é Enora ok pessoal? Sem mais delongas. Boa leitura!

Já era quatro de junho! QUATRO DE JUNHO! E nada da bendita entrega chegar, eu não acreditava nisso, só podia ser brincadeira depois de tudo que passei para conseguir cada item daquela maldita lista e agora faltando menos de um dia para o aniversário de Draco e eu ainda não estava com o presente em mãos.

Minha ansiedade me fazia enrolar os cachos nos dedos de forma tão forte que eles facilmente viravam nós que seriam o inferno para serem desfeitos mais tarde, mas eu não me importava, na verdade nem a imensa pilha de relatórios sobre a minha mesa de carvalho me importava, eu só queria aquele presente nas minhas mãos agora.

Eu estava pensando na forma mais rápida de visitar Devlin Whitehorn quando bateram na porta da minha sala.

Respirei profundamente, queria mandar embora quem quer que fosse, mas como Ministra da Magia eu não devia estar sequer pensando em problemas particulares durante meu horário de trabalho, então me acalmei, organizei os papéis sobre a mesa e pedi que entrassem.

Para meu alívio e minha alegria não era nenhum dos meus colegas de trabalho, mas sim meu filho que colocou a cabeça na fresta da porta.

— Posso entrar ou está muito ocupada? — ele perguntou com aquela expressão pidonha que derretia meu coração.

— Entre meu amor, por um milagre estou sozinha hoje. — falei sorrindo para ele.

Scorpius entrou com um andar de filhote de felino pela sala, era gracioso, mas não tão rígido quanto o do pai que teve anos de aulas de etiqueta na infância, coisa que jamais permiti que cogitassem para ele, sua infância foi livre.

— Você parece preocupada mãe o que foi? — ele perguntou com expressão preocupada enquanto sentava deliberadamente sem a menor vergonha na minha mesa e pegava nas minhas mãos.

— Treze anos de idade, um metro e sessenta e cinco de altura e ainda senta na minha mesa como se ela fosse um banquinho, acho que estou te mimando demais rapazinho. — falei cutucando sua barriga no ponto que lhe causava cócegas enquanto fingia dar bronca.

Ele respirou fundo para segurar o riso.

— Aquela cadeira é muito formal para o filho da Ministra da Magia, esse cantinho da mesa já é meu por direito de nascença. — ele falou erguendo o queixo levemente me fazendo lembrar ainda mais o pai dele quando era um mimadinho no nosso tempo escolar, o que me fez rir.

— Certo, certo e cadê o seu inseparável? — perguntei.

— Na sala do tio Harry mãe e nós não somos inseparáveis, cada um tem o seu espaço poxa. Além disso, vim falar sobre aquele assunto com você e não queria o Alvo dando palpite, ele acha que sabe mais de vassouras aos treze anos do que todo mundo. — Scorpius disse revirando os olhos.

E aquela breve tranquilidade se foi. O presente, a maldita vassoura não estava aqui ainda.

— Ela não chegou ainda. — eu disse nervosa.

A minha expressão ansiosa foi refletida no rosto de Scorpius e nesse momento ele se parecia muito mais comigo do que com Draco.

— O velho Whitehorn mandou alguma carta? Por Merlin hoje já é dia quatro! Até tia Gina já terminou todos os preparativos da festa, nós não podemos não ter um presente espetacular para dar pro papai! — ele falou exasperado passando as mãos pelos cabelos loiros.

— Não, ele não me disse mais nada, mas vou aparatar na casa dele assim que meu turno terminar vou buscar essa bendita vassoura pessoalmente, ele tem setenta e sete anos pode ter se esquecido de enviá-la não é mesmo? — eu respondi esperançosa tamborilando os dedos no tampo da mesa.

— Quem esqueceu de enviar o que? — aquela voz suave e sedutora soou pelos meus ouvidos e então desviei o olhar de Scorpius para perceber que Draco estava lindo como um deus grego na porta da minha sala.

— Minerva não me enviou a confirmação se viria ou não para sua festa amanhã. — menti descaradamente e pelo canto dos olhos percebi que Scorpius aprovava minha atuação digna de Oscar.

— Amor, Minerva está muito velha é capaz de nem se lembrar quem somos nós. — ele falou brincando dando-me um beijo na testa.

— Você sabe que não é verdade Draco, a mente dela continua muito lúcida é apenas o corpo que não está acompanhando bem o passar dos anos.

— Eu sei querida, mas seria melhor não se preocupar com isso e não pressioná-la está bem? Se ela não conseguir vir já vai se sentir culpada o bastante. — ele falava enquanto se posicionava atrás da minha cadeira e massageava meus ombros.

— Eu sei Draco, está cada vez mais difícil reunir todos os nossos amigos para uma festa, todos muito ocupados. — falei fazendo um biquinho sincero enquanto cruzava os braços.

— Acho que de todos nós você é a mais ocupada de todas Ministra, deve compreender bem o quanto é difícil organizar todos os compromissos. — meu marido falou enquanto apertava um ponto dolorido no meu ombro direito.

— Realmente mãe, para assistir uma partida de quadribol comigo eu tenho que marcá-la com dois meses de antecedência e mandar Carrie arrancar essa página da sua agenda para que ninguém marque nada com você.

Ri da indignação de Scorpius.

— Não se preocupe meu amor, as datas importantes como sua formatura, sua primeira viagem de intercâmbio, o casamento com a Rose... Todas já estão reservadas para você. — falei me divertindo

Scorpius ficou vermelho de vergonha enquanto eu tinha certeza que Draco estava levantando uma sobrancelha questionadora junto à um sorriso no rosto.

— Às vezes mãe você nem parece a garota mais inteligente da sua geração, não tem nada entre mim e a Rose. — ele falou desviando o olhar para minha janela.

Segurei seu queixo com uma das mãos fazendo-o olhar para mim.

— Seria uma pena se ela percebesse tarde demais a pessoa maravilhosa que você é.

— Mãe, não tem nada para perceber, mesmo porque, se um milagre acontecesse e, sei lá a Rose olhasse para mim o Senhor Weasley jamais deixaria a filha dele namorar comigo.

As mãos de Draco ficaram tensas em meus ombros. Ronald era o único Weasley que Scorpius não tinha proximidade ao ponto de chamar de tio e não era por falta de vontade, quando pequeno ele tentou por muito tempo aproximar-se dele, mas em vão.

Suspirei. Estava prestes à falar algo quando a porta do meu gabinete soou com uma batida apressada e antes que eu pudesse responder Alvo já havia entrado.

— Olá mini Harry. — falei e ele revirou os olhos enquanto a tensão do momento anterior se dissipava.

— Não fale assim tia Mione é estranho! — ele respondeu bufando. — Papai quer saber se Scorpius pode dormir em casa hoje.

— Seu pai? Sei... Parece mais é que vocês estão de aprontação pirralhos. — Draco falou.

— Por favor, tio! Meu pai finalmente comprou um Nintendo Switch com Mario Kart para mim! Se juntarmos o meu e do Scor podemos jogar em cinco pessoas: eu, Scor, Rose, Hugo e Lily! Vai ser a melhor noite do vídeo game de todas! E a bagunça nem vai ser na sua casa dessa vez, por favor!

Alvo havia falado tão rápido que era impossível não rir.

Inclinei a cabeça para cima para falar com Draco.

— Se eles limparem toda a bagunça e Scor estiver amanhã cedo em casa por mim tudo bem, mas é você quem sabe amor, o aniversário amanhã é seu.

Draco olhou para os dois e estreitou os olhos.

— Só se gravarem o Potter jogando Just Dance, a música mais vergonhosa que tiver.

Scorpius irrompeu em risadas.

— Fechou tio Draco, vem Scor precisamos pegar suas coisas e passar no mercado comprar pipoca e chocolate. — falou Alvo animado.

Scorpius deu um beijo no meu rosto e um aceno para o pai e desapareceu atrás do amigo, eu esperava que ele não ficasse pensando na maldita vassoura e aproveitasse a noite.

Draco parou de apertar meus ombros.

— O dia está difícil hoje não é? — ele perguntou.

— Como sabe?

— Nem chegamos no almoço e tem pelo menos cinco nós nos seus cachos, isso é um insulto à minha pessoa.

E dito isso seus dedos se afundaram em meus cabelos me causando um leve arrepio e em seguida com toda a paciência do mundo ele começou a desfazer delicadamente os nós.

— Você não devia estar trabalhando? — perguntei quase dormindo com aquele carinho delicioso.

— Sim, mas como meu próprio chefe eu achei que seria muito motivador para meu único funcionário ir visitar sua esposa, já que ele mal a está vendo nos últimos dias.

Levantei-me da cadeira e contornei-a ficando de frente com ele. Enlacei meus braços ao redor do seu pescoço e olhei em seus olhos.

— Me desculpe, sei que estou desaparecida de casa e quase não vejo vocês dois, mas já que Scorpius não vai estar em casa hoje que tal um jantar? — perguntei mordendo o lábio inferior.

— Se pudermos começar a noite na cama e terminarmos nela para mim nem precisa da comida. — ele falou malicioso e bati em seu peito. — Está bem, está bem, vamos fazer os ritos civilizados, comida primeiro, sexo depois. Eu cozinho.

— Esse é um fato que sempre me surpreendeu, você cozinhar bem e ainda ter aprendido a cozinhar por minha causa.

— Você cozinha bem, então o mínimo que tenho que fazer é acompanhá-la e como você não tem tempo para cozinhar alguém tem que empurrar os legumes e vegetais pro prato do Scorpius.

Ri daquilo.

— Não ria, lembra o quanto ele detestava brócolis e couve-flor?

— Lembro, até você começar a fazê-los gratinados e virarem o almoço de todo domingo por meses.

Dessa vez foi ele quem riu e o mundo parecia mais incrível nesse momento.

— Então nos vemos no jantar? — ele perguntou me beijando.

— Infelizmente só no jantar, mas vou tentar chegar mais cedo.

— Combinado.

E com um último e longo beijo ele se despediu e se foi.

Sorri como boba em minha cadeira, às vezes nossa vida parecia boa demais para ser real.

Revisei alguns relatórios e pedi para entregarem comida chinesa no meu escritório na hora do almoço para não ter que sair de lá.

Adiantei todo o meu trabalho para sair uma hora mais cedo e me encontrar com o Senhor Whitehorn.

Quando a Firebolt assumiu o mercado das vassouras de ponta, Draco continuou apaixonado pelos modelos Nimbus (sua 2001 continuava guardada em casa em uma caixa própria e aveludada) e ele dizia que a Firebolt podia ser rápida, mas não chegava aos pés da elegância de uma Nimbus. Ele era tão apaixonado pelo modelo que comprou a Companhia Nimbus de Vassouras de Corrida quando Devlin se aposentou e tornou-a uma empresa artesanal com um volume pequeno de venda de todos os modelos para colecionadores como ele.

Então era óbvio que eu pedi ao nosso amigo que desenhasse uma última vassoura, uma Nimbus feita para Draco sem limitações financeiras comerciais, o melhor que a imaginação dele pudesse alcançar.

Devlin demorou dois meses para concluir o projeto e montar a lista do que precisaria para fazer a vassoura:

* uma tora de madeira de ágar com pelo menos 170 cm de comprimento e 30 cm de espessura;

* meio quilo de platina que seria enviado à um duende amigo dele ferreiro talentoso, mas careiro ele já avisava;

* hastes de lunita (um capim de cor prata que cresce as margens do Rio da Parta), pelo menos três mil com 50 cm de comprimento;

Tantas coisas praticamente impossíveis de se conseguir!

A madeira de ágar além de caríssima por ser usada para incensos e perfumaria, tinha o problema que as árvores legalmente comercializadas (aquelas cultivadas para venda) são todas jovens ainda então a extração da madeira mofada (a que realmente é boa) de um pedaço tão grande era quase impossível.

Visitei um produtor com Scor e quando encontramos uma árvore de trinta anos já ficando robusta encantamos ela para crescer mais até atingir o tamanho que precisávamos.

O produtor ficou encantado em como uma de suas árvores havia crescido tanto em apenas trinta anos, eu e Scorpius estávamos muito felizes até ele dizer que não queria vender a madeira daquele belo espécime.

Eu já estava prestes a fazer crescer a floresta inteira do trouxa para ele desapegar daquela árvore, mas Scorpius como um perfeito Malfoy apenas dobrou o preço original oferecido pela madeira e o homem rapidamente mudou de ideia. Saímos de lá com aquela tora perfumada e leve e um sorriso enorme para levarmos para Devlin cujo os olhos brilhavam diante daquela maravilha de madeira.

A platina foi fácil de conseguir assim como o ferreiro, apenas custaram umas duas vezes o preço da casa em que morávamos. Acho que essa era a única vez na minha vida que eu gastava dinheiro de forma tão rápida em quantias tão altas.

Mas a armação de platina ficou linda e as runas nela eram desenhadas de forma graciosa, além de conter lindos arabescos. Como cortesia, já que havia sobrado um punhado de platina o duende ainda fez um anel para Scor em forma de serpente e uma pulseira de estrelas para mim que não tiramos desde então.

A maldita lunita fora o diabo para ser colhida. Scorpius disse para Draco que ficaria em Hogwarts por causa de uma prova na segunda e eu inventei uma viagem urgente do Ministério. Viajamos para o sul do Uruguai onde se formava o estuário do Rio da Prata para encontrar a tal lunita. O primeiro dia de procura foi em vão, não avistamos uma única planta que batesse com a descrição que encontrei nos livros de herbologia de Neville. Voltamos para o hotel com frio e encharcados, prontos para cair na cama exaustos, mas antes tínhamos que comer algo afinal Scorpius ainda estava em fase de crescimento.

Foi durante o jantar que conhecemos um senhor que quando jovem era coletor de lunita. Ele nos contou que a planta fica invisível à luz da lua e durante o dia a planta se esconde no solo e que só é visível em noites de lua nova, por isso não havíamos visto nada afinal estávamos em lua cheia.

Eu já estava conformada que teríamos que voltar em outro fim de semana, mas domingo amanheceu com o céu pesado de nuvens e apostei tudo ficando até de noite para ver se as nuvens seriam suficientes para cobrir os raios lunares e revelar a maldita planta. Fui recompensada com um céu sem lua ou estrelas. Eu e Scorpius colhemos as três mil hastes de madrugada com ajuda de lanternas, fiquei com as mãos doloridas por dois dias, mas a planta prateada era maravilhosa, parecia a antítese do capim-dourado brasileiro.

Pensar em todo o trabalho que eu e Scor tínhamos tido me deixava mais possessa. Eu queria aquela vassoura.

Depois de subir a colina até a casa de Devlin bati apressada na porta que prontamente foi atendida.

— Oh Hermione! Finalmente você veio, achei que não conseguiria o último item antes do grande dia. — Devlin falava animado enquanto abria passagem para me deixar entrar.

Meu coração parou.

— Último item? Que último item Devlin? Trouxemos os três itens que pediu: madeira de ágar, platina trabalhada por duende e hastes de lunita. — eu falei nervosa despejando as palavras.

O senhor começou a ficar vermelho e envergonhado.

— Eu acho que esqueci de mencionar um último item. — ele falou encabulado.

Caí desapontada no sofá. Menos de um dia para o aniversário de Draco e a vassoura não estava pronta.

— Do que precisa? Eu consigo, mas dá tempo de inserir na vassoura tão em cima da hora?

— Sim, sim, dá, preciso de um coração para essa vassoura. — ele falou acenando a varinha e um gigantesco atlas veio voando de sua prateleira. — Preciso de uma pérola de 15 cm de diâmetro.

Meu queixo caiu, o que ele queria era impossível.

— Devlin pérolas desse tamanho não existem e mesmo se existissem seriam pesadas demais para por em uma vassoura.

— Correção querida. — ele falou erguendo o dedo e então marcando com a varinha no atlas uma região do Taiti. — Elas não existem naturalmente, mas em meados de 1900 um bruxo estava fazendo uso do Feitiço Engorgio para criar as maiores ostras e consequentemente as maiores pérolas do mundo no Taiti, em uma área distante da capital Papete, o negócio não deu certo porque as ostras passaram a comer os coletores de pérolas, já se passaram cem anos, você com certeza vai encontrar pérolas de 15 cm ou mais nesse lugar.

Respirei fundo. Draco merecia essa maldita vassoura não merecia?

— Preciso de uma foto desse criadouro para aparatar lá, me passe o nome da localidade mais próxima que vou procurar na internet.

— Aqui está. — ele mostrou a marcação no mapa.

Memorizei bem o local mais próximo e depois de achar um bom ponto daquela ilha aparatei.

O vento quente e a umidade local logo fizeram minhas roupas de frio ficarem insuportáveis.

Tirei todas as peças até restar apenas a calça social e uma blusinha.

Olhei para o mar revolto e escuro enquanto conjurava o feitiço cabeça de bolha e um para equilibrar pressão interna e externa, eu não queria morrer de embolia ou algo pior e por fim peguei a mochila que eu trouxera comigo.

Quando comecei a nadar e meus pelos se arrepiaram usei lumos para enxergar o caminho.

O oceano estava calmo, mas meu medo de ser devorada por alguma criatura marinha era crescente.

Mas por alguma razão aquelas águas tropicais estavam vazias de grandes ou pequenos habitantes e eu desconfiava que sabia o motivo.

Fui cada vez mais fundo até chegar ao leito rochoso do mar. Meu cabelo flutuava como fios de seda ao meu redor e me impediam de ver muito bem.

Gastei vários minutos até encontrar uma colônia das tais ostras gigantes: eram maiores que uma caminhonete com cabine dupla e tão sólidas quanto as rochas ao seu redor.

Agora eu tinha outro problema: como abri-las? Normalmente se usava uma faca, mas para uma ostra desse tamanho? Nem espadas serviriam.

Eu estava desesperada, como abriria um monstro desses?

Foi quando as próprias ostras responderam: a mais próxima abriu uma pequena entrada para filtrar alimentos na água, era minha chance.

Sem pensar nas consequências me enfiei por aquele vão forçando minha entrada com braços e pernas e caí em um muco nojento dentro do molusco.

Mesmo com luz era difícil enxergar mais que alguns centímetros à frente.

Comecei a rastejar sobre a carne esmaecida do animal em busca da pérola enquanto evitava sua boca para a qual convergia o fluxo de água, mas nada de achar o que eu queria.

Coberta de um muco fétido e me sentindo incrivelmente nojenta, foi assim que me espremi para fora da primeira ostra.

Eu me sentia um pedaço de carne mastigado e cuspido fora, era horrível.

Eu queria minha casa, um banho, minha cama e ficar apoiada no peito de Draco enquanto ele brincava com meus dedos.

Draco. Amanhã era aniversário do Draco e eu não podia não dar essa vassoura para ele, não depois de tudo que eu e Scorpius passamos.

Foi com esse pensamento que me encaminhei para a segunda, a terceira e tantas outras ostras que encontrei e nenhuma pérola.

Eu estava cambaleando sem ter noção de em qual ostra eu entraria quando eu a vi.

Ela era maior que as outras e estava presa no beiral de um precipício com uma aparência nefasta de quem realmente devorava pessoas como vingança pelas primas dela serem servidas em restaurantes de frutos do mar.

Eu jamais cogitaria entrar nela, mas quando a fenda de filtração dela se abriu eu percebi algo brilhando de volta a luz da minha varinha: só podia ser uma pérola, a pérola que eu precisava.

Juntei toda a determinação e coragem grifinora que havia em mim e entrei na ostra colossal.

O muco dela era muito espesso, parecia uma mistura de cola tudo, catarro e algo que eu jamais saberia descrever.

Cada centímetro que eu vasculhava fazia meus músculos queimarem pelo esforço era como nadar em cimento. Minha máscara de bolha de ar estava tão comprimida contra meu rosto que era capaz de me sufocar em poucos segundos se eu não tomasse cuidado.

Mas passado alguns minutos eu a toquei. Uma superfície lisa e esférica, gelada contra meus dedos, a pérola.

Usei as duas mãos e aninhei-a em meu corpo. Estava comigo! Eu quase chorava de alegria quando percebi algo estranho.

A ostra estava ingurgitando suco gástrico. Eu estava causando azia na maldita ostra! Ela estava me digerindo.

Grunhi em frustração quando senti um formigamento no meu corpo, o ácido estava começando a digerir minha roupa.

Rastejei até a abertura, mas estava fechada! Ela estava passando mal e fechou a concha.

A solução era óbvia: eu precisava ser vomitada pela ostra.

Apoiei minhas costas na abertura empurrando-a, dessa forma assim que ela abrisse uma brecha eu sentiria.

Mirei a região de onde todo aquele suco gástrico vinha e rezei para que não estivesse errando a mira pela falta de luz e então lancei um bombarda.

Jamais na minha vida vou saber descrever o que foi ser vomitada por um molusco gigante junto com suco gástrico, muco fétido, bolos de alga semidigerida e outras coisas que eu não sabia identificar.

Quando já estava livre no mar guardei a pérola na mochila que eu trouxera comigo e comecei a fazer o que eu tinha vontade desde que chegara ali: encolhi todas as ostras gigantes até seus tamanhos naturais.

Agora ninguém mais viria incomodá-las e elas não comeriam mais ninguém.

Nadei de volta para a ilha exausta e me joguei na areia me empanando com ela.

Agora que estava fora da água a pérola me parecia extremamente pesada, uns cinco quilos pelo menos, como uma vassoura poderia ter uma pérola pesada desse jeito? Isso era problema para Devlin resolver.

Olhei para o céu que estava cinzento, logo o raiar do dia viria e estaríamos oficialmente no dia cinco, não havia tempo para descansar.

Peguei meu sobretudo e enrolei sobre os farrapos encharcados que eram minhas roupas e aparatei.

Devlin estava tomando uma xícara de chá quando cheguei.

— Você é mesmo incrível Hermione, nunca soube de alguém que conseguiu uma pérola dessas em tão pouco tempo e ainda voltou inteiro. — ele falou levantando-se e cedendo um espaço em seu sofá para mim.

— Como sabe que eu consegui? — perguntei erguendo uma sobrancelha.

— Você não voltaria antes de ter conseguido. Deixe-me ver.

Quando tirei a pérola da bolsa ambos tomamos um susto: era uma gigantesca pérola negra com uma superfície sem listras.

— Minha nossa, você está segurando uma fortuna em mãos Hermione, essa pérola deve valer quase duzentos milhões de galeões! — Devlin me disse assustado com a raridade do eu havia encontrado.

— Isso não importa, coloque-a na vassoura, aliás, ainda precisa me explicar para que precisava dela e espero que seja muito importante, porque céus eu vou ter traumas com moluscos por muito tempo.

Ele riu tanto que eu quase lhe dei um tapa por se divertir com a minha desgraça.

— Ela vai ser o coração da vassoura. Veja bem, os encantamentos de voo geralmente são aplicados na madeira então quando esta se parte a vassoura morre. Essa Nimbus vai ter seu encantamento incrustado nas camadas de nácar dessa pérola e ela irá liberá-la para a madeira de ágar quando necessário quase como se fosse um motor. Se um dia o cabo for quebrado ele poderá ser substituído e a vassoura ainda será a mesma graças a essa preciosidade. Essa vassoura vai ser uma herança de família das mais incríveis pode ter certeza disso Hermione.

Um sorriso aliviado escapou de mim. Devlin era um gênio e meu esforço não havia sido em vão. A vontade de bater nele por me fazer passar tudo aquilo quase tinha passado.

Enquanto Devlin terminava a vassoura acabei adormecendo em seu sofá. Somente uma hora depois fui despertada com a Nimbus de Draco já embalada para presente.

— Quero que a veja com ele, para ser uma surpresa. — ele falava e seus olhos brilhavam.

Abracei e agradeci nosso amigo e enfim pude ir para casa.

Eu já havia bolado um plano: tomar um banho no quarto de hóspedes no térreo, entrar sorrateira no nosso quarto sem acordar Draco, pegar roupas e maquiagem, me arrumar, buscar Scor nos Potter, fazer o café da manhã e então presentearmos Draco.

Só que assim que eu coloquei meus pés dentro de casa meu plano foi por água abaixo.

Lembrei algo importante: eu havia me esquecido do jantar com Draco. Completamente.

Como resultado na sala de estar da minha casa eu podia ouvir várias vozes familiares conversando alteradas.

— Draco você tem certeza que a Hermione não foi atender alguma ocorrência urgente? — Harry perguntava para meu marido.

— Ela teria mandado uma carta, um memorando, uma sms! Nada Harry, minha esposa saiu cedo do trabalho e não conseguiu chegar em casa, dispare o maldito alerta precisamos achar a Hermione! — Draco esbravejava.

— Tio Harry você é o Chefe do Departamento de Aurores, tem que salvar minha mãe! Ela além de sua amiga é a Ministra! — Scorpius engrossava o coro de seu pai.

— Rapazes se Harry lançar esse alerta todo o Ministério vai ficar abalado. — Gina tentava controlar a situação.

— Eu não ligo para o Ministério quero a Hermione aqui e segura! — Draco rebateu furioso.

Eles estavam prestes a explodir e eu me sentia culpada.

Suspirei, ajeitei o melhor que pude minha aparência de sobrevivente da ilha, encostei a caixa da vassoura na parede e caminhei para a sala.

Draco olhava para a lareira quando entrei, então Scorpius foi o primeiro a me notar.

— Mãe! — ele veio correndo em minha direção e se jogou em cima de mim quase nos derrubando. — O que houve com você?

Quando Draco se virou ele estava lívido, achei que explodiria de raiva por eu ter simplesmente sumido, mas não o meu Draco, aquele que ele tinha se tornado. Ele só veio até nós e nos abraçou e em seguida me beijou profundamente.

Quando ele finalmente permitiu que Scorpius saísse do abraço e me guiou até uma poltrona foi que as perguntas começaram.

— Hermione Jane Granger Malfoy onde você estava e por que parece que você foi atropelada por um furacão? — Draco perguntou sério olhando nos meus olhos.

— Eu bem... — eu podia dizer que estava no mar lutando com uma ostra, mas acho que isso o deixaria ainda mais preocupado. — Eu precisei terminar uma encomenda, mas acabou mais tarde do que eu esperava.

— O que raios pode ser tão importante pra você chegar em casa ensopada, machucada e sem dormir?! — Harry perguntou tão impaciente quanto Draco.

— Parem de me tratar como criança! — ralhei com os dois. — Era importante!

— O jantar era importante Hermione. — Draco falou triste e meu peito doeu ao pensar na promessa da noite romântica que teríamos tido se eu não precisasse pegar a pérola.

Levantei da poltrona e caminhei até Draco encostando minha testa na dele enquanto ele suspirava frustrado e envolvia minha cintura.

— Desculpe amor, mas se eu não conseguisse o que eu fui buscar eu ficaria imensamente frustrada por não dar a você o melhor que eu e Scor queríamos te dar, que tal vermos seu presente de aniversário antes de você brigar comigo e estragarmos o seu dia? — perguntei calmamente tentando desacelerar a pulsação irada que percorria o corpo dele.

— Você conseguiu mãe? Ela estava pronta? — Scorpius perguntou animado quase saltitando.

— Consegui, mas precisei buscar uma última peça por isso demorei. Você pode buscá-la no corredor amor? — perguntei para ele.

Scorpius foi correndo até o corredor e na mesma velocidade voltou com a imensa caixa de presente.

— Feliz aniversário papai, espero que goste, eu e a mamãe, especialmente a mamãe, nos esforçamos muito no seu presente. — ele falou estendendo a caixa para Draco.

Draco então soltou minha cintura e se afastou de mim para pegar a caixa com um olhar curioso no rosto.

Apoiou-a no chão e desfez o laço que a lacrava.

Eu, assim como todos, estava morrendo de curiosidade e ansiedade.

Quando Draco levantou a tampa meu coração quase parou. Eu retirava o que disse sobre bater em Devlin, aquele homem merecia um milhão de beijos, merecia uma pérola negra gigante só dele.

A vassoura era incrível, o design extremamente sofisticado, a madeira estava tão polida que eu podia ver o reflexo de Gina babando nela.

As hastes de lunita estavam prateadas e alinhadas na forma de pincel como todas as modelos Nimbus e presas na elegante presilha de platina com arabescos desenhados. No centro da faixa da presilha a pérola negra brilhava com seu interior parecendo líquido enquanto o feitiço de voo se mexia. Saindo da presilha o cabo levemente curvo e delicado de madeira de ágar liberava seu perfume apimentado e terroso que fizera a árvore tão famosa e na empunhadura do mesmo entalhado e escurecido em um tom de marrom mais forte havia o desenho de escamas triangulares perfeitamente alinhadas. Por fim na ponta do cabo, em sua característica letra cursiva folhada a ouro branco estava escrito: Nimbus 2018.

O silêncio na sala era enorme. Draco segurava uma peça de arte, só isso descrevia a vassoura e o modo com o qual meu marido a segurava mostrava que ela não estava pesada como eu temia, o balanceamento era perfeito.

Ainda ajoelhado, Draco abriu a pequena carta que Devlin havia deixado na caixa e leu em voz alta:

"Caro Draco Malfoy,

Felicitações pelo seu trigésimo oitavo aniversário e, por favor, não babe na vassoura mesmo ela sendo linda.

Essa Nimbus possui alguns aspectos especiais que a diferencia de qualquer peça criada:

— Suas hastes de lunita permitem que ela entre em modo de camuflagem em voos noturnos além de lhe conferir esse aspecto fantástico;

— Sua presilha feita de platina refinada e trabalhada por duendes irá garantir o melhor desempenho esportivo que você já viu (quem é a Firebolt Supreme perto desta vassoura?);

— A madeira de ágar é leve e balanceada, resistente e perfumada, perfeita para a elegância que inspira o design;

— Por fim essa imensa pérola negra das profundezas do Oceano Pacífico é um dos poucos artigos capazes de aguentar tamanha quantidade de magia e liberá-la sem estourar a fibra do cabo, um coração forte para sua vassoura potente;

Cada parte dessa vassoura foi trazida a mim por sua esposa e seu filho que dedicaram longas horas nesse projeto comigo, devo acrescentar de forma enfatizada que amor também faz parte da estrutura deste presente.

Enfim, me sinto mais do que orgulhoso em entregar esse último projeto, um pedido de uma família amiga e acolhedora que sempre tratou muito bem este velho.

Hoje Draco, no dia cinco de junho de dois mil e dezoito, você ganhou o único exemplar existente da Nimbus 2018 ou como carinhosamente a apelidei Nimbus do Dragão.

P.S.: Perdoe-me ter roubado sua esposa maravilhosa nesta última madrugada, meus lapsos de memória requisitaram seus serviços de última hora para essa belezinha ficar pronta.

Atenciosamente.

Devlin Whitehorn"

Draco ainda olhava maravilhado para a vassoura quando Scorpius se aproximou de mim e cochichou:

— Foi muito difícil conseguir a pérola?

— Nunca mais quero comer ostras na vida. — cochichei de volta para ele fazendo-o rir.

— Minha nossa essa vassoura é fantástica. — Harry dizia boquiaberto.

— Amor eu quero uma vassoura exclusiva no meu aniversário. — Gina disse sorrindo para o marido e depois para mim. — Arrasou, bem que você disse que tinha um superpresente.

Draco depositou a vassoura na caixa e se virou para nós dois.

— Estamos perdoados pelos vacilos nos últimos meses pai? — Scorpius perguntou inseguro.

Draco andou firme até nós e abriu os braços de forma a carregar nós dois espremidos e nos girar no alto.

— Se estão perdoados? Esse foi o melhor presente que eu já ganhei, juro, não apenas por ser uma Nimbus exclusiva minha, mas por ser de vocês. — ele falou nos colocando no chão e beijando docemente nossas testas.

Estiquei-me na ponta dos pés e lhe dei um pequeno selinho nos lábios antes de dizer:

— Feliz aniversário amor.

Notas finais
Macro-tema: Presente-marmota. Subtema: Alguém sabe o presente perfeito a dar para o(a) aniversariante. O problema é que não será nada fácil consegui-lo. Espero que tenham gostado e não deixem de acompanhar o Desafio Surprise que ainda vai ter muita história boa rolando até o dia 6. Beijos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!