A primeira semana que se passara fora cansativa. Comida chique, roupas chiques e empregados. Diríamos que a maioria das selecionadas não estavam acostumadas com tanto, enquanto dois e três tinham naquilo algumas lembranças de casa. Já um, o príncipe, vivera com isso desde o berço e nada era novidade.

Frederic Kentin Schreave adentrava o salão e fazia dezenas de selecionadas suspirarem. Ele parecia nervoso, se sentia nervoso e estava nervoso. Dez daquelas trinta e cinco moças iriam para casa ainda hoje. E se mandasse sua alma gêmea? E o pior: e se nenhuma delas fosse sua alma gêmea?

A sensação de espanto ia tomando conta de seu corpo jovem e aos poucos Frederic começava a suar.

– Vossa Alteza parece abatido, aceita uma água? – um mordomo quebrou o silêncio perto do príncipe.

– Não, não, obrigada. – respondeu.

Quando se sentiu mais calmo, chamou a primeira. Depois a segunda, terceira, quarta. Todas eram entediantes.

Porque esse nervosismo todo? – pensou – Não precisava de tanto. Não precisava.

Quinta, sexta, sétima, oitava... Décima segunda, décima terceira. Algumas se mostravam mais interessantes. Outras, educadas. Outras, entediantes.

Vigésima segunda.

– Olá, senhorita.

Ela fez uma reverência sem o responder.

– Sente-se.

A cabeça dela estava um tanto abaixada, impossibilitando Frederic de ver os seus olhos.

– Desculpe, como se chama?

E então, essa pergunta quebrou o seu silêncio:

– Alyssa Gardner.

– Me conte um pouco sobre você.

– Bem, como o... o... – Alyssa se impediu de chingá-lo – Vossa Alteza descobriu, meu nome é Alyssa Gardner. Eu sou dois, sou cantora... E eu acho que não há nada mais interessante que a Vossa Alteza ache interessante para saber.

O tom de ignorância na voz de Alyssa era notável. Ela mesma se perguntava como conseguia cantar com aquela voz.

– Eu vivo entre, bom, centenas de paredes e portas trancadas. Eu adoraria um pouco de história de fora. – ele sorriu.

– As pessoas sofrem, Majestade, e é por trás dessas paredes que você nunca vai ver o sofrimento. Ele é fácil de enxergar para os que também sofrem; as pessoas de castas altas parecem ter a melhor vida de todas, mas não tem. Elas não são perfeitas, não são deuses, não são superiores: todos sofrem no fundo. Vossa Majestade pode não está entendendo, mas, mesmo que a Alteza possa achar que está correndo perigo aqui dentro, tem que pensar que os outros correm mais do lado de fora.

Aquilo fez o príncipe se calar. Ele nunca havia pensado desta forma, não mesmo.

– Você nem imagina o quanto eu sei disso... – mentiu.

– Não imagino mesmo. – Alyssa levantou levemente a cabeça e encarou-o com ar de irônia, seus olhos pareciam queimar de forma que ela quase nem piscava.

Frederic por um instante, observando os olhos azuis. Eram magníficos, porém, desafiadores. Aquela sua expressão conseguiu colocar um pouco de medo no príncipe, então este optou por chamar a próxima.

– Eu gostei do bate-papo com a senhorita, mas vou ter que chamar a próxima.

– Tudo bem. – Um pouco de alivio escapou de sua voz, mostrando um sorriso satisfeito pelo o que fez. As covas logo surgiram abrindo espaço para os dentes claros e brilhantes:

– Até a próxima, Majestade. — Alyssa se coloquei de pé, fazendo uma reverência e curvando as costas ousei espiar entre o cabelo que cobriu minha face. Ela foi caminhando até sair de vista da "merdinha real", como chamava ela, queria rir loucamente disso um dia.

Vigésima terceira, vigésima quarta... A última.

Margo se levantou e caminhou até o sofá que o príncipe estava. Conversar com ele e com todas vendo já seria constrangedor; sozinhos, pior ainda!

Ao chegar perto dele fez uma reverência desajeitada e se sentou.

Depois de passar os olhos de cima a baixo pela garota, Frederic simpatia na voz perguntando:

– Qual é o seu nome mesmo? É meio difícil decorar nas primeiras semanas os nomes...

Realmente não era mentira, era muita dificuldade.

– Margo, Margo Dara Johann.

Retrucou ela, acrescentando:

– E, sinceramente, ainda não decorei o nome de um antigo rei pra um trabalho escolar do terceiro ano.

Senso de humor, o que seria do príncipe sem ele perto dessas selecionadas. Ele estava perdido.

– Perdão, Margo, diga-me um pouco sobre você.

Por dentro ele podia estar morrendo mas tinha que passar uma boa impressão, sorrindo o máximo possível.

– Eu vim de Allens e sou uma Seis. Estou na Seleção e acho que não tem mais nada de emocionante na minha vida.

Frederic sentiu seu sorriso ficar um pouco forçado; como suas bochechas doíam. Pensando muito no que a última disse, perguntou:

– O que acha do lado de fora? Você sofre muito?

Margo seu sorriso se forçar, então disse:

– Olha, se não quiser sorrir, não sorria.

Senti um grande alívio quando me livrei daquele sorriso ridículo. Grato, assenti pra que ela continuasse.

– Acho que minha mãe foi esperta o bastante praa não ter muitos filhos com a nossa condição. Meu pai tem um emprego fixo, mas ela está desempregada. Eu sofro, mas aprendi a lidar com isso.

– Então a outra estava certa...

Murmurou ele, então voltou a realidade cada vez mais interessado

– O que acha que deveria mudar no modo de governação para que fosse perfeito?

– Primeiramente, as escolas públicas são terríveis. O ensino é péssimo e, mesmo que isso não importe muito, a comida não é lá essas coisas.

– A única coisa que desejo é que a vida de todos sejam as melhores, perfeitas e acho que no tempo da Seleção vou arrumar isso. Obrigada, pelas dicas... Bem...

Ele parei de falar por algum tempo para olhar nos seus olhos, eram tão... Não tinha como explicar.

– Bem... Foi uma honra a conversa, mas acho que... Devemos terminá-la, nós vemos...

O príncipe pensou um pouco antes de abrir a boca.

– Margo.

Ela levantou e fez uma reverência, agora com a graciosidade que faltou na primeira.

– Tchauzinho.

Disse, com um aceno, depois se retirando.

A sua expressão facial parecia estar boba do que viu. Uma pessoa tão perfeita não se vê todo dia. Ele piscou milhares de vezes num mesmo minuto para captar a mensagem

– Tchauzinho...

Repetiu a frase, quer dizer, palavra citada pela garota fazia pouco tempo.