A Nova Profecia
3 Capítulo 2 - Natasha
Notas iniciais
Eu fui intimida a ir à festa de Destiny. Não queria ir, de modo algum. Mas meus pais insistiram em que eu fosse e sabia que não queria ser a cachorrinha de Destiny. O sábado passou calmamente, com treino de piano e algumas músicas e também, jogos de videogame. Eu não tinha celular, então não tinha como me divertir em redes sociais. Minha mãe não achava legal, mas ao menos, tinha meus instrumentos musicais e meu videogame.
Antes da hora da festa de Destiny, eu tomei meu banho e fiz uma rotina natural – colocar a roupa de sair (um vestido na altura do joelho, preto e com flores brancas espalhadas e sem decote; um short por baixo porque não me sentia tão à vontade de vestido e um par de sapatilhas pretas), passar uma leve maquiagem (minha mãe se certificou que eu passaria ao menos uma base e um batom) e arrumar minha bolsa. Coloquei um celular antigo ali dentro, o suficiente para fazer ligações. Não possuía telefone, mas se eu estivesse sozinha, minha mãe queria se certificar de que eu estaria bem.
Meu pai estava indo me levar, mas antes de sair, minha mãe se aproximou, com meu colar em mãos e um sorriso amigável.
— Querida, você estava esquecendo.
Peguei o colar e o coloquei. Desde que me lembro por gente, tenho que usá-lo (mesmo que fosse grande uma criança). Ela me deu um beijo na testa.
Bom, eu não podia negar, Lauren Turner, era a melhor mãe do mundo. Não reclamava de nada e se preocupava por tudo, desde os fantasmas que eu via e vozes que eu ouvia quando criança, até meus pesadelos, que ultimamente estavam sendo constantes. Nunca me julgou, dizendo que eu era louca ou algo do tipo. Ela parecia entender o motivo de meus pesadelos, de ver fantasmas e monstros. Mas ela não se importava, a não ser que eu ficasse em perigo.
— Obrigada, mãe. Eu não vou ficar lá por muito tempo, mas não quero que Destiny lance um feitiço sobre mim – disse.
— Sabe como eu sou... O mundo lá fora... É cruel, minha querida. Sair por essas portas... – ela parecia ter se lembrado de algo não muito legal.
— Não se preocupe mãe. Vou ficar bem – dessa vez, dei-lhe um beijo na bochecha e entrei no carro com meu pai.
Ao dar ré e já estar na estrada, ele puxou conversa comigo.
— Sua mãe disse que está tendo pesadelos ultimamente.
— Sim... Como sempre... O cão de três cabeças e uma águia – suspirei.
Lembrei-me do sonho mais recente. Eu estava correndo, fugindo de um cão enorme de três cabeças que pareciam doidos para me trucidarem. Eu parei ao ver uma águia, que deveria estar calma sobre o galho de uma árvore seca, mas não estava. Ela olhou em minha direção, como se estivesse pensando do mesmo jeito que o cão.
A única coisa que eu via era a águia me atacando. Como na lenda do Prometeu, eu me via sendo atacada pela águia inúmeras vezes até acordar. Podia ainda sentir as bicadas da águia e a dor antes de morrer várias vezes em um único sonho.
— Filha? – meu pai me chamou pela terceira vez.
Parei de olhar pela janela e ajeitei meu cabelo atrás da orelha.
— Eu não deveria ir ao psicólogo?
— Creio que não. Você está numa idade difícil... Pesadelos são comuns – ele fez carinho em minha cabeça. Voltou a ter atenção na estrada. – Mas se você não se sentir bem lá na festa, apenas me ligue. Irei imediatamente.
— Ok.
Ele me deixou na festa e deixou um beijo em minha testa também. Assim que passei pelo jardim, vi Destiny – com um lindo vestido vermelho e curto – conversar com um grupo de jovens da nossa sala. Joshua estava por perto, usando uma roupa despojada e não muito à lá festa.
Ela olhou para mim e fez um sinal para eu me aproximar. Eu o fiz, pouco à vontade.
— Você realmente veio!
— Com você me ameaçando... Por que não viria?
Ela riu.
— Bem, eu encontro com vocês na piscina – ela despediu o grupo. Joshua se aproximou ainda mais. Ela se virou para mim, mexendo em meu cabelo. Eu me afastei. – Bom... Está na média. É bonita, mas podia colocar umas roupas mais na moda.
— Não gosto de usar pedaços de pano – afirmei. Destiny bufou, rolando os olhos.
— Ok. Vamos falar do que importa... O aluno mais gato da escola! Nate Donovan, aqui, na minha festa! E vamos agradecer a Joshua que insistiu.
Ele hesitou.
— Eu apenas disse que se ele não fosse, ia perder o espetáculo.
— Fez bem – Destiny cruzou os braços, com um sorriso estranho nos lábios. – Venha vê-lo.
Ela me puxou pelo braço até a parte dos fundos da grande casa dela. Meus pais tinham uma condição financeira muito boa, mas de Destiny? Ela gastava de brincadeira. Na parte de trás, a música rolava solta e muita bebida, com brincadeiras na piscina. Era grande e com algumas bordas rendondas, tinha o lugar onde um DJ tocava músicas eletrônicas, uma pista de dança e a coluna (onde estava Nate Donovan) ao lado da piscina. Além da grama esverdeada e de um jardim mais ao fundo.
No canto, vi o garoto da direção, de pé e com uma expressão neutra, como se tivesse que tolerar todos. Destiny se aproximou de mim.
— Eu deveria ir até ele e fazer com que se apaixone por mim?
Eu hesitei, olhando-a.
— Você? Pedindo-me conselhos? – ri.
— Está certo. Você é meio cafona. Vou lá – ela se afastou, indo até o cara.
Joshua se aproximou, mancando, como sempre.
— Ela é muito...
— Atirada? – completei, mas ele não respondeu. Então vi o brilho nos olhos dela. – Ew! Você gosta de Destiny?
— Qual é o problema? Ela é bonita e inteligente – ele disse.
— Ela faz piada com você.
— Eu deixaria – ele abriu um leve sorriso. Vi Destiny se aproximar, visivelmente irritada. – O que houve?
— Nate é complicado. Como ele simplesmente não faz o que eu falo?
— Ele deve ser inteligente – afirmei. Então, olhei na direção dele, curiosa. Vi três jovens se aproximarem dele. Eles eram familiares... Sim! Eles eram alunos de outra escola, mas eram conhecidos no bairro como os encrenqueiros. O do meio deveria ser Thierry Thompson, o garoto que parava na cadeia pelas brigas.
Destiny olhou sobre os ombros.
— Ah, eu não me lembro de ter chamado Thierry – ela disse. – Dá última vez, bateu em um nerd que veio. Ele é problemático!
Joshua pareceu nervoso. Destiny foi à direção de Thierry e acabei a seguindo. Depois me toquei na merda que eu iria fazer. Thierry parou de chamar o garoto para a briga e olhou para Destiny.
— Oi, patricinha.
— “Oi, patricinha”? Essa é a festa da patricinha aqui! Agora, por favor, saia.
Ele não saiu. Isso assustou Destiny, que recuou um espaço. O pessoal em volta percebeu e pararam a festa. Foi um silêncio ensurdecedor. O garoto Nate saiu do canto, como se estivesse interessado no que iria acontecer. Eu recuei um passo, mas Joshua permaneceu no mesmo lugar.
— Ah? Como ousa falar assim comigo, hein? – ele se aproximou para tocar no rosto de Destiny, mas a garota desferiu um soco contra o garoto. Depois, ela pareceu estar com dor na mão, mas não mostrou isso.
Os outros participantes da festa se reuniram, todos murmurando sobre o que estava acontecendo. Minha cabeça ficou quente. Eu odiava atrair a atenção e apesar de não ser minha culpa, eu estava no meio dali e já era o suficiente para eu começar a ficar nervosa.
Joshua tentou acalmá-los, mas não deu certo.
Então o garoto, que antes era o principal alvo de Thierry, se aproximou, com um olhar sério e assustador.
— O seu problema é comigo, Thompson – Nate Donovan disse.
Ele se virou para o garoto, rindo. Ele iria dizer algo, mas então se virou para mim e olhando-me, curioso.
— Rostinho novo? Quem é essa garota?
Destiny atraiu a atenção dele:
— Apenas saia daqui, por favor.
— Se ela me pedir – ele veio em minha direção, com um tom bem estranho. Eu não ficava chateada tão facilmente, mas eu fiquei nervosa. Tudo dentro de mim parecia estar em curto-circuito. Parte de mim queria bater nele pela ousadia em seu olhar. Mas eu me controlava. Bom, não é fácil me tirar do sério, mas eu ficava com raiva constantemente e fazia de tudo para passar em minutos, o que geralmente acontecia. Mas não naquele momento.
Eu não recuei, mas acabei fuzilando-o com o olhar. Ele hesitou.
— Você é intrigante. Gostei de você – ele se aproximou ainda mais e parecia colocar o braço ao redor de meu pescoço, mas vi, por um segundo de tão rápido, um movimento de Nate atraindo o garoto para si. Thierry agiu imediatamente e desferiu um belo de um soco no garoto, mas Nate não pareceu preocupado com isso. No momento em que a mão de Thierry parou no ar pela mão de Nate, ouvimos um estrondo enorme no céu e vi um clarão, como o de um raio cruzar o céu. O pessoal ao nosso redor se afastou.
Ouvi Joshua fazer um som engraçado, como o de um bode. Mas parecia ser da minha mente, então eu simplesmente ignorei isso. Destiny ficou brava e não escondeu isso.
— Vocês são idiotas ou o quê? – esbrajou Destiny. – Saiam já da minha festa! Estão... Arruinando ela!
Um colega de Destiny se aproximou para afastar Nate e Thierry, mas parou antes de fazer isso. Talvez, pensou ser uma péssima ideia. Então, parei para fitar ambos muito bem e estremeci – de certa forma, eu podia ver a aura da pessoa, assim como os fantasmas e monstros. A aura ao redor de Nate era poderosa e intimidava, assim como a Thierry. Mas ambas eram distintas entre si, como se Nate fosse superior a Thierry. Eu pude ver o olhar de Nate, apesar de um azul-celeste em seus olhos, parecia que estava tendo uma tempestade e ele estava animado, mas com raiva. Eu não conseguia ver os olhos de Thierry, já que ele estava de costas para mim, mas imaginei que não era tão bom.
Thierry não recuou a mão, mas Nate retirou a dele e iria se virar para ir embora, porém algo o fez vacilar na decisão e parou, voltando a olhar para Thierry, então, para Joshua. O garoto parecia ter entendido tudo pelo olhar e tentou intervir:
— V-vamos voltar à festa. Deixe essa briga para fora – ela entrou entre ambos. – Tem pessoas aqui que não merecem ver vocês dois se matando.
— Concordo – Destiny cruzou os braços, com os olhos pegando fogo. Bom, não literalmente, mas bem, você entendeu.
Thierry levantou a mão para desferir outro golpe, mas dessa vez, na direção de um dos amigos de Destiny que não tinha nada a ver com a história. Eu me senti mal e senti a vontade de impedi-lo, mas não era tão corajosa a esse ponto. Mas algo aconteceu, um raio caiu do céu e atingiu uma árvore perto de nós e ela pegou fogo.
Aquilo me fez lembrar de um sonho que tive. Eu estava em um campo aberto e nada havia além da grama verde e de uma árvore enorme. Eu não estava com medo, mas o céu fechou-se repentinamente e os trovões começaram. Um dos raios que caía ao meu redor, me deixando encolhida e chorando, tentando voltar, caiu sobre a árvore que pegou fogo imediatamente. O pior não foi isso – Nate, exatamente como ele estava vestido naquele momento, estava de costas para mim, olhando a árvore. Então, ao ver o menino (e na hora do sonho não conhece-lo), vi o chão tremer sob meus pés e eu acordei.
Aquilo era coincidência? Ou meu sonho tinha se tornado realidade? Os sonhos e as lembranças deles me causavam imensa dor de cabeça. Eu parei de prestar atenção ao meu redor, que parecia tremer. Só passou a dor quando Joshua veio até mim, preocupado.
— Você está bem?
Destiny olhou para mim.
Eu balancei a cabeça, afastando os pensamentos ruins e confusos.
— Estou... Pra mim, já deu ir a festas – disse, pegando meu celular do bolso. Eu deixei o lugar, vendo Thierry ir embora, enquanto procurava Nate com meu olhar e não o encontrava.
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