Aqui é a Sadie Kane.


Sim, aquela Sadie Kane. Você sabe: loira, olhos azuis, dezesseis anos, princesa do Duat, irmã do idiota do Carter... Bom, você deve estar se perguntando por que não é ele a começar essa gravação, e a resposta é bem simples: esta é a minha história. A história de como eu me transformei em outra versão de mim mesma para dar uma lição em todos esses ingratos com quem eu convivo.

Uou. Chega a ser estranho não ter o Carter aqui me enchendo por ter dito isso. Whatever.

Eu não sei o que vou fazer com essa fita ainda, provavelmente vai ir parar no fundo de alguma gaveta e com o tempo vai se perder, eu não ligo, só acho engraçado relatar tudo isso. Já é quase um hábito quando se trata de coisas que os Kane aprontam por aí.

Ok. Acho que com todos esses anos gravando tudo o que fazemos para vocês, me acostumei a falar demais. Céus, será que peguei isso do Carter? Ugh...

Vamos a o que interessa. Tudo começou em uma daquelas reuniões chatas que papai nos faz frequentar no Duat desde que salvamos a humanidade de Apófis. Para resumir, serve basicamente para analisarmos os avanços do caos no planeta. Você já consegue imaginar que isso não me atrai nem um pouquinho, não é? Cara, eu não sou de estudar. Quase fui mandada para um internato para idiotas (pelo menos é assim que eu chamo) por que minhas notas estavam um pouquinho ruins.

Estou me desviando de novo. Maldito Carter.

Enfim, como sempre, fui convocada para comparecer. Uma desvantagem em ser a grande heroína; ter que participar da parte teórica é um saco. Apesar de ter chegado num portal a partir do 21º nomo, acabei caindo em qualquer lugar e fiquei longos minutos andando pelo palácio de Osiris, tentando me encontrar com alguma coisa viva que me indicasse o caminho para a sala de reuniões do palácio. Estava plena, curtindo Pink nos meus fones de ouvido e cantarolando So What? baixinho quando sinto um cutucão em meu ombro. Me arrepiei todinha. Não ria, você também reagiria assim se estivesse sozinha num palácio assustador no mundo dos mortos e fosse tocada do nada. Foi por isso que engoli em seco antes de me virar e olhar para seja lá o que fosse que queria fazer algum contato comigo. Antes que pudesse me virar de fato, aquela voz preencheu meus ouvidos e eu não sabia se sentia raiva ou alívio.

— Quem você não quer esta noite, lady Kane?

Anúbis. Deuses, Anúbis. Se você ouviu as outras gravações, você deve ter notado a quedinha que tenho pelo deus chacal. O que eu posso fazer? Garotos como ele me deixam completamente boba, sou apenas uma vítima de seus olhos grandes e castanhos, da pele leitosa e do cabelo longo. Porém, obviamente, eu não poderia deixar assim na cara meu agrado por vê-lo ali, então, ainda de costas para o mesmo, coloquei as mãos na cintura e revirei os olhos.

— Você, Anúbis. Qual é a sua para chegar de fininho assim? — Falei, um tom exasperado na voz completamente não intencional.

— Acho que você adoraria passar a noite comigo, afinal todas as garotas adoram. — Respondeu passando por mim e largando um sorrisinho ladino nos lábios, ignorando minha pergunta e claramente se divertindo com minha cara.

— Quem não gostaria de passar a noite com o deus do papel higiênico?! Deve ser frustrante perceber que eu não caio nos seus encantos. —Impressionante como não conseguia convencer nem a mim mesma.

O garoto não se deu ao trabalho de retrucar e muito menos de se virar. Limitou-se a apenas a caminhar, e eu o segui já que sabia que estava indo pra a mesma reunião que eu, mas claro mantendo uma distância razoável entre nós. Viramos apenas mais alguns corredores a esquerda até finalmente dar de cara com as imensas portas de madeira maciça que eu reconheceria de longe como a sala do trono, devido ao enorme Osíris esculpido ali.

Anúbis parou e me deu passagem para que abrisse as portas, sorrindo e fazendo uma leve reverência. Eu sabia que na verdade ele estava tentando fugir de levar chingos pelo atraso desviando a atenção para mim. Revirei os olhos e tomei a dianteira, logo empurrando a mesma e finalmente tendo a visão do resto dos deuses. Com uma leve passada de olhos conclui que era a última a chegar. Merda. Carter me olhava de longe, ao lado do papai, com os olhos semicerrados. Sussurrei um “bom dia” sem graça e me coloquei ao lado do tapado do meu irmão. Tirei o fone do ouvido direito e coloquei os pés encima da mesa, o que trouxe um olhar irritado a papai. Voltei-os para o chão rapidamente e me senti muito desconfortável ao perceber que todos ainda estavam em silêncio enquanto olhavam para mim. Carter revirou os olhos.

— Continuando — Falou, se virando para os outros —, temos que arrumar um jeito de parar esses pequenos focos de poder de Apófis-

Já estava em outra dimensão. Cara, essas reuniões são mesmo um saco, como pode? Era quase uma obrigação que eu simplesmente me desligasse dali e começasse uma lista mental de quantas vezes o Carter coçava o nariz enquanto falava, mas essa não é aparte ruim. Enquanto estou olhando para ele, ele acha que estou prestando atenção. Agora quando me viro pra outro lugar...

— O que você acha, Sadie? — Carter me pegou encarando a careca reluzente e azul de papai.

— Hum? — Respondi confusa, finalmente olhando-o.

— Sobre oque estávamos falando. O que você acha?

— Eu acho ótimo, perfeito. Não da pra melhorar! — Falei, dando meu melhor sorriso falso.

— Viu, pai? Ela não esta prestando atenção! — Meus deuses, Carter é muito filhinho de papai. Parece uma criança.

— Estou sim! — Tá, talvez eu também seja um pouquinho.

— Não está, não! Além de chegar atrasada, nem ter vergonha de mentir na cara dura! — Carter reclamou, fazendo-me abrir a boca ofendida.

— Por que você está tão bravo? Anúbis também chegou atrasado e não te vi reclamar, seu nerdzinho!

— Até Anúbis chegou no horário! — Anúbis soltou um “Ei!” por ter sido incluído na conversa — Ele só foi atrás de você por que papai pediu, Sadie!

— E que culpa eu tenho de me perder nesse castelo gigante? — A essa altura eu já estava transtornada de irritação.

— Chegasse mais cedo, é isso o que todos nós fazemos. — Respondeu com aquele olhar de acusação que fazia meu sangue ferver.

— Você é um mer...-

— Já chega, vocês dois. — Osíris massageava as têmporas tentando controlar a irritação devido a nossa leve discussão — Sadie Kane — Droga, ele disse meu nome inteiro! — Você deve prestar atenção não reuniões.

— Mas eu estava! — Protestei indignada.

— Só se a reunião estivesse acontecendo na careca do papai. — Carter falou baixo, mas na altura suficiente para todos ouvirem. O olhei mortalmente.

— Cale a boca, Carter! — Gritei, já havia perdido as estribeiras lá atrás.

— Por Rá, Sadie. Carter tem razão. Se você não prestar atenção no que esta acontecendo aqui, você não poderá nos ajudar. — Hórus se pronunciou, olhou-me nos olhos antes de continuar — E se não for pra nos ajudar, é melhor nem comparecer à reunião.

Nesse momento eu já estava prestes a explodir. Por que todos me tratavam como criança? E ainda minha família tinha coragem de falar comigo daquela forma na frente de todo mundo! Que humilhação!

— O que você quer dizer? Que eu não ajudo? Eu não estava lá para salvar o mundo, Hórus? — Falei entredentes.

— Não foi isso o que eu quis dizer. — Tentou se defender.

— Ah, mas então o que você quis dizer? ‘To doida pra te ouvir explicar e-

— Sadie! — Gritou papai, me tirando do meu transe. O vi se levantar bruscamente, na intenção de chamar minha atenção o suficiente para me impedir de continuar. — Estão todos cansados desse seu comportamento! Pensei que com o tempo você iria melhorar, mas quanto mais eu deixo, pior você fica! Ou você muda suas atitudes ou você começará a ser excluída dos assuntos internos do Duat.

Me senti totalmente ultrajada. Meu queixo caiu com as palavras de papai que me acertaram como uma bofetada na cara. Procurei pelos rostos conhecidos por algum auxílio, mas nem Isis ou Bastet me olhavam nos olhos. Só pode ser brincadeira.

Minha mente estava a mil, meu corpo tremia de raiva. Nunca me senti tão mal na vida! Me levantei e fiz a única coisa que eu podia: sai em direção a porta. Ninguém disse nada ao me ver afastar da reunião. Abri uma das portas, mas antes de sair pelo espaço da mesma olhei pra trás. Fitei cada um antes de formular minha frase.

—Querem alguém diferente? Ótimo. Vocês vão ver como a esta Sadie vai fazer falta.

Já no corredor eu sentia minha boca amarga de desgosto. Como podiam ser tão duros comigo? Claro que eu sei que não sou a melhor pessoa do mundo, e que deixo a desejar no quesito estratégias e essas coisas, mas dizer que meu jeito estava prejudicando o andamento das coisas? Não, isso não.

Um detalhe sobre mim: eu sou um pouquinho rancorosa. A essa altura já estava com um plano formado em minha cabeça. Essa sacanagem não ficaria assim.