A Nova Guardiã
9 Estranha Paixão
Notas iniciais
A minha cabeça parecia que ia explodir. Eu já não sabia mais o que fazer. Havia muitos pensamentos inundando a minha mente e consequentemente me confundindo. Ou eu pensava no Breu, que poderia arruinar o natal e as crianças, ou eu direcionava os meus pensamentos para o Jack Frost, que já estava tirando o meu sono. Eu não estava pronta para perder a virgindade, de forma alguma. Enfim, todas aquelas preocupações estavam me destruindo por dentro. Eu precisava relaxar um pouco. Então eu resolvi sair um pouco, para ficar sozinha. Voei logo para um lago congelado um tanto distante dali e me sentei próxima a ele, para pôr as ideias no lugar.
_Ah, mas que droga! Por que eu não poderia ter uma vida normal?
Eu me sentia uma idiota por estar falando sozinha. Eu acho que eu estava enlouquecendo. Eu cheguei a pensar que todo guardião deveria ter um psicólogo, pois o estresse pelo qual todos os guardiões passavam era dose para leão. Agora eu entendo porque o Coelhão vive reclamando. E o Breu lá, numa boa, cada vez mais forte. Por ter conseguido me controlar, com certeza ele estava no ápice de todo o seu poder. E se ele conseguisse estragar o natal esse ano, ele seria simplesmente invencível.
_Eu não aguento mais! Por que o Homem da Lua me colocou nessa? O que eu tenho de tão especial assim para carregar essa missão nas minhas costas? Qual é o meu cerne? Qual é? Mas que mer... – naquele momento eu quase falei um palavrão – Digo, mas que coisa!
Porém, eu tinha que me conformar, afinal ser uma guardiã é como pisar na areia movediça: Não tem volta. Aquela missão parecia difícil demais para mim, mas eu deveria cumpri-la, já que eu nasci com um destino, que, apesar de complicado, ainda assim era o meu destino, e eu deveria ser forte o bastante para suportá-lo, se eu não quisesse me dar mal. Contudo, muitas vezes eu me sentia incapaz de cumprir o meu destino. Na verdade, eu estava me sentindo uma verdadeira inútil naquele momento.
_Eu acho que eu não nasci para ser uma guardiã.
_E por que você diz isso? – disse uma voz que eu conhecia muito bem.
_Jack Frost, ah não, você de novo?
_Calma – disse ele, assustado – Por que você está tão estressada assim? Eu... Eu fiz alguma coisa que você não gostou?
_Não é isso... É que eu... Eu... Eu queria uma vida um pouco mais normal. Mas, vem cá, de onde você saiu?
_Ora essa, eu estava só dando um passeio quando de repente eu te vi aí, falando sozinha...
_Há quanto tempo você estava me ouvindo?
_Há um tempão! Vai dizer que você não me percebeu?
_Não... Pois é, parece que você consegue ser bem discreto quando quer... Mas porque você ficou me espionando?
_Eu... Eu só queria saber se você estava falando de mim!
_Não, eu não falei nada sobre você. Eu só falei sobre o fato de que ser uma guardiã dá trabalho demais!
_Eu também já pensei assim! Mas, olha, ser um guardião tem as suas vantagens. Pense em quantas crianças você pode alegrar! Pense no Jamie e nos amigos dele! Eles te adoraram! E várias outras crianças ficaram sabendo da sua história e agora acreditam plenamente em você. Não é bom fazer uma criança feliz? E pense também no Breu! Ele não é perigoso? Pois pense só, com todos esses seus poderes, você pode proteger as crianças de toda a maldade dele! Isso não é gratificante? Isso sem falar nesse seu poder do fogo! Não é legal ser especial, ter algo que os outros não têm? Pense em quantos gostariam de ter esses poderes maneiros que você tem! E mais: Pense também no Homem da Lua! Se ele te escolheu, é porque você é diferente de todos os outros seres humanos! Você foi escolhida como a nova guardiã em meio a todos as outras pessoas do mundo. Isso não é uma honra?
_É, isso é verdade. Mas, sabe, eu acho que ser normal muitas vezes tem as suas vantagens!
_Roberta, você é uma graça na vida de todos nós! Por que você quer ser normal? – disse, tocando a minha mão.
Ficamos alguns segundos nos olhando. Ele estava certo. Ser uma guardiã era algo especial. Eu não podia falar mal da minha vida, pois muitos gostariam de estar no meu lugar. Após refletir por alguns minutos, enquanto ele me olhava com aquele olhar protetor que só ele sabia fazer, agradeci-o.
_Obrigada... – falei, olhando nos olhos dele – Mais uma vez você está me apoiando. Por que você sempre aparece na hora certa?
_Ora essa, eu não sou só o guardião da infância. Eu sou o seu guardião também!
_Como assim, você é o meu guardião? Eu sou uma garota independente, está bem? – falei, rindo.
_Nossa! Essa aí gosta de bancar a valentona, não é mesmo? – disse, rindo também.
_Eu sou uma mala sem alça, não sou?
_É sim! – disse, enquanto fazia carinho em meus cabelos – Mas eu te amo mesmo assim!
_Eu também te amo!
E nos beijamos.
Após o beijo, eu fiz uma pergunta a ele:
_Mudando de assunto... Como eu descubro o meu cerne?
_Isso eu não posso dizer. Cada um descobre o seu cerne ao seu modo. Não existe um método padrão.
_Mas que droga! Eu preciso saber!
_Calma! Isso você só descobre com o tempo! Eu acho que você anda meio estressada... Eu vou te ajudar! O que você acha de... Hum, deixe-me pensar em algo... Que tal se nós passeássemos um pouco? Eu vou te levar a um lugar que você com certeza vai adorar!
Ele então me levou a uma floresta temperada localizada nos Estados Unidos. Lá havia vários pinheiros. Que lindo!
_O que você acha desse cenário? – perguntou ele – Eu adoro essas florestas! E você?
_Hum, e se aparecer algum lobo por aqui? Eu não sei...
_Oh, então a senhorita Roberta Franco está com medo?
_Medo, eu? Eu não tenho medo de nada!
_Será?
_Eu estou falando sério!
_Então vamos voar por cima das copas das árvores! A visão lá de cima é simplesmente perfeita! A não ser que você tenha medo de altura, é claro!
_Eu já disse que eu não tenho medo de nada!
_Então vamos lá!
Assim, nós começamos a sobrevoar aqueles belos pinheiros que realmente me encantavam com a sua exuberância. Pousamos em uma nuvem e olhamos para a imensidão que inundava aquela bela paisagem. Como era enorme aquela floresta. O céu estava lindo, tão azul... Eu sinceramente nunca pensei que poderia me sentar numa nuvem, ainda mais com um garoto como o Jack Frost. Quem diria? Eu estava mesmo vivenciando uma verdadeira fantasia. Mas uma fantasia real. Eu não acreditava que eu estava literalmente andando nas nuvens! Eu e o meu namorado, então, começamos a brincar de pique-pega, como duas criancinhas estúpidas de quatro anos. Contudo, nós nos divertíamos muito com isso. Ele realmente sabia mesmo o que era diversão.
_Sabe, você é mesmo um anjo em minha vida! – falei.
_Hum, então eu sou um anjo? Pois você é uma capetinha!
_Capetinha?
_É, você não é nenhuma anjinha! É nervosinha, gosta de brigar, às vezes é meio revoltada... Mas eu gosto de você desse jeito! E, sabe, eu vou te contar um segredo: As capetinhas são as melhores!
_Ah, mas você é um capeta, mesmo! – falei, empurrando-o de brincadeira.
_Ora essa, eu sou um guardião, mas eu também não sou nenhum santo, Bebetinha! – disse, empurrando-me, também de brincadeira.
De repente eu ouvi a voz do Breu:
_Vocês não sabem o quanto eu odeio os finais felizes!
E acertou o Jack Frost com um raio. Ele estava caindo da nuvem, mas eu consegui pegá-lo. Ele ficou desacordado. Eu tentei reanima-lo, pondo-o em cima de uma nuvem. Mas eu não obtive sucesso. Aquilo tudo aconteceu rápido demais. Eu estava muito assustada. O Breu, flutuando no ar, disse, sarcástico.
_Desculpa, Roberta, mas se eu não consegui te corromper, por mais que eu tentasse. Eu, então, resolvi te atingir no seu maior ponto fraco: O seu amor por esse estúpido.
_Afinal, porque isso, Breu? Larga essa fixação besta comigo! Por que você vive me perseguindo? Por que, Breu, por quê?
_Talvez eu queira algo que você tem! O amor de alguém!
_Como assim? Você tem inveja do meu amor com o Jack Frost?
_É que você tem alguém que te ame! E eu? Ninguém me ama! Todo o mundo me odeia! Eu sou motivo de chacota em todo lugar!
_E eu com isso? Se você quer alguém que te ame, faça por merecer!
_Roberta, eu acho que você não está me entendendo...
_Então seja mais claro e objetivo, por favor! Eu não aguento mais todo esse mistério sem nexo que você faz em cima dos fatos! Por que você não pode ser mais específico? Diga logo qual é a sua!
_Roberta, eu te amo!
_O quê? – disse, engolindo seco – Não! Isso é impossível!
Eu estava perplexa e por isso não aguentei.
Eu desmaiei.
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