A Nova Guardiã
6 Além da Escuridão
Notas iniciais
Ele me tirou da jaula. Fiquei com um pouco de medo dele. Achei muito estranho ele ter me libertado só porque eu pedi. Aquilo era bondade demais para alguém como ele. Mas eu havia prometido ao Breu que o ajudaria a ver o lado bom da vida.
_Então, você se lembra do que brincava quando era criança?
_Não, eu só me lembro de que era uma criança sozinha e sem amigos.
_Nossa, mas que infância horrível você teve!
_Eu pensei que você fosse me ajudar e não lascar as coisas na minha cara.
_Caramba, parece que tudo o que eu falo te ofende!
_Eu não gosto que toquem no meu passado, assim como você não gosta que falem sobre a morte dos seus pais.
Fiquei calada. Ele estava certo. Eu então resolvi mudar de assunto, dizendo que mostraria a ele o que era uma infância de verdade, já que ele não teve a oportunidade de aproveitar o período em que ele foi criança. Peguei-o pelo braço e o levei para o lado de fora daquele esconderijo que era mais depreciativo do que a morte dos meus pais.
_Hum, o que você acha de... Pularmos amarelinha?
_Você só pode estar de brincadeira, certo?
_Eu não! Então, você quer reviver a sua infância ou não?
_Eu não sei se você percebeu, mas eu sou do sexo masculino! E amarelinha é brincadeira de menininha!
_Isso é só um estereótipo! Vamos lá?
_Ah, está bem! Mas eu já vou dizendo que se não valer a pena, vou fazer picadinho de você!
Nem liguei para o que ele disse. Havia uma boa camada de neve sobre o chão. Joguei aquele punhado de neve para o lado, deixando uma boa área do chão livre para que eu pudesse desenhar a amarelinha. Peguei um pedaço de giz que estava no meu bolso. Eu sempre carregava gizes no bolso. Aquilo poderia ser idiota, mas eu achava que eles davam sorte, além de serem bem úteis. Desenhei então a amarelinha e peguei uma pedra no chão e a entreguei ao Breu pedindo que ele começasse.
_Mas onde eu jogo essa pedra? Na sua cara? – disse ele.
_Vai me dizer que você não sabe como é que joga!
_É que as lembranças da minha infância são tão vagas que eu nem me lembro mais como é que se brinca disso. É, eu acho que eu tenho que jogar a pedra em eu não sei onde e depois pular eu não sei como e... Ah, isso é muito confuso. Eu acho que é melhor eu voltar pro meu esconderijo. A minha única utilidade é assustar os outros. Eu não sirvo pra mais nada!
_Ah, pois agora você vai ter que fazer um esforço, senão...
_Senão o quê? – disse, ríspido.
_Calma! Eu não estou te ameaçando! Agora vai logo, joga a pedrinha no número 1 e pula nos quadradinhos até chegar ao céu e depois é só voltar pelo mesmo caminho.
_Eu nunca vou chegar ao céu. O meu lugar é no inferno!
_Concordo!
_O que você disse?
_Esquece!
Ele então começou a pular. Nossa, como ele era desajeitado. Eu consegui chegar ao céu rapidinho, já ele não conseguiu nem sair do 1. Escorregava, caía, tropeçava, pulava nos lugares errados, esquecia-se de pegar a pedrinha na volta, enfim, ele era uma negação em amarelinha.
_É, parece que você perdeu!
_Eu nunca perco!
_Ah é? Então é melhor você se acostumar com isso, pois as perdas acontecem o tempo todo!
_Infelizmente. Mas, mudando de assunto, agora que brinquei com você, sinto que há menos escuridão em minha memória. Lembro-me de como perdi a garota que amava.
_Como?
_Ela foi morta. Na minha frente. Um ex-namorado dela estava com ciúmes de nós dois e por isso a matou com uma faca. Ele também tentou me matar, mas consegui fugir. Eu tive tanta raiva daquele cara que o matei alguns dias depois. E foi por causa dessa vingança que me enveredei pelas sombras. Transformei-me em Breu. E nunca mais fui o mesmo.
_Nossa, eu sinto muito mesmo. Eu sei como você se sente!
_Não, para com esse discurso! Ninguém sabe como eu me sinto!
_Pois eu tive os pais mortos, Breu. Eu te entendo mais do que ninguém! Não fique assim, por favor, essa tristeza misturada com revolta sinceramente não faz bem, experiência própria!
_Por que você me consola? Eu matei os seus pais!
_É que apesar da raiva que sinto de você, gostaria que você seguisse o bom caminho, para que não fizesse mal a mais ninguém. Para que conseguisse ser feliz plenamente, sem sadismo, sem cinismo, sem maldade. Eu queria que por pelo menos um segundo você se sentisse bem, apesar das sombras que te cobrem.
_Obrigado, eu não merecia isso. Sabe, esse episódio da amarelinha foi mesmo muito interessante. Realmente, pela primeira vez em tantos séculos, senti-me feliz.
_Você viu? A escuridão não é o seu lugar!
Ele se sentou e fez uma cara meio triste, como se estivesse imaginando que por mais que ele tentasse sair da escuridão, a escuridão nunca sairia dele.
_Ah, mas sabe, às vezes eu sinto que a escuridão é o meu lugar. Não há espaço para a luz em meu coração. Você deveria parar de perder tempo comigo. Aliás, eu acho que sei porque você está me ajudando. Se eu me tornar alguém bom, vocês guardiões ficarão sempre tranquilos, pois não terão um inimigo para combater. Você quer que eu seja um de vocês. E não é isso o que eu quero! Eu nem acredito que contei o meu passado para você. Eu acho que... É melhor você ir embora! – e começou a chorar.
_Você é um cara muito estranho, complicado e contraditório, cada hora você diz uma coisa. Mas eu te respeito e espero que um dia você possa ser feliz sem machucar pessoas boas como os meus pais. Eu não acredito que você só os matou para me deixar com medo e assim aumentar o seu poder. Como você é calculista! E eu também não entendo uma coisa: Mesmo com a raiva que eu sinto por você, eu tentei te ajudar! E você agora me manda embora? Depois não diga que ninguém nunca tentou te entender!
_Eu já disse para você ir embora!
_Já estou indo embora. Mas lembre-se, ainda brotará uma flor no seu jardim, basta que você queira!
E me fui.
Quando cheguei à fábrica do Papai Noel, já fui recebida pelo próprio, que me abraçou com força, como se eu fosse um parente que ele não via há anos.
_Roberta, que bom que você voltou! O Jack Frost disse que você foi capturada pelo Breu!
_Sim, mas consegui me salvar!
_Ufa, ainda bem!
De repente o Jack Frost apareceu:
_Roberta, você está bem, o que aquele monstro fez com você?
_Nada demais. E ele não é um monstro. Só está perdido nas sombras.
_Pois nós que ficamos perdidos sem você! Nem conseguíamos acreditar que o Breu tinha praticamente te sequestrado!
_Bom, já que estamos falando em acreditar, eu queria saber... Como é que as crianças vão acreditar em mim? Elas nem sabem que eu existo!
_Hum, eu vou te ajudar!
_Como?
_Eu vou te apresentar a um amigo meu... O Jamie! Ele é um menino muito legal e foi o primeiro a acreditar em mim. E também será o primeiro a acreditar em você!
_Jamie, belo nome! Eu aposto que esse garotinho deve ser super legal!
_Com certeza!
_Obrigada, Jack Frost, você tem sido sempre muito atencioso comigo...
_De nada, Bebetinha... Eu já disse que eu te amo?
_Já...
_Então... É... Bom... Você... Você quer me namorar?
Eu disse, abraçando-o:
_Eu quero! Isso é tudo o que eu mais quero!
E senti que, a partir daquele momento, a minha vida como guardiã seria ainda mais fantástica.
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