A Nova Face do Medo
1 Capítulo 01: Criança Noturna
Hilary observou Paul cruzar a porta, com as compras do supermercado em mãos, três sacolas ela pôde notar. Em seguida, saltou do sofá abandonando o seriado de terror que assistia na televisão para ir "ajudar" o namorado. Ela bateu a porta atrás dele enquanto ele sorria para ela.
– Obrigado pela ajuda! — Disse ele, irônico.
– Ah... Por nada amor.
Hilary voltou para a sala e jogou-se novamente no sofá enquanto observava o namorado colocar cuidadosamente as compras no chão, ao lado do armário. A casa não era pequena, mas a cortina que separava a cozinha da sala de estar estava amarrada, o que facilitava a visão de qualquer um dos dois lados.
– Não terminou de arrumar as coisas? — Perguntou Paul, parecendo estar indignado com tamanha preguiça da namorada. Hilary balançou negativamente a cabeça, sem jeito. — Hilary! Pelos céus! Estamos aqui há dois dias e você nada fez?
– Desculpe-me, é que ando meio sem tempo, sabe?
– Não, eu não sei. Eu trabalho o dia inteiro, olha, tenho o que fazer e não quero discutir com você, daqui a pouco escurece, então a gente vai jantar e em seguida... Bom você sabe oque...
– Cama? — Chutou ela.
– Não! Sexo! Isso sim! — Ele sorriu e deu de ombros.
Hilary o viu sair do quarto com a tolha nas costas, enquanto ele cruzava a porta do banheiro para o seu banho vespertino que sempre tomava depois do trabalho que, naquela tarde, não era bem depois do trabalho, afinal, ele havia, por milagre, feito compras. O corpo nu de Paul era definido e desejável a qualquer mulher, Hilary o observou sair pingando gotas de água pela casa enquanto ele ia em direção ao quarto, para vestir-se.
– Não sei porque diabos você insiste em levar toalhas, se não as usa. — Resmungou Hilary evitando olhá-lo.
– Ah... Minha natureza. — Ele riu e aproximou-se dela. — Um beijo... — Ele a envolveu nos braços lisos e nus sem que ela pudesse responder nada, seus lábios se tocaram e a Hilary sentiu o corpo quente estremecer logo após ser colado ao de Paul.
– Não... — Sussurrou ela quando o viu tocando a parteíntimadele, que estava ficando excitado. — Sexo aqui, e agora? Não! De forma alguma! Vou preparar o jantar... — Ela levantou-se, deixando-o sozinho na sala, mas Paul logo foi para o quarto, vestir-se já que sua adorável namorada não estava afim de... Sexo, agora.
Eles estavam deitados, fazendo amorapaixonadamentequando Paul sentiu o corpo de Hilary, que estava sobre o seu, inclinar-se.
– Amor... — Murmurou. — Tem alguém na casa...
– De novo? — Questionou ele, quase que como uma exclamação.
– Você vai lá?
Ele não respondeu, apenas levantou-se e colocou a cueca que havia abandonado do lado da cama desde que se deitou com Hilary, havia mais ou menos duas horas.
– São dez horas! É óbvio que não são os vizinhos... — Paul parou de falar. Fez-se um silêncio no quarto.
– Paul... — Sussurrou Hilary tentando chamar-lhe a atenção, mas ele sequer inclinou-se para olhá-la, invés disso, continuou parado, olhando para o além e tentando ouvir mais alguma coisa.
– Não... — Disse ele, enfim. — Não são os vizinhos... É aqui. — Ele fitou os seios de Hilary, mas logo passou a encará-la. — No porão, tem alguém no porão. — Ela nada falou, estava com muito medo e parecia quase estar entrando em choque. — Vou lá ver...
– Não, Paul, não... — Fez-se Hilary chamar, mas já era tarde, seu namorado já havia cruzado a porta sem sequer acender as luzes, ela não viu outra saída que não fosse segui-lo. Procurou uma lanterna e não encontrou. Levantou-se, caminhou e parou de frente a parede. Hesitou, mas, enfim, cedeu, acendendo as luzes. O único problema era que tinha acabado de faltar energia sem que nem ela e nem Paul houvesse percebido. — Inferno... — Sibilou ela que começou a caminhar no escuro.
Andou e andou, mas nada viu, nada encontrou, ninguém tocou. Onde estava Paul? Isso ela não sabia responder, então, viu uma sombra a sua frente. Só naquele momento Hilary percebeu que já estava na porta que dava para o porão, seu corpo estremeceu antes que ela percebesse que a "silhueta" formada na escuridão, não era a de Paul, sequer era de um homem adulto. Subitamente, ela começou a tremer e imaginar as piores coisas do mundo. Seria um ladrão? Não, claro que não, os barulhos estranhos haviam começado na noite passada e ela e Paul pensaram que era algum dos vizinhos, e, naquele exato momento, Hilary concluiu que estavam erradas, ela e o namorado. Quando estava prestes a desmaiar de pânico e de medo, ouviu uma voz chamá-la e gritou desesperadamente, sem perceber, tropeçou... A dor percorreu suas veias e ela abriu os olhos, estava tudo mais escuro do que antes e então, Hilary concluiu: havia caído no porão, escuro e solitário, vazio sem nada e nem ninguém, ao menos, ninguém humano...
– Hilary? Hilary? — A voz de Paul parecia ecoar no meio daquela devasta escuridão. — Hilary você está bem? — Perguntou, mas não houve resposta. — Hilary responda-me! — Ordenou ele, enfurecido e ao mesmo tempo tomado pelo medo de Hilary ter se machucado durante a queda.
– Sim, eu estou... — Falou ela, enfim,tranqüilizando-o. — Perdão.
– Não deve se desculpar por nada. — Ele calou-se, parou, não sabia o que dizer, então, decidiu tentar acalmá-la, já imaginando como Hilary deveria estar tomada pelo medo ali embaixo, afinal, ela nunca havia entrado no porão, ainda por cima na ausência da luz. — Olha. Vou arrumar um jeito de lhe tirar daí, OK? Não se preocupe...
– Paul, espere! — Chamou Hilary, quase como um clamor. Uma espécie de raio de luz passou pela frente de Paul, Hilary não sabia como, só que havia passado e naquele exato momento ela percebeu: ele não estava sozinho. — Não se mexe... — Sussurrou ela, tremendo. — Por favor, não se mexa...
– Hilary o que houve? Está me deixando preocupado... — Assustado, seria a palavra certa, mas Paul odiava admitir que se assustava, ele gostava de ser o tipo todo... MACHÃO.
– Tem alguém... — Começou ela, ainda trêmula e temendo ao que a pessoa atrás de Paul pudesse fazer contra ele. — Não, não, não olha, mas tem alguém atrás de você... — O coração de Paul começou a bater mais rápido e naquele exato momento, mais um fleche de luz passou pela frente de Paul. A coisa atrás dele, percebeu Hilary, havia sumido. De repente, para assustá-los mais ainda, a energia voltou, subitamente. Hilary aliviou-se e então notou a escada ao seu lado, subiu-a, estava de volta "a casa".
Duas noites se passaram e Hilary e Paul continuavam a ouvir os estranhos barulhos, aquilo estava começando a romper os limites deles dois, tinha que tomar uma previdência, mas já era noite e eles não sairiam à uma hora daquelas — quase madrugada — à procura do antigo dono da casa que vendeu-a para eles, apesar de terem certeza de que mesmo se o procurassem e o encontrassem, não adiantaria de nada, o que ele faria, afinal? Nada.
Hilary sentiu uma mão tocá-la, uma mão macia e quente.Paul, pensou ela sorrindo para si mesma.
Porém, no mesmo instante em que iria virar-se para beijar os lábios de Paul e tocar-lhe a face, ouviu uma voz de longe dizer:
– Hilary, venha aqui! — Rapidamente, reconheceu a mesma. Era Paul. E se era Paul quem havia falado de longe, então... Quem a estava tocando?
Devagar feito uma tartaruga, ela foi virando-se para o lado, assustada e repreendida com a coisa que estava agarrando-a, Hilary não hesitou e nem resistiu: gritou o mais alto que pôde, capaz até de seus vizinhos acordarem-se com o susto.
Quando Paul chegou ao quarto, correndo, viu Hilary encolhida ao lado da cama, chorando desesperadamente e tremendo, também balançando-se feito uma louca que fugira dohospício.
Paul dirigia desesperadamente pela pista enquanto a mão de Hilary tocava-lhe a coxa, ela ainda gemia de medo e parecia estar em choque, também, quem não estaria?
Paul pensou em falar algo para acalmá-la, mas... O que falaria? Estava comprovado que a "casa" estava assombrada e eles não podiam fazer nada a respeito... Paul encarou-a, então, quando voltou os olhos para a frente, viu uma imagem cruzar a pista na frente do carro, Paul gritou e desviou o carro, jogando-o para longe, para fora da estrada. Ele gritara desesperadamente, Hilary também gritaria se não estivesse tão chocada.
Eles estavam jogados no chão, foram arremessados do carro para longe, Paul caiu no gramado, o que minimizou os sintomas, já Hilary, foi arremessada a metros de distância de Paul. Ela levantou o rosto, sentiu um líquido escorrer pelo mesmo e pousou a mão na bochecha. Quando tirou-a, viu o que era que estava em seu rosto: sangue. Ela chorou e pensou ter clamado por Paul, mas a voz não saiu... Então, uma imagem ganhou forma e aproximava-se de Hilary, tão devagar que fazia com que seu pelos se eriçassem, ela não podia correr, não podia gritar, somente chorava enquanto tentava mover-se para longe, atitude inútil já que estava completamente dolorida. Quando a "criança" aproximou-se de Hilary, ela lembrou-se dos detalhes da face do ser demoníaco, da pele, se é que aquilo era mesmo pele, do rosto, da maçã do mesmo. Então, reconheceu-o. A pele pálida feito papel e parecendo ser lisa feito cetim era a mesma que deitara-se na cama com ela há alguns instantes, o que foi o motivo dela e de Paul terem saído às pressas da casa. Hilary forçou a voz, tentando gritar, mas não conseguiu. O ser aproximou-se dela, agachou-se e encarou-a com olhos que pareciam órbitas negras e profundas. Ele sorriu, mostrando dentes afiados como os de um... Vampiro. Mas não era um vampiro, e sim um fantasma, um fantasma com poderes sobre os humanos. Ele sorriu novamente para ela e Hilary não acreditou no que viu logo em seguida: a cabeça com cabelos grisalhos e negros girou parecendo ter sido um giro de 90 graus e a pele de Hilary tremeu novamente. O ser emitiu uma risada demoníaca e falou:
– Não há como fugir dos próprios fantasmas, Hilary. Não há como eliminar seus próprios demônios. Não há como acabar com sua própria maldição. Para aonde quer que você vá, eu estarei lá, atrás de você de seu namorado patético, sempre, para todo o sempre, esse é seu legado, insana. Você é amaldiçoada, ele também — a coisa olhou para Paul que estava longe. — a partir do momento em que lhe beijou, herdou também esse legado, e, seja lá para onde quer que vocês dois forem, eu, a criança noturna, estarei sempre por perto, vigiando-os. Sou a morte que veio para atormentá-los... Não tentem fugir de mim novamente, caso contrário, haverãoconseqüênciasdrásticas... — O menino sorriu, os olhos de Hilary se fecharam e ela... Desmaiou.
Acordou horrorizada, aterrorizada e ainda trêmula, conseguiu inclinar o pescoço para o lado, podendo enxergar seu namorado, Paul, deitado e dormindo na cama ao seu lado. Hilary chorou, ainda não acreditava no que havia visto na noite passada e então, lembrou-se das palavras da criança noturna, ecoando em sua mente:
– Não há como fugir dos próprios fantasmas, Hilary. Não há como eliminar seus próprios demônios. Não há como acabar com sua própria maldição. Para aonde quer que você vá, eu estarei lá...
Hilary tremeu, e, então, dormiu novamente.
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